Impressões de Cuba

Uma semana em Havana, não me dá nenhum direito de tentar responder a questão que sempre se coloca ao viajante de uma forma inquisitiva:

– Então, como é a vida em Cuba?

Implícita na pergunta, está a questão:

– Valeu a pena ter feito uma revolução, ou seria melhor para os cubanos se o país fosse como Porto Rico, por exemplo?

Eu, pessoalmente, nunca tive essa dúvida e sempre fui um defensor, ainda que distante, da Revolução e dos seus líderes, Fidel, Che, Cienfuegos e Raul.

A visita a Havana apenas reforçou esse sentimento e com ela pude perceber muitas das conquistas da Revolução e ao mesmo tempo, sentir que os problemas a serem resolvidos são ainda muito grandes.

O que vou relatar a seguir são as impressões de um viajante simpático ao que pude ver, em companhia do meu filho Conrado, de 18 anos.

Havana é uma cidade profundamente musical. Pelas ruas da Cidade Velha, há sempre a música cubana saindo das dezenas de bares, executada por pequenos grupos de músicos e cantores. Numa sexta-feira, à tarde, numa das inúmeras praças da cidade, sem qualquer anúncio prévio, encontro uma grande orquestra brindando o público com um concerto ao ar livre.

– Outra constatação: homens e mulheres são extremamente comunicativos e abertos ao diálogo com os visitantes. Contam das suas dificuldades (principalmente os salários baixos), mas se orgulham das conquistas que não temos aqui no Brasil: saúde e educação de primeiro mundo, de graça, da maternal à universidade; direito de moradia e alimentação básica subsidiada.

– Havana é uma cidade que preserva como nenhuma outra toda a sua maravilhosa arquitetura colonial.  Os grandes prédios e arranha-céus ficam fora da chamada Havana Velha. Há um grande esforço de preservação dos prédios, principalmente nas áreas mais nobres do centro e na orla do Malecon. Nas ruas internas, porém, falta dinheiro para conservar os prédios, que em alguns casos viram quase cortiços.

São velhos prédios de dois ou três andares, habitados por famílias mais pobres, que evidentemente, não têm condições de investir na sua recuperação. Um detalhe: ao contrário do Brasil, por exemplo, os pobres não são expulsos para a periferia da cidade. Moram no centro da cidade, próximos do seu trabalho.

Uma cidade sem mendigos e sem riscos de assaltos, mesmo na madrugada, é algo que o brasileiro, acostumado com o que vive em suas cidades, custa a acreditar, mas, segundo todos dizem, é uma realidade em Havana.

Uma cidade de brancos, negros e mulatos, que parecem em momento algum perceber qualquer tipo de preconceito. No luxuoso Teatro Nacional, onde assisto Don Quixote pelo Ballet Nacional de Cuba, dirigido por Alicia Alonso, na fila à minha frente, um grupo de jovens negras cubanas sentam ao lado de turistas alemães. O ingresso, que a mim, como turista, custou menos de 100 reais (compare com os preços do Teatro São Pedro), para elas custou a metade.

Havana é uma cidade livre dos outdoors comerciais que enfeiam nossas cidades. Um dos poucos que vi e fotografei, chama as pessoas para algo que alguns dizem não existir em Cuba: eleições.

Seu processo eleitoral é extremamente democrático, começando em pequenos núcleos populacionais, até chegar à Assembléia Nacional. Mesmo assim, o dirigente escolhido por esse processo, é chamado de ditador pela imprensa brasileira, enquanto o que chegou ao poder no Brasil por um golpe parlamentar, é chamado de Presidente.

Uma cidade que transforma dificuldades em diferenciais atraentes. Até 1959, o ano da Revolução, Cuba vivia da importação de produtos americanos. Os automóveis vinham todos dos Estados Unidos. Hoje, mantidos ainda reluzentes,  seus modelos luxuosos,se transformaram em centenas de taxis, que principalmente os conversíveis, são um dos cartões postais mais conhecidos de Havana.

O bloqueio criminoso imposto à Cuba e a sua população pelos Estados Unidos, logo depois da Revolução, foi mitigado inicialmente pelo apoio da União  Soviética, que comprava açúcar cubano por preços do mercado e vendia petróleo subsidiado, mas com o fim do regime comunista russo quase levou ao colapso o socialismo cubano.

A solução, proposta por Fidel Castro e hoje a principal fonte econômica que sustenta o regime, foi o turismo. Hoje, a Ilha é visitada por milhares de turistas europeus e asiáticos e cada vez mais cresce a rede hoteleira para atender essa demanda.

Fico orgulhoso de que meus poucos reais tenham, de alguma forma, ajudado a manter  Cuba, socialista.

É preciso salvar a História dos historiadores

 

É preciso salvar urgentemente a História dos historiadores, assim como a Política dos políticos; a Medicina dos médicos, a Economia dos economistas, a Justiça dos juristas e assim por diante.

Quem já fez um curso universitário de História sabe que os mesmos fatos e seus personagens (da História do Brasil, por exemplo), começam a ser contados nos primeiros anos do colégio e só terminam na universidade, como se fosse uma novela de televisão que se desdobra em vários capítulos.

A cada ano que se avança, novos dados são acrescentados à biografia dos heróis e os fatos ganham um desenho mais completo.

Começa assim: Dom Pedro proclamou a independência do Brasil a 7 de setembro de 1822 às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo, e termina com uma análise do comportamento pessoal do Imperador, a influência de José Bonifácio e as intrigas das cortes no Rio e em Lisboa.

Com certo exagero, algumas vezes, chega-se ao detalhamento das condições do ambiente que cercava o imperador naquele momento crucial de sua vida, quem eram os acompanhantes, como estavam vestidos e a que hora realmente Dom Pedro bradou: “Laços fora, soldados! Independência ou Morte, seja a nossa divisa”.

Muitas vezes se faz apenas a tradução em palavras do que Pedro Américo já mostrou em seu quadro famoso. O máximo que se diz, fora da descrição linear do fato histórico, é um exercício barato de psicologia sobre os sentimentos de prepotência de quem preferia ser rei no Brasil do que príncipe em Portugal, com pitadas de conhecimentos sobre a conjunção de interesses existentes na época entre o imperialismo inglês e os defensores da independência na colônia.

Outro exemplo (verídico) dessa superficialidade: numa aula de História da América, o professor – falando sobre a chegada de Colombo na nova terra – faz uma pergunta que ele imagina importante para o conhecimento do aluno: o que Rodrigo de Triana, na madrugada de 12 de outubro de 1492, viu do alto gávea da caravela Pinta?

Para esta pergunta, só havia uma resposta certa: uma luz bruxuleante no horizonte.

Esquecendo o ensinamento de Plekhanov (1856/1918) de que “a história decorre de leis objetivas, mas os homens fazem história, na medida em que atuam, avançando ou retrocedendo em função dessas leis”, o foco principal se localiza, quase sempre no relato dos feitos dos grandes homens que lideraram guerras ou revoluções.

Nada contra essa postura. Ela, porém, é incompleta, mas, certamente, é ainda melhor do que a atual moda de minimização dos grandes feitos históricos, substituídos pelos acontecimentos do cotidiano, como é comum dos novos filósofos e comunicadores franceses.

O correto seria inserir cada um dos grandes personagens da História na vida real de suas épocas, seus condicionamentos sociais, políticos e econômicos e analisar as razões e contrarazões de suas atitudes, avaliar suas consequências e inferir até que ponto elas tiveram maior ou menor relevância para o avanço ou retrocesso do processo histórico.

Tomemos, apenas como motivação para um debate o que está sendo dito por historiadores sobre e os personagens da “Santíssima Trindade Soviética”: Lenin, Stalin e Trotsky.

O último, até porque muito cedo foi afastado do poder na União Soviética e pode assim se transformar numa fonte viva de informações sobre a revolução de 1917, ganhou uma biografia exemplar de Isaac Deutscher com a sua trilogia: “O Profeta Armado, Desarmado e Banido”.

Lenin e Stalin, entretanto, enquanto perdurou a URSS, mereceram apenas biografias laudatórias, despidas de qualquer espírito crítico. Com o fim da União Soviética e a abertura dos arquivos mantidos em segredo até então, imaginava-se que com todo esse material, os historiadores poderiam, enfim, traçar uma história dos 60 anos de vida da experiência soviética e o que fizeram ou deixaram de fazer seus líderes.

Duas das obras mais badaladas sobre estes líderes soviéticos são “Stalin – a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore, e “Lenin – a biografia definitiva”, de Robert Service.

O primeiro – vencedor do prêmio de melhor livro de história do British Book Awards de 2004 – se perde nas minúcias da vida privada de Stalin e transforma sua atuação nos grandes expurgos de 1937, na Segunda Guerra e no fortalecimento do seu poder pessoal, num enredo digno de uma revista Caras.

Stalin manda matar seus antigos companheiros de revolução, mas, ao mesmo tempo, é um pai de família carinhoso. Isso pode ajudar a conhecer a dubiedade de um ser humano, mas é pouco importante para entender o grande (para o bem e para o mal) personagem histórico.

O livro sobre Lenin, do também professor inglês Robert Service, apesar do otimismo do subtítulo – a biografia definitiva – é ainda mais detalhista em determinados períodos da vida do grande líder revolucionário russo – como no caso da execução do seu irmão mais velho, acusado de ações terroristas contra o czar – mas perde de vista os grandes feitos de Lenin como condutor da Revolução de Outubro, suas motivações e consequências. Além de tudo, o autor faz questão de manifestar suas posições anticomunistas, típicas do período da Guerra Fria, que não condizem com a sua pretensa objetividade.

Para quem estiver interessado nesses três personagens, aqui vão algumas sugestões: sobre Trotsky, além de Deutscher, é preferível que leia até uma obra de ficção como “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, muito mais interessante do que os livros de alguns historiadores oficiais.

Sobre Lenin e Stalin, ninguém é melhor do que Slavoj Zizek, ainda que sua obra “As Portas da Revolução” cubra apenas um período da vida de Lenin, os preparativos e o desfecho da revolução e “Em defesa das causas perdidas”, Stalin é mais um dos inúmeros personagens que povoam o livro.

Algumas frases soltas sobre Lenin, Stalin e Trotsky, extraídas de livros e entrevistas de Zizek, mostram, mesmo em poucas linhas, a originalidade do filósofo esloveno:

“Precisamos retornar a Lenin de um modo crítico. Pensar e analisar os seus erros, para não repeti-los. Lênin foi um filósofo – primitivo e vulgar, mas um filósofo. Por esta via, retornamos a Marx, porém criticamente, com o intuito de repeti-lo de maneira diferente”.

“Stalin e Hitler não foram iguais. A prova é a existência de dissidentes. Stalin teve a todo tempo de lutar contra quem o questionava. Muita gente dizia que ele tinha traído o comunismo autêntico. Trotsky é um exemplo. Não havia ninguém assim no nazismo, nenhum grupo questionando Hitler, dizendo que ele era traidor do nazismo autêntico.”

“Na União Soviética, algo que originalmente era para dar na libertação do povo – a Revolução de Outubro – terminou em um pesadelo. Mas o objetivo inicial era outro. O nazismo era diferente. Os nazistas conseguiram exatamente o que eles queriam.”

“A figura de Trotsky continua sendo crucial na medida em que ela representa o elemento que perturba a alternativa entre o socialismo (social) democrático ou o totalitarismo estalinista. O que encontramos em Trotsky, em seus textos e em sua prática revolucionária nos primeiros anos da União Soviética, é o terror revolucionário, o domínio do partido e assim por diante, mas de modo diferente do estalinismo. Foram as atitudes do Trotsky que impossibilitaram que sua orientação vencesse a luta pelo poder estatal.”

Zizek não é especificamente um historiador, mas um intelectual, um filósofo com muitas preocupações e interesses, inclusive sobre a história.

Para completar: o melhor livro sobre a história do Oriente Médio não é de um historiador tradicional, mas de um jornalista atuante: Robert Fisk com sua monumental obra “A Grande Guerra pela Civili

A esquerda sem rumo

No momento em que nós, da esquerda parecemos ter uma só perspectiva – salvar Lula e garantir sua eleição – seria importante lembrar no que somos diferentes dos outros partidos.

Lenin dizia em 1917 que ”comunismo é todo poder aos sovietes, mais a eletrificação”. A eletrificação de que nos falava Lenin, pode ser traduzida hoje no reconhecimento e no atendimento das necessidades dos indivíduos, porque na miséria não existe nenhuma forma de socialismo.

Em vez disso, o que se ouve dos representantes da esquerda é a necessidade de mostrar eficiência na administração da coisa pública, o que a direita também sabe fazer.

Em seu pequeno livro A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, Vladimir Safatle nos dá o exemplo do Partido Comunista Italiano, que já foi o maior do Ocidente e hoje praticamente não existe mais.

Durante anos, ele esteve a margem do governo, conquistando prefeituras importantes, como Bolonha, a fim de se credenciar para comandar o País.

Quando isso ocorreu, e seu secretário-geral, Massimo D´Alema, assumiu o cargo de primeiro ministro, tudo que fez foi tentar provar que poderia governar e realizar os ajustes fiscais exigidos para que a Itália participasse da Zona do Euro

Os ajustes que os governos de direita não tinham conseguido fazer por causa da resistência dos sindicatos, o PCI, no poder, conseguiu.

O resultado foi passar ao povo a mensagem que esquerda e direita são iguais.

Qualquer semelhança com o que fez a Presidente Dilma no início do segundo mandato,não é mera coincidência.

Fazer o mesmo que a direita pretende fazer, não é uma boa política para as esquerdas, nem a italiana, nem a brasileira.

Para as duas falta um projeto que deixe claro para seus eleitores em potencial no que elas são diferentes das demais forças políticas.

Hoje, o que parece ser o único projeto da esquerda brasileira é acreditar que Lula possa ser candidato em outubro, ganhar a eleição e refazer o projeto de governo do PT, que o golpe parlamentar de 2016 liquidou.

Em longa entrevista que deu no fim de ano para a imprensa brasileira, mas que só o jornal Valor Econômico divulgou com maior destaque, Lula voltou a se defender das acusações que lhe faz a Lava Jato e prometeu o retorno do Brasil aos bons tempos do seu governo.

Ele reafirma sua inocência, acredita que vai ser absolvido das acusações do juiz Moro, dia 24 no TF4, em Porto Alegre, porque não existe nem uma prova contra ele e sua condenação “seria a negação da Justiça”.

Espicaça o Procurador Federal Dalton Dallagnol, dizendo que “ele deveria ser exonerado a bem do serviço público. Não é possível alguém ganhar tanto do Estado para contar a mentira que ele contou”.

O mais importante do que disse Lula, são suas promessas em um hipotético novo governo: valorização do salário mínimo; federalização do ensino médio;  volta dos investimentos do Estado na economia gerando empregos e renda ; reforma tributária para que o rico pague mais imposto que o pobre; taxação das grandes fortunas  e referendo revogatório sobre as leis criadas com Temer.

Com sua linguagem bem típica, prometeu que, se eleito, “pobre vai voltar a comer peito e coxa de frango outra vez, comprar picanhazinha no domingo e fazer viagens de avião”.

O que assustou na entrevista, é a sua visão sobre a política de alianças: “não adianta ser tão puro na avaliação política e na hora de perguntar- quantos deputados você tem, aí diz que não tem nenhum. Aí a pessoa fala: tem que negociar com o povo, mas o povo não está lá dentro do Congresso para negociar”. ´

Será que o Lula vai continuar a ser o velho pragmático do passado? Parece que sim, quando nega ser um radical: “Não tenho cara de radical nem o radicalismo fica bem em mim.” Depois de lembrar que em 2002 escreveu uma carta ao mercado, diz que agora vai falar só com o povo porque “este mercado injusto nunca me agradeceu por tanto que ganhou”.

Hoje, depois do golpe parlamentar que afastou Dilma do governo, da ação permanente de uma justiça partidarizada, que busca afastar da disputa política o único grande nome do PT e dos interesses do empresariado nacional e das multinacionais, mais do que nunca contemplados pela ação do governo Temer, será possível pensar que todas essas forças conjugadas, diretamente apoiadas pelos maiores veículos da mídia, permitirão a volta do Lula?

Mais do que nunca, volta à nossa memória, a famosa declaração de Carlos Lacerda, quando em 1950, Getúlio Vargas se preparava para disputar as eleições presidenciais: “Getúlio não pode ser candidato, se for, não pode ganhar, se ganhar, não pode ser empossado, se for empossado, precisa ser derrubado”.

Como todos nós lembramos, Getúlio superou todas as fases, foi candidato, ganhou as eleições, foi empossado e foi derrubado em 1954.

 

Os pedalinhos da Redenção

Porto Alegre, 2 de janeiro, meio-dia, 36 graus à sombra, nem uma brisa soprando. Estou de terno e gravata esperando o T5 na Osvaldo Aranha e maldizendo a minha sina de viver numa cidade sem praia e, pelo jeito, sem ônibus também.

Enquanto isso, alguns uns caras estão fazendo feriadão em Garopaba, Bombinhas e até mesmo em Cidreira.

Será que alguém que esteja lendo essa história, com a camisa amarfanhada e o suor correndo pelo rosto, cobrindo como uma névoa a lente dos óculos, pode entender porque insisto em ficar por aqui, quando podia estar a beira-mar, com um chope bem gelado e uma casquinha de siri pela frente, enquanto lindas mulheres circulam, seminuas, pela areia da praia?

Certamente, ninguém, até porque para entender esta louca preferência, teria que conhecer uma história acontecida há 33 anos e isso é muito improvável porque nunca a contei para alguém.

Faço isso hoje, porque terminou no último dia 31 de dezembro a promessa que fiz de guardar segredo sobre aquele estranho acontecimento do verão de 1984

Naquela ocasião, eu e mais um milhão de gaúchos tínhamos programado sair em procissão pela freeway, no final do ano, em direção ao litoral, na busca daquelas delícias que as nossas praias oferecem: o mar sempre marrom, com águas frias a desafiar a nossa valentia de gaúchos machos, restaurantes de comida cara e ruim e, à noite, a tão esperada sinfonia de mosquitos zumbindo em nossos ouvidos.

Tudo pronto para a partida dos intrépidos adoradores do mar, um telefone misterioso mudou minha vida e desfalcou o grupo deste que agora escreve este texto..

Uma voz misteriosa de mulher disse num sussurro:

– Deixa tudo para trás e venha me encontrar nos pedalinhos da Redenção.

– Agora, às 11 da noite, é pedir para ser assaltado.

– Não tenha medo, vale a pena.

E eu fui. Ela me esperava no lago, junto aos pedalinhos. Uma mulher maravilhosa, dessas que só existem nos filmes de Hollywood.

Como essa é uma publicação que as famílias costumam ler, não vou dar detalhes do que aconteceu. Fica por conta da imaginação de cada um. Só não seja tímido.

Pense nas imensas possibilidades que o lugar oferece, com posições nada ortodoxas, dentro do pedalinho, nos gramados próximos e até no lago. Nada disso, deixei de experimentar.

No final, ele me fez uma promessa, mas impôs uma condição.

Nos encontraríamos, sempre na última noite do ano, junto aos pedalinhos da Redenção, mas eu teria que abandonar em definitivo os fins de semana na praia.

E assim, foi durante os últimos 33 anos. O passar dos anos não mudou em nada a beleza dessa mulher sem nome, o que, diga-se de passagem, sempre acontece com estas personagens misteriosas.

Eu, porém, fui envelhecendo, o que me obrigou, a partir de determinado momento a buscar apoio nesses novos afrodisíacos químicos, mas nunca a decepcionei.

Até que no último dia 31, ela me avisou que a nossa aventura chegara ao fim. Por razões que escapavam ao meu entendimento e a sua vontade, ela não retornaria no próximo ano.

Mesmo assim, vou continuar esperando, bem longe do mar, apesar do calor.

Quem sabe ela muda de ideia.

De qualquer maneira, eu já não tenho mais bermudas e muito menos sunga, para pensar em fim de semana na praia.

Caso alguém queira conferir, acho que os pedalinhos ainda existem na Redenção. Só não tente encontrar a mulher misteriosa porque ela está aprisionada na minha imaginação.

O Homem

Na década de 60, eu era redator de notícias da TV Piratini e queria distância da publicidade e via com desconfiança a ação daqueles sujeitos de gravata, os contatos das agências, sempre querendo transformar em notícia, os releases dos seus clientes.

Foi quando surgiu o convite para trabalhar em uma delas, a Mercur, dirigida por um cara com fama de ser intratável, um carrasco para seus funcionários, o Hugo Hoffmann. Acho que foi o Ivanzinho Castro que me aproximou do “homem”, como todos se referiam a ele. Marcamos um encontro na sua agência. A proposta era tentadora, o dobro do salário que ganhava na televisão, mas com um inconveniente, era tempo integral e eu teria que deixar o curso de História da Faculdade de Filosofia, que frequentava pelo manhã, enquanto trabalhava à tarde na Piratini.

A reunião foi numa sexta-feira e me lembro de um questionamento dele, depois que soube que eu um adepto do socialismo.

– Como alguém que se diz socialista pode trabalhar numa empresa que defende o sistema capitalista?
Minha resposta, que foi desafiadora sem que essa fosse minha atenção, parece que agradou a ele.

– Estou sendo convidado para ser empregado da agência e não seu sócio.
Ficou combinado que começaria na segunda-feira.

Passei o fim-de-semana pensando na decisão e na segunda, resolvi avisar que não queria o emprego. Mais tarde, acabei me tornando publicitário, aceitando o convite do Faveco, quando já formado em História pela UFRGS, para trabalhar na Standard.

Numa época em que estávamos empenhados em criar o Clube de Criação, fizemos uma reunião na Mercur e pude ver na prática como o Hugo Hoffmann tratava seus empregados e não qualquer um deles, mas Barbosa Lessa, na época uma figura já legendária como pesquisador do folclore regional e que, certamente por razões financeiras, trabalhava como redator da agência. 

Ele simplesmente mandou que o Barbosa saísse da sala onde estávamos reunidos, para terminar um anúncio, que ele – Hoffmann, queria ver pronto imediatamente. Para a nossa surpresa, o Lessa obedeceu.
O Beto Soares, que na época também era da Mercur, acho que estava presente.

Um dos maiores clientes da Mercur era uma companhia de cigarros e o anúncio de uma de suas marcas, que se dizia ter sido feito pelo próprio Hoffmann, definia bem a sua personalidade autoritária:
O Homem Fuma Presidente, e Basta!

Warning

Tudo de novo. Estamos em 2018. Ainda bem que agora falta pouco. Então, vou começar a me repetir. O que se segue, eu escrevi exatamente há um ano.
Sei que já tem muita gente duvidando da minha sanidade mental ao lerem estes textos que estou postando aqui no feicibuque. Até eu mesmo, as vezes fico na dúvida. Mas, estão realmente acontecendo coisas estranhas comigo nesse início de ano e por isso preciso deixar tudo registrado aqui nesse espaço e nos emails dos meus amigos. Honestamente, pelo andar da carruagem (essa é uma imagem um tanto gasta e até o final desse texto pretendo substitui-la) estou até preocupado que possa ser abduzido. Antes que isso ocorra, estou autorizando a que pesquisem na memória ran desse computador todos os indícios de um possível interesse dos alienígenas por mim. Loucura? É bem possível. Um amigo me recomendou fazer acupuntura. Outro, banhos em águas termais de Iraí. A Ingrid garante que se sou louco, mas um louco manso, que não ofereçe perigo a ninguém. Faço toda essa introdução, por quê? Porque a história que vou contar a seguir pode ser lida como uma coisa de louco. Mas, juro que é a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Essa madrugada, estava vendo pela terceira vez aquela série Narcos, quando subitamente a tela ficou toda a preta. Achei que tinham queimados os miolos do computador. Após alguns segundos começou a piscar em letras vermelhas WARNING, enquanto de fundo soava uma sirene estridente. Ainda bem que não matei todas as aulas de inglês no Julinho e entendi logo que era algum aviso importante. Isso logo ficou comprovado quando surgiu a águia americana e aquele topete inconfundível sorrindo para mim. Dear friend. Isso eu também entendi, mas logo a voz em inglês foi substituída por uma versão em português. Ficou engraçado o Donald falando com uma voz que parecia da Merryl Streep. Como tinha um delay entre a fala e a tradução, ou porque no computador é sempre assim, estava difícil entender o que ele(ou ela) dizia. Certa altura, me pareceu que ele tenha dito – o crioulo já foi embora. Acho que era problema de tradução. O cara não seria assim tão racista. De qualquer maneira, mais adiante vou voltar aqui para apagar essa expressão. Agora, ele (ela) pelo que entendi, disse que queria dar uma imagem mais democrática ao seu governo. Já tinha resolvido a cota racial ( um negro, um índio, e um amarelo) e a de gênero ( uma mulher, um gay, e um trans) e agora queria resolver o problema político. Precisava de um anarquista e um comunista no seu governo. Como não encontrara nenhum nos Estados Unidos, ficou sabendo que havia dois em Porto Alegre, o Pintaúde eu. Agora, ele queria saber quem era o que dos dois e se possível gostaria de saber a diferença entre anarquista e comunista. O Donald estava comprovando que era realmente um grande ignorante, mas o que fazer, se tratando de um americano não se poderia esperar muito. Exatamente nesse momento quando eu ia começar a citar o Karl Marx, a ligação sumiu. Alguém já me disse que os computadores americanos são programados para desligarem automaticamente quando registram alguns nomes como Marx, Lenin, Lula, Fidel, Brizola, Maestri, Santiago, Schroder, Ferreti. Por que Ferreti, não sei, mas os outros nomes faz sentido. Foi isso que aconteceu. Agora estou na dúvida se tudo foi um sonho ou o Donald está contando comigo e o Pinta em Washington/ Se for o segundo caso, preciso saber se vou precisar passaporte ou basta a carteira de identidade para chegar lá? Será que eles aceitam real nos States? Vai dar pra ver jogos do Inter pela Copa São Paulo na TV ? Preciso saber todas essas respostas antes de tomar uma decisão. Acho que vou perguntar para o Aldo. Ah…tenho que avisar o Pintaúde que ele é o anarquista nessa história. Não abro mão de ser o comunista