O capitalismo faz mal à saúde

Quem pensa que o mercado sempre tem razão, não deve assistir o filme Código de Honra (Puncture) de 2012, dirigido pelos irmãos Adam e Mark Kassen (esse atuando também como ator) com Chris Evans (O Capitão América) no papel principal. O filme está disponível no Netflix.

Não deve assistir, porque o filme certamente vai abalar suas convicções sobre a excelência do sistema capitalista baseado na livre ação do mercado.

O filme, que conta uma história real, começa quando uma pequena firma de advocacia do Texas, Weiss & Dazinger, cujos sócios estão ansiosos por qualquer causa, assume a defesa de uma enfermeira que busca indenização depois de ter sido contaminada com AIDS, picada (puncture) pela agulha de  uma seringa não esterilizada.

Mike Weiss (Chris Evans), um dos advogados, é viciado em cocaína e enxerga o caso, inicialmente, como apenas uma forma de ganhar dinheiro para sustentar seu vício, mas, a medida em que se envolve no problema,  o transforma no seu objetivo de vida.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem usadas, deveriam ser esterilizadas no calor.

A partir da morte do presidente da Thompson, uma das gigantes da indústria médica, que produzia as seringas de vidro, seus herdeiros optaram por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa feita de plástico em vez do vidro.

Só havia um problema, ela não podia ser esterilizada, como as de vidro. A utilização da mesma seringa várias vezes, é apontada como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças – inclusive a AIDS – em todo o mundo,

Ao defenderem a enfermeira contaminada com AIDS por causa da picada de uma agulha durante o atendimento de um paciente, os advogados descobrem que essa era causa de milhares de mortes de trabalhadores da saúde, porque os hospitais se negavam a comprar um novo modelo de seringa totalmente descartável, que já estava disponível no mercado, mas que era mais caro.

E, mais do que isso, os empresários do setor, que dominavam a produção das seringas, exerciam uma forte pressão sobre os hospitais impedindo que comprassem o novo produto, usando meios lícitos e ilícitos.

No final, como é comum em filmes americanos de denúncias, um letreiro explica que a causa foi ganha pela firma dos advogados (nessa altura, Mike Weiss já tinha morrido de forma misteriosa) e a indústria médica, obrigada a pagar uma indenização de 150 milhões de dólares.

O que o filme não diz é que o uso da seringa totalmente descartável não é ainda uma prática obrigatória em todos os lugares, mesmo nos Estados Unidos, e com isso milhões de pessoas continuam sendo infectadas pelas seringas contaminadas e morrendo das mais diversas doenças,

Voltando ao aviso inicial aos defensores da primazia do mercado: esse é apenas um resumo frio da história do filme, sem um pingo da sua dramaticidade.

Se você é daqueles que acham que o Estado se intromete demais na vida das pessoas, não veja o filme para não perder seus argumentos.

Afinal, mesmo sendo um defensor ferrenho do mercado, certamente você não é tão desumano em acreditar que o lucro é mais importante que a vida das pessoas.

Então, não veja o filme.

O grande torturador

Hoje, quando aparecem os saudosos da ditadura militar  brasileira, é bom que se lembre o que elas significaram para as populações sul-americanas, mais especialmente as do Cone Sul

Há uns 10 anos, quando movimentos populares conseguiram eleger presidentes afinados com suas políticas na América do Sul, principalmente no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, veio à luz toda a barbárie de que os longos períodos de ditaduras militares trouxeram para estes países.

Um ajuste de contas com esse passado de horrores teve início, principalmente na Argentina, onde a ditadura militar parece ter sido a mais cruel de todas.

Embora a ditadura tenha sido construída para servir aos interesses econômicos dos Estados Unidos, ele assumiu uma face pública representada por comandantes militares e entre eles, seu maior símbolo pela sua crueldade mórbida, foi o almirante Emílio Eduardo Massera, morto em 2010 em decorrência de uma hemorragia cerebral.

Massera participou de dois golpes de estado, em 1955, contra Juan Peron e 1976, contra Isabelita Peron (Maria Estela de Martinez).

Membro do triunvirato militar que governou a Argentina (com o general Jorge Videla e o brigadeiro Orlando Agosti) Massera comandou o centro de clandestino de torturas da Marinha, em Buenos Aires, conhecido como ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada)

Em 1985, com o retorno da democracia, Massera foi condenado à prisão perpétua, mas em 1990 foi indultado pelo presidente Carlos Menen.

Em 1998, voltou a ser preso, acusado de seqüestrar e ocultar a identidade dos filhos dos presos mortos na ESMA, crimes não passíveis de prescrição.

Em 2.005, Massera foi declarado “incapaz” para ser julgado, “por motivo de demência”. Mesmo quando o Supremo Tribunal da Argentina confirmou a revogação de todos os indultos, Massera continuou protegido pela declaração de incapacidade mental.

Quando da sua morte em 2010, a deputada Victoria Donda, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados da Argentina lamentou que Massera morresse sem uma sentença: “O ex-ditador Emilio Eduardo Massera morre impune, o que representa uma afronta à democracia e suas instituições, a todos aqueles que pensam que o único lugar possível para o genocida seja a cadeia. Finalmente, uma afronta a toda a humanidade. No memorial deste povo, Massera aparecerá sempre como um homem nefasto, tido como representante da época mais escura da nossa História”

Recentemente, Massera voltou a ser lembrado no filme “Eva não dorme” de Pablo Aguero, interpretado por Gael Garcia Bernal, que narra o desaparecimento do cadáver de Eva Peron (Evita).

O Massera do filme é um personagem soturno, que se coloca como o perseguidor de Evita, mesmo depois de morta, sempre em busca de um ajuste de contas final.

Porque sou ateu

Não foi Deus quem fez o homem a sua imagem e semelhança. Foi o homem quem fez Deus a sua imagem e semelhança.

E por que fez isso?

Por que nos primórdios da humanidade, ele precisava de muitas respostas que a ciência, ainda embrionária, era incapaz de dar.

Quais suas origens?

Por que de repente a terra virava de cabeça para baixo com os terremotos?

Por que o mundo que ele conhecia, de um dia para o outro, ficava quase todo debaixo das águas?

Era Deus o responsável por tudo.

Fizera primeiro Adão e depois Eva. Destruíra Sodoma e Gomorra por causa dos pecados dos seus habitantes e mandara o dilúvio porque se cansara da humanidade.

Era uma tentativa de explicar o desconhecido através de fórmulas mágicas, mas de qualquer maneira uma hipótese rudimentar, mas ainda assim científica, na medida em que tentava estabelecer uma relação entre causa e efeito.

As religiões se estruturam em cima dessa ignorância humana, se consolidaram, foram se adaptando aos avanços da ciência, mas continuaram sempre no seu papel obscurantista de guarda de uma grande fantasia, a da existência de um Deus onipotente, onisciente e eterno.

Sua representação material é a igreja institucionalizada, com suas diversas identidades, católica, protestante, ortodoxa, islâmica, budista, espírita, mas sempre com um objetivo único, impedir que o ser humano se liberte dessa ignorância primeira.

Os que, de alguma maneira se libertaram desse jugo e que ainda possam ostentar uma higidez mental, têm obrigação de proclamar suas verdades para servir de exemplo para outros que ainda tenham dúvidas

Eu faço isso, proclamando meu ateísmo, até porque não esqueço o exemplo de Jean Barois, o personagem de Roger Martin de Gard, que justificou previamente a sua transformação de um ateu, em um crente no final da vida, ao escrever no seu testamento que “o homem que sou hoje, no pleno domínio da minha capacidade mental, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia”.

A verdade e a sua versão.

Quando criança, aprendi que as coisas importantes da política, por exemplo, só se tornavam verdade, quando publicadas no Correio do Povo.

– Deu no Correio – era o carimbo que nos garantia que o fato era verdadeiro.

Com o tempo, fui ficando cético e descobri que até mesmo o velho Correio  não merecia tanto crédito assim e na medida em que essa primeira verdade se esvaiu, ficou o sentimento de que, como disse uma vez Marx, tudo que é sólido desmancha no ar.

Aí, tudo são versões.

Você pode escolher a sua verdade para justificar porque é de esquerda e não da direita, porque é colorado e não gremista, porque casou com a Maria e não com a Madalena, da mesma maneira que aquele seu amigo pode se justificar  com a verdade dele por ser de direita, gremista e ter casado com a Madalena.

É uma ideia tentadora essa de imaginar que, salvo as nossas certezas, tudo que as outras pessoas dizem sobre filosofia, política, sexo, amor e futebol podem ser apenas versões pessoais dos fatos, nas quais não precisamos acreditar.

No folclore que faz parte da política, existe a versão, ( e isso, também,talvez não seja verdade), que os mineiros seriam os mais matreiros de todos políticos brasileiros.

Essa pequena história seria uma prova:

Benedito Valadares, nos anos 40 ou 50, teria cunhado a frase “o importante não é o fato, mas a versão”, mas outro mineiro, José Maria Alkmin, o procurou para reclamar, “poxa Benedito, eu inventei essa história e você se apropriou dela e agora todos acham que ela é sua”. Resposta do Benedito: “o que prova que ela está certa”.

Mas foi o cinema americano quem melhor ilustrou essa história com o filme O Homem que Matou o Facínora  (The Man Who Shot  Liberty Valance), de John Ford  em 1962.

A história é recorrente nos faroestes: numa pequena cidade do oeste americano, chega o recém formado advogado Ranson Stoddard, interpretado por James Stewart, disposto a enfrentar os bandidos da região usando apenas a força da lei. Na cidade, ele vai encontra Liberty (a ironia do nome não é por acaso) Valance, um bandido a soldo dos criadores de gado, interpretado por Lee Marvin e Tom Doniphon, um caubói beberrão, que só acredita em resolver as questões com seu revólver.

Logicamente o papel  de Tom é de John Wayne, parceiro dos grandes filmes de John Ford. Ranson e Tom, apesar das divergências se tornam amigos, ainda que disputem o amor da mesma mulher, a loira Hallye, vivida por Vera Miles. No final da história, o advogado, convencido que é incapaz de fazer respeitar os valores da civilização usando apenas a força das palavras e dos bons exemplos, decide enfrentar o grande malfeitor, Liberty Valance, num duelo no meio da cidade. Quando todos esperam que Ranson Stoddard, que aprendera a manusear a arma pouco tempo antes com Tom, seja o derrotado no duelo, um tiro certeiro na testa acaba com o facínora. O fato transforma o advogado num herói da cidade, mais tarde governador e senador

O filme começa e termina com ele, voltando à cidade, obviamente em companhia da esposa, Hallye, para o enterro do amigo caubói. Já como uma importante figura da política nacional, ele revela a um jornalista que quem matou realmente o facínora não foi ele e sim Tom Doniphon, escondido atrás de uma casa no momento do duelo. A resposta do jornalista se tornou quase tão famosa quanto o filme: “Aqui no Oeste, quando a lenda é maior que a verdade, publica-se a lenda”.

É um novo golpe?

Em 1950, quando se começou a falar na candidatura de Getúlio Vargas à Presidência, Carlos Lacerda fez uma frase que ficou famosa: “Ele não pode ser candidato; se for, não pode ganhar; se ganhar, não pode assumir; se assumir precisa ser derrubado”.

Getúlio concorreu, ganhou e assumiu, mas quatro depois foi derrubado por um golpe que teve Carlos Lacerda como o principal mentor, com apoio da Aeronáutica, da Marinha, parte do Exército e da mídia, na época através de O Globo, da Tribuna da Imprensa e de um novo veículo, chamado televisão, no caso da TV Tupi, dos Diários e Emissoras Associados.

Em 1964, a experiência foi repetida com a deposição de João Goulart, dessa vez conjugando, além das Forças Armadas, os setores mais reacionários da Igreja Católica.

Mais de 60 anos depois de Getúlio, a história parece se repetir: Lula não pode ser candidato; se for, não pode ganhar; se ganhar não pode assumir, se assumir precisa ser derrubado.

Contra Lula, a justificativa foi a mesma usada contra Getúlio, quando se dizia que “corria um mar de lama nos porões do Catete”. Hoje as mordomias que Lula teria ganho de empresários, servem de justificativa, ainda que não tenha surgido nenhuma prova que comprovasse as acusações.

Nessa nova era tecnológica não são precisas provas nos tribunais, bastam as convicções dos julgadores.

A grande diferença entre hoje e os feitos de 54 e 64, é que o principal agente do impedimento de um candidato com chances de ganhar uma eleição, caso de Lula é o Judiciário e não mais as Forças Armadas, como aconteceu quando da destituição de presidentes eleitos em 54 e 64,

O que cresceu durante esse tempo foi a força da mídia, hoje condição absolutamente imprescindível para dar uma roupagem moral e ética para os atos arbitrários do tribunal político de Curitiba.

Nessa semana, o quadro se tornou ainda mais crítico com a entrada em cena do poder militar, que os anos dessa democracia relativa em que vivemos, parecia ter afastado do jogo político.

Tudo começou com a palestra do general  Antônio Hamilton Mourão  ex-comandante dos exércitos do Sul, numa loja maçônica de Brasilia, levantando a possibilidade de uma intervenção do Exército, se o Judiciário falhar em punir os corruptos e se agravou bastante com a negativa do Comandante do exército, general  Eduardo Vilas Boas de punir o seu subalterno pelas declarações golpistas que deu e mais ainda, ao afirmar que “Constituição concede às Forças Armadas um mandato para intervir se houver no país “a iminência de um caos.”.

Em qualquer outro contexto, a frase poderia ter razão de ser, porque cabe as Forças Armadas garantir a paz interna do País, mas no momento em que foi dita surge como uma ameaça, ainda mais que fala em “eminência de um caos”, situação extremamente subjetiva.

Tudo isso acontece numa semana em que as pesquisas sobre o comportamento eleitoral mostra que cresce a preferência dos eleitores pela volta de Lula à Presidência, basicamente porque as pessoas dizem que viviam melhor naquela época.

É exatamente isso que os golpistas que derrubaram Dilma não querem e para isso contam com o Poder Judiciário, a pressão da mídia e agora, parece que também com o poder militar.

Quando a vida imita o cinema

 

Quando trabalhei no Departamento de Jornalismo da TV Piratini, o chefe Lauro Schirmer dizia sobre um apresentador de notícias, que ele tinha a burrice estampada na face.

Essa ideia de que você pode definir o caráter de uma pessoa pela sua cara, pode ser totalmente infundada sob o ponto de vista científico e profundamente reducionista, mas é tentadora como uma forma de simplificar nossas avaliações sobre os outros.

O cinema sempre se valeu desse artifício para ajudar os espectadores a entender de cara (literalmente) o comportamento dos personagens.
O cinema é a arte da imagem. Enquanto na literatura, o que conta é a palavra escrita e o teatro privilegia a fala, o cinema só existe por causa da imagem de atores e atrizes e nesse sentido é extremamente maniqueísta.

O ator e a atriz devem mostrar, principalmente nos closes o que lhes vai na alma. Por isso, o sucesso dos filmes realmente importantes se deve aos seus grandes atores. Sem eles, mesmo o melhor diretor, seria incapaz de transmitir aos expectadores a emoção de um grande amor ou de um ódio profundo.

Imagine Casablanca sem o carisma de Humphrey Bogart ou O Pecado Mora ao Lado sem a sensualidade de Marylin Monroe, mesmo que os diretores – Michael Curtiz e Billy Wildner – fossem os mesmos.
No dia em que algum diretor brasileiro pretender fazer um filme sobre a história do impeachment de Dilma, dois personagens deverão ter um papel de destaque; Janaína Paschoal e Deltan Dallagnol

Quem curte o cinema norte-americano vai lembrar uma atriz e um ator em que os dois personagens da trama golpista de Brasília poderiam ter se inspirado.

Em 1987, Adrian Lyne dirigiu Atração Fatal, com Glenn Close e Michael Douglas e ninguém que viu o filme pode esquecer até que ponto a frustração de um amor pode levar uma pessoa a atos desesperados.
Glenn Close compõe uma mulher que alterna olhares de ternura, com outros de profunda ódio, na medida em que se sente abandonada pelo amante. Seu histerismo parece de certa forma um sentimento convincente e verdadeiro, de alguém que acredita no que está fazendo.

Na sua loucura, ela é autêntica e não se detém nos limites do razoável. Ela se expõe, se entrega totalmente aos sentimentos que lhe vão na alma. Chora, ri e grita quase ao mesmo.


Sua causa, sua vingança é tudo que pretende da vida.
Não sei se Janaína Paschoal viu este filme, mas no set do Senado, ela parecia ter incorporado o papel

 

O outro personagem é Anthony Perkins, que fez o Norman Bates, no grande filme de Alfred Hitchcock, Psicose, rodado em 1960.
Ele é simpático, agradável, asséptico, mas por trás dessa aparência angelical se esconde um “serial killer”, angustiado por sérios problemas psicológicos.

Deltan Dallagnol nem era nascido quando o filme foi feito, mas ele como Norman Bates de Psicose, nos mostra que, por trás daquele seu ar de menino bem comportado, existe uma pessoa sedenta por algum tipo de vingança.

A Operação Lava Jato já gerou um filme – A Lei é para todos – mas parece que ainda há muitas histórias que poderão ser contadas e dependendo de quem contar,podemos ter filmes épicos ou comédias do tipo pastelão. Daqui alguns anos, quando for feito, aquele que será apresentado como a versão definitiva da Lava Jato, possivelmente uma superprodução norte-americana, quem servirá de inspiração para o papel do juiz Moro?

Uma boa sugestão seria o Sylvester Stallone na sua caracterização do juiz Joseph Dredd, em “O Juiz” (1995) Num futuro sombrio e ultra violento, ele acumula os cargos de polícia, juiz, júri e executor na megalópole Mega City One

Poucas esperanças

 

Durante recente palestra em São Paulo, Fernando Haddad, visto como o provável candidato do PT nas próximas eleições, caso se efetive o impedimento de Lula por uma medida discricionária da Justiça, fez uma previsão bem realista do que poderá acontecer em 2018.

Disse Haddad, que tudo se encaminha para uma disputa final entre um candidato da Direita contra um candidato da Extrema Direita, restando a uma fragmentada força de esquerda ajudar a eleger o menos pior, no caso o candidato da Direita

Com a sua confirmação pelo voto, esse candidato poderia desenvolver o atual projeto de governo – neoliberal, antipopular e entreguista – livre da pecha de ter chegado ao poder através de um golpe de estado, urdido pela conjugação de interesses do imperialismo, do grande empresariado e da mídia, e operacionalizado pelo parlamento e o judiciário.

Enquanto a esquerda não tem nenhum projeto, a não ser a esperança de um improvável retorno de Lula e suas políticas sociais, a Extrema Direita já tem uma cara para se apresentar em 2018, o deputado Bolsonaro e a Direita deve escolher um nome, que esteja, pelo menos até agora, livre de denúncias de corrupção. Hoje, o mais provável é que seja o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, definido muito bem por José Simão como o “picolé de chuchu”, ou seja, alguém que não desperte nem grandes amores, nem grandes ódios.

A situação prevista por Haddad, de certa forma, foi antecipada por Michel Hoeullebeck, em seu romance Submissão (Soumission), quando ele descreve como seria uma eleição presidencial francesa em 2022.

A esquerda, fragmentada e derrotada no primeiro turno, precisa decidir se apoiará no segundo turno um hipotético candidato da Fraternidade Muçulmana,  Mohammed  Ben Abbes, para derrotar a candidata da Frente Nacional, a real Marine Le Pen, ou se vai se abster.

Para evitar o que imagina ser um mal maior, a esquerda vai apoiar Bem Abbes, visto como conciliador e não radical, mas os fatos vão mostrar logo a seguir, com a sua vitória, que um processo de islamização das instituições francesas começa, atingindo todas as áreas da sociedade

Na visão de Houellebeck, o ataque à democracia se dará pela sua submissão a uma religião, enquanto o Brasil, esse processo visa consolidar as políticas neoliberais postas em prática com a chegada de Temer e sua turma ao poder.

Faltando um ano para as eleições ainda há tempo para que as forças de esquerda se organizem e ofereçam um projeto alternativo ao que está sendo proposto até agora, embora os sinais existentes não tragam grandes esperanças que isso possa acontecer.

À procura de uma mulher bela, prendada e do lar

 

 


Num sebo da Rua da Praia encontro um velho livro de poesias de Pablo Neruda, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Abro e começo a ler o primeiro deles, ainda de pé, diante da estante de livros:

Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas, 
Te parecem ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de campônio selvagem te escava 
e faz saltar o filho do fundo desta terra.
Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
E em mim a noite entrava com sua invasão poderosa
Para sobreviver, me forjei como uma arma,
Como uma flecha em meu arco, como uma pedra em minha funda
Porém chega a hora da vingança …e te amo“.

 Nisso, se despregam do meio do livro duas folhas de papel de carta, esmaecidas pelo tempo. As recolho do chão e antes de colocar novamente entre as páginas do Neruda, vejo que são cartas de amor Comprei o livro e ganhei como presente as cartas.

Uma delas é um pedido de aconselhamento sentimental e a outra a sua resposta.

Na primeira, alguém escreve para o conselheiro Júlio Louzada, contando suas mágoas de amor e na segunda, está o conselho.

Descubro no Google (as pessoas viviam cheias de dúvidas antes do Google) que na década de 50, o sabonete Eucalol fez uma promoção entre os compradores do produto e a Rádio Tamoio, do Rio de Janeiro. Em cada embalagem, havia um papel de carta e em envelope para que os interessados escrevessem para o conselheiro Júlio Louzada. As melhores cartas seriam lidas ao vivo na rádio e o missivista recebia uma resposta assinada pelo próprio Júlio.

O que estava escondido nas páginas do Neruda eram essas cartas.
Creio que não cometo uma inconfidência muito grande, revelando alguns trechos da carta do remetente, que assinava com o pseudônimo de Perdido de Amor (a promoção preservava os nomes dos participantes) e da resposta, porque afinal já fazem mais de 60 que as cartas foram escritas, e todos interessados devem estar mortos.

Diz a carta com o pedido de conselho:
“Isso é uma declaração de amor a uma mulher, que depois de anos de uma vida em comum, me mandou embora.
Devia odiá-la pela traição, mas não consigo.
Em vez de saudar a libertação, choro a perda.
Imaginá-la com outro, causa uma dor na alma.
Veja o ridículo a que me exponho. Um ateu falando em alma.
É claro que é num sentido figurado.
A alma está dentro da cabeça que não para de pensar nela”.


Na sua resposta Júlio Louzada lamenta que ele se declare ateu e diz que a perda da fé em Deus pode ter sido a responsável pela separação e dá um conselho prático.
“Arrume urgentemente uma nova mulher, porque, como diz a Bíblia, homem nenhum pode viver sem uma mulher que cuide dele.
Só procure uma mulher que seja bela (aos seus olhos, pelo menos), prendada (que saiba lavar, passar e cozinhar) e do lar (não uma dessas que trocam o dia pela noite) e seja feliz”.

Fiquei curioso em saber se o Perdido de Amor conseguiu essa mulher ideal e se viveu feliz mais alguns anos.
Isso, nem o Google respondeu.

O fantasma do comunismo está de volta

As comemorações dos 100 anos da Revolução Russa seriam um bom motivo para repetir a velha pergunta – o comunismo está morto?

Para a maioria dos intelectuais que se dizem democratas e até mesmo de esquerda, a ideia de um retorno à sociedade sem classes, sonhada por Marx e tentada ser posta em prática por Lenin e Trotski, é uma utopia e sua morte foi decretada por dois grandes eventos, a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

Infelizmente para eles, a busca de uma sociedade igualitária parece fazer parte do melhores sonhos dos homens e os fracassos do passado não desanimam as pessoas em reconstruir antigos caminhos, evitando os desvios e os erros já cometidos.

A luta de classes está de volta. O espectro de Marx reaparece para mostrar que a “ideia do comunismo” e sua utopia igualitária não morreram, apesar dos desvios e dos estragos feitos a elas pelo “socialismo real” e pelos totalitarismos que dele resultaram.

Dessa vez, não são políticos, mas sim filósofos que se dispõem a colocar novamente em discussão a possibilidade de se reconstruir o sonho de uma sociedade sem classes. Entre eles, as vozes mais destacadas são Alain Badiou (A Ideia do Comunismo), Slavoj Zikek (Em Defesa das Causas Perdidas), Jacques Rancieri (O Ódio à Democracia); István Meszaros (Socialismo ou Barbárie no Século XXI), Jean-Jacques Marie e Pierre Broué, entre outros.

Uma coleção de artigos sobre o tema Comunismo, organizados por Alain Badiou,  foi lançada em Londres, reunindo trabalhos de quinze filósofos das mais diversas nacionalidades.

Na apresentação, Badiou declarou que, tanto ele quando Zizek, tinham certeza de que “repor em circulação esse velho vocábulo magnífico, não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização, relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade toda, era uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental “democrático” que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido”.

O filósofo Jacques Rancière escreveu: “A “crise” atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da autorregulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado”.

Apresentadas em ordem alfabética, as conferências de Alain Badiou, Judith Balso, Bruno Bosteels, Susan Buck-Morss, Terry Eagleton, Peter Hallward, Michael Hardt, Minqi Li, Jean-Luc Nancy, Toni Negri, Jacques Rancière, Alessandro Russo, Alberto Toscano, Gianni Vattimo, Wang Hui e Slavoj Zizek abordam diferentes aspectos do pensamento comunista.

Pena que os intelectuais da esquerda brasileira se contentem com discussões que envolvem mais um improvável aprimoramento do capitalismo brasileiro, do que a sua substituição por outro sistema mais humano e justo.

O obscurantismo que o jornal promove.

No próximo dia 28 de outubro será inaugurado o Memorial Luís Carlos Prestes, a primeira obra de Oscar Niemeyer no Estado. A data assinala o início da marcha da Coluna Prestes há 93 anos, que após partir de Santo Ângelo, percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, até se internar na Bolívia, defendendo basicamente o voto secreto para toda a população e a obrigação do governo de oferecer ensino primário gratuito para todos.

Líder do movimento, o porto-alegrense Luís Carlos Prestes, chamado de O Cavaleiro da Esperança, tornou-se depois dirigente do Partido Comunista; em 1946, com o fim do Estado Novo foi eleito Senador da República; teve o mandato cassado, viveu anos na clandestinidade no Brasil e no exílio na União Soviética, retornando a vida pública somente a partir de 1979, com a anistia.

Independente da posição que se possa a ter a respeito da sua atuação política, Prestes foi um dos personagens mais importantes da história do século XX no Brasil e conhecer sua trajetória é importante para as novas gerações de brasileiros.

O Memorial nasce com essa pretensão, mas não está livre das críticas de representantes do obscurantismo regional.

Ao noticiar a próxima abertura do Memorial, o jornal Zero Hora, na sua edição de 13 de setembro, dá mais espaço aos discursos de dois notórios reacionários, do que a Edson Silva, vice-presidente da Associação Memorial Luís Carlos Prestes.

Um é o vereador Wambert de Lorenzi, do Prós, que pretende inclusive passar um projeto na Câmara dando uma  nova utilização ao espaço criado por Niemayer.

O outro é o colunista do próprio jornal, Percival Pugina, conhecido por suas posições políticas de direita.

Enquanto Percival faz uma crítica razoavelmente comedida a Prestes e à ideia do Memorial, Wambert repete aquelas velhas histórias de que Prestes teria traído o Brasil para ajudar a União Soviética e de que o comunismo soviético foi responsável pela morte de 70 milhões de pessoas.

Esse número, sem qualquer embasamento histórico, aumenta a cada ano e é bem possível que passe dos 100 milhões em breve.

No momento em que movimentos fascistas no Brasil, como o MBL, utilizam táticas de intimidação, típicas do nazismo, Wambert tenta colocar no mesmo saco, nazistas e comunistas, repetindo aquela ladainha de que Stalin e Hitler cometeram crimes semelhantes. Daí é que surgem os 70 milhões de mortos do comunismo.

Durante os longos anos em que Stalin exerceu um poder absoluto na União Soviética, ele enfrentou varias conspirações de antigos aliados e respondeu, afastando seus adversários, algumas vezes através de processos aparentemente legais e outras, pura e simplesmente com a eliminação física, o que parece ter sido uma tradição russa desde a época do czar Ivan, o Terrível.

Mesmo que Stalin tenha mandado matar seus inimigos políticos, esse número estaria infinitamente longe do que é apregoado pelo vereador.

Os mortos, que a maioria dos historiadores fixa entre 6 a 7 milhões, foram de vítimas de grandes surtos de fome, que atingiram principalmente a Ucrânia, nos anos de 32 e 33, atribuídos ao processo acelerado de coletivização forçada da agricultura, determinado por Stalin e que levou a transferência de milhões de agricultores para novas regiões agrícolas da URSS.

Essa política de Stalin nunca foi unanimidade entre os principais dirigentes comunistas e é apontada como uma das causas do seu conflito com as oposições, resolvido nos julgamentos de 1937, que vitimaram importantes nomes que participaram da Revolução de 1917.

No seu livro de memórias, Churchill conta que perguntou a Stalin sobre as conseqüências da coletivização forçada e ele admitiu que ela teria provocado cerca de 4 milhões de mortos, mas que a mecanização da agricultura era necessária para por fim aos surtos de fome que assolavam periodicamente a URSS.

Objetivamente, Stalin não pretendia matar esses agricultores, diferentemente de Hitler que conscientemente determinou a liquidação física de milhões de pessoas, algumas por razões políticas ou raciais – os comunistas, os judeus, os homossexuais e os doentes – e outros para diminuir o consumo de produtos agrícolas, como no caso da Polônia, onde os nazistas pretendiam reduzir a população em um terço para sobrar mais comida para os alemães.

Como esses fascistas do MBL, não interessa a Wambert e Pugina,aprofundar qualquer discussão sobre o tema, preferindo repetir velhas mentiras, até que elas possam ser vistas como verdade, de acordo com o que ensinava Joseph Goebbels.