Carta às minhas amigas do facebook

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Leio o que escrevem minhas amigas no Facebook e fico impressionado como elas têm tantas certezas.

Todas as dúvidas, que por ventura existiram, já foram dissipadas.

Será uma qualidade feminina?

Deve ser, por que os homens com os quais falo, só têm uma opinião definitiva quando se trata do time de futebol para o qual torcem;

Não é que sejam volúveis, apenas tem dúvidas.

Somos de esquerda, sim, mas qual esquerda?

Comunistas, leninistas, trotkistas, estalinistas, socialistas moderados, socialistas democratas? Depende do livro que estamos lendo. Zizek, Badiou, Meszaros, nos desviam dos clássicos do comunismo, ainda mais quando misturam Marx com Lacan.

Claro que somos contra os golpistas que afastaram a Dilma, mas as vezes, a gente pensa se não seria melhor deixar o Temer lá na Presidência, para ele ir se desmoralizando  cada vez mais, até cair de maduro, deixando a cama pronta para o Lula em 2.018.

E o Lula, hein? Vai fazer o que prometeu na primeira vez que foi candidato ou vai se arranjar com empreiteiros, banqueiros, evangélicos e até mesmo com a Rede Globo, como fez mais de uma vez?

Com minhas amigas mulheres do facebook, não é assim.

Aparentemente, elas são iluminadas pela verdade definitiva.

Publico uma notinha a favor do Lula, todas curtem.

Algo, não muito simpático ao ex-presidente e elas ignoram solenemente.

Escrevo que Lula lidera isolado no IBOPE, comentários de apoio e compartilhamentos mil

Ouso dizer que a fragilidade da Gleisi lembra a Barbie: machista, preconceituoso, misógino..

Como não consigo fugir de algumas provocações, desconfio que muitas já me bloquearam e nunca mais vão ler o que escrevo.

Uma pena, porque quase todas são muito inteligentes, leram mais livros do que eu e seu posicionamento político é sempre louvável.

Desde que…

Uma escreve um texto definitivo sobre o feminicídio. Digo que não gosto da palavra, que nem consta dos dicionários. Que é um modismo citá-la. Que qualquer tipo de violência do mais forte contra o mais fraco é abominável e que valorizar só o gênero, é uma forma de execrar a violência de forma seletiva, apenas quando a vítima era a mulher.

Mais machista, mais preconceituoso, mais misógino.

Vou acabar me convencendo que sou tudo isso.

No passado, se dizia que religião não se discute.

Hoje se diz, feminismo não se discute.

São tabus.

Vamos discutir o quê, então? Só futebol?

Dizer que as lutas pelo feminismo, pela ecologia, pelos direitos das minorias, são válidas, mas que, as vezes, representam uma perda de energia que poderia ser usada por uma luta maior, a luta de classes, faz com que você seja visto quase como um homem das cavernas.

Pior ainda, se você defender sua opinião com algumas tiradas irônicas. Nesse caso, o que você recebe de volta não são argumentos em contrário, mas olhares de desprezo.

Dizem que esse é um tema muito sério para permitir alguma ironia e vão logo citando as mulheres mortas por seus maridos e amantes ciumentos e agressivos.

É um horror realmente. Talvez não seja mesmo a hora de brincadeiras.

É como a religião. Os cristãos não gostam de brincadeiras com seus deuses e santos. Os islâmicos, não só não gostam como querem te matar.

Religião, política, feminismo, por mais sério que o assunto seja, sempre sobra espaço para uma brincadeira.

Perco o amigo, mas não perco a piada é uma máxima masculina, que alguns  cultivaram com brilho.

“Qualquer um que diga que consegue ver através das mulheres, está a perder muita coisa” (Grouxo Marx)

“Há mulheres que dizem amar um homem só. Um só, de cada vez” (Barão de Itararé)

“O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris” (Millor)

Existem mulheres famosas e importantes em todas as áreas, mas não há lembrança(minha pelo menos) de nenhuma delas fazendo uma frase cheia de ironias sobre os homens.

Ninguém descreveu melhor que Rosa Luxemburgo como deveria ser o novo mundo (“Um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres),nem Marx, nem Lenin, mas Rosa sempre foi uma mulher extremamente séria, quase trágica.

George Orwell dizia que toda a piada é uma pequena revolução.

Stalin incentiva a que se fizessem piadas, desde que não fosse contra ele. Dizem (deve ser uma piada) que um juiz não parava de rir e Stalin perguntou o porquê. É que eu ouvi a melhor piada do mundo a seu respeito. Conte, então, disse Stalin. Não posso, respondeu o juiz, acabei de condenar o autor da piada a cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Decididamente, as minhas amigas petistas do facebook não aprovariam e muito menos achariam graça de uma piada dessas sobre o Lula, embora ele gostasse de fazer piadas, muitas delas bem preconceituosas.

Uma que ficou mais famosa foi na  campanha eleitoral de  2006. Num vídeo, ainda hoje disponível no youtube, Lula arruma a gravata do prefeito Fernando Marroni, enquanto pergunta a ele se Pelotas é um pólo exportador. Marroni concorda muito sério e Lula, já rindo, comenta: exportador de viados.

Enfim, Lula deve ter se arrependido da piada e as mulheres do PT continuaram votando nele.Não imaginam que continuem sendo minhas amigas no Facebook depois dessa carta.


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