Mortos sem sepultura

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As notícias e até mesmo os anúncios nos jornais, às vezes, levam a nossa imaginação a vôos inesperados.

Achei inusitado um anúncio do Cemitério São Miguel e Almas, avisando uma centena de famílias, que seus mortos poderiam ser despejados de suas sepulturas individuais e colocados num depósito comum, se os alugueis em atraso não fossem rapidamente quitados.

Vi isso como mais uma prova de que numa sociedade capitalista, tudo é guiado pelo dinheiro e não adianta morrer para se ver livre das dívidas e das cobranças.

Pensei assim: são mortos que vão ficar sem suas sepulturas.

Dessa frase, pulei para a peça de Jean Paul Sartre (1905/1980), Mortos Sem Sepultura, que fala não de mortos, mas de pessoas vivas, divididas pelas questões éticas que o existencialismo sempre propôs, fundamentalmente a nossa responsabilidade moral em assumir determinadas posições e suas inevitáveis conseqüências.

Estreada em Paris, em 1946, logo depois do final da Segunda Guerra, Morts Sans Sepulture, propõe uma discussão sobre a resistência e o colaboracionismo diante do inimigo nazista, sem deixar de lado a questão da escolha a que todos homens são submetidos. Era o momento em que o existencialismo de Sartre parecia se impregnar do marxismo triunfante após a derrota dos nazistas.

Em 1954, a peça foi montada no Brasil com Paulo Autran e Cleyde Yaconis, sem grande repercussão.

Em 1977, o encenador gaúcho Fernando Peixoto (1937/2012), fez uma releitura do texto de Sartre, em busca das semelhanças entre a França ocupada pelos alemães e o Brasil da ditadura militar. O programa da peça reforçava  essa aproximação ao simbolizar a tortura pela foto de um “pau de arara” contribuição brasileira para o suplício dos presos.

Não seria hoje, minha amiga Sandra Dani, o momento oportuno para recuperar as questões colocadas por Sartre em sua peça?


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