Trabalho escravo

 

O sonho dos empresários da FIESP, representado por aquele pato amarelo, é lucro máximo e salário zero. Com o governo Temer, eles estão chegando quase lá, mas ainda falta um pouco para alcançar o sucesso, por exemplo, dos empresários alemães durante a guerra.

Os principais empresários alemães, responsáveis por empresas aparentemente sérias e muitas hoje ainda em atividades, se associaram a Gestapo e as SS para obter aquilo que é o sonho dourado dos empresários do mundo inteiro: empregados que trabalham em tempo integral, os sete dias da semana até se exaurir, quando então são substituídos por outros, sem nenhuma queixa.

Vamos apresentar a seguir alguns dados que o professor americano Robert Gellately  retirou de arquivos alemães, recuperados depois da guerra, que comprovam os acordos feitos em contratos oficiais entre os principais empresários alemães e o governo nazista para o uso do trabalho escravo de prisioneiros,  principalmente do Leste europeu, nos campos de concentração,construídos tanto na própria Alemanha, como nos países ocupados.

  • A fábrica de aviões Heinkel tinha em 1943 cerca de 4 mil trabalhadores do campo de concentração de Sachenhausen, em Orienienburg. O engenheiro Arhur Rudolf, que comandava o programa de criação de foguetes e depois da guerra foi trabalhar para a NASA, era um dos defensores do uso desses trabalhadores escravos.
  • As empresas fabricantes dos aviões Junkers e Messerschmidt, usaram trabalhadores oriundos do campo de Buchenwald. Como a região onde as empresas atuavam estava sendo bombardeadas pelos aliados, as fábricas foram transferidas para subterrâneos. Em Mittelbau-Dora, 8  mil homens trabalharam ali e o índice de mortes era de 20 a 25 prisioneiros por dia, embaixo da terra.
  • A IG Farben, a maior empresa da Europa na época, fechou um acordo com a SS em 1941 para usar os prisioneiros de Auschwitz numa fábrica de borracha sintética
  • Em 1944, a Siemens, a mais poderosa empresa da Europa no setor elétrico, empregava mais de 15 mil trabalhadores oriundos de vários campos de concentração.
  • A Daimler-Benz se utilizou até o final da guerra do trabalho escravo de mais de 10 mil prisioneiros.
  • A Volkswagen usou em suas fábricas cerca de 3.500 prisioneiros, principalmente judeus húngaros, recrutados em Auschwitz para trabalhar como metalúrgicos.
  • A BMW fechou um acordo com as SS para usar mais de 3 mil prisioneiros, a maioria russos, em sua fábrica de Allach.

O uso dos judeus húngaros, considerados melhores capacitados para o trabalho nas fábricas, dividiu os nazistas da SS. Enquanto alguns viam as vantagens econômicas no seu uso como trabalhadores escravos nas fábricas alemãs, outras pretendiam exterminá-los nas câmaras de gás de Auschwitz.  Dos 800 mil judeus que viviam na Hungria à época da ocupação alemã, a metade foi executada em Auschwitz.

Os grandes campos tinham campos menores que funcionavam como unidades satélites e forneciam mão de obra escrava não apenas para empresas, mas também para serviços públicos e fazendas.

Era uma cena comum durante a guerra, em pequenas cidades alemãs, esses trabalhadores, quase sempre vestindo andrajos e usando tamancos nos pés, voltarem para o campo depois de trabalharem o dia inteiro fora em empresas industriais e fazendas.

Fora essas grandes empresas, outras menores foram recrutadas pelos nazistas para produzir materiais necessários para a administração das centenas de campos de concentração criados na  Alemanha e nos países ocupados, inclusive os famosos pijamas listrados, e também se valeram do trabalho escravo.

Ainda não chegamos a esse ponto no Brasil, mas também já estivemos bem mais longe

A tortura esquecida

Quando era vereador de Porto Alegre, o hoje deputado Pedro Ruas propôs que a Prefeitura desapropriasse o casarão do número 600 da Rua Santo Antônio, a uma quadra da Avenida Independência, para transformá-lo num Museu da Memória, mas pelo jeito a ideia não prosperou.

No local, nos primeiros anos da ditadura, entre 1964 e 1966, funcionou um centro clandestino para prisão e tortura de pessoas opositoras do golpe.

Como havia o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) da polícia gaúcha, onde os presos políticos (principalmente comunistas e brizolistas) eram mantidos publicamente sob custódia, mas também torturados clandestinamente, os militares do Exército montaram uma estrutura paralela, onde podiam esconder os seus presos sem que seus familiares e amigos pudessem saber onde estavam.

Ironicamente, chamaram o local de Dopinha, criando para os presos uma graduação no mundo subterrâneo da repressão: nos dois, os presos eram torturados, mas no DOPS oficial, outras pessoas, pelo menos sabiam onde eles estavam presos.

No Dopinha, tudo era clandestino e sua estrutura só se tornou conhecida quando do caso do sargento Raimundo, que apareceu morto no Guaíba com as mãos amarradas e ficou se sabendo que ele tinha sido uma das vitimas do Dopinha.

Enquanto no Brasil se pratica a política do esquecimento, na vizinha Argentina a situação é bem diferente.

Em Córdoba, a segunda cidade do país em população (3 milhões de habitantes)  existe um museu destinado a lembrar às novas gerações o horror da sua longa ditadura militar.

No prédio do Cabildo, uma pequena porta, na Pasage Santa Catalina, que liga a Plaza San Martin à Plazoleta del Fundador, ao lado da sua imponente catedral, era a entrada para o local onde funcionou durante 10 anos o Departamento de Informações da Polícia, um eufemismo para indicar que no local se instalou um Centro Clandestino de Tortura e Extermínio.

Segundo dados do próprio Centro, entre os anos de 1971 e 1982, passaram pelo local cerca de 20 mil pessoas. Eram pessoas, na maioria jovens estudantes, acusados de praticar um delito tipificado genericamente como “la subversión” .

Na Argentina, a perseguição ideológica contra grupos políticos considerados “peligrosos”, tem sua origem na chamada “Ley de residência”, aplicada contra imigrantes anarquistas e socialistas desde o início do século XX.

Hoje, o próprio local onde funcionava este centro clandestino se transformou no chamado “Museo de la Memoria”. O local foi mantido praticamente igual à época da ditadura. Apenas partes das paredes foram demolidas, para que os visitantes possam ter uma visão mais completa desse mundo infernal.

Foi a sociedade civil organizada, através de associações de ex-presos políticos, familiares de desaparecidos e presos por razões políticas e a Universidade Nacional de Córdoba, que levou os poderes executivo, legislativo e judicial a dar vida a este museu.

Nele está contada toda a história desses anos de terrorismo do Estado contra os cidadãos. Numa das salas que mais emocionam os visitantes, estão afixados nas paredes os retratos de pessoas ainda “desaparecidas” depois de 30 anos, enquanto pelas mesas se espalham álbuns e diários que contam a história de suas vidas interrompidas abruptamente pela violência policial.

Em outra, denominada apropriadamente “sala de escrache”, é exposta a história do ”Departamento de  Informaciones de la Policía de Córdoba”, com um organograma de seu funcionamento e as fotos dos repressores que fizeram parte do grupo operativo que atuou nesse local.

Já que a prefeitura, na administração passada, foi incapaz de levar a ideia adiante e possivelmente a atual, não teria nenhum interesse no assunto, por que as entidades que defendem os direitos humanos, os partidos políticos que combateram a ditadura, as associações que representam os jornalistas, a Universidade Federal, através do seu curso de História, não seguem o exemplo de Córdoba e criem um projeto semelhante para Porto Alegre?.

Jango

As derrotas históricas das esquerdas no Brasil sempre tiveram um componente comum: a ilusão de que elas pudessem conduzir um grande movimento de reformas sociais ao qual se uniriam segmentos de um pretenso centro democrático.

O último grande revés foi a derrubada do Governo Dilma através de um golpe parlamentar, pondo fim a 12 anos de governos que tentaram e de certa forma conseguiram, melhorar as condições de vida da população mais pobre do País, mediante um acordo com os partidos de Centro (o PMDB) e mesmo de direita (o PP), que perdurou enquanto as condições econômicas se mantiveram estáveis e permitiram os ganhos dos grandes empresários.

Não foi a primeira vez na história recente do País que as esquerdas apostaram num projeto reformista que pretenderam viabilizar, senão com o apoio, pelo menos com a tolerância do grande empresariado internacional e nacional e se deram mal.

Um exemplo clássico disso foi o governo de João Goulart de 1961 a 1964. No final desse mês e início de setembro, vamos relembrar mais uma vez o movimento da Legalidade, que impediu o golpe de estado que tentava evitar a posse do vice-presidente João Goulart, depois da renúncia do presidente, Jânio Quadros.

O movimento foi o primeiro, depois da Revolução de 30, a contar com uma ampla participação popular, o que só viria a se repetir muitos anos depois com o Movimento pelas Diretas. Como este último, a vontade popular foi também fraudada na Legalidade, com o arranjo feito pelas elites políticas e econômicas do País para a instituição do parlamentarismo.

A Legalidade será sempre relembrada, principalmente no Rio Grande do Sul, pela ação do então Governador Leonel Brizola no episódio e pela ampla participação da população na resistência ao golpe, através dos sindicatos operários e dos estudantes.

Certamente será também mais uma oportunidade para alguns, tentar recuperar a imagem de João Goulart, cuja participação dúbia naquele evento permitiu o surgimento de um regime espúrio – um parlamentarismo consentido por um acordo com os militares – e pouco depois criou as condições para o golpe de estado de 1964.

Um dos que se esforçam para valorizar a atuação de Jango nesse episódio foi professor Jorge Ferreira, da Universidade Fluminense, como seu livro “João Goulart – uma Biografia”.

O professor Ferreira, que já havia escrito um livro valorizando o papel do velho PTB e do trabalhismo na construção da democracia brasileira, tratou de criar um personagem distante daquelas qualificações com as quais Jango foi brindado durante tanto tempo, tais como “fraco”, “despreparado”, “demagogo” e “covarde”.

Muitos desses adjetivos foram realmente criados pela direita para atingir Jango e ajudar a preparar o golpe de 64, mas objetivamente não há como esquecer que foram as vacilações de Jango que criaram as condições para o golpe e a longa ditadura que se seguiu.

Em 61, quando havia uma ampla mobilização nacional para derrotar os golpistas, ele preferiu ouvir os conselhos de Tancredo Neves, em Montevidéu, aceitando o acordo costurado pelas lideranças políticas conservadoras e os militares sublevados, abandonando os que haviam se mobilizado no Sul em defesa do seu mandato.

A desculpa era de evitar uma luta fratricida entre os brasileiros, a mesma que seria usada depois em 64 para não sufocar o golpe militar no seu nascedouro.

O primeiro sinal da fraqueza de Jango foi dado na noite em que finalmente retornou a Porto Alegre, no primeiro dia de setembro de 1961, vindo de Montevidéu.

A presença de João Goulart no Palácio Piratini foi anunciada de forma entusiástica pelo serviço de som voltado para a Praça da Matriz, logo depois da execução do Hino Nacional.

A qualquer momento, ele deveria falar para a multidão que se concentrava em frente ao Palácio Piratini. Quando ele surgiu na sacada do Piratini, a multidão pensou que este momento tinha chegado. Jango, porém, apenas acenou para o público e retornou para o interior do Palácio, decepcionando a todos.

Ele havia assumido em Montevidéu um compromisso com Tancredo Neves de não fazer manifestações públicas, atendendo uma exigência dos ministros militares.

Durante o seu curto período como Presidente, primeiro dentro do regime parlamentarista e depois quando se restaurou o presidencialismo, Jango se cercou de ministros conservadores e fez concessões enormes aos interesses norte-americanos, como no caso da encampação das concessionárias de energia elétrica.

Mesmo assim não mereceu a confiança das forças políticas da direita, que continuaram tramando o golpe em conluio com os mesmos militares que se sublevaram em 61, e perdeu o apoio das esquerdas que batalhavam por reformas sociais.

No início de 64, quando tentou retomar sua ligação com os sindicatos, os partidos de esquerda e os militares nacionalistas, no comício de 13 de março no Rio de Janeiro, suas bases de apoio já estavam fragilizadas.

Mesmo assim, teria sido possível resistir ao golpe se autorizasse medidas de força contra os insurgentes.

O golpe só se pôs em marcha pela ação de um general que não fazia parte do comando do esquema golpista – Mourão Filho, auto-intitulado de “A Vaca Fardada”- e surpreendeu o próprio General Castelo Branco, o líder do movimento, levando-o a avisar o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, para que fugisse porque o movimento tinha fracassado.

Apesar desses sinais, Jango que estava no Rio, em vez de mandar prender Lacerda e os generais que comandavam realmente o golpe, decidiu viajar para Brasília, depois para Porto Alegre, onde não aceitou os conselhos de Brizola de organizar a resistência no Sul e finalmente para o Uruguai, de onde não mais retornaria vivo ao Brasil.

Se Jango preferiu renunciar para evitar “derramar o sangue de brasileiros”, como dizem seus defensores, na esperança que o golpe fosse passageiro e que as eleições em 65 garantissem a retomada do processo formalmente democrático, ainda que com o domínio dos partidos do centro-direita, se enganou redondamente.

O regime militar se prolongou por 20 anos, com muito sangue de brasileiros derramado.

Relembrar esse episódio talvez possa servir para que as esquerdas não repitam os erros do passado fazendo as alianças que Jango fez na década de 60 do século passado e Lula e Dilma, há poucos anos.

 

A pior classe média

 

A classe média brasileira, que a Marilena Chauí diz odiar, não é um grupo homogêneo de pessoas que pensa politicamente da mesma maneira. Ela tem varias subdivisões, mas o que me interessa, até para provocar uma discussão, é a sua macro divisão em dois grandes grupos.

Existe a classe média tradicional, politicamente alienada, religiosa, ignorante, anticomunista; que se informa apenas vendo a Rede Globo e lendo a Revista Veja e jornais como O Globo, Estadão , Folha e Zero Hora; que é admiradora do Moro e batedora de panelas; que faz discursos moralista contra corrupção; que diz odiar todos os políticos;  que votou na Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais e depois no Aécio; que diz não gostar do Bolsonaro, mas admite votar nele se seu único adversário for o Lula.

Mas existe outra classe média que talvez seja pior que a primeira. É uma classe média que passou pelos bancos universitários; que é contra qualquer tipo de preconceito, de classe, de raça ou de gênero; que gosta de citar Marx e Trotski, embora tenha lido pouco de cada um deles, que não sabe ainda o que pensar de Lenin, mas abomina Stalin; que vota sempre nos candidatos do PT; que está engajado em campanhas tipo “Fora Temer” ou “Volta Dilma”, mas que tem um defeito crucial porque sonha chegar ao paraíso consumista do mundo moderno como uma concessão da burguesia e não como um direito arrancado a força.

A maneira mais fácil de distinguir essa nova classe média daquela tradicional e ignorante é ouvi-la se apresentar como “socialista democrata” ou suas variantes, como “esquerda democrática”, “esquerda não comunista”ou “socialista anti- stalinista”. O uso do adjetivo que restringe o caráter de luta de classe, que devia ser inerente a opção pelo socialismo, é o cartão de visita que identifica esse segmento de público.

Para completar a apresentação desse componente das nossas esquerdas, que segundo Zizek e Bandiou, representam o maior entrave para uma revolução socialista, alguns dos seus integrantes podem se apresentar apenas como marxistas, o que além do glamour pelo título, justifica condenar qualquer tentativa de romper o quadro de dominação do capitalismo através de movimentos não ortodoxos, como por exemplo a chamada “revolução boliviariana”.

Não foi sem uma boa dose de ironia, que Aldo Fornangieri, na apresentação do seu livro “A Crise das Esquerdas”, recomendou que elas fossem menos marxistas e mais maquiavélicos

Enquanto as esquerdas criam cursos universitários de pós graduação para entender seu futuro (As Esquerdas no século XXI, curso oferecido em Chapecó pela Universidade da Fronteira Sul) e se preparam para disputar uma eleição, onde mais uma vez serão derrotadas, a direita não perde tempo em reforçar seu poder.

Essa semana, um dos mais inteligentes pensadores do neoliberalismo brasileiro  (até porque no passado  foi também um homem de esquerda)  o banqueiro Armínio Fraga ( Presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique) disse que  “se a mudança na direção da política econômica for mantida, consolida uma coisa muito boa. Pode acontecer o contrário, uma guinada populista e ir tudo para o brejo”

Enquanto as esquerdas pensam num possível retorno ao poder por via eleitoral,  Armínio Fraga deixa bem claro o que os novos donos do poder pensam sobre 2018.

“Se Lula for candidato, vai voltar ao mesmo padrão de mentiras e promessas de antes. Ele declarou outro dia que nunca o Brasil  precisou tanto do PT quanto hoje. Para quê? Para quebrar de novo? Para enriquecer todos esses que estão aí mamando há tanto tempo? “

As esquerdas são sonhadoras (o que em si não é um mal, desde que seus sonhos sejam factíveis) a direita é pragmática e dispõe de um arsenal de medidas jurídicas e parlamentares para impedir que a experiência reformista de Lula possa se repetir por via eleitoral.

Uma delas, a malfadada experiência parlamentarista, tentada em 1961, já está sendo novamente aventada para impedir qualquer volta do PT ao poder.

Caso nada dê certo para a direita, ela vai chamar a cavalaria novamente.

A esquerda sem rumo

A esquerda precisa urgentemente entender que seu objetivo final é a destruição da ordem capitalista e por mais utópica que possa parecer essa ideia, é a única luta que vale a pena ser travada.

Numa iniciativa do site de notícias Sul 21, foi lançado em Porto Alegre o livro “ A crise das esquerdas” organizado pelo cientista político Aldo Fornazieri e pelo sociólogo e psicanalista Carlos Muanis, reunindo conversas com Guilherme Boulos, do MTST, com o ex-governador Tarso Genro e com o diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Fausto.

O lançamento do livro serviu também para um debate sobre o tema, reunindo uma mesa integrada por Aldo Fornazieri, Tarso Genro, o presidente regional do PT, Pepe Vargas e a professora Berna Menezes do PSOL, todos unânimes em ressaltar o momento atual de crise em que vive o movimento de esquerda no País.

Fornazieri foi o mais contundente de todos, ao afirmar que a crise das esquerdas é a história da covardia política que continua até hoje. “A independência do Brasil foi proclamada pela própria Coroa portuguesa e não por seu povo; a República veio com um Marechal imperialista em cima de um cavalo.e o governo Lula foi o último momento de “bestialização da política”, por unir trabalhadores e um projeto que se queria de esquerda,a tipos como Paulo Maluf ”.

Tarso Genro lamentou que o PT “tenha feito um congresso recente e não discutiu nada, não discutiu programa, seus erros, para que possa vir a ser disputado como partido de vanguarda republicano”

Pepe Vargas apoiou a crítica à sigla. “Se não fizermos esse debate mais de fundo, vamos cair numa pragmática de programa e aliança. Qual será em 2018? Será um desastre para experiência que se construiu nos últimos anos”

A professora Berna disse que o “PT foi o último dos velhos – porque carregou coisas com diferenças. criou coisas fantásticas, como formar uma frente nos anos 1980 que ia da igreja ao PSTU”.

Depois que palestrantes e o público presente ao evento concordaram que as esquerdas vivem uma crise sem precedentes na história recente do País, fica a velha questão – o que fazer? – colocada aqui como uma interrogação e não como uma afirmação, como fez Lenin.
Tarso Genro deu uma pista: “A gente discutir somente com os iguais, com quem pensa a mesma coisa, é simples e agradável. Mas discutir com os diferentes, seja à esquerda ou à direita, é muito mais esclarecedor do que reiterar velhas dogmáticas que estão cansando a História”,

Os 100 anos da Revolução Russa, que vamos comemorar em outubro, tem obrigado a todos nós voltar a olhar para seu exemplo, analisar seus acertos e seus erros.

Durante os oito meses que separaram a queda do czarismo na Rússia, em fevereiro, até a Revolução de Outubro, a esquerda que realmente queria conquistar o poder, sob o comando de Lenin e Trotski, passou por um processo de enxugamento, que eliminou dos seus quadros os vacilantes e os conciliadores.

Mesmo minoritários em determinado momento, foram os bolcheviques os únicos capazes de perceber que o momento histórico em que vivia a Rússia permitiria o salto de qualidade rumo ao socialismo.

Não seria este um caminho para o Brasil, mesmo levando em conta que vivemos uma situação bem diferente: em vez de uma frente ampla que reúna tendências conflitantes entre si, como foram os projetos montados para as eleições de Dilma, um grupo forte e organizado com metas políticas não tão imediatas como a eleição de 2018?

Fornazieri lembra com precisão que “o sistema único do capitalismo já comporta todo o resto dentro de seu contexto. Mesmo as lutas que a esquerda trava hoje, são todas dentro do sistema capitalista. E ele aprendeu a fazer da esquerda e suas demandas por uma visão social o que sustenta a aparência de pluralidade”

Lutas que mobilizam hoje importantes segmentos de esquerda, como as contra o racismo, o homofobia, a defesa da ecologia e o feminismo, cabem perfeitamente dentro do capitalismo e são usadas por ele para desviar as energias que deviam ser concentradas na luta pela criação de uma sociedade socialista.

Isso não significa que não são batalhas importantes. São, mas suas vitórias serão sempre apropriadas pela ordem estabelecida como uma conquista do seu viés aparentemente democrático.

Enquanto a esquerda verdadeiramente socialista não elaborar um projeto de longo prazo para a conquista revolucionária do poder, do qual devem ser excluídos os segmentos que representem as classes sociais de não-trabalhadores, ela continuará se enganando com conquistas passageiras e mesmo falsas, como ocorreu nos governos do PT.

 

A máquina do tempo

Encontro o Aldemarino no bar do Foguinho. Ele me chama pro lado porque quer me relatar a sua última grande aventura

– Descobri a máquina do tempo.

Aparentemente o Aldemarino está sóbrio, pelo menos não exala aquele bafo tradicional das 6 da tarde, quando o encontro diariamente para falar mal dos políticos, do nosso time e da vida em geral.

O Aldemarino trabalha como oficial administrativo no curso de Física da Universidade Federal, onde convive – como diz sempre – com um bando de cientistas loucos.

– Escreve aí, Percival (eu me chamo Percival, o que vou fazer?), os caras descobriram uma máquina que pode te levar para o passado, com a condição em que não interfiras em nada, tu pode olhar, mas não pode tirar nem o pó de uma mesa, explicaram.

– Tu já viu a máquina, cara?

– Não só vi, como eles me usaram para experimentar a tal máquina.

– Sério?

– Cara, a máquina é uma geringonça muito estranha. Tu senta lá e  e eles te mandam diretamente para uma hora, num dia, num determinado lugar.

– E tu escolhes para onde quer ir?

– O Dr. Estrôgenes, que comanda aquele grupo de loucos, disse que a máquina ainda está em testes e por enquanto ela é capaz de recuar no tempo até o máximo de 100 anos e ela pode te largar, tanto em  Cachoeirinha, quanto em Washington.

– E pra onde te mandaram.

– Cara, eu não entendo muito de história, nem geografia, mas acho que era Berlim e pelo jeito parece que era uma época de guerra, porque tudo mundo andava fardado e tinha aquele cara de bigodinho que a gente via nas comédias do Carlitos ,querendo matar todo o mundo.

– O Hitler?

– Pode ser. Mas era um negócio engraçado, pois numa hora parecia mesmo Berlim e outra hora era Curitiba.

– Berlim e Curitiba?

– É o professor explicou depois que o sistema ainda está sendo aperfeiçoado e as vezes mistura épocas, cidades e pessoas. Ora aparecia esse Carlitos e ora aquele cara de Curitiba que quer prender todo mundo, mesmo que não tenha provas contra o sujeito.

– Hitler e o Moro?

– Engraçado, porque será que a máquina do tempo fica misturando esses dois?

– Esquece Aldemarino, vamos beber para ver se ficamos mais lúcidos.

Um manifesto fascista

O que caracteriza o discurso fascista é a simplificação dos argumentos. Não há mais lugar para dúvidas. Só existe a certeza. Quem o profere é sempre alguém que se considera portador de uma verdade única.

Numa sociedade democrática seu autor é quase sempre uma figura excêntrica e ridícula, que nos casos mais graves acaba sendo internado num sanatório para doentes mentais.

Numa sociedade ditatorial ele é trágico, porque muitas vezes se transforma no discurso oficial dos donos do poder. Exemplo definitivo na história da humanidade foi o período do nazismo na Alemanha, onde as versões mais absurdas da realidade se transformaram em verdades oficiais.

Num país como o Brasil, que vive um período onde as liberdades civis, tão duramente conquistadas, estão sob a ameaça de um governo que assumiu o poder de uma forma espúria e de forças sociais que trabalham diariamente contra elas, esse discurso deve ser denunciado enquanto isso ainda é possível.

Tome-se como exemplo o manifesto de uma centena de promotores públicos, meia dúzia de advogados e um juiz,em defesa do endurecimento das penas atribuídas aos condenados na justiça criminal e na crítica, ao que os signatários do documento chamam de “garantismo” e de “bandidolatria”.

Trata-se, manifestamente, de um documento de conteúdo claramente fascista, na medida em que, se valendo de um sentimento difuso de insegurança por parte da sociedade, prega abertamente o fim das garantias que a lei assegura a todas as pessoas, mesmo àquelas que cometeram algum crime.

No caso dos julgamentos criminais, a lei permite que o acusado negue no seu julgamento o que “confessou” na fase policial, porque o legislador percebeu que estas confissões são muitas vezes obtidas de forma ilegal.

São essa e outras medidas,formas claras de proteção ao ser humano, nascidas daquela visão de que todos são inocentes até que se provem sua culpa, que os signatários do documento querem acabar.

E para isso usam argumentos falsos, afirmando que a maioria dos criminosos escapa às condenações. Um dado concreto da própria Justiça do Rio Grande do Sul mostra que, nos últimos dois anos, a população carcerária gaúcha amentou em oito mil pessoas, o que significa uma elevação de 30% dos presos.

Na sua argumentação simplista, os signatários do manifesto acabam defendendo a velha e surrada ideia de que o criminoso nasce feito, ao tentarem desconstruir o fato amplamente reconhecido pelos estudiosos de que ele é um produto do meio e da cultura onde vive.

O perigo desse manifesto é que uma mídia, como no caso do Rio Grande, que faz do noticiário policial seu maior destaque jornalístico, dê seu apoio à iniciativa, como parece já estar ocorrendo e convença a população de que essa é a posição correta, tornado os defensores de uma justiça mais humana, figuras execráveis para a sociedade.

Seria bom que esses defensores de um autoritarismo ultrapassado, lembrassem o que ocorreu com a justiça no período do nazismo na Alemanha.  Lá, como mostra em seu livro “Apoiando Hitler – consentimento e coerção na Alemanha nazista”, o professor americano Robert Gellately, a Justiça foi colocada a serviço da ideologia mais perniciosa da história da humanidade.

Consultando documentos e citando jornais da época, o professor Gellately, comprova como a justiça comum alemã endureceu em seus julgamentos, transformando pequenos crimes, antes passíveis de condenações leves, em condenações pesadas e mesmo à penas de morte.

E não foram apenas os judeus, comunistas e ciganos, que seriam transformados em alvos de uma justiça extremamente politizada e aplicada por juízes temerosos do poder da Gestapo e do Kripo (as policias nazistas), mas todos os tipos de dissidentes sociais, os que eram considerados pela justiça nazista como “vagabundos, desviantes sexuais, delinqüentes juvenis”, milhares deles levados para os campos de concentração que os nazistas espalharam pela Alemanha.

A pretexto de tranqüilizar a população, ”ordeira e trabalhadora” alemã, esses defensores da moral introduziram no País a ditadura mais monstruosa que o mundo já começou.

E tudo começou também numa velha cervejaria de Munique com um manifesto a favor da ordem e contra os dissidentes sociais.

 

 

 

Vidas inúteis

Descubro agora, com muito atraso, que a única coisa que poderia dar sentido as nossas vidas seria ter uma religião e acreditar num Deus. Qualquer religião e qualquer Deus. Se nenhuma das suas versões, hoje disponíveis (judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, espiritismo) agradar,sempre é possível  criar algo novo.

Quando aquele processo de evolução das espécies chegou a um protótipo que poderia se considerar como um ser humano, começou o nosso drama.

Em vez de continuar fazendo o que todos nossos ancestrais faziam e continuando fazendo hoje os outros animais que interromperam em algum momento seu ciclo evolutivo, ou seja, ver no sexo apenas uma forma de preservação  das espécies, o homem descobriu que o sexo poderia ser uma fonte de prazer.

Nesse momento, começou a corrupção da natureza.

Como não podia gozar o sexo o tempo inteiro, mas como não podia também deixar de pensar nisso, o homem tratou de encontrar justificativas para essa compulsão ou maneiras de sublimá-la.

Foi então que o homem criou a filosofia, a política, a democracia, o socialismo, a psicanálise, os direitos humanos, a literatura, o cinema,o facebook e não parou mais por séculos e séculos.

Mesmo tendo diversificado o sexo (a suruba, o troca-troca de casais, posições heterodoxas, o homossexualismo e suas variáveis),  o homem não encontrava os parceiros, ou não tinha fôlego para tê-lo o tempo inteiro.

Aí, ele foi inventando coisas para se ocupar, como o condicionador de ar, o avião a jato, o elevador, até chegar ao seu ápice, o celular.

Para não pensar o tempo inteiro no sexo, o homem resolve palavras cruzadas, viaja para Bariloche (onde quase vai morrer de frio), vai ao Natal Luz em Gramado, sonha com um sorvete de chocolate e dulce de leche do Fredo e se diz especialista em vinho malbec argentino.

Suprema ironia: dedica boa parte de sua vida para torcer pelo Internacional, o que talvez seja a coisa que mais se aproxima do prazer que ele busca no sexo, embora tenha tanto num, como no outro caso, frustrações pelas derrotas e pelas “broxadas”.

Vamos confessar, que nós socialistas, mais do que repartir de uma maneira mais justa as riquezas do mundo, queremos a universalização do prazer sexual.

Nosso lema deveria ser, em vez de “proletários uni-vos”, “ejaculação e orgasmos” para todos.

Na sociedade escravocrata, o sexo era prerrogativa dos senhores; no medievo, só os nobres e padres poderiam desfrutá-lo sem reservas.

O capitalismo prometeu universalizá-lo, mas só faz isso na aparência.

Hoje, uma nutrida conta bancária ou no mínimo, um carro importado, facilitam o acesso do interessado ao prazer sexual.

Os despossuídos só podem lutar, como fizeram os jovens franceses em 68, pelo sexo geral e irrestrito, ou esquecerem isso e se dedicaram ao consolo da religião, que nos promete um retorno à condição de, em algum momento, vivermos como puro espírito, livre das pulsões do sexo.

Aos velhos ateus como eu, alijados das grandes disputas sexuais e sem uma perspectiva religiosa, só resta ir vivendo do jeito que dá o tempo que nos sobra por aqui.

Conversas em torno de um Catena Zapata

Periodicamente me reúno com o Dr. Franklin Cunha em seu bunker debruçado sobre o Guaíba, para um balanço dos últimos acontecimentos, sempre inspirado por muitos goles de um malbec  Catena Zapata que um amigo correntino lhe fornece periodicamente.

Aliás, os vinhos Catena Zapata e Jose Luiz Borges, são para o Franklin, as duas mais importantes instituições argentinas e o pouco que sobrou da devastação provocada pela ditadura militar.

Falamos, basicamente, sempre sobre os mesmos assuntos – depois de alguma idade, a gente vai excluindo o supérfluo – política e literatura, já que outros temas que me interessam  – futebol e cinema  – não fazem parte do cardápio atual do Franklin, que tem dois graves defeitos: é gremista e não gosta de sair de casa para ir ao cinema.

Essa semana,  lamentamos o novo espetáculo de indignidade explicita dos deputados em Brasília. De alguns, dos quais não esperávamos nada  -como diria o Barão de itararé – não saiu realmente nada, mas do Fogaça, por uma razão qualquer, o Franklin tinha alguma esperança.

– Afinal, ele já escreveu letras para algumas músicas interessantes ( Vento negro, campo afora vai correr. Quem vai embora tem que saber. É viração) e quando se candidatou a senador, o Luís Fernando disse que ia votar nele.

É, mas o Fogaça não aproveitou a oportunidade para se recuperar.

Lembramos outra vez a importância  de se continuar lendo Zizek,  da necessidade de lembrar ao Airton, ao Luiz Octávio, ao Lantieri e ao Mareu , de que aquela ideia de revivermos a Liga Espartaquista , da Rosa Luxemburgo, precisa ser retomada.

E finalmente, nos dedicamos a falar mal do governo de Israel, com o apoio dos nossos escritores judeus preferidos – Naum Chomsky, Judite Butler, Sholomo  Sand e Norman Finkelstein.

Nessa hora, o Franklin, fecha as janelas e desliga os telefones, porque, embora não se considere nenhum pouco paranóico,  acha que com o Mossad, todo o cuidado é pouco.

Dependendo do Franklin nossos encontros em torno de um Catena Zapata nunca vão ter fim, porque como membro da Academia Rio Grandense de Letras, ele tem a imortalidade garantida. Eu como simples morta, tenho prazo de validade se esgotando e por isso preciso aproveitar.