A esquerda sem rumo

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A esquerda precisa urgentemente entender que seu objetivo final é a destruição da ordem capitalista e por mais utópica que possa parecer essa ideia, é a única luta que vale a pena ser travada.

Numa iniciativa do site de notícias Sul 21, foi lançado em Porto Alegre o livro “ A crise das esquerdas” organizado pelo cientista político Aldo Fornazieri e pelo sociólogo e psicanalista Carlos Muanis, reunindo conversas com Guilherme Boulos, do MTST, com o ex-governador Tarso Genro e com o diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso, Sérgio Fausto.

O lançamento do livro serviu também para um debate sobre o tema, reunindo uma mesa integrada por Aldo Fornazieri, Tarso Genro, o presidente regional do PT, Pepe Vargas e a professora Berna Menezes do PSOL, todos unânimes em ressaltar o momento atual de crise em que vive o movimento de esquerda no País.

Fornazieri foi o mais contundente de todos, ao afirmar que a crise das esquerdas é a história da covardia política que continua até hoje. “A independência do Brasil foi proclamada pela própria Coroa portuguesa e não por seu povo; a República veio com um Marechal imperialista em cima de um cavalo.e o governo Lula foi o último momento de “bestialização da política”, por unir trabalhadores e um projeto que se queria de esquerda,a tipos como Paulo Maluf ”.

Tarso Genro lamentou que o PT “tenha feito um congresso recente e não discutiu nada, não discutiu programa, seus erros, para que possa vir a ser disputado como partido de vanguarda republicano”

Pepe Vargas apoiou a crítica à sigla. “Se não fizermos esse debate mais de fundo, vamos cair numa pragmática de programa e aliança. Qual será em 2018? Será um desastre para experiência que se construiu nos últimos anos”

A professora Berna disse que o “PT foi o último dos velhos – porque carregou coisas com diferenças. criou coisas fantásticas, como formar uma frente nos anos 1980 que ia da igreja ao PSTU”.

Depois que palestrantes e o público presente ao evento concordaram que as esquerdas vivem uma crise sem precedentes na história recente do País, fica a velha questão – o que fazer? – colocada aqui como uma interrogação e não como uma afirmação, como fez Lenin.
Tarso Genro deu uma pista: “A gente discutir somente com os iguais, com quem pensa a mesma coisa, é simples e agradável. Mas discutir com os diferentes, seja à esquerda ou à direita, é muito mais esclarecedor do que reiterar velhas dogmáticas que estão cansando a História”,

Os 100 anos da Revolução Russa, que vamos comemorar em outubro, tem obrigado a todos nós voltar a olhar para seu exemplo, analisar seus acertos e seus erros.

Durante os oito meses que separaram a queda do czarismo na Rússia, em fevereiro, até a Revolução de Outubro, a esquerda que realmente queria conquistar o poder, sob o comando de Lenin e Trotski, passou por um processo de enxugamento, que eliminou dos seus quadros os vacilantes e os conciliadores.

Mesmo minoritários em determinado momento, foram os bolcheviques os únicos capazes de perceber que o momento histórico em que vivia a Rússia permitiria o salto de qualidade rumo ao socialismo.

Não seria este um caminho para o Brasil, mesmo levando em conta que vivemos uma situação bem diferente: em vez de uma frente ampla que reúna tendências conflitantes entre si, como foram os projetos montados para as eleições de Dilma, um grupo forte e organizado com metas políticas não tão imediatas como a eleição de 2018?

Fornazieri lembra com precisão que “o sistema único do capitalismo já comporta todo o resto dentro de seu contexto. Mesmo as lutas que a esquerda trava hoje, são todas dentro do sistema capitalista. E ele aprendeu a fazer da esquerda e suas demandas por uma visão social o que sustenta a aparência de pluralidade”

Lutas que mobilizam hoje importantes segmentos de esquerda, como as contra o racismo, o homofobia, a defesa da ecologia e o feminismo, cabem perfeitamente dentro do capitalismo e são usadas por ele para desviar as energias que deviam ser concentradas na luta pela criação de uma sociedade socialista.

Isso não significa que não são batalhas importantes. São, mas suas vitórias serão sempre apropriadas pela ordem estabelecida como uma conquista do seu viés aparentemente democrático.

Enquanto a esquerda verdadeiramente socialista não elaborar um projeto de longo prazo para a conquista revolucionária do poder, do qual devem ser excluídos os segmentos que representem as classes sociais de não-trabalhadores, ela continuará se enganando com conquistas passageiras e mesmo falsas, como ocorreu nos governos do PT.

 


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