Duas histórias

Compartilhe este texto:

 

O DIA EM QUE O DIABO ME VISITOU
Quando eu era criança, lá em Farroupilha, e uma porta se abria sozinha, tinha sempre alguém para alertar – cuidado o Diabo pode entrar.
Ontem, a porta do meu apartamento se abriu sozinha e o Diabo apareceu. Parecia gente de casa. Entrou sem dar bom dia e foi logo olhando as paredes, os armários, os livros.
– O que está procurando?
– Crucifixo, imagem de santo, essas coisas todas que usam contra mim.
– Não sabes que sou ateu, que não guardo esses símbolos da ignorância na minha casa?
– Melhor assim, facilita minha tarefa.
– Vieste para me buscar?
– Ainda não. Mais tarde, talvez. Hoje, vim só para te dar um conselho, de alguém que é sábio não porque é Diabo, mas porque é velho.
– Não pareces velho. Cadê os chifres? Cadê o rabo? Cadê o cheiro de enxofre? Pareces até aquele cara da televisão.
– Custaste para me reconhecer. Vês pouca televisão. Hoje, assumi a aparência do Willian Boner
– Acho que ficarias melhor naquela versão mais tradicional.
– Mas, é só tu que gosta dessa versão tradicional. As pessoas me chamavam de Satanás, Satã, Coisa Ruim, Tinhoso, Cachorro Louco, Malvadão, Chifrudo, Rabudo, Capeta. Ninguém me respeita mais. Então, estou usando a aparência de pessoas famosas. Ontem, sai de Renato, mas uns caras me jogaram pedras ali perto do Beira Rio.
– Tá bom Willian – queres que te chames assim? – vamos ao que interessa, qual é o conselho que vais me dar.
– Eu já conversei com o Schroder, com o Santiago,com o Milton, com a Vera, com a Ingrid, com o Pinta, tudo gente fina que eu admiro e que leio no feicibuque.
– Tu também tá no feicibuque?
– Todo mundo tá, mas agora quem está interrompendo é tu.
– Tá bem, dá logo o conselho
– É pra tu parar de ficar citando “aquele jornal”, que isso ajuda a divulgar uns caras que nem lá na minha casa são lidos. Se tu não acredita na minha palavra, pergunta ao Aldo.
Dito isso, o Diabo foi se mandando com um aviso.
– Semana que vem, eu volto e venho disfarçado de Moro.
Por via das dúvidas, vou trocar a fechadura da porta para não deixar o Diabo entrar nessa versão.

XXX

DIOMEDES, UM HOMEM E SUAS DÚVIDAS

Encontro o Diomedes na saída do Encouraçado Potenkin, na CCMQ. Fomos colegas na Filosofia. O reencontrei há um ano e ele me disse que se tornara um observador do comportamento humano.
– Isso é profissão, Diomedes?
– Não, mas e dá subsídios para o livro que estou escrevendo.
– O que você observou agora?
Não devia ter feito a pergunta, porque era tudo que ele queria para me tornar um ouvinte da sua nova tese.
– Você viu aquelas duas moças que saíram de mãos dadas do cinema? Vi suas pastas, são universitária da PUC, acho que da Comunicação ou Psicologia. Elas estavam dando um recado público que formam um casal.
– Atenção Diomedes. Cuidado com o preconceito.
– Longe disso. Você sabe que sempre fui um contestador, que nunca aceitei qualquer comportamento padronizado Na Filosofia tu mesmo me chamava de anarquista. Então, sou totalmente a favor de liberdade sexual, da escolha livre dos parceiros, até mesmo porque essa relação exclusiva de homem e mulher é uma coisa que vem da Bíblia – Adão e Eva – o que já me põe com um pé atrás.
– Por que então esse estranhamento?
– É que elas reproduziam o comportamento clássico do casal heterossexual. Uma fazia o papel do macho, altiva, dominadora, fálica e a outra a da fêmea, meiga quase submissa.
– E daí
– Daí eu me pergunto por que essa relação moderna se expressa atavicamente por uma imagem tão antiga?
Quando o conheci na Filosofia, as pessoas costumavam dizer, quando ele surgia na aula ou numa reunião, – Lá vem o Diomedes e suas dúvidas.
Contavam como piada, que quando o professor dava Bom Dia, o Diomedes o interpelava:- Quais são seus argumentos para lançar essa previsão sobre o nosso futuro?
Imagino que no caso das moças da CCMQ, o Diomedes vai ficar ainda algum tempo com suas dúvidas.

 


Compartilhe este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *