João e Maria, uma história de amor e ódio

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Os dois se conheceram no movimento estudantil durante a ditadura. Ele era do Partidão e ela  Libelu. Implicaram de cara um com o outro e brigavam em todas as assembléias da universidade. João estudava História na Federal e Maria fazia Jornalismo na PUC.

Depois que se formou, João fez mestrado e doutorado na Inglaterra. Voltara ao Brasil logo depois da democratização; fizera concurso e passara em primeiro lugar e agora era professor , titular de História do Brasil na federal; casara com Marta, a Martinha, sua antiga colega de turma, mas se divorciara 5 anos depois; não tinha filhos e se dedicava atualmente a conquistar suas alunas mais bonitas.

Nunca mais ouvira falar de Maria, até que um dia, o Aristides, professor de História Contemporânea, seu companheiro no Partidão e nas assembléias de estudantes,  he mostrou o caderno de variedades de Zero Hora.

– Conhece essa perua?

Era uma foto de uma mulher madura, uns 40 anos, extremamente elegante , bem cuidada e ainda muito bonita, sobre uma legenda que dizia: Maria Luiza de Assunção  Chaves lança a campanha em favor da mãe solteira

– Quem é?

– Maria

– Que Maria?

– Maria, a Libelu, que a infernizava nossa vida nas assembléias.

João se deu conta então que era mesmo a Maria, vinte anos depois. Não imaginava aquela maluca de cabelos desalinhados, rosto lavado e vestida com aquelas saias coloridas que se arrastavam pelo chão e sempre de sandália que deixava os pés sujos, poderia ter se transformado numa mulher que devia ter saído diretamente de um salão de beleza para fazer aquela foto

João, naquele momento, se deu conta que Maria voltara a sua vida. Embora não tivesse nenhum valor científico, ele acreditava na tese de que algumas pessoas entram na sua vida,  depois saem e quando menos se espera,estão de volta.

Maria voltou, ao vivo e a cores, um mês depois no lançamento de um livro que a Universidade estava patrocinando sobre uma pesquisa feita com os pobres da Vila Mapa. João era candidato a reitor e estava em plena campanha.

Falaram rapidamente e na saída, Maria lhe entregou um cartão de visitas da ONG que dirigia.

Ele enfiou o cartão no bolso do casaco e só reencontrou um mês depois quando resolveu levar a roupa para a lavandeira.

Ligou para o telefone que estava no cartão e atendeu uma secretaria da tal ONG.

Dona Maria Luiza não estava, mas prometeu dar o recado sobre a ligação.

No dia seguinte, ela ligou e o convidou para conhecer a ONG.

Ela disse que dava expediente uma vez por semana, nas quintas pela manhã. O escritório ficava num edifício da Rua 24 de outubro e depois de uma conversa sobre amenidades, ela o convidou para o almoço, onde falaram do passado

– Libelu foi uma loucura que durou pouco tempo. Confesso que me dizia trotskista, mas nunca li Trotski de verdade.

– Eu continuo marxista, mas larguei o Partidão. Estou agora no PMDB. Sou um socialista democrata.

Desde aquele primeiro dia, João se deu conta que tudo que queria na vida era levar a Maria para a cama.

Ficaram amigos, almoçavam juntos uma vez por semana, iam ao cinema, onde ela permitia que ele segurasse a sua mão, mas tudo terminava por aí.

Quando ele insistia, ela tinha sempre uma resposta pronta

– Não me pressione. Se tiver que acontecer, vai acontecer ao natural.

Só que não acontecia.

Durou três meses a história.

João já sabia tudo sobre a vida de Maria. Três casamentos – todos com homens muito ricos – as viagens pelo mundo, o carro com motorista, o apartamento de cobertura de frente para o rio e mais do que isso, todas suas aventuras. Ela parecia ter prazer em contar essas histórias: aquele amante nativo que invadiu sua cabana em Bali, enquanto o marido dormia bêbado numa outra peça; o troca-troca, ela e o marido,o segundo, com aquele casal de atores da Rede Globo e o pior, a revelação de que durante o movimento estudantil, ela transava com o Aristides, o seu amigo, que anos depois a identificara na foto do jornal.

Um dia, depois de tanta insistência, Maria cedeu. Ela tinha que resolver um problema com seu apartamento em Torres e o convidou para ir junto.

– Vamos sábado e voltamos no domingo. Você dirige.

Ela dava as ordens e ele só queria obedecer.

Era inverno. Pouca gente na praia. O apartamento em Torres era luxuoso. Mal chegando, João foi puxando Maria para o quarto

– Pra que essa pressa?

E aí aconteceu o imprevisto. A ereção não veio. A vontade de João era de se jogar da janela do oitavo andar do prédio. O pior de tudo pra ele foi a reação de Maria

– Deixa prá lá, João Isso acontece. Vamos aproveitar o domingo.

Maria aproveitou, mas João só queria morrer.

Uma semana depois, já em Porto Alegre, Maria convidou João para jantar em seu apartamento.  João tomou uma dose tripla de Viagra e foi disposto a recuperar seu prestígio de macho. Dessa vez ele se excedeu. Como costumavam dizer naquelas conversas no bar da faculdade, quando ainda não existia o fantasma do machismo: deu uma “surra de piça” nela.

A partir daí, João e Maria se tornaram, quase publicamente, amantes. Transavam duas ou três vezes por semana, mas tinha algo que incomodava João e ele falou sobre isso para o Pintaúde, seu amigo e professor de Letras, durante um encontro em que buscava apoios para sua eleição para reitor.

– Estamos apaixonados uns pelo outro, mas eu preciso fazer algo para equilibrar nossa relação. Eu preciso me vingar do seu passado.

O Pintaúde não entendeu nada, nem ele quis explicar. Ele precisava se vingar de todos aqueles amantes do passado, do nativo que entrara em sua cabana em Bali, do casal da Globo, da sua recusa inicial, daqueles cinemas de mão dada e acima de tudo daquela broxada histórica em Torres.

Depois, talvez pudessem ter uma relação normal.

A decisão estava tomada. A noite da vingança foi uma segunda-feira. Tinham combinado que ela faria um jantar especial para comemorar os três meses em que se tornaram oficiosamente amantes.

Ela o esperou na porta vestindo uma camisola transparente de seda negra e depois do primeiro beijo, perguntou

– Tem uma Veuve Clicquot gelando. Como você prefere: antes, durante ou depois?

Foi então que João disse que essa noite seria especial. Uma noite diferente. Ele queria fazer coisas inusitadas. Ela ficou um pouco surpresa, mas acabou concordando.

– Você vai ser minha escrava sexual. Você vai satisfazer todas as minhas fantasias.

E foi assim. João submeteu Maria a todas as posições que vira nos sites pornográficos, a tratou quase como um animal.  Se esforçou ao máximo para ir até o fim em cada um dos ensaios que programou. Varias vezes pensou em desistir, em parar, em pedir desculpas, mas não fez. Precisava humilhar Maria. Fazê-la pagar pela sua riqueza, pelos seus amantes e principalmente por ter dito uma vez – vamos ser apenas bons amigos.

Saiu uma hora depois, recusando o jantar e a Veuve Clicquot.  Viu que ela chorava, mas não quis ter pena. Bateu a porta e foi embora.

– E daí, perguntou o Pintaúde?

– Daí, que nunca mais tive coragem de procurar a Maria. A vingança deve ter feito mais mal a mim do que a ela. Daí começou a dar tudo errado para mim. Perdi a Maria, perdi a eleição para reitor e perdi o interesse em continuar vivendo.

-Tudo isso?

– Vamos tomar mais um chope. Mas, me diga antes, Pintaúde, toda essa história que acabei de inventar, daria uma boa peça de teatro?

–  Acho que não. Você sabe João, como eu sou conservador e detesto dramalhões. Seria melhor pensar em algo mais construtivo, com um final feliz.

– Certo, Pintaúde, vamos pensar então.


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1 pensamento em “João e Maria, uma história de amor e ódio”

  1. Marino.
    O último caso que conheço sobre um quarentão entusiasmado com uma garota de vinte e dois que tomou dose tripla de Viagra, é que ele teve um priapismo o qual provocou uma isquemia peniana de longa duração. Esta além de causar uma coloração azul do “organus coeundi”, lhe proporcionou uma dor muito aguda e um grande risco de necrose no dito.
    Tão apavorado ficou o infeliz Don Juan que de uma praia de Santa Catarina voou de carro até o HPS de Porto Alegre. Lá, resolvido o problema, lhe perguntaram se a acompanhante estava no carro lhe aguardando para lhe levar para casa. Só então deu-se conta que a tinha esquecido numa romântica praia catarinense.

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