Lendo ZH

 

Lendo a edição de final de semana de ZH, descubro que agora tudo vai bem. Que não existe mais desemprego, que a violência desapareceu das ruas e que o nosso grande problema é mandar embora um presidente corrupto, depois que ele já cumpriu seu papel no golpe.

Na primeira página, uma grande foto colorida de uma fábrica de Caxias (será um merchandsing?) e um manchete que diz que os bons tempos estão voltando.

Na terceira página, aquele cara de sempre informa que, quando entregarmos a segurança pública para os empresários, passaremos a viver tranquilos.

Claro que haverá alguns efeitos colaterais, como as mortes de pobres e negros na periferia das cidades. Mas, possivelmente, será por culpa deles que não querem trabalhar, quando sobram ofertas de emprego. Naquela fábrica de Caxias, por exemplo.

Ah…ainda tem a história dos pequenos fascistas da Fronteira, que dizem não ser violentos e que apenas não gostam do Lula. Possivelmente porque é nordestino, vai lá se saber.

Emoldurando o espaço no jornal tem uma bonita foto de costas de um desses fascistas com a bandeira do Brasil (tomaram conta dela) e uns ovos escondidos nas mãos. Certamente, a bandeira é para não ser confundido com uruguaios que votam na Frente Ampla e os ovos para fazer uma omelete para a família de algum pobre peão.

Mais presídios, menos escolas.

Há muito tempo aprendi que há duas maneiras de ler uma notícia: a obvia, que é aquela factual que se o prende apenas ao seu enunciado e outra, a que procura entender o que está por trás do que foi dito ou escrito.

Um exemplo: Rosane Oliveira (sempre ela) em ZH, elogia a iniciativa de empresários gaúchos que doaram 14 milhões de reais para a compra de equipamentos para a polícia e pretendem arrecadar mais 300 milhões.

Obviamente, esses empresários não fazem isso sem pensar nas vantagens que terão. E o que esperam? Acima de tudo, mais segurança pública para tocar seus negócios.

Hoje, numa sociedade onde a pobreza é cada vez maior, e as oportunidades de emprego escasseiam, segurança pública significa manter todo esse contingente de deserdados da fortuna conformados com a enorme injustiça social da qual são vítimas.

É para isso que os empresários estão investindo em segurança pública e não por um sentimento de cidadania, como diz a jornalista. O Estado abre mão das suas funções de cuidar de uma verdadeira segurança pública e a deixa nas mãos de quem olha para os pobres como inimigos.

Uma pergunta: por que esses empresários, tão preocupados com a cidadania, não investem na educação, ajudando o Estado nessa área. O magnifico prédio do Instituto de Educação Flores da Cunha, quase em ruínas, na Avenida Osvaldo Aranha, não mereceria atenção dessa gente?

Certamente que não. Os empresários gaúchos querem mais presídios e não mais escolas.

O retrato de um medíocre

“Medíocre – adjetivo – mediano, sem relevo, comum, ordinário, médio, meão. Ex: Político medíocre. Fonte: Dicionário Novo Aurélio / Século XXI – Editora Nova Fronteira”.

Depois do que afirmou  no espaço político de Rosane Oliveira, no jornal Zero Hora, o ex-Vereador de Caxias do Sul, ex-Deputado Estadual do Rio Grande do Sul ; ex-Governador do Estado; ex-Senador da República e ex-Ministro de Estado,  o detentor de todos esses cargos citados ,o senhor Pedro Simon, deu hoje mais uma prova de que é e sempre foi um político medíocre.

O que ele disse: “O País vai explodir se o Supremo mudar o próprio entendimento e impedir a prisão de Lula e de outros condenados. Será o fim da Lava-Jato e a população vai se revoltar”.

Eleito vereador em 1958 e depois deputado estadual pelo PTB, em 1962, Simon pouco se destacou num partido dominado pela figura histórica de Leonel Brizola.

Naqueles anos, entre a Legalidade e o golpe de 64, quando o partido guiado por Brizola, radicalizou suas posições políticas e se encaminhava decididamente para a esquerda, Simon assumiu uma posição moderada, o que lhe permitiu sobreviver, quando os militares golpistas cassaram, prenderam ou mandaram para o exílio os principais nomes da oposição.

Afastadas as principais lideranças que comandavam o PTB gaúcho, um dos mais politizados do País, Simon aproveitou esse vazio e acabou assumindo a liderança do partido consentido pela ditadura, o MDB.

Uma piada da época, ilustra bem o que era o MDB, que junto com a ARENA,  integrava o sistema do bi-partidarismo no Brasil desde 1966. O MDB era o partido do “Sim” e a ARENA, onde estavam os políticos que apoiavam os militares. era o partido do “Sim Senhor”.

Em 1978, Simon chegou ao Senado e em 82, com a retomada das eleições diretas para Governador , se candidatou ao Piratini e foi derrotado por Jair Soares, que tinha sido Ministro da Ditadura, no mesmo ano que outras lideranças, quase todas tão moderadas quanto ele, se elegeram como foi o caso de Tancredo Neves, em Minas e Franco Montoro, em São  Paulo.

O acordo que estava sendo costurado por Tancredo Neves com os militares para uma passagem indolor da ditadura para um sistema mais democrático, beneficiava diretamente políticos como o próprio Tancredo e também Simon.

O único problema era Leonel Brizola, eleito em 82, Governador do Rio,e que nunca poupou Simon de suas críticas pelo considerava uma traição a sua opção pelo PMDB de Tancredo e Ulysses, em vez do PTB que garantira a ascensão política de Simon.

Em 1986, Simon finalmente se elege Governador do Estado para realizar um governo medíocre, bem distante do que foram os governos de Brizola, antes, de Olívio depois e de Collares.

De volta ao Senado em 1990, Simon se reelege em 98 e 2006, sem que essa sua longa passagem pelo Senador tenha sido marcada por algum ato político relevante.

Seus discursos sempre ficaram nas platitudes do moralismo mais rasteiro e vulgar, porque ele foi incapaz  de compreender que a grande fonte de corrupção no Brasil é o  sistema capitalista, herdado do escravismo colonial, com toda sua  prepotência antidemocrática, com a qual ele, como político, sempre conviveu bem.

Nunca é demais lembrar que foi Simon quem apadrinhou a escolha de Yeda Crusius como Ministra do Planejamento de Itamar, dando impulso a uma carreira política que tanto mal fez ao Estado e que foi também ele, um dos maiores apoiadores da candidatura de Marina Silva nas últimas eleições.

Que defenda a Lava Jato agora, não causa surpresa, apenas comprova que é realmente um político medíocre.

O motel dos gaúchos

Vivemos uma época de contradições: ansiamos pelo novo, mas gostamos de cultivar o passado. O segredo está, me parece, em misturar os dois, sem preconceitos, sem parti pris.
Sei que parti pris pode ser traduzido por preconceito, mas estava procurando um jeito de usar esse galicismo e aproveitei a oportunidade. Aliás, galicismo também há muito estava na lista das palavras que queria usar.
Bom, vamos adiante.
Motel ainda é uma instituição nova ou já virou museu?
Vamos supor que ainda seja nova.
Já cultivar tradições gaúchas, com todo o respeito, é coisa do passado.
O que estou propondo então é misturar esses dois elementos.
Há anos, quando o Luis Fernando Veríssimo cedia seu espaço em Zero Hora, nas sextas feiras, para seus colegas da MPM, já escrevi sobre isso, trazendo algumas confusões para o dono da coluna, porque alguns leitores desavisados confundiram o interino com o dono.
Hoje, como não existe mais esse risco, retomo a proposta, endereçada agora ao famoso publicitário Roberto Pintaúde, cuja agência de propaganda tem a conta de uma rede de motéis em Porto Alegre.
Por que, Pintaúde, não criar o motel dos gaúchos?
Podes aproveitar a idéia, ou como dizem os publicitários, podes chupar a idéia.
Um enorme galpão, com cobertura de palha santa fé, bem rústico, no meio de um descampado protegido apenas por uma cerca de arame farpado.
Nos quartos, em vez de camas redondas, grandes e macios pelegos.
Nas suítes, no lugar da piscina, uma sanga de água corrente.
Como música ambiental, velhos sucessos do Teixeirinha.
Para os sado masoquistas, uma sala especial com arreios, chicotes e esporas.
Para os nostálgicos da adolescência, barrancos ao ar livre.
Os mais modernos poderão participar do suingue à moda da Fronteira, onde se pratica sexo numa roda de chimarrão.
A equipe de atendimento do motel deverá ter um patrão, capatazes, mucamas e piás de recado.
A cozinha terá fogão de chão e panelas de ferro. No cardápio, rabada e tripa grossa com quibebe.
Embora sejas um especialista em dar nomes as coisas, Pintaúde, sugiro Estância dos Prazeres para esse motel.
Mas nada de neon nos letreiros. Apenas o nome gravado a fogo numa madeira, na porteira de entrada.
O que te parece guasca velho?

A Lista

 

– O senhor está atrasando a fila
– É que não sei o que botar nesse item
– É simples. É escolher a profissão que você teve. A última que lhe pagou algum dinheiro. Funcionário Público, Fiscal de Bolinha, Meteorologista, Político, Domador de Circo, Gigolô,Filósofo, Foguista, Pastor, Jogador de Futebol, Aviador, Publicitário, tá tudo aí.
– Não to achando.
– Deixa lhe explicar, amigo. Esse é um processo ultra-moderno. Tem todas as profissões que existem no mundo. Lembra como você fazia com sua declaração do imposto de renda? Ou você sonegava? Claro que não, senão não estaria nessa fila, estaria naquela outra, lá embaixo.

– O processo é o mesmo. Você não escreve o nome da profissão. Você lembra o nome dela e puxa aqui na lista. Aí aparecem todos os nomes, com um número do lado e você clica apenas o número. Não entendeu ainda? Veja o que é a modernidVou lhe mostrar: você é Ajudante de Coveiro, aí vai na letra A, procura Ajudante. O que tem de ajudante é uma loucura.

-Aí você vai para a letra C, de Coveiro.

– Veja o número 24.599. Essa lista tem tudo, até esses anglicismos modernos, Coach, CEO.

-Vamos supor que você seja Cientista Social. Claro que você não é. Não leva jeito para isso. Parece ser um cara normal. Bom, nem eu sei o que faz um Cientista Social, mas tem, veja aqui, é o número 99.719. Você foi Gari. Eu sei que não, mas só para lhe mostrar. Vai na letra G e puxa a lista. Gari, 115.933. Viu só. Ainda no G, Gestualista, isso nem eu sei o que é.

-Gay. Mas bá, cara. Gay não é profissão. Ou já é agora? Acho que vou ter que falar com o Chefe para tirar Gay da lista, senão, vão dizer que até aqui tem preconceito.

-Vamos lá pro fim da lista.

–Letra V. Vedor. Essa eu conheço, é aquele cara encarregado pela FIFA e pela COMEBOL para fiscalizar os jogos de futebol.

-Olha aqui, Viado. Com I. Número 2424244224. Parece número de celular. Acho que o sujeito que organizou a lista é mesmo meio preconceituoso.

-Deixa eu confirmar aqui na lista das mulheres.

-Tem sim, duas listas.

-Quando você respondeu no item anterior Homem, você caiu na lista que estávamos olhando. Se você tivesse clicado em Mulher, entrava essa outra lista. O que é o progresso. Vamos ver o S nas mulheres. Sapatão. Realmente vou ter que avisar o Chefe que essa nossa lista vai nos trazer problema.

-Vamos dar uma olhadinha na letra E. Estudante, Ermeneuta. Eu bem que estava desconfiando que, além de preconceituoso, o cara que fez a lista é meio analfabeto. Vou passar esse nome para o lugar certo, no H, Hermeneuta.

-Mas, voltando a sua escolha. O senhor. tá vendo que tem uma fila imensa aí atrás, só porque ainda não escolheu a sua profissão.

-Vou lhe ajudar, mas não se acostume, porque aqui é cada um por si e o Chefe por todos. Explique o que você fazia quando vivia lá.
– Eu desestruturava certezas. Entre o sim e o não, eu falava talvez. Quando todo mundo ia para um lado eu mostrava outro caminho. Nem o Norte, nem o Sul. Quem sabe o Centro-Oeste? Ao mesmo tempo pregava a radicalismo para os indecisos. A dúvida para os que viviam confiantes na sua escolha.
– Tô entendendo, mas fazendo tudo isso, alguma vez, só para lhe chamar de alguma coisa, não disseram que você era um..
– CONTESTADOR?
– Olha aí o que você fez. A máquina entrou em alerta total. Não dá mais nem para ouvir qualquer coisa. Todos esses botões vermelhos acesos, esse som terrível. Sabe por que tudo isso?
– Heim? Não consigo lhe ouvir.
– Eu não vou pronunciar a palavra novamente, senão explode a máquina. O senhor faça o favor de se retirar rapidamente e vá para aquela outra fila, no andar de baixo.
– Mas lá não é..?
– É sim. Não adiantou nada ter sido honesto, votado sempre no PT, ter sido colorado, lido um monte de livros, gostado de cinema, o senhor era um – não vou dizer a palavra maldita – e por isso não pode ficar nessa fila. Saia logo, senão vou chamar o Gabriel e o Rafael para lhe expulsar daqui.

– Quem?

– Aqueles dois caras ali, com suas espadas de fogo.

– Os anjos?

– Eles mesmo.

 

Quem manda no Estado?

 

Tem um velho ditado popular que diz que “o uso do cachimbo faz  a boca torta”. Há muito tempo que os jornalistas da RBS acham que além de informar, quase sempre de forma parcial, o que acontece no Estado, podem também transformar seus interesses  em objetivos de toda a população.

Como têm influenciado diretamente na escolha de governantes e parlamentares e algumas vezes até transformado seus antigos funcionários em senadores e deputados, seus porta vozes nos veículos da Rede, se acham mais poderosos do que realmente são.

A jornalista Rosane Oliveira é um caso típico dessa prepotência, que se manifesta nas situações mais comuns, onde ela pretende ter a última palavra, se sobrepondo, inclusive às decisões daqueles que, legalmente, são incumbidos dessa responsabilidade.

A escolha do novo Defensor Geral do Estado é um bom exemplo.

Durante a semana, os integrantes dessa categoria, cerca de 400 no Estado, foram chamados a indicar, em votação secreta, três nomes que deverão ser submetidos ao Governador para que esse, por decisão livre  e pessoal, escolha um deles como novo Defensor Geral.

No dia do início da votação, Rosane Oliveira publicou nota em sua coluna política, dizendo que o candidato da situação, que buscava a reeleição, tinha uma relação muito boa com o Governador, obviamente buscando condicionar os eleitores na escolha do seu representante.

Nesse fim-de-semana, ao informar que esse candidato tinha sido o mais votado, ela deu como certa a sua recondução ao cargo pelas suas relações pessoais com o Governador.

Estranho que uma jornalista se arvore a esse papel de interprete da vontade do Governador, quando, ao que parece, em nenhum momento recebeu dele essa incumbência.

Até pode ser que ele siga esse caminho, mas não deixa de ser estranho que a jornalista pretenda se sobrepor a um direito que lei atribui a ele, Governador e queira transformar num “fait accompli”, o que é uma questão em aberto, possivelmente esquecida que, recentemente,  Temer  escolheu Raquel Dodge como Procuradora Geral da União, quando ela foi a  segunda mais votada e não o primeiro, que foi Nicolao Dino, numa lista tríplice escolhida pelos Procuradores.

Podendo discordar, por que concordar?

Semana passada, foi lembrado, mais uma vez, com muitos discursos e não menos queixas, o Dia Internacional da Mulher.
Mais uma oportunidade para os negociantes aumentarem seus faturamentos e as mulheres (aquelas que têm acesso à mídia) falarem pela milésima vez do machismo masculino e como elas são preteridas no mercado do trabalho.
Ou seja, a mesma chorumela de sempre.
Haja saco.
Nessas horas, lembro sempre de uma frase do Millôr Fernandes, dizendo que o mais importante movimento feminista é o dos quadris.
Pura provocação.
É lembrar esse nome, Millôr, e correr para se abrigar da chuva de pedradas que começa a cair sobre a sua cabeça.
Além de machista, Millôr tinha posições de direita, dizem as mulheres de esquerda.
Não tinha, não.
Ele e, muito mais, o Nelson Rodrigues, eram anarquistas e sempre duvidavam das verdades estabelecidas.
Toda a unanimidade é burra, foi um dos ditos mais repetidos do Nelson.
Infelizmente, todos esses movimentos que dizem representar as minorias (as mulheres, os negros, os LGBT, os indígenas) são profundamente maniqueístas e vivem de verdades estabelecidas, quase dogmas religiosos que não podem ser contestados e nem ao menos discutidos.
Não que eles não tenham razão.
Têm.
Não que não devam dramatizar seus eventos fundadores.
Devem.
O problema é que eles não aceitam contestações as suas verdades e nada melhor do que uma contestação ao que pensamos, para que possamos aprofundar nossas certezas.
Nós, que nos pretendemos comunistas, sabemos bem como isso funciona.
Admirávamos de uma forma quase religiosa a Stalin, como o “genial condutor dos povos”, até que Kruchiov, no seu famoso relatório secreto, apontou todos os seus crimes.
Fizemos o mesmo com Prestes, no Brasil.
Desiludidos, acreditamos na Perestroika e na Glasnost de Gorbachov, até nos darmos conta que seu papel foi fundamental para o esfacelamento da União Soviética e que, de certa forma, serviu mais aos interesses norte-americanos, do que aos russos.
Agora, surge o escritor italiano Domenico Losurdo, com o seu livro A História e a Crítica de uma Besta Negra, falando sobre a demonização de Stalin e, de certa forma, tentando recuperar a sua imagem.
E então, como fica o camarada Stalin?
Duvidar sempre, prontos a mudar o que pensamos até ontem, pode ser o melhor caminho para as pessoas inteligentes, pois, como dizia o Barão de Itararé, mudar uma ideia não é ruim.
Ruim é não ter uma ideia para mudar.
É preciso enxergar nos homens e nos fatos toda a sua complexidade.
Nelson Rodrigues defendeu a ditadura, mais para provocar a esquerda que ele achava pouco inteligente do que por acreditar nela, mas ela, a ditadura, prendeu e torturou seu filho.
Millôr ironizava os militares no Pif-Paf, mas foi o único que não foi preso, quando toda a redação do Pasquim foi para a cadeia, possivelmente para incompatibilizá-lo com seus companheiros.
Lula foi preso pelo delegado do Dops, Romeu Tuma, mas cultivou uma estranha amizade com ele, a tal ponto que o filho de Tuma escreveu um livro dizendo que Lula passava informações do movimento sindical para seu pai.
Nem por isso, Lula deixou de representar uma esperança de retorno do Brasil à democracia perdida no golpe contra Dilma.
Os nazistas ocuparam boa parte da França durante quatro anos e os franceses ainda hoje gostam de exaltar os feitos da sua resistência.
Esquecem que um dos seus maiores romancistas, Cèline, defendeu abertamente os nazistas em seus livros.
Que Sartre nunca foi incomodado pelos ocupantes alemães.
Que Maurice Chevalier e Edith Piaf cantaram em campos de concentração de prisioneiros franceses pagos pelos nazistas.
Que Coco Chanel vivia no Hotel Ritz com o amante, um oficial alemão.
Que o famoso diretor de cinema Sacha Guitry era amicíssimo do embaixador alemão em Paris, Otto Abetz
Que Picasso viveu em Paris sem ser incomodado durante a ocupação e que se recusou a assinar uma petição pedindo a libertação do poeta Max Jacob.
Esquecem, finalmente, que o famoso arquiteto Le Corbusier, para agradar às autoridades nazistas das quais precisava para financiar seus projetos, chegou a afirmar que “a sede dos judeus por dinheiro corrompeu a França”.
É preciso sempre questionar certas “verdades” e desfazer algumas “mentiras”.
Israel é uma democracia, pelo menos para os judeus.
Mas impediu que um judeu norte-americano, Norman Finkelstein, filho de pais assassinados em Auschvitz, desembarcasse em Tel Aviv.
Motivo: ele escrevera um livro chamado A Indústria do Holocausto, denunciando interesses escusos de alguns na divulgação do episódio.
Dizem que Cuba é uma ditadura que não dá liberdade de expressão aos cubanos.
Apesar disso, Cuba permite que a blogueira Yoani Sanchez, paga pelo jornal espanhol El País, continue falando mal do governo e o escritor Leonardo Padura fique rico, escrevendo seus livros sem sair da Ilha, em nenhum deles falando bem da Revolução Cubana e realize periodicamente eleições para renovar seu parlamento.
Nos discursos e nas homenagens em que esse dia foi pródigo, não ouvi ninguém lembrando que a plena igualdade entre homens e mulheres só será possível numa sociedade socialista.
Mas isso são outros quinhentos, motivo de mais discordâncias do que concordâncias, o que sempre é um bom sinal.

Meu tipo inesquecível

Há um ano, sozinho em Gramado, devia com urgência encontrar algumas coisas para passar o tempo, além dos jogos de futebol na televisão, as palavras cruzadas e os livros que, mesmo com centenas de páginas, duravam muito pouco.
Pensei, quem sabe, escrever em muitos capítulos, a história de algum personagem que despertasse interesse nos leitores, se, por acaso, essa história pudesse um dia se transformar num livro.
Diga-se de passagem, que publicar um livro sempre foi uma obsessão para mim e para muitas pessoas que, como eu, em algum momento da vida, se acharam em condições de escrever algo que pudesse interessar aos outros.
Quem sabe, com o objetivo inicial de passar o tempo, eu não alcançasse essa meta?
Foi quando decidi escrever uma história de um personagem que fosse bastante interessante, digamos para um leitor comum, obviamente alguém que lesse mais que os jornais diários, mas que não me avaliasse pelos mesmos critérios estéticos que lê uma obra do Gabriel Garcia Marques, do Érico Veríssimo ou até mesmo da Martha Medeiros.
Primeira tarefa seria então, encontrar o tal personagem, alguém cuja vida fosse cheia de aventuras, alguém cujos feitos provocassem a admiração das pessoas.
Nada de um livro com personagens pensadores e cheios de filosofia. Parece que nessa nova sociedade de consumo, os leitores querem ação, aventuras, que não encontram nas suas vidas reais.
Um aventureiro, um herói, um grande esportista, um grande ator, um milionário excêntrico, qualquer um desses personagens ajudaria a chamar a atenção para a história, mas quantos desses personagens, eu conhecia com algum grau de profundidade, para me atrever a contar suas vidas?
Poucos, talvez nenhum.
Teria que fazer uma longa pesquisa, conhecer a fundo este personagem, saber de sua vida em todos os detalhes, algo que exigiria muito tempo, atenção e, também, dinheiro para financiar este trabalho, coisa que, vamos deixar claro, não tinha.
Além disso, não atenderia o objetivo inicial de passar o tempo em Gramado. Exigiria viagens, estudos, pesquisas de campo.
Mas, se fizesse uma revisão da memória, será que não encontraria um personagem pronto, acessível ao que pretendia?
Quem seria a pessoa que conheço mais profundamente no mundo, pessoa sobre a qual tenho uma memória completa, cheia de detalhes e curiosidades?
Obviamente, eu mesmo.
Embora isso possa parecer uma impossibilidade sob o ponto de vista freudiano, acho que conheço bem e me lembro dos principais momentos da minha vida, salvo alguns lapsos de memória que possam ser atribuídos a indícios de uma senilidade precoce.
Seria uma versão atualizada daquela secção que costumava ler nas Seleções do Reader’s Digest, quando era apenas um menino em Farroupilha, Meu Tipo Inesquecível.
Então, o personagem eu já tinha, mas isso não resolvia totalmente o problema. Quais seriam os fatos desse personagem que pudessem caracterizar uma vida de aventuras capaz de interessar a hipotéticos leitores, algo que fizesse dele um personagem inesquecível?
Já disse antes que sou uma pessoa comum, sem grandes acontecimentos na vida.
E, então?
Então, eu voltei a Porto Alegre, recomecei a encontrar parentes e amigos, a freqüentar outras vezes as salas de cinema, mas a idéia de escrever um livro, uma biografia livre, ou melhor, uma fantasia biográfica, não me abandonou.
Fazendo uma rápida retrospectiva na minha vida, vi que em alguns momentos, se tivesse tomado uma decisão diferente da que tomei, mais do que isso, se tivesse tomado uma decisão e não deixado as coisas correr no seu curso normal, poderia ter sido um guerreiro no Oriente Médio, um jogador de futebol de prestígio internacional, um advogado famoso, um rico empresário ou, quem sabe, um ator reconhecido nacionalmente.
Como o que pretendia escrever era uma obra de ficção, nada impediria de que no último segundo antes da decisão que me fez ser mais uma pessoa comum no mundo, eu tivesse seguido outro caminho.
O que aconteceria então com este personagem que chamaremos apenas de Marino?
A primeira oportunidade, eu a desperdicei, ao nascer num dia 15 de agosto, do distante ano de 1939. Como naquela época, as crianças nasciam nas casas de suas mães, assistidas por uma velha e prática parteira, eu perdi a oportunidade de ser trocado na maternidade.
Não posso contar uma história de uma troca ao nascer, porque fui o único a nascer, naquele dia de inverno, naquela casa da Avenida Veneza, nome que trocaram para Buarque de Macedo por causa da guerra.
Depois, supondo que tivesse nascido na Beneficência Portuguesa e não em casa, não estaria sendo nenhum um pouco original. Já se contaram várias histórias dessa troca em maternidades, fazendo com que filhos de ricos, fossem condenados a viver como pobres e filhos de pobres chegassem à riqueza.
Eu seria o filho de casal pobre, que viveria como rico, até o dia em que inesperadamente conheceria a mãe biológica, por uma inexplicável atração dos sentidos.
Algo difícil de acreditar, hoje em dia.
Vamos então esquecer essa possibilidade, primeiro porque nasci numa casa da Avenida Veneza, no bairro São João, em Porto Alegre e segundo porque seria um terrível dramalhão, no qual nem aquelas senhoras da Vila do IAPI, ainda acreditam
Vamos começar então essa história 16 anos depois, estabelecendo as seguintes premissas: o cenário é o velho estádio dos Eucaliptos, do Internacional, na Rua Silveiro, Bairro Menino Deus, Porto Alegre. O personagem principal, o grande herói será sempre eu. Os demais personagens serão simples coadjuvantes. Fica estabelecido que, poderei a qualquer momento, modificar os fatos reais e introduzir personagens fictícios sem qualquer aviso prévio.
Como condutor dessas histórias, terei sobre elas o domínio completo, nada me obrigando a respeitar, quando interferirem em situações já conhecidas, a verdade do que aconteceu realmente.
Vamos então à esta primeira aventura, abrindo as portas da fantasia, sem qualquer compromisso com pessoas e fatos reais.
Essa primeira história terá o título de O Gênio da Bola começará assim:
“Era o terceiro gol que eu marcava naquele Grenal, quando inesperadamente …

O ano em que perdemos a ingenuidade

O Zuenir Ventura escreveu um livro para contar porque 1968 foi um ano que não acabou. O que dizer então de 1964. Talvez que tenha sido o ano em que perdemos a ingenuidade.

Janeiro e fevereiro de 64 foram meses de tirar o fôlego. O comício da Central do Brasil, as Reformas de Base, tudo indicava que o Brasil caminhava para uma experiência socialista, o socialismo moreno de Darcy Ribeiro, com um pé na Revolução Russa, sem Stalin e outro na de Cuba, de Fidel e Guevara, mas com a cabeça e o coração voltados para o Brasil.

Se o Brasil estava quente, Porto Alegre fervia.

A vitória, ainda que parcial, da Legalidade, enchia todo mundo de alegria e esperanças.

As pessoas pareciam mais inteligentes e otimistas.

Os centros tradicionais que exalavam o que chamamos hoje de alto-astral, eram muitos: a Faculdade de Filosofia da Federal, a redação do jornal Última Hora, o Teatro de Equipe, o Clube do Cinema e, claro, a Rua da Praia.

Flávio Tavares, Ibsen Pinheiro, Sérgio Jockymann, Werner Becker, Tarso de Castro, Fernando Peixoto, Hélio Nascimento, o Peréio, Ivete Brandalise, Mário de Almeida, PF Gastal, Jefferson Barros, Enéas de Souza, todo mundo tinha algo importante para dizer. E havia espaço para todos dizerem o que quisessem.

No Salão de Atos da Universidade Federal, um festival do cinema russo-soviético mostrava os clássicos de Eiseinstein, Pudovkin e Dovzhenko; no cinema Ópera, tínhamos uma semana inteira com lançamentos, quase ao mesmo tempo que Paris, dos papas da Nouvelle Vague, Alain Resnais, Truffaut, Chabrol e Goddard, enquanto no Teatro de Equipe estreava O Despacho do Mário de Almeida.

Infelizmente Sartre não viera a Porto Alegre, mas o caderno B do Jornal do Brasil contava tudo que ele dissera no Rio. E não era pouco. O Brasil era o país do futuro e Sartre já deixara de ser o filósofo do nihlismo para engajar na nova revolução, que ia salvar toda a América Latina da opressão americana.

A libertação já começara por Cuba.

O novo estava nascendo na frente de nós e quem não enxergava isso, na universidade, na imprensa e na política – e já eram muitos esses cegos – logo eram devidamente rotulados de alienados, reacionários, direitistas e – quando exageravam nessa cegueira – recebiam a pecha máxima de fascistas.

Mas, um dia o sonho acabou.

Para mim foi na noite de 31 de março. Na frente do Matheus, descendo a Borges, encontro o Aníbal Damasceno, que vai logo informando o que acabara de ouvir no rádio:

–  Minas se revoltou e quer se separar do Brasil

Começava o que os milicos chamaram depois de Revolução e de Redentora e terminava para nós os tempos de ingenuidade.

Pensávamos que iria durar pouco mas foram mais de 20 anos, em que poucos tiveram a coragem de resistir e  a maioria tratou apenas de cuidar de sua vida.

No que ainda somos melhores do que elas.

Enquanto você não enxergar uma menina correndo atrás dela na praça ou não ouvir do seu amigo que a filha não larga dela nem na hora de dormir, fique sabendo que ainda guardamos uma vantagem sobre as mulheres, talvez a última que reste para nós homens.
Estou falando da bola
Nas primeiras lembranças da infância ele era de pano, não picava (mais adiante fiquei sabendo que a palavra correta era quicar e não picar) porque era feita com uma velha meia cheia de trapos.
Mais adiante, ela se tornou de couro, mais ainda com um tento para encher de ar a sua câmara de borracha, com uma costura lateral que afetava a sua condição de esfera perfeita.
Finalmente, o tento se foi, e ela surgiu reluzente de couro, levemente amarelada e dividida por categorias, cujo top era a bola de couro Cauduro, número 5.
No Natal era o seu presente sempre esperado e nunca negado pelo pai, mesmo que fosse pobre como o meu.
Em torno dela se fizeram amizades e se criaram inimigos.
Durante algum tempo, já na quase adolescência, apareceu a versão de borracha. Eram pequenas e moles, ideais para as grandes competições de “balãozinho”, que organizávamos periodicamente.
Encostada mão esquerda numa parede para ajudar no equilíbrio, o pé direito fazia a bola de borracha saltar infinitamente. No meu caso, por uma razão estranha, atingia quase a perfeição, tendo no pé direito um velho chinelo pendurado. A disputa se acirrava quando passávamos dos 100 balõezinhos sem deixar a bola cair.
E os clubes de bairro que nasciam e morriam deixando poucas histórias, tinham sempre o mesmo ritual: organizávamos um “livro de ouro” para buscar alguns trocados que permitiam comprar um terno de camisetas e uma “bola oficial” para o jogo de estréia.
Depois, mais adiante, nos tornamos advogados, médicos, jornalistas, comerciantes, o sei lá o quê e nos afastamos do contato com a bola.
Nos contentamos em vê-la manejada com muito mais brilho por um Messi, um Neymar, um D´ale Alessandro, mas basta vê-la correndo por uma praça, que nos aprontamos lépidos e fagueiros para nos aproximar do velho amor.
Se você duvida, solte uma delas em qualquer lugar, na praia, na praça ou mesmo na rua, e logo vão surgir dezenas de homens dispostos a dominá-la: senhores de gravata, de pasta de trabalho e até mesmo aquele velho na cadeira de rodas, todos fascinados pelo seu encanto.
Armando Nogueira, um jornalista que muito falou sobre ela, dizia que ela era democrática, porque era uma esfera perfeita e rolava para todos.
Qualquer hora dessas, vamos ver aquela gorda patusca (lembrança do Nelson Rodrigues, outro que mais que o Fluminense, amava a bola), aquela moça cheia de tatuagens no braço ou aquela dondoca da coluna social, batendo uma bolinha num campinho de bairro.
Então, nós homens vamos nos dar conta que perdemos a única vantagem que ainda tínhamos sobre elas e não teremos mais para dizer que numa coisa somos melhores do que elas, a nossa relação amorosa com a bola.