Nós, os analógicos

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São pequenos gestos que demonstram a minha inferioridade para conviver com os novos símbolos da modernidade e reforçam a ideia de que sou inadaptado aos tempos modernos, como por exemplo, o manusear daquelas pequenas teclas do celular para escrever uma mensagem.

Um amigo, bem mais ligado à modernidade, me definiu como um ser analógico e acho que ele não estava me elogiando.

Hoje, ao terminar a leitura do livro do Jessé Souza, “A Tolice da Inteligência Brasileira” recuperei um pouco a minha auto-estima ao descobrir que as grandes descobertas intelectuais não estão (ainda) nas telas nos computadores, mas nas páginas dos livros e muitas vezes em algo ainda mais antigo do mundo analógico, num discurso de alguém que fala sobre o que sabe e sabe muito.

Lembro da descoberta da importância de se perseguir um ideal político nas páginas de Les Thibault, de Roger Martin de Gard.

Da permissividade do sexo em o Amante de Lady Chaterlley, de D.H. Lawrence, ou como ele pode ser encarado de uma forma irônica e divertida, em Il Decameron de Bocaccio.

Da criatividade sem limites na literatura de Phillip Roth, de Ian MC Evans, do Padura, do Raduan Nassar e do Alejo Carpentier.

Da clareza de como a história é escrita, no Manifesto Comunista de Marx e Engels

De como se faz a revolução, nos textos de Lenin e Trotski

Da nossa miséria política, em Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos

Da poesia nos versos de  Drummond (De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco)

De querer saber em profundidade o que acontece no Oriente Médio, em A Grande Guerra pela Civilização de Robert Fisk.

De buscar argumentos para justificar o ateísmo, nos livros do biólogo Richard Dawkins.

Por que não mergulhar hoje no mar caótico do pensamento de Slavoj Zizek ou no racionalismo de Meszaros, em vez dos games do computador?

Quantos discursos nos ensinaram muito mais do que se pode encontrar na Wikipédia ou no Google

O professor Macarthy Moreira e suas aulas de História, primeiro no Julinho e depois no curso de História da Faculdade de Filosofia da UFRGS.

O professor Álvaro Bianchi, falando sobre Gramsci e sua obra.

E, mais do que todos, a lembrança inesquecível de uma série de conferências de Jacob Gorender, na década de 60, explicando para uma juventude totalmente analógica, o que era o Humanismo Marxista

Quando o nazismo imperava na Alemanha, livros eram queimados em praça pública, sinal de que eles eram importantes e para nós, seres analógicos, eles o serão por muito tempo.

Sobre o livro de Jessé de Souza, que motivou esse comentário, eu o recomendo pelo esforço que faz para desnudar toda a trama dos que tentam nos convencer a aceitar a atual realidade política do Brasil, pois como diz o autor “se o dominado socialmente não se convence de sua inferioridade, não existe dominação social possível”.


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