Porque sou Lanús desde criancinha

Compartilhe este texto:

Vitório Emmanuele tem dois sobrenomes italianos em seu registro civil, Lorenzoni, da mãe, Togliati del Sicca, do pai, nasceu em Emboaba, quando ainda se chamava Nova Milano, perto de Farroupilha, que já foi Nova Vicenza.

Apesar de toda essa linhagem italiana, Vitório fala com sotaque fronteiriço, é peão num centro de tradições gaúchas e vai aos jogos do Inter e grêmio, contra times de fora, de bota, bombachas e uma bandeira do Rio Grande.

Obviamente, ontem ele estava no campo da OAS torcendo contra os seus principais inimigos, os castelhanos.

Contra times argentinos, ele fica possesso e se não o segurarem começa uma nova guerra da Cisplatina.

Hoje, ele me ligou cobrando minha presença numa caravana que pretende invadir Buenos Aires para o segundo jogo contra o Lanús.

Quem deve ter dado meu telefone para ele, certamente foi o Dr. Werner, que adora uma provocação.

Tento ser razoável com o Vitório, porque conheço seu gênio desde os tempos de Julinho.

Não adiantam os argumentos de ordem financeira:

– Não tenho dinheiro, cara.

– Não importa, eu pago.

De preferências pessoais:

– Não gosto muito de futebol.

– Não é futebol, é uma guerra santa contra os castelhanos.

Insisto na questão das preferências:

– Eu sempre fui colorado

– Nessa hora não existem colorados ou gremistas. Somos todos gaúchos

Provoco:

– Eles se dizem mais gaúchos do que nós

– São gauchos,  sem acento agudo no “u”e isso muda tudo.

Hesito um pouco, porque sei que aí será um caminho sem volta. Apesar de tudo, gosto do Vitório. Fora da sua fixação no “gauchismo” é um bom cara, sempre solidário com amigos. Um sujeito que gosta de livros e de cinema. Mas não há outro jeito. Preciso por um fim naquele assunto

– Tem outra coisa, Vitório. Sou Lanús, desde criancinha.

Fez o efeito esperado. Ele desliga o telefone sem qualquer despedida. Semana que vem, quando ele voltar de Buenos Aires e espero que derrotado, ligo para ele.


Compartilhe este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *