Ironia é uma arma que só os inteligentes sabem usar

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O sujeito se espanta quando digo que não sou do PT

– Como pode ser isso?

– Você vive defendendo o Lula e diz que não é PT?

Respondo dando o serviço completo.

– Voto no Lula e acho que a Lava Jato é um grande esquema, que com a desculpa de enfrentar a corrupção, está destruindo a economia brasileira a serviço do imperialismo americano.

Aproveito o embalo e arrisco uma hipótese, que depois que verbalizo, até eu passo acreditar nela, a de que o Moro seria um agente da CIA.

O cara parece não acreditar, um ex-publicitário, professor em universidades católicas, dizendo umas coisas dessas.

– Parece conversa de comunista

_ O que te parece pior, comunista ou petista?

– É tudo a mesma coisa

Fico pensando, o cara tem um pouco de razão. Sabe no que os comunistas e os petistas são iguais? Os dois não têm senso de amor. Ao contrário da história do sujeito que ri da própria desgraça, os dois são sérios. Nunca riem. Não entendem ironias Frases de duplo sentido, nem pensar.

Lembro de uma história que o Werner me contou. Na época do Sarney presidente, recebeu um convite oficial para visitar Havana. Lá numa recepção com a nova “nomenklatura” cubana, um cristão novo, fez uma provocação:

– Quando vocês vão fazer uma eleição no Brasil?

– Breve, diz o Werner, mas fiel ao seu lema de perder o amigo e não a piada, completa:

– Por enquanto temos um presidente eleito com trezentos e poucos votos, o Sarney, mais democrático do que o de vocês, que teve um só voto, o Fidel.

Isso que o Werner sempre é, ou era, comunista e nunca deixou de defender a Revolução Cubana.

Uma vez, o amigo Guaracy me levou numa reunião do PT, a fim de propor ideias para uma campanha eleitoral que se aproximava. Era uma mesa com umas dez pessoas. O Guaracy me apresentou, publicitário, professor, coisa e tal e pediu que fizesse uma análise sobre os erros e acertos da comunicação do PT.

Quando usou a palavra publicitário, alguns já me olharam meio de lado, mas como estava lá para tentar ajudar, falei.

Disse o que pensava, se era para usar a propaganda, que se usasse direito; que propaganda não era discurso político; que ela não explicava nada; que era reducionista e que funcionava como uma lavagem cerebral, só que no nosso caso seria para o bem e não para o mal, como fazia a direita.

Todo mundo em silêncio, anotando em seus cadernos. O sujeito seguinte, apresentado pelo Guaracy, como o companheiro Fulano (no Partidão era camarada, aqui companheiro), desceu a lenha no que eu tinha dito, coisa de burguês, de capitalista; que a comunicação do partido deveria divulgar apenas suas verdades.

Tudo bem, nada como uma boa briga. Topei a parada e já ia respondendo, quando o Guaracy interveio:

– O companheiro já falou e agora deve esperar que todos falem para ter sua vez novamente.

Para o meu amigo de longa data, o Guaracy, eu era agora, um companheiro.

Era isso, tudo muito organizado. Me dei conta que os caras iam ficar pensando nos fins  e esqueceriam os meios de chegar lá. Claro que não ia dar certo tanta organização.

E, não deu.

Com tanta gente brilhante em seus quadros, com todo o carisma do Lula, com a inteligência do Tarso, e tantos outros intelectuais, o partido foi incapaz depois de 14 anos na Presidência da República, de tomar conta realmente do poder.

No início era uma marolinha, que as “más companhias”, como um dia as definiu o Olívio, transformaram num vendaval.

Bastou um conluio de parlamentares corruptos, com um judiciário onde amigos escolhidos viraram inimigos e apoio de uma mídia venal e o castelo veio abaixo

Havia um monte de inimigos dormindo na mesma cama e como toda a suruba com gente pouco confiável, não podia dar certo

Hoje, tenho amigas e amigas petistas que acompanham o que escrevo no facebook e no meu blog (blogdomarinoboeira, olha ai a propaganda), mas são seletivos e só curtem quando falo bem do Lula. Quando faço algumas ironias, como dizer que a esquerda festiva é melhor que a direita sinistra, fingem que não me lêem ou pior, não entendem a piada.

Mesmo assim continuo firme na decisão de votar no Lula em 2018, sempre com a esperança que essa vez ele não indique para o Supremo os juízes que vão depois condená-lo, nem convide para o ministério seus inimigos.


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