Epifania

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O Carlitos sempre foi um radical. Comunista, dizia-se da linha albanesa, só votava no PSTU e achava o Lula um direitista. Machista assumido, era grosseiro na avaliação das mulheres  – “mulher é como galinha, para ser boa tem que ter peito e coxa; ateu, zombava dos que acreditavam no dogma da virgindade de Maria, “se eu tivesse vivido na Galileia na época, seria diferente.

Hoje, para minha surpresa, encontro o Carlitos tomando suco de açaí num bar ecológico da Zona Sul.

– Tive uma epifania e tudo mudou.

– O que é isso, Carlitos.

– Uma aparição. Minha mãezinha me apareceu num sonho e me deu a direção para os caminhos do bem

–  Não é mais comunista?

– Deus me livre. Sou evangélico

– E o PSTU?

– Esquece, to com o Bolsonaro e não abro.

– E aquele velho machismo?

– Um erro pelo qual peço perdão todos os dias.

– E daí?

– Daí, Deus me ouviu e mudei de vida. Semana que vem vou me casar e iniciar uma nova vida.

– Quem é ela? Eu conheço?

– Não é ela. É ele.  O Jorginho, o menino do MBL que acabou com aquela exposição de pornografia no museu.


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