Discordando de Tarso Genro

Pode-se concordar ou não concordar com o que pensa e escreve o ex-governador Tarso Genro. Pode-se até mesmo criticar seu estilo empolado, cheio de citações de autores que poucos conhecem. O que não se pode é deixar de admitir que ele é hoje um dos poucos políticos que consegue sair do lugar comum das discussões eleitoreiras, sempre rasteiras e pobres de conteúdo.
Na sua coluna no Sul21, a partir da recente polêmica entre os ministros Gilmar Mendes e Luiz Roberto Barroso, Tarso relembra as semelhanças entre a República de Weimar na década de 1930 e o Brasil de hoje e adverte que podemos estar caminhando também para o fascismo como ocorreu na Alemanha.
Diz Tarso: “Menos que festejar este dissenso, embrutecido pelo não reconhecimento respeitoso das diferenças de opinião, entre os próprios contendores, creio que devemos alertá-los que a movimentação fascista, que emerge dos porões da crise econômica e moral do país, pode ser letal para o nosso futuro democrático. E que, mesmo com todas as mazelas, dissensos, limites e impropriedades do Supremo, nos últimos tempos, mesmo que alguns partidos recuperem, ou melhorem – segundo alguns – seus padrões de autenticidade na representação política, se o Supremo – que é composto por mulheres e homens do Direito – não repactuar um clima de respeito e tolerância, entre os seus integrantes, ao invés dele ser o homologador de uma saída democrática, ele poderá tornar-se o coveiro da democracia, no curto espaço que nos separa das eleições presidenciais de 2018”
Mesmo sem as informações de que dispõe Tarso, me atrevo a levantar algumas questões sobre o que ele escreveu.
Primeiro, não acho que nos encaminhamos para o fascismo, pelo menos não o semelhante ao modelo alemão, porque não interessa ao imperialismo impor aos países sobre sua influência, no caso o Brasil, um sistema de extrema coerção política. O arremedo de democracia em que vivemos é o modelo ideal e para sustentá-lo basta a força da mídia.
A democracia, que Tarso teme que seja destruída, existe apenas para pequenos segmentos da nossa sociedade e sua existência plena e para todos, só seria possível através de uma conquista revolucionária, que tanto ele, como todos nós, enxergamos como uma meta quase utópica.
Resta a sua esperança, que o Supremo possa ser o “homologador” de uma saída democrática para o Brasil, o que parece ser uma concessão de Tarso a um discurso conciliador, porque ele certamente sabe muito bem que esse não é o papel da instituição, transformada há muito tempo na “homologadora” do atual sistema de exclusão social do País.
Pensar que o avanço da democracia possa ser uma tarefa das instituições que existem para garantir o status quo vigente, é um grande equívoco, que infelizmente parece afetar até mesmo um pensador tão lúcido quanto o Tarso.

Os limites da revolução

Renato Russo, em sua música Eduardo e Mônica, de 1986, conta a história de um casal, Monica, que “gostava do Bandeira e do Bauhaus. De Van Gogh e dos Mutantes. Do Caetano e de Rimbaud”, e de Eduardo, “que gostava de novela. E jogava futebol-de-botão com seu avô”.

Você lembra o que Mônica pretendia fazer no dia em que encontrou Eduardo?

Ela queria ver um filme de Godard.

Para a geração intelectualizada que surgiu no mundo inteiro, e no Brasil, a partir dos acontecimentos de 1968, na França, Jean-Luc Goddard (1930) passou a ser um símbolo de uma rebeldia contra todos os valores constituídos, da polícia aos relacionamentos pessoais.

Agora, o diretor francês Michel Hazanavicius, que ficou famoso em 2012 ao ganhar o Oscar com seu filme mudo e em preto e branco, O Artista, conta um pedaço da vida de Godard, em seu filme O Formidável (Le Redoutable), exatamente o período em que, após a realização do filme A Chinesa (La Chinoise), ele dá uma virada em sua vida profissional.

Junto com Truffaut, Godard se tornara num dos principais nomes da chamada Nouvelle Vague Francesa ao dirigir, a partir de 1959, filmes como O Acossado (A Bout de Souffle), com Jean Paul Belmondo, Viver a Vida, (Vivre sa Vie), com Anna Karina, O Desprezo (Le Mépris), com Brigitte Bardot, O Demônio das 11 Horas (Pierrot le Fou) com Jean Paul Belmondo) e Alphaville, com Eddie Constantine, até que em 1967, profundamente influenciado pela Revolução Cultural Chinesa (1966/69) de Mao Tse Tung, passa a denunciar todas as formas tradicionais do cinema como burguesas, ao mesmo tempo em que inicia uma relação com Anne Karina, protagonista do filme.

O filme O Formidável, a partir de um relato de Anne sobre esse período atribulado da vida de Godard, nos coloca diante da grande questão que sempre assombrou os revolucionários: até que ponto uma mudança radical nas macro relações políticas e econômicas devem se refletir nas artes e mais do que isso nas relações interpessoais?

Nas análises que fazem das relações de classe na segunda metade do século XX, tanto Alan Badiou, quanto Slavoj Zizek, atribuem ao Maio de 68 em Paris e à Revolução Cultural da China a condição de grandes eventos, porque questionaram de forma radical, tanto a organização burguesa da sociedade  (na França), quanto os resquícios dessa organização do passado na nova sociedade socialista (China).

Outro grande revolucionário – Lenin – dizia que após a revolução socialista, levaria ainda muito tempo para que as formas de organização que a burguesia havia implantado no mundo durante os séculos de sua dominação, desaparecessem e que seus valores continuariam vigorando na nova sociedade na forma de valores pessoais.

Godard não aceita isso e passa a denunciar todas as formas em que a organização burguesa possa ser vista na sua atividade pessoal, a criação e produção de filmes.

Isso o coloca em choque não apenas com outros diretores de cinema (no filme,são mostrados seus rompimentos com Bernardo Bertolucci, o diretor e O Inconformista e Último Tango em Paris e Marco Ferreri, diretor de A Comilança) como também com as principais instituições francesas, do Governo, ao Partido Comunista e ao Festival de Cannes.

Pena que o filme de Hazanavicius se concentre mais, em como essas questões interferem nas relações amorosas com Anne, do que com a análise de uma questão mais crucial: os limites da revolução.

Apenas em um momento, ainda que rapidamente, ele discute a questão, quando relata as filmagens de O Vento do Leste (um faroeste que tenta contar uma história sobre o ponto de vista dos índios), com roteiro de Daniel com Bendit ( o famoso dirigente do Movimento de 68) em que Godard pretende por em prática a sua ideia de um roteiro com as cenas discutidas previamente entre todos os participantes do filme, do diretor, aos atores e aos técnicos.

Incomodado ao ver que suas idéias não são aceitas pelo grupo, ele levanta a grande questão: em qualquer forma de sociedade, o cinema tem uma linguagem própria que deve ser respeitada.

O filme O Formidável é um corte na longa vida de Godard e para os espectadores termina com o fim do seu relacionamento com Anna Karina.

Na realidade, Godard continuou filmando, obcecado pelas idéias do chamado “cinema olho” do russo Dziga Vertov, de que a câmara deve fazer um registro frio da realidade sem interferir nela.

Ainda assim, em 1984, ele foi capaz de dirigir outro filme que se transformou num escândalo mundial, Eu Vos Saúdo Maria (Je vou Salou Marie), ao recontar, sob um novo olhar, a história bíblica de Maria e José.

Durante o governo Sarney, o filme foi proibido no Brasil.

Recentemente (2010) Godard fez um filme experimental em 3D, Adeus à Linguagem, em que um homem e uma mulher discutem questões existenciais e filosóficas, observados apenas por um cachorro, discussão entremeada por imagens de arquivo que ilustram os assuntos.

Um pouco da história de Israel para quem só vê a Globo

Proposta da ONU (1947)  Partilha da Palestina. Criação do Estado de Israel (14/5/1948) Jerusalém  área internacionalizada.

Hoje, o Estado de Israel parece ser uma realidade definitiva, o que significa que a única possibilidade de paz para a Palestina é a existência de dois Estados, um judeu e outro árabe, que se reconheçam e respeitem suas integridades geográficas, o que significa o fim do sonho de um Estado único, laico e democrático, onde palestinos e judeus pudessem viver em paz.

Essa percepção, não invalida o fato de que a criação de um estado fundado em conceitos religiosos de origem judaica em meio à populações islâmicas, foi um absurdo geopolítico e só se tornou possível pelos interesses das grandes potências após a Segunda Guerra.

O sonho de um retorno dos judeus à sua terra de origem, após séculos da diáspora, ganhou novo impulso com o movimento sionista iniciado por Theodor Herz no fim do século XIX. Jornalista austríaco, Herz vai tentar mobilizar a comunidade judaica européia para o que ele chamava de solução do problema judaico com a criação do Estado de Israel.

Seu movimento receberá forte apoio, principalmente das comunidades judaicas religiosas do Leste europeu, basicamente da Rússia, vítimas de constantes pogrons durante o czarismo. Herz vai realizar 21 congressos sionistas para discutir a questão, o primeiro dos quais na Basiléia, quando foi definida a Palestina como o local que deveria sediar o Estado Judeu.

Na Europa Central, principalmente na Alemanha, boa parte da população judaica mais intelectualizada e secular, se considerava assimilada pela cultura germânica e se apôs ao sionismo.

Mesmo assim, o movimento cresceu e realizou outros congressos, em que se discutiu propostas de novos locais para o futuro estado, incluindo a Ilha de Madagascar, Chipre,o Congo e até mesmo a Patagônia.

No terceiro congresso, em 1903, foi aprovada a indicação da Uganda como “novo lar judaico”, proposta mais tarde abandonada.

A consolidação da opção pela Palestina se deu depois da famosa Declaração de Balfour, de  novembro de 1917, que garantia a “criação de um lar para os judeus na Palestina, desde que respeitado os direitos dos seus atuais habitantes.

Lord Balfour era o Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros e a declaração faz parte da carta que escreveu ao banqueiro, o Barão de Rothschild, dirigente do movimento sionista britânico, garantindo o apoio da coroa inglesa à causa sionista, em troca do financiamento dos banqueiros judeus à guerra contra os turcos.

Desde então, o movimento migratório judeu para a Palestina só fez crescer, apesar da oposição dos governos e populações árabes da região

O fim da guerra e a ampla divulgação do significado do Holocausto para a população judaica da Europa, criou o clima emocional necessário para a aprovação pela ONU, em 1947, da criação do Estado de Israel.

Como os palestinos, na sua luta histórica pela libertação do colonialismo inglês, haviam em determinado momento apoiado os nazistas (o Mufti de Jerusalém , Amin al- Usayni– a principal autoridade religiosa islâmica – esteve em Berlim em 1942, para pedir o apoio de Hitler contra a Inglaterra), tiveram escasso poder nas negociações da ONU.

Interessante lembrar que nos debates na ONU sobre a criação do Estado de Israel, a maior defensora dos interesses judeus foi a União Soviética, muito mais que os Estados Unidos e mesmo a Inglaterra, dividida em agradar os judeus e os xeiques árabes dos estados criados pela divisão entre franceses e ingleses da região (tratado  Sykes- Picot), depois da expulsão dos turcos.

Stalin imaginava enfraquecer a Inglaterra e a França na região e usar Israel como uma cunha no Oriente Médio, ainda mais que muitos dos novos dirigentes judeus eram socialistas vindos do Leste Europeu, com Ben Gurion e Golda Meyer.

O tempo mostrou como ele estava errado e logo Israel começou uma ampla campanha expansionista sobre o restante das terras árabes da região e se transformou no mais sólido aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio

A religião faz mal às pessoas

 

O conflito entre palestinos e judeus é basicamente político. Israel não aceita a existência de um estado palestino que englobe as terras que ocupa desde 1967.

Mas, o conflito é também exacerbado pelas posições religiosas opostas dos dois lados. Em seu livro “Deus, um Delírio” (The God Delusion), o autor, Richard Dawkins dá um exemplo de como, nesse caso, a religião contribui para ampliar as diferenças entre os dois povos.

Em 2006, o psicólogo israelense Georges Tamarin realizou um teste para saber como as crianças de hoje reagem diante das narrativas bíblicas. Mais de mil crianças israelenses, entre 8 e 14 anos, ouviram o relato da batalha de Jericó, contido no chamado Livro de Josué:

Disse Josué ao povo: gritai, porque o Senhor vos tem dado a cidade. Porém a cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela. Toda a prata, e o ouro, e os vasos de metal e de ferro são consagrados ao Senhor; irão ao tesouro do Senhor. E tudo quando havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo e ao jumento. Tão somente a prata, e o ouro e os vasos de metal e de ferro deram para o tesouro da casa do Senhor.”

Tamarin perguntou às crianças se elas achavam que Josué e os israelitas agiram bem ou não. Do total, 66% deram aprovação completa, 26% reprovação total e 8%, aprovação parcial. Entre os que aprovaram a ação, as explicações mais típicas foram:

Deus prometera esta terra a eles. Se eles não tivessem agido dessa maneira ou não tivessem matado ninguém, haveria o perigo de que os filhos de Israel fossem assimilados pelos Góis”; “Josué agiu certo porque Deus mandou que ele exterminasse o povo para que as tribos de Israel não fossem assimiladas entre eles e aprendessem seus maus hábitos”; “o povo que morava na terra era de uma religião diferente, e quando Josué os matou ele varreu a religião deles da face da terra”

Entre os que reprovaram, houve explicações como estas para a posição que assumiram:

 “Acho que foi ruim, já que os árabes são impuros e se alguém entra numa terra impura também fica impuro e amaldiçoado como eles”; “acho que Josué não agiu bem, porque eles podiam ter poupado os animais para eles mesmos”; “acho que ele podia ter deixado os bens de Jericó, porque se eles não fossem destruídos,poderiam ter ficado para os israelitas.”

Para um grupo diferente de 168 crianças israelenses, foi contada a mesma história, só mudando os nomes de Josué para um hipotético general chinês chamado Lin e de Israel por um reino chinês de 3 mil anos atrás. Dessa vez, o resultado foi que apenas 7% aprovaram o procedimento do general chinês e 75% o reprovaram.

A pesquisa do psicólogo israelense mostra que os caminhos que possam levar a um entendimento na Palestina são muito difíceis e que o ensino religioso, principalmente aquele fundamentalista, está formando gerações comprometidas com a guerra e não com a paz.

Caso o mesmo teste tivesse sido aplicado às crianças palestinas é bem possível que o resultado fosse parecido, o que mostra até que ponto a religião serve para separar os povos e levá-los muitas vezes à guerra. Por trás dos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda, entre xiitas e sunitas nos países árabes e mesmo nos Balcãs, aparece uma questão religiosa, ainda que ela não seja sempre a causa fundamental para que eles existam. Nesses casos, ela serve para identificar as partes oponentes, aumentar a carga de ódio entre elas e levantar uma bandeira moral para justificar a matança dos pretensos inimigos.

 

Olha lá o que você vai dizer

Agora que se comemoram os 100 da Revolução Russa, é bom lembrar que nos primeiros anos do regime comunista da União Soviética, ela se tornou a pátria da liberdade no mundo inteiro. As mais ousadas experiências artísticas, não só eram permitidas, como estimuladas. Os plenos direitos das mulheres, inclusive o acesso ao aborto, se tornaram leis.

O processo de estreitamento democrático veio depois, por razões históricas muito claras, principalmente a sucessão de tentativas, algumas armadas, de destruir o novo regime. Para se defender, ele  foi excluindo todo e qualquer tipo de ação, que na visão dos seus líderes, pudesse por em risco o novo sistema.

Daí, o que devia ser uma ditadura da classe trabalhadora por algum tempo, se transformou numa ditadura permanente de um partido e em seguida de um grupo dentro desse partido, até se chegar à ditadura pessoal de Stalin.

Com isso, qualquer pensamento divergente passou a ser visto como um desvio pequeno burguês na melhor das hipóteses ou de traição, nos casos mais graves.

Essa procura do pensamento único, até aceitável em certas situações de risco eminente, se tornou um empecilho para o desenvolvimento de um sistema de democracia socialista dentro da União Soviética, das chamadas Democracias Populares e por extensão, nos partidos comunistas do Ocidente.

No Partidão, quando alguém pretendia pensar fora da linha justa, se dizia que ele tinha desbundado.

Lembro tudo isso pelas respostas que li no facebook a um comentário meu sobre a aparência delicada da senadora Gleisi Hoffmann, que comparei à boneca Barbie.

– Comentário machista, ouvi imediatamente dessa nova guarda do pensamento politicamente correto.

Quem sabe essa critica seja justa e eu esteja sendo realmente machista?

Em minha defesa, disse que talvez seja influência do cinema americano, que para caracterizar os sentimentos das pessoas – bons ou maus – escolhia caras diferentes.

Não se trata daquela situação grosseira em que os filmes de guerra americanos mostravam índios, negros, japoneses e alemães, no passado, e hoje, os árabes, como agentes do mal, mas algo mais sutil e pessoal.

Quando aparecem num filme as caras de John Malkowich, de Ralph Fiennes ou de um Gary Oldmann, você sabe que boas coisas não estão a caminho. Ao contrário, James Stewart, Brad Pitt, Nicolas Cage e Tom Cruise, estão sempre do lado do bem.

Nas novelas da Globo, esse maniqueísmo é total. Os bons e os maus são apresentados, literalmente de cara, desde os primeiros capítulos.

Os petistas principalmente as mulheres do PT, parecem que hoje tem o monopólio de decidir o que é politicamente correto. O que pode se dizer e o que não se pode.Nada de chamar o Lula de Sapo Barbudo, como fez uma vez o Brizola. Isso só vale para os adversários. O Temer é o Conde Drácula, o Moreira Franco é o Gato Angorá e o Eliseu Padilha é o Quadrilha.

Charges mostrando o Temer com chifres e o rabo do Satanás são comuns nas redes sociais. Aquele famoso bigodinho do Hitler já apareceu no Bolsonaro u ge no Moro.

Eu gosto. Acho engraçado. Eles certamente não gostam. Mas quem manda serem tão reacionários.

Na época da Ditadura, durante algum tempo, uma forma de criticar os generais era ver como o Millor e o Henfil os mostravam no Pasquim.

Hoje todos nós nos divertimos chamando o Gilmar de Beiçola, mas Barbi para a Gleisi, não pode.

Qualquer alusão ao comportamento sexual de  uma pessoa,vira um anátema para quem o faz.

O Lula, possivelmente, não se preocupa nem um pouco com isso.

Em 2006, na sua campanha para o segundo mandato, esteve em Pelotas, onde gravou programas na companhia do ex-prefeito Fernando Marroni.

Na ocasião vazou uma cena, ainda hoje disponível no youtube que mostra o Lula ajeitando a gravata de Marroni, enquanto pergunta a ele

– Pelotas é um grande pólo exportador?

Quando Marroni concorda com um movimento de cabeça, Lula se vira para o lado, zombeteiro e diz

– Exportador de viados.

Claro que era uma brincadeira, mas uma brincadeira machista, mas era o Lula e aí é mais fácil esquecer.

Na minha síntese fica a ideia de que um pouco de tolerância e abertura para certas piadas (sei que na sua essência a piada encerra sempre uma maldade contra alguém) nos ajudará a suportar viver num país em que somos governados pelo Conde Drácula e num Estado comandado por “aquele gringo polenteiro”.

Nada pessoal.

Democracia

 

 

A retomada dos aspectos mais selvagens do capitalismo no mundo inteiro nos dias atuais, com o abandono da possibilidade de sua transição pacífica para um socialismo democrático, nos traz de volta os ensinamos de Lenin sobre qual deve ser o papel dos que se opõem a esse sistema.

Em boa hora, portanto, Editora Boitempo lança uma coleção denominada Arsenal de Lenin, com as principais obras desse pensador, humanista e revolucionário. O primeiro volume, já disponível nas livrarias é o Estado e a Revolução.

Uma das questões que Lenin discute é a questão da democracia.

Quando, hoje no Brasil, se defende a radicalização da democracia, como faz o Tarso Genro, é claro que está se pensando numa forma de resistência ao golpismo atual.

Mesmo assim é sempre interessante lembrar o que dizia Lenin sobre a democracia, citando Marx e Engels. Para ele, democracia é uma forma de organização do Estado, que estabelece como devem ser a relações entre as classes.

A supressão do Estado, fim último do comunismo, suprimirá não só o Estado, como as classes sociais diferenciadas. Nesse caso, desaparecerá também o conceito de democracia (governo da maioria) como forma de relacionamento entre as classes, porque todos serão iguais.

Ironia é uma arma que só os inteligentes sabem usar

O sujeito se espanta quando digo que não sou do PT

– Como pode ser isso?

– Você vive defendendo o Lula e diz que não é PT?

Respondo dando o serviço completo.

– Voto no Lula e acho que a Lava Jato é um grande esquema, que com a desculpa de enfrentar a corrupção, está destruindo a economia brasileira a serviço do imperialismo americano.

Aproveito o embalo e arrisco uma hipótese, que depois que verbalizo, até eu passo acreditar nela, a de que o Moro seria um agente da CIA.

O cara parece não acreditar, um ex-publicitário, professor em universidades católicas, dizendo umas coisas dessas.

– Parece conversa de comunista

_ O que te parece pior, comunista ou petista?

– É tudo a mesma coisa

Fico pensando, o cara tem um pouco de razão. Sabe no que os comunistas e os petistas são iguais? Os dois não têm senso de amor. Ao contrário da história do sujeito que ri da própria desgraça, os dois são sérios. Nunca riem. Não entendem ironias Frases de duplo sentido, nem pensar.

Lembro de uma história que o Werner me contou. Na época do Sarney presidente, recebeu um convite oficial para visitar Havana. Lá numa recepção com a nova “nomenklatura” cubana, um cristão novo, fez uma provocação:

– Quando vocês vão fazer uma eleição no Brasil?

– Breve, diz o Werner, mas fiel ao seu lema de perder o amigo e não a piada, completa:

– Por enquanto temos um presidente eleito com trezentos e poucos votos, o Sarney, mais democrático do que o de vocês, que teve um só voto, o Fidel.

Isso que o Werner sempre é, ou era, comunista e nunca deixou de defender a Revolução Cubana.

Uma vez, o amigo Guaracy me levou numa reunião do PT, a fim de propor ideias para uma campanha eleitoral que se aproximava. Era uma mesa com umas dez pessoas. O Guaracy me apresentou, publicitário, professor, coisa e tal e pediu que fizesse uma análise sobre os erros e acertos da comunicação do PT.

Quando usou a palavra publicitário, alguns já me olharam meio de lado, mas como estava lá para tentar ajudar, falei.

Disse o que pensava, se era para usar a propaganda, que se usasse direito; que propaganda não era discurso político; que ela não explicava nada; que era reducionista e que funcionava como uma lavagem cerebral, só que no nosso caso seria para o bem e não para o mal, como fazia a direita.

Todo mundo em silêncio, anotando em seus cadernos. O sujeito seguinte, apresentado pelo Guaracy, como o companheiro Fulano (no Partidão era camarada, aqui companheiro), desceu a lenha no que eu tinha dito, coisa de burguês, de capitalista; que a comunicação do partido deveria divulgar apenas suas verdades.

Tudo bem, nada como uma boa briga. Topei a parada e já ia respondendo, quando o Guaracy interveio:

– O companheiro já falou e agora deve esperar que todos falem para ter sua vez novamente.

Para o meu amigo de longa data, o Guaracy, eu era agora, um companheiro.

Era isso, tudo muito organizado. Me dei conta que os caras iam ficar pensando nos fins  e esqueceriam os meios de chegar lá. Claro que não ia dar certo tanta organização.

E, não deu.

Com tanta gente brilhante em seus quadros, com todo o carisma do Lula, com a inteligência do Tarso, e tantos outros intelectuais, o partido foi incapaz depois de 14 anos na Presidência da República, de tomar conta realmente do poder.

No início era uma marolinha, que as “más companhias”, como um dia as definiu o Olívio, transformaram num vendaval.

Bastou um conluio de parlamentares corruptos, com um judiciário onde amigos escolhidos viraram inimigos e apoio de uma mídia venal e o castelo veio abaixo

Havia um monte de inimigos dormindo na mesma cama e como toda a suruba com gente pouco confiável, não podia dar certo

Hoje, tenho amigas e amigas petistas que acompanham o que escrevo no facebook e no meu blog (blogdomarinoboeira, olha ai a propaganda), mas são seletivos e só curtem quando falo bem do Lula. Quando faço algumas ironias, como dizer que a esquerda festiva é melhor que a direita sinistra, fingem que não me lêem ou pior, não entendem a piada.

Mesmo assim continuo firme na decisão de votar no Lula em 2018, sempre com a esperança que essa vez ele não indique para o Supremo os juízes que vão depois condená-lo, nem convide para o ministério seus inimigos.

Marlon Brando, “the fuck machine”

Por favor, não leia esse texto, se você, não gosta de cinema, não sabe quem foi Marlon Brando e principalmente, se você tem algum tipo de preconceito, intelectual ou religioso, contra fofocas envolvendo gente famosa, pois é do que trata o livro “Marlon Brando – A Face Oculta da Beleza”

Caso você não se enquadre nos itens citados, não deixe de ler o livro de François Forestier (jornalista da revista Nouvel Observateur, romancista e biógrafo), traduzido para o português pela Editora Objetiva. São quase 200 páginas que você lê numa tacada só, porque o autor, além de tudo, escreve muito bem e está suficientemente documentado para contar as mil histórias de Marlon Brando, envolvendo tanto a sua vida de ator extraordinário, quanto a do grande amante que não distinguia seus interesses sexuais de mulheres e homens.

Brando – chamado de fuck machine – usou seu poderoso instrumento, como ele gostava de se referir ao seu pênis, com centenas de mulheres, das mais famosas atrizes de cinema às mais modestas funcionárias dos estúdios, mas se submeteu aos pênis de muitos amigos, dos quais os casos mais duradouros foram com o ator e diretor de cinema francês Christian Marquand e com o também ator Wally Cox, que o acompanhou desde que era quase um desconhecido no seu início em Hollywood.

Quase no final da vida, ele diria que não tinha vergonha de ser também homossexual, mas são as mulheres famosas do cinema que emolduram sua história Sua lista é imensa e dela fazem parte Marilyn Monroe, Ava Gardner (da qual desistiu depois que alguns mafiosos a mando de Frank Sinatra o ameaçaram de morte), Shelley Winters, Sondra Lee, Marie Saint Just, Anne Ford, Juliette Greco, Gene Tierney, Lauren Bacall, Ann Sheridan. Ana Maria Pierangeli, Anna Magnani, Ursula Andress,Loreta Young Grace Kelly (essa, sujeita a confirmação) e dizem até, Doris Day.

Vivien Leigh, a inesquecível Scarlet O´Harra de E o Vento Levou, fez com Brando, Blanche DuBois, em Uma Rua Chamada Desejo e teve com ele um caso de amor para o desespero e o ciúmes do marido Laurence Olivier, que disputava com o Brando o título de “o melhor ator do mundo.

Vivian Leigh é uma das poucas mulheres que mereceram um capítulo especial de Forestier. Suas brigas com o marido Olivier ficaram famosas e também seus casos com amantes famosos, como Brando e Peter Finch. Drogada e ninfomaníaca, costumava sair do teatro Old Vic, em Londres e se fingir de prostituta no Soho. Morreu sozinha, já completamente alienada mentalmente, aos 54 anos.

Além das mulheres, cada uma delas com passagens curtas pela sua vida, Marlon Brando foi casado durante algum tempo e teve filhos com Anna Kashfi, Josanne Mariani-Berenger, Movita Casteneda (a mais duradoura), Maria Cristina Ruiz e Rita Moreno.

Sua vida pessoal sempre foi cercada de tragédia. O pai, que Marlon odiava, batia sistematicamente na mãe, que era alcoólatra e se prostituía; a filha Cheyenne se suicidou e o filho Christian, drogado desde a juventude, foi preso por assassinar um cunhado e morreu aos 49 anos.

Quem se interessa mais pelo cinema, do que pelas aventuras sexuais de Brando, vai encontrar narrativas saborosas dos filmes em que participou (foram dezenas), algumas obras primas e outros deslavados comerciais que ele fazia apenas para ganhar dinheiro.

Brando sempre dizia que detestava seu trabalho e em muitos filmes infernizava a vida dos diretores e atores, fingindo que esquecera suas falas, mudando o roteiro, rindo quando devia chorar e fazendo caretas para desconsertar seus companheiros de cena. É famoso o fato de mastigar alho antes de cenas de amor, quando não simpatizava com a parceira. Além de tudo, não costumava tomar banho e o cheiro do seu corpo invadia o set.

Poucos diretores eram respeitados por Brando – Kazan (Sindicato de Ladrões) Huston(O Pecado de Todos Nós) Coppola (O Poderoso Chefão), Manckiewcz ( Júlio Cesar), Fred Zinnemann (Espíritos Indômitos) Bertolucci (O Último Tango em Paris) – e com eles fez seus melhores filmes.

Como coroamento de uma vida cheia de escândalos, Marlon Brando se envolveu num caso que até hoje daria o que falar,  a famosa cena de sodomia com Maria Schneider do filme O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

O filme provocou espanto no mundo inteiro.  Forestier diz dele: “Para os hipócritas, o filme é insuportável. Para os militantes da causa sexual, é tímido demais. Norman Mailer se exalta: o filme começa com duas palavras de Brando,  fuck God. Se Bertolucci quer foder Deus, precisaria ser mais claro”.

Maria Schneider, a heroína do filme, diz: “Brando e eu temos algo em comum. Somos bissexuais”

O grande diretor sueco Ingmar Bergaman tem outra visão: “É a história de dois homossexuais. Esqueçam os seios da jovem, ela é como um garoto. Há no filme um profundo ódio às mulheres, mas se o virem como uma história entre um homem e um menino, entenderão tudo”.

Marlon Brando morreu no dia primeiro de julho de 2004, aos 80 anos, sozinho, assistindo o programa que mais gostava de ver, as velhas comédias de Abbott & Costello.

O delator, essa triste e abominável figura

O delator sempre foi, tanto na mitologia, quando na história documentada, uma triste figura, aquele que troca suas convicções, sejam elas quais forem, por algum tipo de vantagem material.

O Brasil da Lava Jato e das perseguições políticas trouxe de volta esses pobres personagens, tão opostos aos corajosos, que são capazes de enfrentar com altivez seus inquisidores.

Ou se faz o papel do Palocci , ou do José Dirceu.

De todos os modernos delatores, um que se tornou símbolo dessa queda aos infernos, foi Elia Kazan, um dos maiores diretores de toda história de Hollywood, pelo trabalho pelo trabalho que fez, mas cujo papel como um denunciante junto à Comissão de Atividades Anti Americana do Senado, dirigida pelo tristemente célebre, senador Joseph Mc Carthy, entre 1950 e 1957, o tornou uma figura abominável como ser humano.

Orson Welles disse que ele trocou sua alma por uma piscina.

Quando recebeu um Oscar honorário da Academia de Cinema, em 1999, das mãos de Martin Scorcese, quase 50 anos depois que a comissão presidida por Mc Carthy terminara, muitos atores presentes no evento, se recusaram a aplaudi-lo, entre os quais Sean Penn, Holly Hunter, Ed Harris, Richard Dreyfus e Rod Steiger.

Kazan, de origem grega, nasceu em Istambul, na Turquia, em 1909 e morreu em Nova York, em 2003.

Tornou-se um diretor teatral de sucesso na Broadway, antes de trocar Nova York por Hollywood.

Entre os grandes filmes que dirigiu, estão: Uma Rua Chamada Desejo (A Streetcar Named Desire) de 1951; Viva Zapata, de 1952; Sindicato de Ladrões (On the Waterfront) , de 1954; Vidas Amargas (East of Eden), de 1955; Boneca de Carne (Baby Doll), de 1956; Clamor do Sexo (Splendor in the Grass), de 1961 e O Último Magnata ( The Last tycoon), de 1976.

Membro do Partido Comunista Americano, Kazan – ao contrário de outros que se negaram a colaborar (Dashiell Hammett, o criador do Falcão Maltês, por exemplo, mesmo idoso, doente e alcoólatra, manteve-se em silêncio diante da comissão) – entregou amigos, atores, diretores, que a partir da suas denúncias foram incluídos na famosa Lista Negra de Hollywood e impedidos de continuar trabalhando profissionalmente.

O diretor John Berry, incluído na lista, disse de Kazan: “Todo mundo muda de opinião. O sujeito é comunista, depois vira reacionário, é a vida. Ama uma mulher, divorcia-se, é a vida. Mas uma coisa não se tem o direito de fazer: delatar”

Jules Dassin, que havia feito nos Estados Unidos grandes filmes, como Força Bruta e Cidade Nua, foi obrigado a emigrar para a Europa, onde dirigiu, depois, Rififi (na França) e Aquele que Deve Morrer e Nunca aos Domingos, na Grécia, disse dele: “Kazan era o rei do teatro, nós gostávamos dele. Éramos amigos de longa data. Aquilo me fez mal. O que ele fez foi diabólico. Mais tarde, ofereceu emprego às pessoas que contribuíra para incluir na lista negra. E assim tentou corrompê-las dando-lhes trabalho, buscando sua aceitação.”

Esse período negro na história americana foi retratado por George Clooney,  no filme Boa Noite, Boa Sorte, que narra os embates do jornalista Edward Monroe contra Mc Carthy.

Astrogildo, o organizador.

 

 

Finjo que não o estou vendo, mas não adianta, ele me puxa pelo braço.

– E aí amizade, como vai essa bizarria?

O Astrogildo não muda essa frase de apresentação há 30 anos.

– Tudo bem

– Como tudo bem, virou hippie depois de velho?

Para o Astro, é assim que ele sempre foi chamado, como estou de calça de brim e tênis, sou um hippie. Ele está sempre de terno e gravata.

– E você, Astro, vai numa festa?

Confesso que minha resposta também não muda há anos.

Ele me conta então que está organizando um grupo de antigos revolucionários para discutir a questão política vista sob uma ótica espiritual e vai dando os nomes dos que já se comprometeram a participar da próxima reunião.

Enquanto vou ouvindo esses nomes, alguns dos quais, já imaginava no andar de cima, como gosta de dizer o Sérgio Gonzales quando anuncia que o cara morreu, fico pensando em qualquer desculpa para justificar que não pretendo entrar em grupo nenhum organizado pelo  Astro.

Desde que nos conhecemos no ginásio do Julinho, o Astro sempre foi “O Organizador”. Nas peladas do recreio, acabávamos por perder um tempo enorme, com ele dividindo os times por idade, tamanho e habilidade no jogo.

Como ele era o dono da bola, tínhamos que atender suas preocupações com a organização, mesmo que no fim sobrasse pouco tempo para o jogo.

No movimento estudantil seu grande feito foi organizar as tendências de esquerda, dando notas de 5 a 10 para cada um dos componentes dos grupos em função do seu comprometimento com a causa.

Certa vez, quase fui reprovado por ter faltado uma reunião para ir ao cinema ver um filme do Kubrick.

– De um diretor americano, ainda por cima, me criticou o Astro

– O filme é anti-militarista e o Kubrick é até um cara de esquerda.

– Não importa, você faltou exatamente no dia em que íamos decidir sobre a organização de um movimento de protesto contra o corte das verbas para o restaurante universitário.

Consegui, no final, uma nota 6 e fui aprovado, ganhando o direito de continuar participando do grupo organizado pelo Astro.

Subitamente, o Astro desapareceu. Disseram que ele tinha sido preso, torturado e até morto, mas ninguém sabia realmente dele, até que ele apareceu há uns 10 anos transvestido no Pastor Astrogildo, da Organização Religiosa dos Filhos da Ordem.

Como ele descobriu meu endereço ainda não sei, mas desde então a sua meta parece ser a de me incluir na sua organização religiosa.

– Sou ateu, Astro, você bem sabe disso.

– Não importa. A nossa organização é aberta para todos Você vai fazer parte do grupo dos ainda não convertidos. É um processo. Você começa nesse grupo e depois passa para os neo-convertidos, e finamente o grupo dos eleitos.

Prometo pensar no assunto para me livrar do Astro.

Quando me aperta a mão para a despedida, me deixa um cartão

Vejo que o cartão tem seu nome endereço e a frase, Ordem e Progresso. Ia comentar que ele estava plagiando o lema positivista da nossa bandeira, mas achei melhor cair fora porque senão o Astro iria desenvolver mais uma longa tese sobre a beleza das coisas organizadas.