Camões tatuado

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Às vezes até parece que existe vida inteligente na publicidade.

Lembro os comerciais do “gordinho” anunciando o Posto Ipiranga e os da Tigre, apelando para situações de total nonsense, quando os maiores problemas que uma pessoa pode ter, perdem importância no momento em que são confrontados com alguém que está com obras em casa.

Num desses comerciais, o tatuador, com obra em casa, é perdoado pelo imenso lutador de artes marciais, mesmo tendo desenhado em suas costas um pavão e não um dragão como havia sido pedido.

Falando em pessoas tatuados, um costume que os jogadores de futebol aderiram com força total, lembrei de algumas histórias a respeito.

Um conhecido meu, o Diniz, tatuou no braço “fora Dilma” e agora morre de arrependimento.  O Juvenal, ainda não se arrependeu do seu “fora Temer”, mas daqui a pouco ninguém saberá mais quem era esse tal de Temer.

A Idalina disse que estava apaixonado pelo Aglaé, mas tão apaixonada, que tatuou na coxa o seu nome. O problema é que a Idalina brigou com o Aglaé e agora está apaixonada pelo Everaldo, mas está adiando o momento de ir para a cama com ele, com medo de ter que explicar quem é esse Aglaé no meio da sua coxa.

O Pintaúde disse que viu numa amiga tatuada essa frase na nuca “me agarra com força por trás”. Gostou tanto que resolveu botar no seu livro de memórias esse nome. Foi a pior coisa que poderia fazer. Seu livro não vendeu nada e com isso ele nunca vai ser tão famoso como seu amigo David.

Mas a melhor história de tatuagem ocorreu com a minha amiga Helenice, professora de literatura portuguesa, com mestrado em Coimbra.

Ela é tão apaixonada por Camões que mandou tatuar nas proximidades de suas zonas erógenas, os versos dos Lusíadas.

Ela me contou que, depois de uma longa batalha, conseguiu conquistar o Juvêncio, que é professor de Matemática e casado com a Claudete

Quando estudaram nas Ciências Humanas da Federal, Helenice era muito amiga da Claudete, mas as duas brigaram justamente por causa do Juvêncio.

A Claudete ganhou a disputa, mas agora chegara a hora da vingança.

Aproveitando que a Claudete esteve em Arroio do Meio, visitando uma tia doente, a Helenice convidou o Juvêncio para tomar um Malbec Catena em seu apartamento, na  Cidade Baixa.

A garrafa de vinho não chegou nem a metade e os dois já estavam na cama. Foi então que o Juvêncio deu de cara com os Lusíadas e mesmo sendo um professor de Matemática, ele surpreendeu a Helenice se interessando pelo poema.

As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana.

O Juvêncio não parou por aí. Ele quis ir além de Taprobana.

Por brincadeira, a Helenice havia tatuado no final dessa última palavra um aviso.

– Continua no verso.

Não teve jeito, ela teve que virar de bunda pra cima, que o Juvêncio queria continuar lendo.

Ela pensou-

Ainda bem que não tatuei o poema completo, são apenas mais alguns versos, e logo podemos voltar ao que interessa.

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram.

Aí, aconteceu o inesperado. O Juvêncio havia perdido a tesão e parecia realmente empolgado com o canto épico português.

Então, não teve jeito, Helenice e Juvêncio terminaram o que tinha sobrado do vinho, sentados na sala, decentemente vestidos, com ela lendo os versos de Camões:

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

 A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

 


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