Nelson Rodrigues, um provocador

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É sempre interessante avaliar como a ‘intelligentsia’ brasileira se comportou nas grandes crises em que o País viveu.
Tomemos 1964, como exemplo.
Naquele ano, com o apoio praticamente explícito do governo americano, os militares deram um golpe de estado, afastaram o Presidente Jango e instauraram um regime ditatorial que iria durar 21 anos.
Ele agiram, segundo disseram, para combater a corrupção e a subversão.
Naqueles anos, que vão do movimento pela Legalidade, em 61, até o golpe de abril de 64, o País viveu um período de grandes esperanças numa revolução social e decepções, porque elas nunca se realizaram na prática.
Com a derrota de 64, os mais importantes intelectuais brasileiros partiram para oposição ao novo regime e alguns aderiram à luta armada.
Outros trataram de continuar ganhando a vida, mas apenas um deles, um dos mais notáveis de todos, se colocou a favor dos militares e usou seu talento para ridicularizar os resistentes e homenagear os vencedores: Nelson Rodrigues (1912/1980), o maior de nossos dramaturgos.
O que o teria levado por este caminho?
Ouso dizer que era a sua necessidade de fugir do politicamente correto, dos adesistas que cercam os governos, dos democratas de última hora e dos políticos engravatados e seus discursos vazios.
Se assumindo como reacionário, chamava Don Helder Câmara de falsário e as ativistas católicas, de freiras de passeata, mas acabou no fim da vida tendo que defender o filho, Nelsinho, preso e torturado pelos militares que apoiara.
Ninguém no Brasil escreveu peças de teatro tão importantes e ao mesmo tempo tão provocativas como ele – Vestido de Noiva, Beijo no Asfalto, Álbum de Família, Perdoa-me por me Traíres; Toda a Nudez Será Castigada e Boca de Ouro, entre tantas outras. – porque como ele mesmo disse, sempre enxergou o mundo de um jeito diferente: “sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou um anjo pornográfico“
Ao melhor estilo provocador do Nelson, copio a seguir alguns dos seus pensamentos.

“O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos”.
“Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe”.
“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”.
“O dinheiro compra até amor verdadeiro”.
“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”.
“Só o inimigo não trai nunca”.
“Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar com batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro.”
“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira”.
“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas”.
“Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé.”
É possível que nem ele mesmo, Nelson Rodrigues acreditasse nesses pensamentos, mas ao escrevê-los, ele mandava um recado: não tentem me entender, nem justificar o que escrevo


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