Nossa maldade não tem limites

Como todos os animais, nós somos profundamente egoístas porque esse é nosso instinto natural, é o que apreendemos como forma de sobrevivência.

O que nos coloca no ponto mais alto do mundo animal é que, ao adquirir consciência dos nossos atos, somos capazes de estabelecer critérios morais para julgar nossos atos, permitindo controlar essas pulsões

A vida civilizada nada mais é do que a repressão aos instintos que, se liberados, destruiriam todas as conquistas da humanidade, reunidas na famosa declaração dos direitos universais do homem.

Mas basta surgir, porém,uma grande crise social e econômica e toda essa fachada civilizatória pode vir abaixo e os homens mostram como sua maldade pode ser exercida sem qualquer limite ético.

Na história recente da humanidade nada foi tão revelador dessa possibilidade como o advento do nazismo na Alemanha.

O discurso de ódio extremo ao ser humano foi feito na língua alemã, a mesma em que se expressavam artistas, pensadores e cientistas como Marx, Freud, Rilke,Habermas,Hanna Arendt,Jung, Nietzsche, Lutero, Rosa Luxemburgo, Goethe, Einstein, Humbold, Mozart, Bach, Beethoven, Max Planck, Brecht, Schiller, Adorno, Marcuse, Walter Benjamin, Wagner e tantos outros.

De 1933 a 1945, a Alemanha viveu um período único na história recente da humanidade, onde o ódio a determinados grupos étnicos e políticos se tornou uma política de estado e pior uma política aceita pela maioria das pessoas.

Hoje, passados mais de 70 anos do fim desses trágicos eventos, ainda se ouve e se lê nos livros que o povo alemão não sabia do que estava ocorrendo, que tudo era obra de um bando de celerados, comandados por Adolfo Hitler e seus asseclas.

Em 2014, um filme alemão “Labirinto de Mentiras” (Im Labyrinth des Schweigens) de Giulio Ricciareli, mostrava como na década de 60, guardas do campo de extermínio de Auschwitz podiam continuar trabalhando em escolas primárias, prática estimulada pela política de esquecimento que os americanos impuseram na então Alemanha Ocidental, como forma de enfrentar os discursos acusatórios que vinham da Alemanha Oriental.

Depois que a escritora alemã Christa Wolf declarou que “para saber sobre a Gestapo, os campos de concentração e as campanhas de discriminação e perseguição bastava ler os jornais”, o professor de História da Universidade Estadual da Florida, Estados Unidos,Robert Gellately, se dedicou a coletar provas de que a população alemã,na sua maioria, não só sabia, mas aprovava muitas das práticas de Hitler.

O resultado das suas pesquisas é o livro “Apoiando Hitler. Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista (editado no Brasil pela Record).

Disse o professor Gellately, em recente entrevista sobre o seu livro: “Conhecendo o mito “nós não sabemos de nada”, fiquei chocado com a quantidade de material que era publicado na imprensa local, regional e nacional. Muito do que aconteceu estava ali – as pessoas apenas ignoravam por rejeitar a informação. Isso porque o regime nazista não ameaçava todos os alemães, apenas grupos minoritários selecionados, incluindo, claro, os judeus. A grande maioria da sociedade tinha pouco a temer. Já durante a II Guerra, entre 1939 e 1945, as informações eram mais encobertas. Não obstante, um grande número de pessoas estava envolvido diretamente com as ações do governo, e as notícias chegavam a qualquer um que quisesse de fato saber o que acontecia por baixo dos panos. Nesse período, os campos de concentração cresceram, ocupando fábricas distantes dos centros urbanos e também no interior de algumas cidades, tornando-se parte da vida cotidiana das pessoas e, portanto impossível de serem ignorados.”

Frantz


A herança mais maligna do capitalismo talvez seja a Primeira Grande Guerra. Ali, não houve nenhuma desculpa para justificar toda aquela matança. Eram, pura e simplesmente, interesses econômicos das grande potências em conflito.

No seu grande livro, Les Thibault, Roger Martin de Gard descreve todo o clima que antecedeu a guerra, com a traição dos partidos socialistas, que da denúncia das motivações para a guerra, se transformaram, tanto na França como na Alemanha, em defensores de um nacionalismo xenófobo.

Agora, o diretor francês, François Ozon, no filme Frantz, nos relata a persistência desse sentimento num pós guerra em que franceses e alemães continuam se vendo como inimigos, ao mostrar a complexa relação entre um ex-soldado francês e alemã (uma interpretação magnífica de Paula Beer) que perdeu o noivo na guerra.

Quem ainda lembra Casablanca (com Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann, de 1942) não esquece a famosa cena em que os militares nazistas estão num bar cantando “Die Wacht am Rhein”, e os franceses, em resposta cantam “La Marseillaise”.

François Ozon retoma essas duas canções patrióticas, primeiro, para mostrar o ressentimento dos derrotados e inconformados alemães e depois para registrar o ardor patriótico dos vitoriosos franceses.

O interessante é que o hino francês, que todos nós acostumamos a ouvir como uma resposta dos oprimidos aos opressores (na Revolução Francesa e na guerra contra o nazismo) aqui é ouvido como o louvor para os novos opressores

O rato que ruge.

 

Confesso que tenho uma certa simpatia pelo Kim Jong Un. Poucos têm a coragem dele para desafiar os Estados Unidos.

Por isso mesmo me atrevo a sugerir, ao líder da Coreia do Norte que veja o filme inglês de 1959, o Rato que Ruge ( The Mouse that Roared), com o Peter Sellers fazendo três papeis (a Duqueza Gloriana XII, o primeiro ministro Ruppert “Bobo” Mountjoy e o Marechal Tully Bascomb).

Caso Kim se disponha a conhecer a história vai ter boas ideias de como se pode enfrentar o imperialismo americanos.

A economia de Fenwick, um hipotético país mais situado entre a França e a Suíça, está na bancarrota, pois o vinho, seu único produto de exportação, sofre a concorrência de um produto similar mais barato criado nos Estados Unidos da América, seus antigos importadores. Então a governante do país, a Duquesa Gloriana XII, é convencida pelo primeiro-ministro “Bobo” Mountjoy a declarar guerra aos americanos, com o único propósito de perder e depois conseguir financiamento para a “reconstrução”, numa referência satírica ao Plano Marshall.

Mountjoy incumbe o atrapalhado Marechal Tully Bascomb de liderar a força de ataque, que invade Nova Iorque munida de arcos e flechas.

A invasão é completamente ignorada pelas autoridades americanas, pois a declaração de guerra de Fenwick (que anteriormente havia sido até motivo de riso para o ministro americano das relações exteriores) se extraviara no meio da papelada diplomática.

Em Nova Iorque, todos estão ocultos sob abrigos subterrâneos por causa do teste de uma nova bomba superpoderosa. Sem ninguém para combater, os 22 arqueiros vagueiam pelas ruas e por mero acaso encontram o cientista responsável pelo desenvolvimento da bomba e sua filha, sequestrando-os e levando-os com o poderoso artefato para Fenwick, juntamente com alguns oficiais do exército americano.

Ao retornar ao país Bascomb conta à incrédula Duquesa sobre a mudança de planos e que Fenwick havia “vencido a guerra”. De fato, ao saber que a poderosíssima Bomba “Q”, capaz de destruir todo um continente, estava em poder do diminuto e quase desconhecido país, as autoridades americanas vêem que não lhes resta alternativa a não ser render-se a Fenwick.

O país, por fim, acaba impondo aos Estados Unidos algumas sanções, como o pagamento de um milhão de dólares e a retomada do mercado americano para seu vinho, além do completo armistício mundial.

Eu e o meu avatar

Tudo indica que, em breve, não vamos mais poder dar bom dia para a caixa do supermercado ou puxar assunto com o funcionário do banco, porque nos seus lugares estarão máquinas cada vez mais inteligentes, mas frias como um embaixador russo dos tempos da guerra fria,numa discussão com o representante americano em assembléia da ONU.

Já ouvi dizer que mesmos os botecos estão prestes a aderir a essas novas tecnologias: no Natalício aqui em frente, haveria uma máquina para comprar o chope e outra para disponibilizar (esse é o verbo do momento) batatas fritas, sem contar as maquininhas para passar o cartão. Obviamente não aceitarão mais dinheiro vivo por uma questão de higiene.

Há uns meses, depois de alguns anos sem viajar, fui à Europa. Não sei como consegui chegar lá e sair. Nos aeroportos tudo é automatizado. As pessoas passam nas cancelas encostando os celulares nos leitores óticos e eu nem celular tinha. Aqueles cartões de embarque ficaram no passado. Os bilhetes de passagens, com várias folhas cheias de instruções em várias línguas, estão há muito arquivados. Ainda bem que guardo no fundo do baú aquela velha passagem da Varig para provar que em 1975 fui a Paris pela primeira vez.

E os carimbos no passaporte? Cada vez menos. Em partes da Europa, você só sabe que trocou de país quando as placas de estrada mudam de língua.

Um amigo meu, que sabe duas ou três palavras em inglês e nenhuma em alemão, disse que chegando a Berlim, queria que o funcionário da migração, que só falava alemão, carimbasse seu passaporte. Depois de muita insistência e uma fila cada vez maior diante do guichê, o funcionário capitulou, tirou da gaveta um velho carimbo e fez a vontade do meu amigo.

– Os caras registram eletronicamente tua chegada e depois tua partida. Então, por que você queria o tal carimbo?

– De que adiantaria ter ido à Alemanha, ficado uma semana sem falar com ninguém e passado um frio de cão, se na volta não pudesse mostrar aos amigos o carimbo no passaporte, provando que tinha estado na Alemanha?

É isso. Eu não vou viajar mais. Estou esperando que se aperfeiçoe os avatares .

Lembram do filme  Avatar, do James Cameron?

Cada pessoa tinha um avatar, um corpo biológico controlado pela mente humana. Como o filme era de 2009, certamente os avatares evoluíram muito até hoje.

Mando meu avatar para a China (já imaginou como deve ser complicado pedir café com leite, pão e manteiga em Xangai) e fico tranquilamente vendo o Inter ganhar o campeonato brasileiro da série A.

Espero que esse tipo de otimismo também não tenha saído da moda.

Claro, estou pensando em 2020, se estiver vivo até lá.

Direto do céu.

Morri e nessa condição, me dei conta exatamente do momento em que minha alma se despegou do corpo.

Quanto tempo levou?

Talvez minutos, horas, não sei.

Antes de mergulhar naquele longo túnel que me trouxe até este lugar sobre o qual pretendo falar um pouco, consegui ver que poucas pessoas choravam minha morte. Algumas lágrimas, aqui, um lamento ali e só.

Não haveria uma informação sobre minha morte na secção de necrológios de Zero Hora, mesmo sem retratinho, nem um voto de pesar na Câmara de Vereadores e o pior de tudo, não fariam, em minha homenagem, um minuto de silêncio em jogo do Inter no Beira Rio, mesmo que o time estivesse na série B.

Saí da vida, incógnito, como quando entrei.

Por isso mesmo fiquei surpreso quando fui informado que podia passar direto para o céu. Duplamente surpreso, diga-se de passagem, porque existia um céu e porque eu seria um dos seus hóspedes.

E como é o céu?

Não posso falar muito sobre isso porque tive de assinar um termo de confidencialidade, mas posso dizer que não é nenhuma Cancun, mas também não é uma Vila dos Papeleiros.

Sabendo valorizar certas coisas é até lugar bem interessante, embora também aqui não tenham chegado algumas conquistas sociais, até comuns na terra.

Por exemplo: jornadas de oito horas de trabalho, repouso remunerado e férias de trinta dias, nem pensar.

Nós as almas (algumas ainda são chamadas de penadas) ficamos à disposição em tempo integral para cumprir missões que a elite celestial costuma determinar.

Aliás, a divisão de classes aqui é muito rígida. O chamado círculo de poder, que nunca se mistura, é formado por aqueles caras que foram citados na Bíblia.

Citações na Bíblia são consideradas essenciais para sonhar com alguma ascensão social por aqui. Ser lembrado no Novo Testamento conta pontos, mas não é a mesma coisa do que ter aparecido no Velho Testamento.

Ontem (ou foi no século passado?) fui informado de que devo voltar à Terra em breve, comprovando que era verdade aquela história do Sérgio sobre reencarnações.

Não sei o que serei. Você não tem muitas opções: bicho ou ser humano, homem ou mulher. Eu vi que tinha uma vaga para um desses cachorrinhos de madame, tratados a pão de ló, mas um argentino (tem alguns aqui, mas poucos) se adiantou e pegou o lugar.

Escolhi uma vaga de homem, mas parece que é para viver como líder do tráfico numa vila popular de Gravataí, sinal de que não vou durar muito por ai, mas quando acabar, certamente vou sair em Zero Hora, obviamente na página policial.

Aguardem novas notícias minhas em breve.

Theo, um brasileiro de coragem

 

Em 1970, no auge da repressão da ditadura brasileira, os que partiam para a luta armada, quando descobertos pelos militares raramente eram presos.

 

Eram quase sempre mortos, com a desculpa de que resistiam à prisão.

Poucos escapavam com vida.

Theodomiro Romeiro dos Santos, o Theo, 18 anos foi um deles.

Junto com outros dois companheiros do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, foi capturado em Salvador e usando um revólver que trazia numa pasta, acabou matando um dos seus perseguidores.

Um ano depois se transformou no primeiro civil condenado à morte na República, por um tribunal militar, de acordo com a Lei de Segurança Nacional, pena mais tarde transformada em prisão perpétua.

Em 1979, quando ficou sabendo que seria o único preso político a não ser anistiado e que sua vida ficaria ameaçada na prisão (o governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, admitiu isso publicamente) conseguiu fugir da Penitenciária Lemos Brito e depois de passar por varias cidades baianas, pelo Rio e Brasília, exilou-se na França, de onde só retornou em 1985, quando sua condenação se extinguiu.

Theo fez então um curso de Direito e hoje está aposentado como Juiz do Trabalho, na Bahia.também o último preso político a ser anistia. Theo, por razões ideológicas, nunca pleiteou qualquer indenização como fizeram outros presos políticos.

Sua história é contada no documentário da diretora Emília Silveira, “Galeria F”, refazendo 40 anos depois, todo o roteiro da fuga de Theo, narrada por ele mesmo, sempre na companhia do filho, que nasceu quando ele estava na prisão.

A narrativa de Theo é quase pontuada por casos engraçados e por uma fina ironia, quebrada apenas quando ele conta quais são os sentimentos da pessoa torturada

“Quando você começa a ser torturado, há um confronto seu com o inimigo. Você o chama de filho da puta, você o insulta, você entra num conflito com ele, num confronto. E isso é mais fácil de fazer. Outra coisa é você ficar amarrado aqui, sozinho, sentado, com os seus fantasmas e seus medos, com os olhos vendados. Você fica se enfrentando sozinho. Não tem ninguém te batendo, não tem ninguém fazendo nada. Mas daí você começa a enfrentar os seus medos: ‘será que eu vou aguentar dessa vez, será que eu não vou denunciar ninguém?’ Então, você fica com essas angústias todas, enfrentando sozinho. Pra mim, essa era a pior situação de todas”,

O documentário termina com Theo caminhando dum lado para outro na cela em que viveu nove anos, enquanto fala: “É por isso que quando você vê no zoológico o bicho na jaula de um lado para o outro, você entende porque ele está fazendo aquilo. Porque as pessoas também fazem”, resume, em uma espécie de metáfora do que foi a ditadura civil-militar.

Vale a pena ver o documentário por duas razões: primeiro, porque é uma aula de história sobre um período dramático da vida brasileira e segundo, porque sempre é bom conhecer pessoas que enfrentaram com destemor momentos extremamente difíceis, mas que, ainda hoje,  conseguem olhar com otimismo para o futuro.

(Galeria F é exibido às 3 da tarde no Cine Bancários)

Só o ciúmes e a inveja dão boas histórias (pelo menos no teatro)

Tem uma amiga no facebook, da qual sei apenas o nome, que todas as noites me manda uma mensagem, desejando felicidades e votos de confiança no ser humano.
Logo eu, que cultivo com carinho invejas e ciúmes.
Essa semana, ao lembrar uma experiência maravilhosa da juventude, ao assistir no Teatro São Pedro, Entre 4 Paredes (Huis Clos) do Sartre, com Tônia Carrero e Paulo Autran, direção de Adolfo Celi e também o Otelo, o Mouro de Veneza, me dei conta que são esses sentimentos perversos, a inveja e o ciúmes, únicos capazes de gerar momentos de grande prazer, quando transformados em livros, filmes ou peças de teatro.
Os personagens de Entre Quatro Paredes se atormentam o tempo todo vivendo o único inferno possível, aquele que os outros criam para nós e que nós criamos para os outros.
Em 1976, no Rio de Janeiro, assisti outra peça, que também se estrutura em cima desses sentimentos ditos malignos. Falo de Vestido de Noiva, com Camila Amado (Alaíde) e Normal Benguel(a cafetina Madame Clessy). Ziembiski, que havia dirigida a primeira versão da peça de Nelson Rodrigues, em 1943, considerada uma revolução no teatro brasileiro, assinava também essa nova versão.
Alaíde é a personagem “vestida de noiva” no plano da fantasia, enquanto que no plano real está entre a vida e morte, vítima do que poderia ser um acidente de trânsito ou uma tentativa de assassinato.
Quase todas as grandes atrizes do teatro brasileiro já viveram seu papel: Maria Sampaio, na versão original, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Yona Magalhães, Camila Amado e Malu Mader, entre outras, certamente motivadas pela oportunidade de exteriorizar sentimentos tão poderosos como o ciúmes e a inveja, ou ser vítima deles.
Temos aqui, nessa peça de Nelson Rodrigues, novamente, os sentimentos mais fortes do ser humano, aqueles considerados os menos pobres, concentrados em Alaíde, da traída pelo marido e pela irmã.
Comparo esses sentimentos com outros, considerados politicamente corretos e vejo que estes últimos só encontram espaço nas colunas de “fofocas” sobre celebridades.
Assim leio (porque leio de tudo), que Alexandre Pato se separou de Fiorela; Vanessa Giacomo de Daniel Oliveira; Cauã Reymond de Grazi Masaferro;Marcelo Novaes de Letícia Spiller e Cláudia Raia de Edson Celulari e não só não demonstram ciúmes, como, caso exemplar de Vanessa, ela pagou a lua de mel de Daniel com a sua nova namorada, a Sophie Charlotte, possivelmente na França, dado o nome da moça.
Certamente, está faltando um Nelson Rodrigues para denunciar que todas essas histórias de fadas devem ser apenas fachadas e que por trás delas, o velho e bom ciúmes, sempre suspeitando de traições femininas, deve estar presente.
Nelson não confiava em nenhuma mulher e o marido devia estar sempre prevenido, até mesmo com o ginecologista da mulher: “É até deprimente pensar que, nos dias de hoje, até o ginecologista é uma ameaça. Para o bem dos homens, declaro que todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar com batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro”.
Nelson, um observador atento, tinha um conselho prático para os que suspeitam de que já estejam ostentando belas guampas.
“Se pretender seguir a esposa, aposte na sexta-feira. Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica. E ainda mais importante: Desconfie da esposa amável, da esposa gentil, cordial. A virtude é triste, azeda e neurastênica

O inferno são os outros

No inverno de 1956, a companhia teatral Tônia, Celi, Autran veio a Porto Alegre para apresentar três peças no Teatro São Pedro: o Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller; Otelo, o Mouro de Veneza, de Shakespeare e Entre Quatro Paredes, de Jean Paul Sartre.

Aos 18 anos, tive a felicidade de assistir as três peças, mas a recordação ainda hoje mais viva na memória é Entre Quatro Paredes (Huis Clos) que Sartre escrevera em 1944 e o italiano Adolfo Celi dirigia, com Tônia Carrero, Paulo Autran e Margarida Rey. Uma peça de um ato só, num cenário limpo, sem portas, nem janelas.

A montagem da versão brasileira da peça vinha envolvida em grande polêmica com a condenação da Igreja Católica, muito influente na época e também, surpreendentemente, do Partido Comunista.

Havia um silêncio total do público no velho teatro da Praça Matriz com aqueles diálogos que a Porto Alegre provinciana da época ainda não ouvira num palco.

Os três personagens morrem e chegam ao inferno, onde não existem demônios, ou melhor, eles serão os demônios que servirão para comprovar a tese de Sartre de que “o inferno são os outros.

Garcin (Paulo Autran) é um escritor que queria ser um herói, mas sabe que é apenas um covarde. Estelle (Tônia Carrero) é uma burguesa fútil, que matou o filho que teve com o amante e não admite sua culpa e Inês (Margarida Rey), é funcionária dos correios, lésbica e amargurada.

Eles estão condenados a conviver num jogo permanente de seduções e repulsas, numa sala sem espelhos, onde só podem ser vistos pelos olhos do outro, cada um procurando esconder suas fraquezas, espezinhando o outro e tentando aparentar o que sabe não ser.

O outro para Sartre é sempre um objeto e certamente, veio daí a resistência dos comunistas em aceitá-lo, embora pudesse se pensar que ele estivesse fazendo uma metáfora sobre uma sociedade capitalista.

Para Sartre toda a relação é um conflito, ”uma vez que meu encontro com o outro gera uma perpétua disputa pelo lugar da objetivação. É como se o olhar do outro, ao me objetivar, me transformasse numa pedra e assim, como numa reação defensiva, resta a mim, transformá-lo em pedra, também .

Sessenta anos depois, nada parece indicar que a avaliação de Sartre sobre os outros tenha deixado de ser verdadeira.

Pegando no pé do Benedito

 


Benedito Tadeu Cesar respondeu na sua página no Facebook a uma leitora, descrente do futuro do Brasil, dizendo que ela não deveria sentir tristeza e nunca desistir de ter orgulho deste país.
Por alguma razão que fiquei tentando descobrir depois, algo me incomodou no seu texto, que num primeiro momento me pareceu naquela linha de Afonso Celso, o Visconde de Tunay:“Confiemos em nós próprios, confiemos no porvir, confiemos, sobretudo, em Deus que não nos outorgaria dádivas tão preciosas para que as desperdiçássemos esterilmente. Deus não nos abandonará. Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos”
Mas, Afonso Celso era um nobre e o nosso Benedito é uma pessoa que, por tudo que se sabe, é um intelectual de esquerda, embora nas últimas eleições municipais tenha defendido o voto útil no Melo contra o Marquezan e que certamente não teria uma visão tão idílica assim do Brasil.
Ele diz corretamente “que são as elites econômicas que não prestam. São elas que financiam e mantêm os crápulas que nos governos nos três poderes, no Ministério Público e na grande imprensa.”
Até aí, eu estava assinando embaixo.
Deve ter sido a frase seguinte que me deixou em dúvidas, quando ele escreveu: “Nosso povo, principalmente o mais humilde, é maravilhoso e lutador, ainda que hoje esteja completamente obnubilado (escurecido, abobado) por força da doutrinação maciça a que vem sendo submetido desde que o PT chegou ao governo e a direita enlouqueceu.’
Essa frase, pela forma e pelo conteúdo é que me causou desconforto.
Ele escreveu “obnubilado” e em seguida, pôs entre parênteses – escurecido, abobado – se colocando naquela posição do intelectual (afinal, ele se apresenta sempre como cientista político) que precisa descer do seu pedestal e traduzir para o povo – que ele disse ser maravilhoso – o significado de certas palavras.
Em seguida, ele promete, com uma certa arrogância, que “nós iremos reconstruir este país e passaremos a ter muito orgulho e não demorará muito, tenho certeza”.
O Benedito não disse com quem ele irá reconstruir o país, pois certamente não será com esse povo escurecido e abobado (obnubilado).
Fiquei pensando nisso até dar conta que o problema dele me parece advir de dois equívocos.
Primeiro, o conceito de povo, que é vago e não tem um significado concreto em termos de uma sociedade. E o pior, mesmo admitindo que se possa existir um povo brasileiro, pensar nele como melhor ou pior que o povo argentino, uruguaio, russo ou americano, ou qualquer outro é um grande equívoco.
Acho que é positivo quando se coloca figurativamente povo brasileiro (ou argentino, uruguaio, russo, americano ou qualquer outro) em oposição ao imperialismo ou ao colonialismo, mas acho negativo, quando ele é colocado de forma excludente (melhor ou pior que outros povos).
Ser brasileiro é uma abstração apenas geográfica. Somos todos seres humanos.
E essa constatação me leva ao segundo questionamento ao que escreveu o Benedito. Ele fala em povo, que é uma abstração, quando devia falar em classe social dos trabalhadores, que essa sim, é uma realidade concreta.
São os trabalhadores brasileiros (pessoas concretas) e não o povo brasileiro (uma abstração), com a ajuda dos intelectuais de esquerda, que poderão derrubar os golpistas que se apossaram do comando político do País, agora ou em 2018, através das eleições.
Desculpe pegar no teu pé, Benedito, mas os tempos atuais andam muito confusos e aqueles que pretendem falar em nome da Esquerda precisam ser muito claros

A greve que não aconteceu.

 

A greve geral convocada pelas centrais sindicais ficou muito longe de atingir suas metas de mobilização da classe trabalhadora e de alguma maneira, acabou prejudicando o grande objetivo que era conscientizar as pessoas sobre as quanto irão perder com a ofensiva do Governo contra os direitos trabalhistas.
Será preciso urgentemente traçar uma nova estratégia para as próximas semanas e meses, quando o quadro político brasileiro tende a se agravar com as discussões sobre o futuro de Temer, a esperada decisão de Moro sobre os processos contra Lula e as novas ações políticas do Supremo Tribunal Federal;
O insucesso da greve geral, cujo objetivo mais imediato era denunciar o caráter nocivo do projeto da reforma trabalhista, terá pelo contrário, uma conseqüência inversa ao que pretendiam as lideranças dos trabalhadores: os parlamentares que poderiam se sentir inibidos em votar as medidas propostas pelo governo Temer com medo de alguma reação mais dura dos trabalhadores, devem estar se sentindo liberados agora para votar a favor de um projeto que só atende os desejos do empresariado.
Já estão surgindo muitas análises para explicar o insucesso da greve, como a desunião das lideranças sindicais, o medo do desemprego, um certo fastio da população para esses movimentos de rua, a falta de divulgação do evento ( a grande mídia praticamente ignorou os preparativos para a greve) e fundamentalmente, a falta de um objetivo suficientemente forte para mobilizar os trabalhadores.
O fato de que a pretendida reforma trabalhista irá cortar importantes conquistas dos trabalhadores, nunca ficou muito claro para os que vivem de salários. Um ponto chave, que é a mudança nos prazos de aposentadoria, não é percebida pela maioria dos trabalhadores como uma questão do presente.
Não deve ser esquecido também o alto grau de alienação de uma boa parcela dos trabalhadores, cooptada pela promessa de que a reforma pretendida pelo governo vai gerar mais empregos, ainda que precarizados, tese que a mídia, a serviço dos empresários divulga diariamente.
Finalmente, existe ainda a questão de como as pessoas enxergam hoje os sindicatos, confundidos muitas vezes com os partidos políticos (o PT, basicamente) e com isso vendo suas imagens associados aos tais escândalos de corrupção, que reais ou imaginários, servem de manchetes diárias para a grande mídia.
Com Temer ou sem Temer, as forças progressistas do País precisam se organizar em torno de um objetivo comum para o período que vai de agora às eleições de 2.018.
São estas eleições talvez o único evento capaz de mobilizar os trabalhadores, desde que se possa oferecer a eles um projeto político progressista.
Caso a candidatura de Lula possa se sustentar até lá, ela seria a alternativa número um, desde que fosse estruturada em cima de uma proposta radical de reformas populares e não como foram nas eleições anteriores, um compromisso com as classes empresariais.
Aliás, uma repetição desse compromisso foi o que propôs essa semana em Porto Alegre o ex-ministro de FHC, Bresser Pereira, ao lançar a ideia de um grande pacto entre trabalhadores e empresários, mesmo que a atual discussão sobre a reforma trabalhista mostre que os interesses entre essas classes são e serão sempre opostos.
Falando numa reunião promovida pelo Sindicato dos Engenheiros, Bresser sugeriu uma política de desenvolvimento, mas “não populista”, diferente da atual agenda “neoliberal e antinacional”, de um governo que ele classificou de ilegítimo, fruto de um golpe parlamentar.
Caso as esquerdas não consigam viabilizar um projeto político consistente encabeçado pelo Lula, a proposta de Bresser Pereira poderá vir a ser uma pobre alternativa (possivelmente com Ciro Gomes) à uma candidatura de extrema direita, como a de um Bolsonaro.
Seria a repetição aqui no Brasil, do que o escritor Michel Houllebcq imaginou no seu livro Submissão sobre uma eleição na França em 2.022, quando a esquerda seria obrigada a apoiar um muçulmano, aparentemente moderado, para impedir a vitória do candidato da extrema direita.