O Homem

Compartilhe este texto:

Na década de 60, eu era redator de notícias da TV Piratini e queria distância da publicidade e via com desconfiança a ação daqueles sujeitos de gravata, os contatos das agências, sempre querendo transformar em notícia, os releases dos seus clientes.

Foi quando surgiu o convite para trabalhar em uma delas, a Mercur, dirigida por um cara com fama de ser intratável, um carrasco para seus funcionários, o Hugo Hoffmann. Acho que foi o Ivanzinho Castro que me aproximou do “homem”, como todos se referiam a ele. Marcamos um encontro na sua agência. A proposta era tentadora, o dobro do salário que ganhava na televisão, mas com um inconveniente, era tempo integral e eu teria que deixar o curso de História da Faculdade de Filosofia, que frequentava pelo manhã, enquanto trabalhava à tarde na Piratini.

A reunião foi numa sexta-feira e me lembro de um questionamento dele, depois que soube que eu um adepto do socialismo.

– Como alguém que se diz socialista pode trabalhar numa empresa que defende o sistema capitalista?
Minha resposta, que foi desafiadora sem que essa fosse minha atenção, parece que agradou a ele.

– Estou sendo convidado para ser empregado da agência e não seu sócio.
Ficou combinado que começaria na segunda-feira.

Passei o fim-de-semana pensando na decisão e na segunda, resolvi avisar que não queria o emprego. Mais tarde, acabei me tornando publicitário, aceitando o convite do Faveco, quando já formado em História pela UFRGS, para trabalhar na Standard.

Numa época em que estávamos empenhados em criar o Clube de Criação, fizemos uma reunião na Mercur e pude ver na prática como o Hugo Hoffmann tratava seus empregados e não qualquer um deles, mas Barbosa Lessa, na época uma figura já legendária como pesquisador do folclore regional e que, certamente por razões financeiras, trabalhava como redator da agência. 

Ele simplesmente mandou que o Barbosa saísse da sala onde estávamos reunidos, para terminar um anúncio, que ele – Hoffmann, queria ver pronto imediatamente. Para a nossa surpresa, o Lessa obedeceu.
O Beto Soares, que na época também era da Mercur, acho que estava presente.

Um dos maiores clientes da Mercur era uma companhia de cigarros e o anúncio de uma de suas marcas, que se dizia ter sido feito pelo próprio Hoffmann, definia bem a sua personalidade autoritária:
O Homem Fuma Presidente, e Basta!


Compartilhe este texto:

2 pensamentos em “O Homem”

  1. O Henrique Fuhro e o Léo Dexheimer me contaram histórias fantásticas do dono da Mercur.
    Um dia, se quiseres, tas contarei.
    FC

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *