O obscurantismo que o jornal promove.

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No próximo dia 28 de outubro será inaugurado o Memorial Luís Carlos Prestes, a primeira obra de Oscar Niemeyer no Estado. A data assinala o início da marcha da Coluna Prestes há 93 anos, que após partir de Santo Ângelo, percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, até se internar na Bolívia, defendendo basicamente o voto secreto para toda a população e a obrigação do governo de oferecer ensino primário gratuito para todos.

Líder do movimento, o porto-alegrense Luís Carlos Prestes, chamado de O Cavaleiro da Esperança, tornou-se depois dirigente do Partido Comunista; em 1946, com o fim do Estado Novo foi eleito Senador da República; teve o mandato cassado, viveu anos na clandestinidade no Brasil e no exílio na União Soviética, retornando a vida pública somente a partir de 1979, com a anistia.

Independente da posição que se possa a ter a respeito da sua atuação política, Prestes foi um dos personagens mais importantes da história do século XX no Brasil e conhecer sua trajetória é importante para as novas gerações de brasileiros.

O Memorial nasce com essa pretensão, mas não está livre das críticas de representantes do obscurantismo regional.

Ao noticiar a próxima abertura do Memorial, o jornal Zero Hora, na sua edição de 13 de setembro, dá mais espaço aos discursos de dois notórios reacionários, do que a Edson Silva, vice-presidente da Associação Memorial Luís Carlos Prestes.

Um é o vereador Wambert de Lorenzi, do Prós, que pretende inclusive passar um projeto na Câmara dando uma  nova utilização ao espaço criado por Niemayer.

O outro é o colunista do próprio jornal, Percival Pugina, conhecido por suas posições políticas de direita.

Enquanto Percival faz uma crítica razoavelmente comedida a Prestes e à ideia do Memorial, Wambert repete aquelas velhas histórias de que Prestes teria traído o Brasil para ajudar a União Soviética e de que o comunismo soviético foi responsável pela morte de 70 milhões de pessoas.

Esse número, sem qualquer embasamento histórico, aumenta a cada ano e é bem possível que passe dos 100 milhões em breve.

No momento em que movimentos fascistas no Brasil, como o MBL, utilizam táticas de intimidação, típicas do nazismo, Wambert tenta colocar no mesmo saco, nazistas e comunistas, repetindo aquela ladainha de que Stalin e Hitler cometeram crimes semelhantes. Daí é que surgem os 70 milhões de mortos do comunismo.

Durante os longos anos em que Stalin exerceu um poder absoluto na União Soviética, ele enfrentou varias conspirações de antigos aliados e respondeu, afastando seus adversários, algumas vezes através de processos aparentemente legais e outras, pura e simplesmente com a eliminação física, o que parece ter sido uma tradição russa desde a época do czar Ivan, o Terrível.

Mesmo que Stalin tenha mandado matar seus inimigos políticos, esse número estaria infinitamente longe do que é apregoado pelo vereador.

Os mortos, que a maioria dos historiadores fixa entre 6 a 7 milhões, foram de vítimas de grandes surtos de fome, que atingiram principalmente a Ucrânia, nos anos de 32 e 33, atribuídos ao processo acelerado de coletivização forçada da agricultura, determinado por Stalin e que levou a transferência de milhões de agricultores para novas regiões agrícolas da URSS.

Essa política de Stalin nunca foi unanimidade entre os principais dirigentes comunistas e é apontada como uma das causas do seu conflito com as oposições, resolvido nos julgamentos de 1937, que vitimaram importantes nomes que participaram da Revolução de 1917.

No seu livro de memórias, Churchill conta que perguntou a Stalin sobre as conseqüências da coletivização forçada e ele admitiu que ela teria provocado cerca de 4 milhões de mortos, mas que a mecanização da agricultura era necessária para por fim aos surtos de fome que assolavam periodicamente a URSS.

Objetivamente, Stalin não pretendia matar esses agricultores, diferentemente de Hitler que conscientemente determinou a liquidação física de milhões de pessoas, algumas por razões políticas ou raciais – os comunistas, os judeus, os homossexuais e os doentes – e outros para diminuir o consumo de produtos agrícolas, como no caso da Polônia, onde os nazistas pretendiam reduzir a população em um terço para sobrar mais comida para os alemães.

Como esses fascistas do MBL, não interessa a Wambert e Pugina,aprofundar qualquer discussão sobre o tema, preferindo repetir velhas mentiras, até que elas possam ser vistas como verdade, de acordo com o que ensinava Joseph Goebbels.


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