O velho humor politicamente incorreto

 

Nos novos tempos politicamente corretos, certos temas estão vedados para quem quiser fazer humor nos meios de comunicação e quem se atrever vai ser apontado como preconceituoso, chauvinista, homofóbico,ou até coisa pior. Entretanto, grandes humoristas brasileiros e do mundo inteiro, nunca fugiram desses temasno passado.

Millor Fernandes, Stanislau Ponte Preta, Barão de Itararé e Groucho Marx foram alguns deles:

O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris. (Millor)

Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro. (Stanislau Ponte Preta)

Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo. (Stanislau Ponte Preta)

Se o Diabo entendesse de mulher, não tinha rabo nem chifre. (Stanislau Ponte Preta)

Para as mulheres, os velhos são de duas categorias, os insuportáveis e os ricos (Barão de Itararé)

Eu corri atrás de uma garota por dois anos apenas para descobrir que os seus gostos eram exatamente como os meus: Nós dois éramos loucos por garotas (Groucho Marx)

Pior casamento é o que dá certo (Millor)

O casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso (Barão de Itararé)

Restaure-se a moralidade, ou nos locupletamos todos (Stanislaw Ponte Preta)

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim (Millor)

Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas, custam tanto (Groucho Marx)

O homem que se vende recebe sempre mais do que vale (Barão de Itararé)

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. (Barão de Itararé)

Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio. (Groucho Marx)

 

Mortos sem sepultura

As notícias e até mesmo os anúncios nos jornais, às vezes, levam a nossa imaginação a vôos inesperados.

Achei inusitado um anúncio do Cemitério São Miguel e Almas, avisando uma centena de famílias, que seus mortos poderiam ser despejados de suas sepulturas individuais e colocados num depósito comum, se os alugueis em atraso não fossem rapidamente quitados.

Vi isso como mais uma prova de que numa sociedade capitalista, tudo é guiado pelo dinheiro e não adianta morrer para se ver livre das dívidas e das cobranças.

Pensei assim: são mortos que vão ficar sem suas sepulturas.

Dessa frase, pulei para a peça de Jean Paul Sartre (1905/1980), Mortos Sem Sepultura, que fala não de mortos, mas de pessoas vivas, divididas pelas questões éticas que o existencialismo sempre propôs, fundamentalmente a nossa responsabilidade moral em assumir determinadas posições e suas inevitáveis conseqüências.

Estreada em Paris, em 1946, logo depois do final da Segunda Guerra, Morts Sans Sepulture, propõe uma discussão sobre a resistência e o colaboracionismo diante do inimigo nazista, sem deixar de lado a questão da escolha a que todos homens são submetidos. Era o momento em que o existencialismo de Sartre parecia se impregnar do marxismo triunfante após a derrota dos nazistas.

Em 1954, a peça foi montada no Brasil com Paulo Autran e Cleyde Yaconis, sem grande repercussão.

Em 1977, o encenador gaúcho Fernando Peixoto (1937/2012), fez uma releitura do texto de Sartre, em busca das semelhanças entre a França ocupada pelos alemães e o Brasil da ditadura militar. O programa da peça reforçava  essa aproximação ao simbolizar a tortura pela foto de um “pau de arara” contribuição brasileira para o suplício dos presos.

Não seria hoje, minha amiga Sandra Dani, o momento oportuno para recuperar as questões colocadas por Sartre em sua peça?

A Bolívia é logo ali

Onde muita gente vê semelhanças, nós, brasileiros, vemos diferenças. Como os argentinos se consideram parte da Europa no hemisfério sul, nós nos imaginamos os norte-americanos do sul do Equador, diferentes de paraguaios, colombianos, peruanos e bolivianos, principalmente os bolivianos.

Os verdadeiros norte-americanos parecem não pensar assim. Quando visitou o Brasil em 1982, durante o último governo da ditadura, o de João Figueiredo, o presidente Ronald Reagan, no jantar de despedida, levantou sua taça para saudar o povo boliviano.

Uma boa parcela de brasileiros não gosta de ser confundida com bolivianos porque se acha mais branca e importante do que eles.

Uma pena, porque eles têm muitas coisas para nos ensinar.

Em 2.015, fiz um longo périplo pela Bolívia, de carro, partindo de Puerto Suarez, na fronteira com Corumbá e seguindo por centenas de quilômetros, em direção a Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba, La Paz, Copacabana, no Lago Titicaca, e saindo pelo Peru no rumo do Oceano Pacífico.

Na fronteira, o policial brasileiro, mostrando como o preconceito é grande, nos alertava para o perigo que existe em andar “no meio desses índios” pouco afeitos à civilização, principalmente para a corrupção de seus policiais.

É verdade, a cada posto de pedágio, a cada barreira policial, vem sempre o mesmo pedido –  “uma propina para el té”.  Parece ser uma instituição nacional. A propina é pedida sem o disfarce comum em estradas brasileiras, argentinas ou uruguaias, onde ela só é “sugerida”, depois de cansativas enumerações de todas as infrações hipoteticamente cometidas pelo motorista. Na Bolívia, o pedido é feito abertamente, sem constrangimentos, sempre com um sorriso de quem conta com a tal propina como um complemento salarial.

Fora isso – que não parece muito grave – só encontramos gente hospitaleira, sempre pronta a ajudar, vivendo uma democracia social dificilmente encontrada em outros lugares.

Se, nós tivemos um presidente operário, Lula, quebrando a hegemonia de uma elite política que durou séculos, eles tinham (e têm ainda) um presidente indígena ( Evo Morales) da etnia dos Uru-Aimarás, líder sindical dos cocaleros, agricultores que cultivam a coca para fins medicinais.

Depois de enfrentar as intenções norte-americanos de erradicar a coca do Bolívia, como tentaram fazer na Colômbia, provocando uma guerra interminável, Morales conduz um país pacífico e democrático, com amplas possibilidades de um grande desenvolvimento nos próximos anos.

As maiores reservas de lítio do mundo – material fundamental para a produção de baterias para celulares e computadores – se encontram na grande salina de Uyni, enquanto o manganês, outro material de alto valor estratégico é abundante em Mutun, na região de Puerto Suarez.

Obviamente, todo esse potencial econômico, tem feito com que o grande capitalismo internacional volte seus olhos para a Bolívia, como faz no caso do petróleo na Venezuela e tente desestabilizar o governo de Morales, tarefa na qual é amplamente ajudado pela mídia, inclusive do Brasil.

A Bolívia e seus governos devem ficar atentos, porque é o país sul americano que mais sofreu com os interesses imperialistas sobre suas grandes riquezas minerais.

De 1879 a 1883, a Bolívia, ao lado do Peru, foi amplamente derrotada pelo Chile, então armado pelos ingleses, na chamada Guerra do Pacífico. Mineradoras chilenas, de capitais ingleses, que exploravam as riquezas minerais – cobre e salitre – do deserto do Atacama, então território boliviano, se recusaram a pagar os impostos cobrados pela Bolívia e armaram as causas para a guerra, no qual o Peru participou por força de acordos militares com a Bolívia.

No final do conflito, toda a região de Tarapacá, do Deserto do Atacama até a área litorânea, onde estavam as cidades de Antofagasta, Arica e Iquiqui, ficou em mãos do Chile.

Numa guerra iniciada em 1889 e terminada em 1903, aventureiros como Luiz Galvez Rodrigues Arias e o gaúcho Plácido de Castro, formaram exércitos privados e derrotaram os bolivianos no Acre e criaram uma efêmera República Acriana.

O motivo da guerra foi o controle das seringueiras, quando o preço da borracha deu um salto enorme no mercado internacional.

Quando o conflito terminou, o governo brasileiro entrou em ação e forçou os bolivianos a abrirem mão de seu território em troca de uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas e a promessa de construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Com isso a Bolívia perdeu mais uma parcela de seu território.

Uma última grande perda ocorreu durante a chamada Guerra do Chaco, com o Paraguai, de 1932 a 1935, pelo controle do acesso ao Rio Paraguai, que permitiria a exploração comercial de possíveis jazidas de petróleo no sopé da Cordilheira dos Andes.

Nesse caso, a Bolívia – que seria mais uma vez derrotada – iniciou a guerra estimulada pelo Standard Oil, que cobiçava entrar nessa nova área petrolífera, controlada então pela Royal Dutch Shell.

Depois de tantos conflitos, a Bolívia e seu povo, merecem construir em paz um futuro melhor e nós brasileiros devemos estar ao seu lado, livres de quaisquer preconceitos.

Nós, os analógicos

São pequenos gestos que demonstram a minha inferioridade para conviver com os novos símbolos da modernidade e reforçam a ideia de que sou inadaptado aos tempos modernos, como por exemplo, o manusear daquelas pequenas teclas do celular para escrever uma mensagem.

Um amigo, bem mais ligado à modernidade, me definiu como um ser analógico e acho que ele não estava me elogiando.

Hoje, ao terminar a leitura do livro do Jessé Souza, “A Tolice da Inteligência Brasileira” recuperei um pouco a minha auto-estima ao descobrir que as grandes descobertas intelectuais não estão (ainda) nas telas nos computadores, mas nas páginas dos livros e muitas vezes em algo ainda mais antigo do mundo analógico, num discurso de alguém que fala sobre o que sabe e sabe muito.

Lembro da descoberta da importância de se perseguir um ideal político nas páginas de Les Thibault, de Roger Martin de Gard.

Da permissividade do sexo em o Amante de Lady Chaterlley, de D.H. Lawrence, ou como ele pode ser encarado de uma forma irônica e divertida, em Il Decameron de Bocaccio.

Da criatividade sem limites na literatura de Phillip Roth, de Ian MC Evans, do Padura, do Raduan Nassar e do Alejo Carpentier.

Da clareza de como a história é escrita, no Manifesto Comunista de Marx e Engels

De como se faz a revolução, nos textos de Lenin e Trotski

Da nossa miséria política, em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos

Da poesia nos versos de  Drummond (De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco)

De querer saber em profundidade o que acontece no Oriente Médio, em A Grande Guerra pela Civilização de Robert Fisk.

De buscar argumentos para justificar o ateísmo, nos livros do biólogo Richard Dawkins.

Por que não mergulhar hoje no mar caótico do pensamento de Slavoj Zizek ou no racionalismo de Meszaros, em vez dos games do computador?

Quantos discursos nos ensinaram muito mais do que se pode encontrar na Wikipédia ou no Google

O professor Macarthy Moreira e suas aulas de História, primeiro no Julinho e depois no curso de História da Faculdade de Filosofia da UFRGS.

O professor Álvaro Bianchi, falando sobre Gramsci e sua obra.

E, mais do que todos, a lembrança inesquecível de uma série de conferências de Jacob Gorender, na década de 60, explicando para uma juventude totalmente analógica, o que era o Humanismo Marxista

Quando o nazismo imperava na Alemanha, livros eram queimados em praça pública, sinal de que eles eram importantes e para nós, seres analógicos, eles o serão por muito tempo.

Sobre o livro de Jessé de Souza, que motivou esse comentário, eu o recomendo pelo esforço que faz para desnudar toda a trama dos que tentam nos convencer a aceitar a atual realidade política do Brasil, pois como diz o autor “se o dominado socialmente não se convence de sua inferioridade, não existe dominação social possível”.

Precisamos dar às coisas seus nomes verdadeiros

No momento em que se reabre a questão sobre com que nome devemos chamar aquela grande avenida que vai da Rodoviária até a ponte do Guaíba, se de Legalidade ou de Castelo Branco, podemos perceber, mais uma vez que não são simples nomes que se debatem, mas conceitos políticos e até mesmo a história, que estão em jogos.

Além dessa escolha (obviamente, eu escolho Legalidade) precisamos definir também o significado de algumas palavras da nossa língua, antes que se estabeleça uma anarquia total, onde a cada dia, velhos termos, que ontem serviam como sinônimos de alguma coisa, hoje são seus antônimos.
Um exemplo: Michel Temer, já foi chamado de um grande constitucionalista e se auto considera um democrata e tem horror que o chamem de golpista e traidor. Mas, todo mundo sabe que ele participou do movimento para derrubar uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu nenhum ato atentatório à constituição e que isso foi um gesto de traição à democracia.

Outro dia, o seu amigo (parece que não é mais), o Joelson Batista, o chamou de “o ladrão geral da República”.

Constitucionalista, democrata, golpista ou ladrão?

Precisamos definir com urgência o significado de algumas palavras fundamentais para a vida política brasileira.
Começamos pela mais usada e pervertida de todas as palavras, democracia e na sequência, os que dizem a respeitar, os democratas.
A sua mais simples definição é aquela que diz que democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.
Como vivemos numa época onde cada vez mais dependemos do que dizem as fontes eletrônicas, vamos copiar a Wikipédia:
“Democracia é um regime político em que todos os cidadãos participam igualmente, diretamente ou através de representantes eleitos, na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governança através do sufrágio universal. “
Parece um saco sem fundo, onde cabe a maioria dos políticos brasileiros, porque todos eles, inclusive Michel Temer, repetem essas definições em seus discursos.
Golpe de estado ou revolução?
Na visão clássica dessas duas palavras, golpe significa derrubar, ilegalmente, um governo constitucionalmente legítimo e revolução, uma mudança drástica na organização social e econômica de um país.
O ilegalmente, presente na definição de golpe de estado, é que abre a perspectiva de grandes confusões, pois que entra no campo jurídico onde as interpretações, às vezes, valem mais do que as certezas.
No consenso da maioria das pessoas, qual seria o maior golpe, dado ilegalmente, contra a democracia na história da humanidade. Possivelmente, Adolf Hitler, com a instauração do regime nazista na Alemanha, seria o mais indicado. Só que, tecnicamente, Hitler chegou ao poder pela via parlamentar em 1933. Seu partido, o Nacional Socialista, foi escolhido pelo Presidente Hindenburg para formar o governo.
O golpe que Hitler deu, o famoso Putsch de Munique, 10 anos antes, só rendeu a ele algum tempo de prisão.
O conceito de revolução pode ser aplicado à francesa, à chinesa, à soviética, à Inglesa e à cubana, com mais ou menos precisão, porque elas tiveram um sentido de lutas de classe e mudaram, pelo menos durante algum tempo, a correlação entre as forças sociais e políticas de seus países.
Enquanto a palavra golpe é abominada pelos seus autores, a palavra revolução é sempre benvinda, mesmo quando não tem essas características.
No Rio Grande do Sul, chamam o movimento dos grandes fazendeiros contra o poder central por divergências menores em questões econômicas, de Revolução Farroupilha. Obviamente um exagero, tanto quanto chamar os movimentos de 1930 e 1932, de revoluções.
A de 30, que levou Getúlio Vargas ao governo, ainda poderia ter algumas características revolucionárias, na medida que tentou substituir um grupo conservador por outro mais avançado politicamente, embora na essência o poder real continuasse longe do povo que o movimento dizia representar.
A de 32, dita constitucionalista, foi uma tentativa dos derrotados em 30, de recuperar o terreno perdido. Ela olhava para o passado e não para o futuro, como devem ser as revoluções.
Em 1964, os generais que tomaram o poder no Brasil, batizaram o movimento de Revolução de 31 de Março. Não foi nunca uma revolução, e nem foi no dia 31 de março. Foi um golpe de estado e se deu no dia primeiro de abril, o chamado dia dos bobos.
Supondo que os estudiosos da língua portuguesa chegassem a conclusão que a definição de democracia está correta – é a expressão da vontade do povo – seria preciso então se adotar com urgência, medidas que estimulasse essa vontade a se expressar livremente e depois, que ela não pudesse ser fraudada.
Em 1917, depois que os bolcheviques assumiram o poder na Rússia, Lenin disse aos seus seguidores que o processo revolucionário recém estava começando. A grande batalha não fora derrubar o regime do Tzar e depois o governo de Kerensky, mas conscientizar o povo dos seus direitos como classe social.
Então, as tarefas da esquerda hoje são, menos pensar sobre como vencer as eleições, embora não possa se omitir também de 2018, e mais, a de começar a explicar para o povo o significado de algumas palavras, para que ele possa identificar com mais precisão quem são, por exemplo, os democratas e os golpistas.
Com Lula e Dilma, o PT chegou ao governo no Brasil, mas nunca teve o poder real em suas mãos. Por uma série de razões, ele deixou escapar essa oportunidade histórica e permitiu com suas alianças espúrias, inclusive um retrocesso político.
Os erros e vacilações do governo Jango ajudaram um golpe militar que durante 20 anos atrasou o desenvolvimento democrático do Brasil.
O novo golpe em 2016, em boa parte fruto das políticas de acomodação de Lula e Dilma, precisa ter uma vida menor. Para isso é preciso começar logo o processo de conscientização de todo o povo.
A discussão franca e aberta sobre os erros cometidos pelo PT e seus aliados é um primeiro passo nesse sentido

Nós, os ateus.

O momento em que o Supremo Tribunal Federal discute a constitucionalidade do ensino da religião nas escolas públicas é bem adequado para se falar sobre o significado da religião nas nossas vidas.
O apresentador de televisão, José Luiz Datena, do alto de sua ignorância, descobriu a razão de tantos crimes que fazem o sucesso do seu programa: é tudo por causa dos ateus e explicou: “o sujeito ateu não tem limites. São os caras do mal. O sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque não respeita limite nenhum”.
O que podemos dizer, nós, os ateus?
Que o ateísmo é a forma mais alta do humanismo, porque seus valores éticos dizem respeito apenas ao homem e não existem para garantir prêmios na eternidade.
Que o mesmo não pode se dizer dos religiosos, porque sua história está cheia de exemplos de pessoas que falando em nome de Deus ou da religião, cometeram os maiores crimes. A Inquisição, as cruzadas, a caça às bruxas feiticeiras, foram feitas em nome da fé cristã.
É difícil a vida para um ateu numa sociedade onde a religião está presente em tudo, a tal ponto que o homem comum, mesmo que não seja religioso, fica com vergonha de confessar que é, no mínimo, um descrente. E não estamos falando em países com governos teocráticos, onde estado e religião se confundem.
Pensamos no Brasil, um país teoricamente laico, mas onde são comemorados como feriados oficiais eventos de uma religião, a católica. É o Natal, é a Páscoa, são santos de mais ou menos prestígio, lembrados com festas, sem que se pergunte se estamos todos de acordo.
Desde que nascem, os brasileiros são treinados para serem cristãos. Primeiros as cerimônias cheias de mistério como o batismo, a crisma e a comunhão, com um ritual que envolve as mentes mais jovens. Depois é o discurso dos padres, dos professores, da mídia, como se tudo isso fosse muito natural. Como se não houvesse outra forma de pensar.
Felizmente, para os arautos dessas crenças, o slogan “crê ou morre” ficou para trás, ou pelo menos para a maioria, porque sempre sobrará um sujeito na televisão para nos condenar ao fogo do inferno.
Contra esta blitz mística, só nos resta levantar a bandeira da razão, embora digam que a fé não tem nada a ver com a razão. Mas, pelo menos, deixem a razão conosco e fiquem com a fé que escolheram.
Uma razão baseada em livros, como A Origem do Cristianismo, de Karl Kautsky, editado na Alemanha em 1908 e traduzido no Brasil, pelo professor Moniz Bandeira, para a Civilização Brasileira.
Durante muito tempo, Kautsky teve seu nome associado ao qualificativo de “renegado” que lhe foi aposto por Lênin, pelas suas críticas ao regime bolchevista da União Soviética, mas mesmo Lênin sempre reconheceu que Kautsky, soube usar, como ninguém, as armas do materialismo dialético para reconstruir a história do mito de Jesus Cristo e do cristianismo na Palestina ocupada pelos romanos.
Kautsky mostra como o cristianismo deixou de ser um partido político dentro do judaísmo e se tornou um partido dos gentios, externo e hostil ao judaísmo e se transformou, num dos fenômenos mais gigantescos da história da humanidade, que perdura há mais de dois milênios.
Quando morava no Bom Fim, vizinho à escola pública Anne Frank, costumava ouvir uma professora, coma voz amplificada por um sistema de som, nas vésperas do Natal, contar aos seus alunos, reunidos no pátio, a história do Menino Jesus e da manjedoura de Belém, onde Maria e José teriam ido por causa do censo do Imperador Augusto.
Ficava, então, tentado a oferecer a ela o livro do Kautsky, onde ele explica que o censo foi feito quando Jesus teria sete anos, que ninguém se deslocava de um lugar para o outro para responder ao censo e que os evangelistas que escreveram esta história, sabiam que um personagem que se pretendia Deus, não poderia nascer na Galiléia e sim em Belém, terra do rei David, do qual o novo messias seria herdeiro.
A nossa professora e seus alunos poderiam ficar sabendo também que as fontes pagãs da época não falam de Jesus, mesmo que ele tenha feito coisas assombrosas como ressuscitar os mortos e transformar água em vinho diante de centenas de pessoas.
Essas versões só vão aparecer nas fontes religiosas, muitos anos depois, apresentadas com riqueza de detalhes por Marcos, Lucas, Mateus e João, Mas são histórias escritas entre 50 e 200 anos depois do que os fatos pretensamente ocorreram, uma época em que os documentos escritos eram escassos e o que existiam eram apenas testemunhos orais.
Os textos dos evangelistas, mais do que documentos históricos, eram peças de um marketing político, destinado a convencer seus adeptos. Mesmo com o esforço da igreja, no correr dos séculos, de depurar as contradições existentes entre eles, a leitura de Kautsky flagrou dezenas delas.
O famoso milagre da ressurreição, por exemplo. Marcos, que escreveu pouco mais de 50 anos depois dos acontecimentos, diz que Jesus foi chamado ao leito da filha de Jairo, que estava prestes a morrer. Todos pensavam que ela estava morta, mas Jesus diz: “A moça não está morta, mas dormindo” . E põe a mão sobre ela e ela levanta (Marcos,V) .
Lucas, bem mais tarde, fala sobre o jovem de Naim. Quando Jesus o encontrou, havia transcorrido, desde a morte, tempo suficiente para que estivesse a caminho do cemitério. Jesus o levantou do seu caixão (Lucas, VII).
Dezenas de anos depois, João narra a ressurreição de Lázaro, “que estava morto há quatro dias”.(João, XI). Quanto mais distante dos fatos, mais as histórias ganham em detalhes milagrosos capazes de emocionar os novos adeptos.
Pensando melhor, acho que fiz bem em não oferecer o livro de Kautsky.para a professora do Anne Frank. Além de ter mais de 500 páginas, ela iria preferir continuar acreditando nas histórias que lhe contaram na infância que, diga-se de passagem, são bem mais interessantes.