De como um acidente rodoviário pode se transformar num caso de amor


Mário era casado com Flávia, mas um dia conheceu Irina, que era casada com Paulo e se apaixonou perdidamente.
Irina resistiu durante um tempo o assédio de Mário, mas um dia cedeu.
Decidiram que o primeiro dia de amor seria no apartamento que Mário tinha na praia.
No caminho, pela auto estrada, um caminhão desgovernado bateu no carro de Mário.
A Polícia Rodoviária disse que os dois corpos foram encontrados abraçados em meio as ferragens do carro.
Por coincidência, os enterros de Mário e Irina foram marcados para horas muito próximas no cemitério João XXIII e por outra estranha coincidência, Flávia conheceu Paulo na ocasião.
Foi uma paixão a primeira vista.
Sábado passado, Flávia e Paulo se casaram na Igreja Santa Terezinha e decidiram passar a lua de mel no apartamento que era de Mário na praia e que depois da sua morte, ficou para a Flávia.

Os pedalinhos da Redenção

Porto Alegre, 2 de janeiro, meio-dia, 36 graus à sombra, nem uma brisa soprando. Estou de terno e gravata esperando o T5 na Osvaldo Aranha e maldizendo a minha sina de viver numa cidade sem praia e, pelo jeito, sem ônibus também.

Enquanto isso, alguns uns caras estão fazendo feriadão em Garopaba, Bombinhas e até mesmo em Cidreira.

Será que alguém que esteja lendo essa história, com a camisa amarfanhada e o suor correndo pelo rosto, cobrindo como uma névoa a lente dos óculos, pode entender porque insisto em ficar por aqui, quando podia estar a beira-mar, com um chope bem gelado e uma casquinha de siri pela frente, enquanto lindas mulheres circulam, seminuas, pela areia da praia?

Certamente, ninguém, até porque para entender esta louca preferência, teria que conhecer uma história acontecida há 20 anos e isso é muito improvável porque nunca a contei para alguém.

Faço isso hoje, porque terminou no último dia 31 de dezembro a promessa que fiz de guardar segredo sobre aquele estranho acontecimento do verão de 1985.

Naquela ocasião, eu e mais um milhão de gaúchos tínhamos programado sair em procissão pela freeway, no final do ano, em direção ao litoral, na busca daquelas delícias que as nossas praias oferecem: o mar sempre marrom, com águas frias a desafiar a nossa valentia de gaúchos machos, restaurantes de comida cara e ruim e, à noite, a tão esperada sinfonia de mosquitos zumbindo em nossos ouvidos.

Tudo pronto para a partida dos intrépidos adoradores do mar, um telefone misterioso mudou minha vida e desfalcou o grupo deste que agora escreve este texto..

Uma voz misteriosa de mulher disse num sussurro:

– Deixa tudo para trás e venha me encontrar nos pedalinhos da Redenção.

– Agora, às 11 da noite, é pedir para ser assaltado.

– Não tenha medo, vale a pena.

E eu fui. Ela me esperava no lago, junto aos pedalinhos. Uma mulher maravilhosa, dessas que só existem nos filmes de Hollywood.

Como essa é uma publicação que as famílias costumam ler, não vou dar detalhes do que aconteceu. Fica por conta da imaginação de cada um. Só não seja tímido.

Pense nas imensas possibilidades que o lugar oferece, com posições nada ortodoxas, dentro do pedalinho, nos gramados próximos e até no lago. Nada disso, deixei de experimentar.

No final, ele me fez uma promessa, mas impôs uma condição.

Nos encontraríamos, sempre na última noite do ano, junto aos pedalinhos da Redenção, mas eu teria que abandonar em definitivo os fins de semana na praia.

E assim, foi durante os últimos 20anos. O passar dos anos não mudou em nada a beleza dessa mulher sem nome, o que, diga-se de passagem, sempre acontece com estas personagens misteriosas.

Eu, porém, fui envelhecendo, o que me obrigou, a partir de determinado momento a buscar apoio nesses novos afrodisíacos químicos, mas nunca a decepcionei.

Até que no último dia 31, ela me avisou que a nossa aventura chegara ao fim. Por razões que escapavam ao meu entendimento e a sua vontade, ela não retornaria no próximo ano.

Mesmo assim, vou continuar esperando, bem longe do mar, apesar do calor.

Quem sabe ela muda de ideia.

De qualquer maneira, eu já não tenho mais bermudas e muito menos sunga, para pensar em fim de semana na praia.

Caso alguém queira conferir, acho que os pedalinhos ainda existem na Redenção. Só não tente encontrar a mulher misteriosa porque ela está aprisionada na minha imaginação.t

(História publicada originalmente na antologia Porto Alegre é assim em 2009)

Porque sou Lanús desde criancinha

Vitório Emmanuele tem dois sobrenomes italianos em seu registro civil, Lorenzoni, da mãe, Togliati del Sicca, do pai, nasceu em Emboaba, quando ainda se chamava Nova Milano, perto de Farroupilha, que já foi Nova Vicenza.

Apesar de toda essa linhagem italiana, Vitório fala com sotaque fronteiriço, é peão num centro de tradições gaúchas e vai aos jogos do Inter e grêmio, contra times de fora, de bota, bombachas e uma bandeira do Rio Grande.

Obviamente, ontem ele estava no campo da OAS torcendo contra os seus principais inimigos, os castelhanos.

Contra times argentinos, ele fica possesso e se não o segurarem começa uma nova guerra da Cisplatina.

Hoje, ele me ligou cobrando minha presença numa caravana que pretende invadir Buenos Aires para o segundo jogo contra o Lanús.

Quem deve ter dado meu telefone para ele, certamente foi o Dr. Werner, que adora uma provocação.

Tento ser razoável com o Vitório, porque conheço seu gênio desde os tempos de Julinho.

Não adiantam os argumentos de ordem financeira:

– Não tenho dinheiro, cara.

– Não importa, eu pago.

De preferências pessoais:

– Não gosto muito de futebol.

– Não é futebol, é uma guerra santa contra os castelhanos.

Insisto na questão das preferências:

– Eu sempre fui colorado

– Nessa hora não existem colorados ou gremistas. Somos todos gaúchos

Provoco:

– Eles se dizem mais gaúchos do que nós

– São gauchos,  sem acento agudo no “u”e isso muda tudo.

Hesito um pouco, porque sei que aí será um caminho sem volta. Apesar de tudo, gosto do Vitório. Fora da sua fixação no “gauchismo” é um bom cara, sempre solidário com amigos. Um sujeito que gosta de livros e de cinema. Mas não há outro jeito. Preciso por um fim naquele assunto

– Tem outra coisa, Vitório. Sou Lanús, desde criancinha.

Fez o efeito esperado. Ele desliga o telefone sem qualquer despedida. Semana que vem, quando ele voltar de Buenos Aires e espero que derrotado, ligo para ele.

A hora “H” do dia “D” na minha vida


O despertador toca com estridência às 7 horas me avisando que a hora estava chegando.
Eu tinha me preparado há muito para ela.
Dentro de exatamente duas horas eu iria viver aquilo que nos filmes americanos de aventura é apresentado como “the point of no return”
`As 9 horas em ponto, minha vida mudaria totalmente
Haveria um Marino antes das 9 e outro Marino, totalmente diferente, depois das 9.
Volto a olhar para o relógio: 7,20
Os segundos que gastara pensando no que me aguardava às 9 horas, tinham sido mais do que isso. Foram 20 minutos. Imaginando que pensava lucidamente sobre o futuro, tinha dormido novamente.
Nada grave.
Precisava apenas levantar da cama e cumprir o programado.
Um banho rápido.
Engolir o café com leite e comer uma fatia de pão com manteiga, deixados de véspera sobre a mesa.
Bastava esquentar o café no micro, o pão já tinha sido cortado e a manteiga estava na primeira prateleira da geladeira.
Depois vestir a roupa que estava na cadeira, descer pela escada os quatro andares para evitar o velho elevador não muito confiável e apanhar o táxi no ponto da esquina.
Deixaria a cama por arrumar e a louça suja na pia sem qualquer sentimento de culpa porque depois das 9 horas, isso faria parte apenas da minha vida passada.
Com tudo cronometrado chegaria no local onde a minha vida sofreria uma mudança total, com mais de meia-hora de antecedência.
Tinha previsto levar um livro do Zizek para combater a ansiedade da última espera.
Na véspera, pensara em dormir cedo para acordar bem disposto, mas o efeito tinha sido o oposto. Rolara na cama e foi só depois das duas que conseguira dormir, sempre pensando naquela hora fatal que tinha pela frente.
A hora H, o momento da grande decisão, o tudo ou nada, uma vida inteira prestes a ser radicalmente dividida.
Olho novamente o relógio.
São quase 8 horas.
Preciso mudar radicalmente meus planos.
Nada de banho ou café com leite, pão e manteiga. Levanto, visto a roupa e saio.
Tudo sobre controle.
Agora volta aquele pensamento covarde.
Vale a pena mudar tudo? A vida está mesmo muito ruim? É o quero mesmo, trocar o que agora é só contemplação para horas de ação?
Viro filósofo, me perguntando se não é um absurdo impor compromissos na vida. Será que os budistas não estão certos? Deixar a vida passar do jeito que ela quiser, sem rupturas traumáticas? A preguiça não seria uma virtude a ser cultivada?
Olho pela última vez o relógio.
Nove horas.
Ainda bem que já passou a hora H do dia D.
Viro para o lado para dormir e começo a sonhar novamente que sou um homem de ação, fazendo coisas que vão mudar o mundo.
Felizmente é apenas mais um sonho.

Nelson Rodrigues, um provocador

 

É sempre interessante avaliar como a ‘intelligentsia’ brasileira se comportou nas grandes crises em que o País viveu.
Tomemos 1964, como exemplo.
Naquele ano, com o apoio praticamente explícito do governo americano, os militares deram um golpe de estado, afastaram o Presidente Jango e instauraram um regime ditatorial que iria durar 21 anos.
Ele agiram, segundo disseram, para combater a corrupção e a subversão.
Naqueles anos, que vão do movimento pela Legalidade, em 61, até o golpe de abril de 64, o País viveu um período de grandes esperanças numa revolução social e decepções, porque elas nunca se realizaram na prática.
Com a derrota de 64, os mais importantes intelectuais brasileiros partiram para oposição ao novo regime e alguns aderiram à luta armada.
Outros trataram de continuar ganhando a vida, mas apenas um deles, um dos mais notáveis de todos, se colocou a favor dos militares e usou seu talento para ridicularizar os resistentes e homenagear os vencedores: Nelson Rodrigues (1912/1980), o maior de nossos dramaturgos.
O que o teria levado por este caminho?
Ouso dizer que era a sua necessidade de fugir do politicamente correto, dos adesistas que cercam os governos, dos democratas de última hora e dos políticos engravatados e seus discursos vazios.
Se assumindo como reacionário, chamava Don Helder Câmara de falsário e as ativistas católicas, de freiras de passeata, mas acabou no fim da vida tendo que defender o filho, Nelsinho, preso e torturado pelos militares que apoiara.
Ninguém no Brasil escreveu peças de teatro tão importantes e ao mesmo tempo tão provocativas como ele – Vestido de Noiva, Beijo no Asfalto, Álbum de Família, Perdoa-me por me Traíres; Toda a Nudez Será Castigada e Boca de Ouro, entre tantas outras. – porque como ele mesmo disse, sempre enxergou o mundo de um jeito diferente: “sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou um anjo pornográfico“
Ao melhor estilo provocador do Nelson, copio a seguir alguns dos seus pensamentos.

“O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos”.
“Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe”.
“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”.
“O dinheiro compra até amor verdadeiro”.
“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”.
“Só o inimigo não trai nunca”.
“Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar com batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro.”
“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira”.
“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas”.
“Sem paixão não dá nem pra chupar um picolé.”
É possível que nem ele mesmo, Nelson Rodrigues acreditasse nesses pensamentos, mas ao escrevê-los, ele mandava um recado: não tentem me entender, nem justificar o que escrevo

Futebol e cinema

Está nas telas dos cinemas, o filme Borg x MC Enroe, dramatizando o jogo final de Wimbledon, em 1980, entre o sueco Bjorn Borg (Sverrir Gurdnason) e o americano John Mc Enroe (Shia La Beouf)

O cinema, principalmente o norte-americano, já usou muitos esportes para criar  filmes inesquecíveis, mas quase sempre são esportes individuais. Uma das razões para isso é a dificuldade de recriar na tela, por exemplo, um jogo de futebol que tenha o mesmo realismo que os espectadores se acostumaram a ver nos campos de futebol ou nas coberturas pela televisão.

Assim, também são poucos os filmes de qualidade sobre o basquete e o basebol, esportes típicos dos Estados Unidos.

Já o boxe, talvez pelo fato de dramaticamente superar o seu aspecto apenas esportivo, já nos deu grandes filmes.

Martin Scorcese dirigiu o Touro Indomável, em 1980, biografia romanceada de Jake La Mota, com Robert de Niro e Clint Eastwood, fez a Menina de Ouro, em 2005, com Hillary Swank, dois filmes para serem lembrados para sempre.

Até as corridas de automóvel foram tema de um grande filme, Grand Prix, de 1966, com direção de John Frankenheimer

Mas, em esportes coletivos são poucos os exemplos na cinematografia do mundo inteiro de bons filmes.

O Brasil, sempre dito como o país do futebol, tem poucos filmes que mereçam ser lembrados, além de Os Boleiros, Era Uma Vez o Futebol, de Ugo Georgetti de 1998 e Heleno, de José Henrique Fonseca, de 2012, com Rodrigo Santoro.

Já documentários sobre o futebol são muitos, envolvendo figuras famosas, principalmente Pelé e Maradona.

Nesse campo, parece que os argentinos nos levam vantagem com o clássico Maradona by Kusturica, dirigido pelo sérvio Emir Kusturica,em 2008.

Os ingleses, que inventaram o futebol, fizeram alguns filmes sobre esse esporte, mas o único grande destaque é Á Procura de Eric, de Ken Loach, de 2009, contando mais a paixão de torcedores do Manchester United pelos “Reds” do que as jogadas de Eric Cantona.

Filme mesmo, feito para usar um jogo de futebol como base dramática, para o desenrolar de uma história, foi A Fuga para a Vitória (Escape to Victory) que o grande John Huston (1906/1987) dirigiu.em 1981.

Huston, durante sua longa carreira, além desse filme, dirigiu dezenas de outros, alguns deles, fundamentais na história do cinema americano, como Relíquia Macabra (O Falcão Maltês), Moby Dick, Moulin Rouge, Glória de um Covarde, Uma Aventura na África, Os Desajustados (Misfits), Cassino Royale, a Cidade das Ilusões, O Segredo das Jóias, Freud (com Montgomery Clift) e o Tesouro de Sierra Madre.

A história de Fuga para a Vitória é inspirada num fato real: um improvável jogo de futebol entre um time do exército nazista e outro, formado por prisioneiros  de vários países que estavam em campos de concentração na Europa.

Max Von Sydow, o grande ator sueco dos filmes de Bergman, é o Major Karl Von Steiner, que no passado havia jogado futebol na Alemanha, e que agora pretendia enfrentar e derrotar uma seleção formada por prisioneiros para comprovar a supremacia ariana.

Michael Cane é o capitão inglês John Colby, que também tinha sido jogador de futebol no passado.

Ele é encarregado de reunir ex-atletas, nem todos craques de futebol, para formar uma equipe, com um objetivo oculto dos alemães, o de aproveitar o fato de que o jogo seria realizado no Estádio Colombes, em Paris, para um plano de fuga.

A curiosidade é que ex-jogadores famosos participaram do filme, como o brasileiro Pelé, vivendo um prisioneiro de Trinidad-Tobago, o argentino Ardiles e o inglês Bobby Moore.

Astro de cinema de verdade, além de Cane e Von Sydow, foi Sylvestre Stallone, que desempenhou e bem, segundo se pode ver, o papel de goleiro da equipe de prisioneiros.

A propósito do filme sobre o tênis, que deu início a esse texto, como ele conta uma história verdadeira, documentada amplamente na época,Borg, chamado pela imprensa de Ice Borg pela sua frieza,derrotou McEnroe na final de 1980, sagrando-se penta campeão de Wimbledon, mas foi derrotado na final do ano seguinte pelo mesmo Mc Enroe.

Em qual “Presidente” americano você vota?

 

Duas séries americanas tem o mesmo tema: um hipotético presidente dos Estados Unidos enfrentando problemas políticos e pessoais, Kevin Spacey, no papel de Francis Underwood, em  House of Cards e  Kiefer Sutherland, como Tom Kirkman, em Designated Survivor.

Fora essa semelhança inicial, as histórias seguem linhas bem opostas. Enquanto em House of Cards, Francis é totalmente amoral, fazendo qualquer negócio para se tornar presidente e depois se manter no cargo, desde as chantagens mais explicitas, até o assassinato de possíveis testemunhas de suas barganhas; Tom, em Designated Survivor é extremamente ético, compondo aquele tipo que Hollywood difundiu pelo mundo do sujeito patriota e defensor dos valores familiares tradicionais da sociedade americana.

Em House of Cards, inspirado num romance de Michale Dobby,  Francis Underwood  é um bissexual, que tolera que sua mulher tenha um amante que vive dentro da Casa Branca, o que certamente não faz parte da imagem que o americano médio gostaria  de ter do seu presidente.

Já em Designated Survivor, Tom Kirkman, é um modelo de virtudes americanas, bem casado, pai de dois filhos, sempre disposto a fazer um discurso em defesa do american way of l life.

As duas mulheres acompanham os maridos em seus valores. Claire Underwood, interpretada por Robin Wright, é tão inescrupulosa e maligna como o marido, enquanto Alex Kirkman é uma boa mãe, que apesar de ser inteligente e independente, compreende que como mulher do Presidente, deve guardar suas opiniões para si.

Em suma, o casal Underwood é completamente amoral e o casal Kirman, totalmente careta. Talvez até por isso mesmo, House of Cards, que já completou cinco temporadas, é uma série interessante, que você assiste com a máxima atenção, sempre a espera de uma nova sacanagem de Francis Underwood, enquanto Designated Survivor, na segunda temporada, é chata e arrastada, dividida entre uma trama inverossímil e mal construída e os discursos patrióticos de Tom Kirman

A série com Kiefer Sutherland deve terminar nessa segunda temporada,  enquanto a de Kevin Spacey está agora num impasse. Depois do episódio público em que ele foi denunciado como um predador sexual, os roteiristas tratam de escrever um novo roteiro, onde ele deverá “morrer fora de cena”, só que o contrato de Kevin Spacey impede a sua exclusão da série como pretendem os produtores.

Dos dois “presidentes”, certamente a maioria dos americanos escolheria Tom Kirman e os brasileiros?

Eu voto em Francis Underwood  e não abro.

No que somos iguais, nós os gaúchos, eles, os americanos

 

Na sua tarefa de construção de um tipo de pensamento único, ZH acolhe semanalmente em seus espaços dezenas de representantes do empresariado,  da política e da universidade, todos irmanados na ideia de que o Rio Grande deve ser reconstruído  a partir daquilo que eles imaginam que seja moderno e eficiente.

Na última semana coube ao publicitário Alfredo Fedrizi, que hoje se apresenta como consultor em inovação em tecnologia a repetir a velha história de que as dificuldades econômicas do Estado se devem a um tipo de pensamento atrasado e conservador.

Nada de se discutir as relações reais no mercado de trabalho, que isso não interessa, mas sim suas conseqüências na superestrutura política, ideológica e cultural.

O articulista levanta fatos reais para defender sua tese, mas os apresenta de forma isolada, sem tirar deles suas verdadeiras conseqüências.

Assim, somos um estado que cultiva um sentimento de exclusão em relação ao restante do País, baseado em premissas falsas da História (uma guerra perdida, um folclore construído nas cidades, heróis de pés de barro) ,o que nos impede de avançar, como os outros Estados (não diz quais) em busca da modernidade e da eficiência funcional.

Esquece ou não sabe, o articulista que essa construção fantasiosa (o gauchês) é mais uma resposta  à uma falta de um modelo econômico progressista, do que sua causa.

Por que não fizemos uma reforma agrária radical, exaltamos esse tipo do gaúcho fronteiriço, guerreiro e valente, criado (e ai  Fedrizi tem razão) por Paixão Cortes e  Barbosa Lessa.

O interessante é que todo esse folclore, apesar de mentiroso na essência, tem um aspecto positivo, na medida em que ele funciona como um elo entre todos os gaúchos, projetando um sentimento de orgulho que pode ser compartilhado por todos os que aqui nasceram.

Obviamente, é um sentimento perigoso, que extremado, nos levaria ao xenofobismo e ao preconceito racial, se aproximando do fascismo e até do nazismo, mas que, em pequenas doses, alivia as dores da exclusão social em que vive a maioria dos gaúchos.

O interessante é que essa mitologia, quando vista em outros povos, não é considerada um motivo de atraso. Veja-se o caso da história da expansão da economia dos Estados Unidos para o Oeste, com a dizimação de todos os povos indígenas que viviam na região, que o cinema transformou numa gesta heróica e símbolo da coragem e da determinação do homem branco americano.

Agora mesmo, ainda que com atraso, estou vendo na televisão a série Designated Survivor, com Kiefer Sutherland. Um ataque terrorista explode o Capitólio, no momento em que o Presidente, seus secretários e congressistas estão reunidos e mata a todos. Tom Kirkman, um modesto Secretário de Urbanismo, que não foi convidado, porque seria demitido no dia seguinte pelo Presidente, se vê de repente transformado no único sobrevivente na hierarquia governamental e precisa assumir a Presidência.

A série é bem fraca, cheia de diálogos piegas, de problemas familiares banais, de amores previsíveis e de uma tolerância racial de pouca credibilidade, mas o personagem principal – correto, franco e de boas intenções – representa muito bem o estereótipo do homem médio americano, tão falso como o nosso gaúcho fronteiriço.

O seu sentimento de patriotismo e de uma genuína certeza das boas intenções do homem norte-americano sobre os selvagens terroristas, obviamente árabes, são sempre mesclados pela tolerância com os que pensam diferentes, desde que não tentem mexer com o “american way of life”.

Lá, como aqui, tenta-se criar o sentimento de pertencimento a um clube fechado (o homem branco americano e o gaúcho fronteiriço) para não se discutir as causas mais profundas, que estão na essência do sistema capitalista de exclusão social.

(Caso você tenha chegado até aqui, não deixe de ler também no Sul 21 o excelente artigo de Franklin Cunha sobre a maternidade)

O pensar e o agir

O professor Ladislau Dowbor falou no Plenarinho da Assembléia sobre capital financeiro, tema do seu livro mais recente A Era do Capital Improdutivo. De cara, o professor Dowbor apresentou uma grande qualidade: ele usa a língua portuguesa para expor suas idéias e não o dialeto preferido de alguns analistas, o economês.
Quem já ouviu falar da campanha da professora Fatorelli sobre o Sistema da Dívida Pública, ou freqüenta alguns sites de esquerda, há muito já estava informado de como o capital financeiro, no mundo e também no Brasil, cada vez mais detém as rédeas do poder econômico e por conseqüência, o poder político.
O que o professor Dowbor acrescenta, fruto principalmente da sua atuação como pesquisador da ONU, são dados estatísticos e fatos que mostram como o capitalismo financeiro se transformou num câncer que está destruindo toda a civilização.
Depois daquela clássica afirmação de todos os economistas de esquerda, de que a visão de Marx sobre a luta de classes não deveria estar mais centralizada na oposição entre patrões e operários, mas sim no contraste entre o sistema financeiro e o sistema produtivo, o professor Dowbori apresenta os eixos em torno do quais o capital financeiro espalha suas maldades: no meio ambiente, destruído pela ânsia dos lucros; na sociedade, com o endividamento programado das famílias e no econômico, com a transferência dos investimentos para o setor financeiro, que não gera nenhum benefício para a sociedade.
Nessa altura, o professor Dowbor foi extremamente didático, apresentando uma série de exemplos para demonstrar como funciona o modelo e as diferenças de como opera esse capital financeiro em países desenvolvidos e no Brasil, onde taxas de juros escandalosas, tornam sua ação ainda mais nefasta para a população.
Feito o diagnóstico, quais são os remédios. Pelo menos na sua palestra, ele não avançou no detalhamento de quais são eles, embora todos nós saibamos que seu nome seria Auditoria da Dívida Pública, com o não pagamento do que é claramente uma extorsão dos grandes bancos sobre o governo e a sociedade.
Mas, para fazer isso, é preciso dispor do poder político. Quando os brasileiros estiveram o mais próximo disso – os 14 anos de governo do PT – nada foi feito nesse sentido.de agir contra o capitalismo financeiro. Ao contrário, Inclusive no segundo governo da Presidente Dilma, ela convidou para dirigir a política financeira do governo um funcionário do Bradesco, o maior agente no Brasil desse processo.
Ficou célebre um comentário de Marx sobre os filósofos “Os filósofos sempre se limitaram a interpretar o mundo.O que importa agora é mudar o mundo’
Talvez isso possa valer também para economia, embora, ao que parece, o professor Dowbor não pretende destruir a ordem capitalista e sim reformá-la.
Esse parece ser também o sonho da nossa esquerda, apostar suas fichas num processo constitucional, que a cada quatro anos, permite que as pessoas sejam chamadas para escolher entre determinados candidatos e não usar sua força (se é que tem alguma)para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de uma revolução.
Aliás, essa nossa esquerda parece ter excluído do seu vocabulário, como já fez a burguesia a décadas, a palavra revolução.
Na palestra do professor Dowbor,estavam políticos importantes do PT, como Raul Pont e Miguel Rosseto. Fico curioso em saber com que armas eles pretendem enfrentar o capital financeiro, principalmente o Rosseto, sempre apontado como candidato em potencial ao Piratini.

Criatividade

 

No seu livro Criatividade em Propaganda, Roberto Mena Barreto, ao falar sobre os comitês que analisam uma ideia criativa, justifica sua tese sobre eles com uma ilustração.

Um criativo, todo orgulhoso, mostra sua trabalho – um lindo faisão – para um comitê. No final, depois que todo mundo deu seus palpites, o que sobre a mesa é um pobre frango depenado.

Quando atendi a parte de propaganda do governo Olívio, havia um comitê avaliando os trabalhos que apresentava. O Guaracy, a Vera, a Inara, a Magda, a Ana formavam um grupo que respeitava as boas ideias e ao que me lembro, nunca cheguei a apresentar um faisão para eles, no máximo um galeto.

Fico tentado aqui a contar uma dessas histórias sobre comitês, ao estilo Edgar Ferreti. Só que nas histórias do Edgar tem sempre um grande herói vencedor, ele, e nessa que vou contar, só perdedores.

No início do Governo Sarney eu atendia pessoalmente a conta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, em Brasília. Como minhas amigas podem ver, minha vivência com ativistas feminista é antiga. Em determinado momento, eu devia apresentar um vídeo comemorativo à criação do Conselho.

Fui com o Enio Lindenbaum apresentar o resultado à presidente Terezinha Pintagui. Como acontece nas histórias do Ferreti, aprovação “cum lauda”. Só que a minha história não termina aí, diferente, portanto,das que o Ferreti conta.Entusiasmada, a presidente resolveu mostrar a peça a um grupo de mulheres que estava em Brasília para as comemorações, entre elas a diretora de cinema Tizuka Yamasaki (descobri depois que ela nasceu no bairro Belém Novo, em Porto Alegre) famosa na época pelo seu filme Gaigin, sobre a colonização japonesa no Brasil.

Exibido o vídeo, silêncio geral à espera da palavra da única especialista na sala,a diretora Tisuka Yamasaki . E ela foi curta e grossa: “achei tudo uma merda”. Depois de muitos apelos da presidente e a garantia de um bom cachê, ela se dispôs a ficar mais alguns dias em Brasília e rodar uma nova versão completamente diferente da que eu tinha apresentado.

Lembro apenas de uma cena do seu vídeo: um grupo de mulheres subindo a rampa do palácio com os punhos erguidos.Obviamente despeitado, achei o novo trabalho uma grande merda. As mulheres do Conselho, não. Não sei até hoje como o Enio, que produziu os dois vídeos,conseguiu cobrir todos os custos e ainda pagar o cachê da Tizuka.