A esquerda sem rumo

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No momento em que nós, da esquerda parecemos ter uma só perspectiva – salvar Lula e garantir sua eleição – seria importante lembrar no que somos diferentes dos outros partidos.

Lenin dizia em 1917 que ”comunismo é todo poder aos sovietes, mais a eletrificação”. A eletrificação de que nos falava Lenin, pode ser traduzida hoje no reconhecimento e no atendimento das necessidades dos indivíduos, porque na miséria não existe nenhuma forma de socialismo.

Em vez disso, o que se ouve dos representantes da esquerda é a necessidade de mostrar eficiência na administração da coisa pública, o que a direita também sabe fazer.

Em seu pequeno livro A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, Vladimir Safatle nos dá o exemplo do Partido Comunista Italiano, que já foi o maior do Ocidente e hoje praticamente não existe mais.

Durante anos, ele esteve a margem do governo, conquistando prefeituras importantes, como Bolonha, a fim de se credenciar para comandar o País.

Quando isso ocorreu, e seu secretário-geral, Massimo D´Alema, assumiu o cargo de primeiro ministro, tudo que fez foi tentar provar que poderia governar e realizar os ajustes fiscais exigidos para que a Itália participasse da Zona do Euro

Os ajustes que os governos de direita não tinham conseguido fazer por causa da resistência dos sindicatos, o PCI, no poder, conseguiu.

O resultado foi passar ao povo a mensagem que esquerda e direita são iguais.

Qualquer semelhança com o que fez a Presidente Dilma no início do segundo mandato,não é mera coincidência.

Fazer o mesmo que a direita pretende fazer, não é uma boa política para as esquerdas, nem a italiana, nem a brasileira.

Para as duas falta um projeto que deixe claro para seus eleitores em potencial no que elas são diferentes das demais forças políticas.

Hoje, o que parece ser o único projeto da esquerda brasileira é acreditar que Lula possa ser candidato em outubro, ganhar a eleição e refazer o projeto de governo do PT, que o golpe parlamentar de 2016 liquidou.

Em longa entrevista que deu no fim de ano para a imprensa brasileira, mas que só o jornal Valor Econômico divulgou com maior destaque, Lula voltou a se defender das acusações que lhe faz a Lava Jato e prometeu o retorno do Brasil aos bons tempos do seu governo.

Ele reafirma sua inocência, acredita que vai ser absolvido das acusações do juiz Moro, dia 24 no TF4, em Porto Alegre, porque não existe nem uma prova contra ele e sua condenação “seria a negação da Justiça”.

Espicaça o Procurador Federal Dalton Dallagnol, dizendo que “ele deveria ser exonerado a bem do serviço público. Não é possível alguém ganhar tanto do Estado para contar a mentira que ele contou”.

O mais importante do que disse Lula, são suas promessas em um hipotético novo governo: valorização do salário mínimo; federalização do ensino médio;  volta dos investimentos do Estado na economia gerando empregos e renda ; reforma tributária para que o rico pague mais imposto que o pobre; taxação das grandes fortunas  e referendo revogatório sobre as leis criadas com Temer.

Com sua linguagem bem típica, prometeu que, se eleito, “pobre vai voltar a comer peito e coxa de frango outra vez, comprar picanhazinha no domingo e fazer viagens de avião”.

O que assustou na entrevista, é a sua visão sobre a política de alianças: “não adianta ser tão puro na avaliação política e na hora de perguntar- quantos deputados você tem, aí diz que não tem nenhum. Aí a pessoa fala: tem que negociar com o povo, mas o povo não está lá dentro do Congresso para negociar”. ´

Será que o Lula vai continuar a ser o velho pragmático do passado? Parece que sim, quando nega ser um radical: “Não tenho cara de radical nem o radicalismo fica bem em mim.” Depois de lembrar que em 2002 escreveu uma carta ao mercado, diz que agora vai falar só com o povo porque “este mercado injusto nunca me agradeceu por tanto que ganhou”.

Hoje, depois do golpe parlamentar que afastou Dilma do governo, da ação permanente de uma justiça partidarizada, que busca afastar da disputa política o único grande nome do PT e dos interesses do empresariado nacional e das multinacionais, mais do que nunca contemplados pela ação do governo Temer, será possível pensar que todas essas forças conjugadas, diretamente apoiadas pelos maiores veículos da mídia, permitirão a volta do Lula?

Mais do que nunca, volta à nossa memória, a famosa declaração de Carlos Lacerda, quando em 1950, Getúlio Vargas se preparava para disputar as eleições presidenciais: “Getúlio não pode ser candidato, se for, não pode ganhar, se ganhar, não pode ser empossado, se for empossado, precisa ser derrubado”.

Como todos nós lembramos, Getúlio superou todas as fases, foi candidato, ganhou as eleições, foi empossado e foi derrubado em 1954.

 


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