João e Maria, uma história de amor e ódio

Os dois se conheceram no movimento estudantil durante a ditadura. Ele era do Partidão e ela  Libelu. Implicaram de cara um com o outro e brigavam em todas as assembléias da universidade. João estudava História na Federal e Maria fazia Jornalismo na PUC.

Depois que se formou, João fez mestrado e doutorado na Inglaterra. Voltara ao Brasil logo depois da democratização; fizera concurso e passara em primeiro lugar e agora era professor , titular de História do Brasil na federal; casara com Marta, a Martinha, sua antiga colega de turma, mas se divorciara 5 anos depois; não tinha filhos e se dedicava atualmente a conquistar suas alunas mais bonitas.

Nunca mais ouvira falar de Maria, até que um dia, o Aristides, professor de História Contemporânea, seu companheiro no Partidão e nas assembléias de estudantes,  he mostrou o caderno de variedades de Zero Hora.

– Conhece essa perua?

Era uma foto de uma mulher madura, uns 40 anos, extremamente elegante , bem cuidada e ainda muito bonita, sobre uma legenda que dizia: Maria Luiza de Assunção  Chaves lança a campanha em favor da mãe solteira

– Quem é?

– Maria

– Que Maria?

– Maria, a Libelu, que a infernizava nossa vida nas assembléias.

João se deu conta então que era mesmo a Maria, vinte anos depois. Não imaginava aquela maluca de cabelos desalinhados, rosto lavado e vestida com aquelas saias coloridas que se arrastavam pelo chão e sempre de sandália que deixava os pés sujos, poderia ter se transformado numa mulher que devia ter saído diretamente de um salão de beleza para fazer aquela foto

João, naquele momento, se deu conta que Maria voltara a sua vida. Embora não tivesse nenhum valor científico, ele acreditava na tese de que algumas pessoas entram na sua vida,  depois saem e quando menos se espera,estão de volta.

Maria voltou, ao vivo e a cores, um mês depois no lançamento de um livro que a Universidade estava patrocinando sobre uma pesquisa feita com os pobres da Vila Mapa. João era candidato a reitor e estava em plena campanha.

Falaram rapidamente e na saída, Maria lhe entregou um cartão de visitas da ONG que dirigia.

Ele enfiou o cartão no bolso do casaco e só reencontrou um mês depois quando resolveu levar a roupa para a lavandeira.

Ligou para o telefone que estava no cartão e atendeu uma secretaria da tal ONG.

Dona Maria Luiza não estava, mas prometeu dar o recado sobre a ligação.

No dia seguinte, ela ligou e o convidou para conhecer a ONG.

Ela disse que dava expediente uma vez por semana, nas quintas pela manhã. O escritório ficava num edifício da Rua 24 de outubro e depois de uma conversa sobre amenidades, ela o convidou para o almoço, onde falaram do passado

– Libelu foi uma loucura que durou pouco tempo. Confesso que me dizia trotskista, mas nunca li Trotski de verdade.

– Eu continuo marxista, mas larguei o Partidão. Estou agora no PMDB. Sou um socialista democrata.

Desde aquele primeiro dia, João se deu conta que tudo que queria na vida era levar a Maria para a cama.

Ficaram amigos, almoçavam juntos uma vez por semana, iam ao cinema, onde ela permitia que ele segurasse a sua mão, mas tudo terminava por aí.

Quando ele insistia, ela tinha sempre uma resposta pronta

– Não me pressione. Se tiver que acontecer, vai acontecer ao natural.

Só que não acontecia.

Durou três meses a história.

João já sabia tudo sobre a vida de Maria. Três casamentos – todos com homens muito ricos – as viagens pelo mundo, o carro com motorista, o apartamento de cobertura de frente para o rio e mais do que isso, todas suas aventuras. Ela parecia ter prazer em contar essas histórias: aquele amante nativo que invadiu sua cabana em Bali, enquanto o marido dormia bêbado numa outra peça; o troca-troca, ela e o marido,o segundo, com aquele casal de atores da Rede Globo e o pior, a revelação de que durante o movimento estudantil, ela transava com o Aristides, o seu amigo, que anos depois a identificara na foto do jornal.

Um dia, depois de tanta insistência, Maria cedeu. Ela tinha que resolver um problema com seu apartamento em Torres e o convidou para ir junto.

– Vamos sábado e voltamos no domingo. Você dirige.

Ela dava as ordens e ele só queria obedecer.

Era inverno. Pouca gente na praia. O apartamento em Torres era luxuoso. Mal chegando, João foi puxando Maria para o quarto

– Pra que essa pressa?

E aí aconteceu o imprevisto. A ereção não veio. A vontade de João era de se jogar da janela do oitavo andar do prédio. O pior de tudo pra ele foi a reação de Maria

– Deixa prá lá, João Isso acontece. Vamos aproveitar o domingo.

Maria aproveitou, mas João só queria morrer.

Uma semana depois, já em Porto Alegre, Maria convidou João para jantar em seu apartamento.  João tomou uma dose tripla de Viagra e foi disposto a recuperar seu prestígio de macho. Dessa vez ele se excedeu. Como costumavam dizer naquelas conversas no bar da faculdade, quando ainda não existia o fantasma do machismo: deu uma “surra de piça” nela.

A partir daí, João e Maria se tornaram, quase publicamente, amantes. Transavam duas ou três vezes por semana, mas tinha algo que incomodava João e ele falou sobre isso para o Pintaúde, seu amigo e professor de Letras, durante um encontro em que buscava apoios para sua eleição para reitor.

– Estamos apaixonados uns pelo outro, mas eu preciso fazer algo para equilibrar nossa relação. Eu preciso me vingar do seu passado.

O Pintaúde não entendeu nada, nem ele quis explicar. Ele precisava se vingar de todos aqueles amantes do passado, do nativo que entrara em sua cabana em Bali, do casal da Globo, da sua recusa inicial, daqueles cinemas de mão dada e acima de tudo daquela broxada histórica em Torres.

Depois, talvez pudessem ter uma relação normal.

A decisão estava tomada. A noite da vingança foi uma segunda-feira. Tinham combinado que ela faria um jantar especial para comemorar os três meses em que se tornaram oficiosamente amantes.

Ela o esperou na porta vestindo uma camisola transparente de seda negra e depois do primeiro beijo, perguntou

– Tem uma Veuve Clicquot gelando. Como você prefere: antes, durante ou depois?

Foi então que João disse que essa noite seria especial. Uma noite diferente. Ele queria fazer coisas inusitadas. Ela ficou um pouco surpresa, mas acabou concordando.

– Você vai ser minha escrava sexual. Você vai satisfazer todas as minhas fantasias.

E foi assim. João submeteu Maria a todas as posições que vira nos sites pornográficos, a tratou quase como um animal.  Se esforçou ao máximo para ir até o fim em cada um dos ensaios que programou. Varias vezes pensou em desistir, em parar, em pedir desculpas, mas não fez. Precisava humilhar Maria. Fazê-la pagar pela sua riqueza, pelos seus amantes e principalmente por ter dito uma vez – vamos ser apenas bons amigos.

Saiu uma hora depois, recusando o jantar e a Veuve Clicquot.  Viu que ela chorava, mas não quis ter pena. Bateu a porta e foi embora.

– E daí, perguntou o Pintaúde?

– Daí, que nunca mais tive coragem de procurar a Maria. A vingança deve ter feito mais mal a mim do que a ela. Daí começou a dar tudo errado para mim. Perdi a Maria, perdi a eleição para reitor e perdi o interesse em continuar vivendo.

-Tudo isso?

– Vamos tomar mais um chope. Mas, me diga antes, Pintaúde, toda essa história que acabei de inventar, daria uma boa peça de teatro?

–  Acho que não. Você sabe João, como eu sou conservador e detesto dramalhões. Seria melhor pensar em algo mais construtivo, com um final feliz.

– Certo, Pintaúde, vamos pensar então.

Camões tatuado

Às vezes até parece que existe vida inteligente na publicidade.

Lembro os comerciais do “gordinho” anunciando o Posto Ipiranga e os da Tigre, apelando para situações de total nonsense, quando os maiores problemas que uma pessoa pode ter, perdem importância no momento em que são confrontados com alguém que está com obras em casa.

Num desses comerciais, o tatuador, com obra em casa, é perdoado pelo imenso lutador de artes marciais, mesmo tendo desenhado em suas costas um pavão e não um dragão como havia sido pedido.

Falando em pessoas tatuados, um costume que os jogadores de futebol aderiram com força total, lembrei de algumas histórias a respeito.

Um conhecido meu, o Diniz, tatuou no braço “fora Dilma” e agora morre de arrependimento.  O Juvenal, ainda não se arrependeu do seu “fora Temer”, mas daqui a pouco ninguém saberá mais quem era esse tal de Temer.

A Idalina disse que estava apaixonado pelo Aglaé, mas tão apaixonada, que tatuou na coxa o seu nome. O problema é que a Idalina brigou com o Aglaé e agora está apaixonada pelo Everaldo, mas está adiando o momento de ir para a cama com ele, com medo de ter que explicar quem é esse Aglaé no meio da sua coxa.

O Pintaúde disse que viu numa amiga tatuada essa frase na nuca “me agarra com força por trás”. Gostou tanto que resolveu botar no seu livro de memórias esse nome. Foi a pior coisa que poderia fazer. Seu livro não vendeu nada e com isso ele nunca vai ser tão famoso como seu amigo David.

Mas a melhor história de tatuagem ocorreu com a minha amiga Helenice, professora de literatura portuguesa, com mestrado em Coimbra.

Ela é tão apaixonada por Camões que mandou tatuar nas proximidades de suas zonas erógenas, os versos dos Lusíadas.

Ela me contou que, depois de uma longa batalha, conseguiu conquistar o Juvêncio, que é professor de Matemática e casado com a Claudete

Quando estudaram nas Ciências Humanas da Federal, Helenice era muito amiga da Claudete, mas as duas brigaram justamente por causa do Juvêncio.

A Claudete ganhou a disputa, mas agora chegara a hora da vingança.

Aproveitando que a Claudete esteve em Arroio do Meio, visitando uma tia doente, a Helenice convidou o Juvêncio para tomar um Malbec Catena em seu apartamento, na  Cidade Baixa.

A garrafa de vinho não chegou nem a metade e os dois já estavam na cama. Foi então que o Juvêncio deu de cara com os Lusíadas e mesmo sendo um professor de Matemática, ele surpreendeu a Helenice se interessando pelo poema.

As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana.

O Juvêncio não parou por aí. Ele quis ir além de Taprobana.

Por brincadeira, a Helenice havia tatuado no final dessa última palavra um aviso.

– Continua no verso.

Não teve jeito, ela teve que virar de bunda pra cima, que o Juvêncio queria continuar lendo.

Ela pensou-

Ainda bem que não tatuei o poema completo, são apenas mais alguns versos, e logo podemos voltar ao que interessa.

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram.

Aí, aconteceu o inesperado. O Juvêncio havia perdido a tesão e parecia realmente empolgado com o canto épico português.

Então, não teve jeito, Helenice e Juvêncio terminaram o que tinha sobrado do vinho, sentados na sala, decentemente vestidos, com ela lendo os versos de Camões:

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

 A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

 

O reino da mediocridade

“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” – Nelson Rodrigues

Lembra aquela música do Vinicius e do Tom Jobim?

“Tristeza, não tem fim. Felicidade sim. A felicidade do pobre parece grande ilusão do carnaval. A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia, de rei ou de pirata ou jardineira pra tudo se acabar na quarta-feira”.

Essa quarta-feira de cinzas parece não ter fim para nós brasileiros.

Nunca vivemos num país onde a mediocridade tomasse conta de tudo como agora, nem na época dos generais.

Naqueles tristes anos de chumbo, havia opressão, havia censura, pior, havia a tortura, mas havia resistência, havia luta, havia confronto.

Hoje, não.  O que existe é a calmaria, o desinteresse, o “deixa prá lá”.

Como disse uma vez o Leonel Brizola, “vivemos a paz dos cemitérios”.

Está tudo bem, está tudo tranqüilo.

Mesmo aqueles, um pouco “loucos”, que pedem sangue e exigem vingança, como os  Moros, os Dalagnols e os Bolsonaros, vão acabar pregando no deserto com seus discursos fascistas, porque o cenário acabará dominado pelos Temers, pelos Padilhas, pelos Gilmars, que exigem que a mediocridade seja instaurada como virtude nacional.

O novo lema da República, em vez do positivista Ordem e Progresso, será Moderação e Subserviência.

Vamos ser suavemente moderados, aceitando passivamente o assalto que se faz aos poucos direitos que os trabalhadores ainda detinham.

Vamos ser subservientes aos mais ricos, aos mais ousados, aos mais práticos, e de preferência aos que falam inglês.

Nada de revoltas.

Revolução?

Isso é coisa antiga, fora de época, démodé.

A inconfidência Mineira, a Legalidade, as Diretas Já, ficam bem nos livros de história (ainda que com algumas novas correções), mas na vida real só vão atrapalhar os fins de semana, quando o melhor programa será sempre assistir o Domingão do Faustão.

Quando quisermos saber o que está acontecendo, basta ligar na Rede Globo e aqueles seus comentaristas explicam tudo.

E o Lula?

Que Lula?

A palavra Comunismo não ofende


Você diz, comunista, e as pessoas te olham, ora com desdem – não percebe que o comunismo já era, que fracassou? – ora com espanto – ainda existe um que acredita nisso?

Outros te atacam com argumentos pretensamente históricos – fracassou na Rússia e não deu certo em lugar algum.

Tem os mais informados – traíram as ideias de Marx – com Lenin ou Trotski talvez tivesse dado certo, mas Stalin estragou tudo .

Tem os agressivos – vai para Cuba ou Coréia do Norte para ver o que é bom. 

Enfim, por que essa palavra – comunismo – provoca tantos sentimentos exaltados?

No dicionário está escrito que a palavra comunismo provém do latim “communis”, o que é comum a todos. A sociedade humana se socializou sobre a forma comunista no seu passado mais remoto. Não havia outra forma de enfrentar as dificuldades que a natureza impunha.

Com o passar dos séculos, os mais fortes, os mais inteligentes, os mais hábeis foram se destacando e a sociedade evoluiu, assumindo novas formas de apropriação das riquezas, chegando até ao capitalismo atual.

Ele gerou progresso, riqueza, mas tem um problema grave. Ele é excludente sob o ponto de vista social. Ele deixa de fora das suas benesses a maioria da população. Então, as vanguardas intelectuais foram formulando novas maneiras mais humanas de organizar a sociedade.

Marx foi o que mais avançou nesse sentindo, ao sintetizar as três mais importantes correntes do pensamento ocidental – o socialismo utópico francês, a filosofia alemã e o pensamento econômico inglês – formulando uma teoria, que hoje chamamos de marxismo, destinada a organizar o caminho para a criação de um sistema social mais justo e humano.

Várias tentativas foram feitas no sentido de se chegar ao que Marx chamava de comunismo. Umas, como a Comuna de Paris, duraram semanas e outras como a Revolução Russa duraram décadas. O capitalismo levou mais de 500 anos para chegar ao modelo atual. O comunismo certamente levará menos tempo.

Filósofos, com Meszaros, Bodieu, Zizek e Losurdo, entre outros pensadores, escrevem continuamente sobre esse processo. Como ele será, é um tema em aberto, mas não podemos abrir mão de chegar lá, acima de tudo porque ele tem um conteúdo ético que o capitalismo, apesar do seu sucesso, nunca teve.

Comunismo significa igualdade de oportunidades para todos, ou como dizia muito melhor, Rosa Luxemburgo:um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Bola de meia

O que acontece quando se morre?

Aqueles que tinham confessado seus pecados e depois comungado, iam direto para o céu, esclarecia o Padre Bombardeli, nas aulas de catecismo do Colégio  São Tiago, em Farroupilha.

Naquela época, morrer era uma coisa tão distante quanto aqueles afluentes do Amazonas que o professor de Geografia, nos obrigava a decorar.

Na margem direita, Purus, Madeira e Tocantins.

Eu sabia tudo de cor, margem direita, margem esquerda, mas no fundo era como a morte, não acreditava que fosse uma coisa de verdade.

De verdade era aquela bola feita com uma meia de cano longa cheia de panos, objeto de desejo nos períodos de recreio.

Ela não picava – depois no dicionário iria aprender que o verbo certo era quicar – mas isso não importava muito.

Não havia nenhuma organização prévia, nenhum time definido. Quem chegava ia chutando a bola do jeito que dava. Ela rodava de um canto para outro sempre ao alcance de um pé mais atrevido.

Dizer que era melhor que uma bola de couro, podia parecer uma heresia. Talvez fosse só despeito.

A bola de couro era da turma dos maiores. Raramente surgia uma chance de usá-la. Mas a verdade era que ela não era tão dócil como a bola de pano. Ela picava – quicava, aprenderíamos depois – nervosa de um lado para outro e muitas vezes, acabava escapando para dentro de uma sala de aula, quebrando um vidro ou, pior do que tudo, batendo com força num daqueles padres que caminhavam pelo pátio com o rosário entre os dedos.

Aí não tinha jeito. A bola era confiscada e a turma enfrentava um castigo. Todo mundo ia embora e os jogadores ficavam escrevendo 100 vezes nos seus cadernos “não devo jogar bola no recreio”.

Com as bolas de meia, os padres não se incomodavam.

O único problema é que quando terminava o recreio a gente voltava para a sala de aula pingando suor por todo o corpo.

O professor Inácio perguntava qual o sujeito daquele verso do hino nacional “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” e quando a gente se levantava para responder, sentia aquele fio de suor correndo pelas costas.

Hoje, nem lembro mais os nomes dos afluentes do Amazonas.

Sobre a morte, porém, tenho pensado bastante.

Quanto a confessar e depois comungar, acho que não vai resolver muito, mesmo porque, com o passar do tempo virei um ateu.

O direito de matar

Quem é um ateu como eu,  pode tomar certar liberdades com Deus, que um católico praticante não pode.

Imagine que Deus entre em contato com você (pode ser aqui mesmo no facebook) e diz que não aguenta mais fazer a lista dos que vão morrer todos os dias – só de chineses, são milhões – e pede a sua ajuda.

Você vai poder fazer a sua listinha.

Confesse que pelo menos uma vez na vida você pensou nisso.

Mas quem você vai escolher. Não vale as obviedades – Moro, Temer ou o Luan, do  grêmio, se for colorado – essas Deus mesmo poderia fazer.

Aquele sujeito falando alto pelo celular no ônibus cheio? Ou aquele colunista sacana daquele jornal que você nem gosta de dizer o nome? Quem sabe aquela perua dizendo que “adooora” o Rodrigo Hilbert para sua amiga, mais perua ainda, na academia de musculação? Ou duas, mais o tal Rodrigo? Podia ser também o seu ex-amigo de Nova Prata, que escreve coaching, quando precisa declarar a profissão?

Enquanto você pensa nas suas escolhas, fique sabendo que alguém já pensou antes sobre isso e fez até um filme a respeito.

A história, aparentemente absurda, é o tema central de um desses filmes classe B, produzidos em série pelo cinema norte-americano para exibição nos canais de televisão.  A história do filme Todos os Crimes são Permitidos – Tente Sobreviver ( The Purge) – se passa no ano 2022, quando depois de muitos anos de aumento da criminalidade, com as prisões superlotadas, o governo dos Estados Unidos decide criar um dia onde tudo é permitido, esperando que as pessoas guardem para as 12 horas de desse dia todos os ajustes de contas, todas as vinganças recalcadas durante o ano e que vivam em paz os outros 364 dias.

É o dia da Purga, anunciado solenemente pela televisão, que explica que ele é uma decisão dos Novos Pais Fundadores da Pátria para permitir que todos os ódios acumulados durante o ano possam ser extravasados sem culpa e sem punições.

O filme, dirigido por James De Monaco, apesar do orçamento modesto e a presença de poucos atores conhecidos, é bem feito e tem uma enorme carga de tensão. Um vendedor de projetos de segurança para residências (Ethan Hawke), enriquecido pelo sucesso do seu trabalho, mora com a mulher e dois filhos adolescentes, na casa mais rica e fortificada de um condomínio fechado. A ação se passa durante as 12 horas da Purga, quando nas ruas ficam apenas as milícias de caçadores e suas presas.

Uma delas é um negro que foge de um grupo de justiceiros e acaba entrando na casa do vendedor de projetos segurança, porque o filho do dono, que observava a cena pela televisão, abre uma porta para ele.

Os justiceiros cercam a casa e exigem que o seu dono entregue o fugitivo sob pena de invadirem o local e matarem toda a família. Inicialmente, ele concorda com isso, consegue ferir e depois prender o fugitivo, mas no último momento decide resistir aos invasores.

O filme, na sua modéstia visual, consegue colocar em discussão algumas coisas muito interessantes. A primeira delas é a violência da sociedade americana, com a sua tradição de permitir que as pessoas andem armadas e que, de tempos em tempos, é sacudida por chacinas que não poupam nem crianças. Ela precisa ser então institucionalizada para que possa ser mantida sob controle pelo governo.

A outra é aquela noção, dramatizada por Bertrand Brecht: quando o perseguido é um negro, um judeu ou homossexual, como você não é nenhuma deles, pensa que está a salvo e por isso se omite de qualquer forma de protesto. Só que depois de liquidar o negro, o judeu ou o homossexual, os perseguidores vão se voltar contra você, que não quis tomar partido.

Mesmo vivendo na casa mais fortificada do condomínio, quando os vingadores se aproximam das portas e janelas da casa, o vendedor é obrigado a confessar a mulher que a segurança que ele vendia com sucesso para as outras pessoas no condomínio é relativa e que a rigor, não existem lugares totalmente seguros no mundo.

A violência histórica da sociedade americana é resolvida, simbolicamente, com a escolha de um dia onde tudo é permitido e no qual as grandes vítimas são, principalmente, os pobres e os não-brancos.  Quando se esgotam as horas da Purga, a televisão faz um balanço informando sobre os milhares de mortos nas grandes cidades e prometendo um ano de paz e segurança até a próxima Purga.

A outra questão, sobre a alienação que permite a alguns conviver com a injustiça, sem se envolver diretamente nos crimes, mas sem condená-los também. O recado do filme é que isso é impossível e que, em algum momento, será preciso tomar posição.

Quando são exibidos os créditos finais do filme, vozes em off, anunciam o primeiro telejornal da manhã,com as notícias da Purga. O governo diz que foi a Purga de maior sucesso nos últimos anos e que a bolsa começou o dia em alta, com as ações dos fabricantes de armas em destaque. Depois, vozes de pessoas surgem dando depoimentos, falado do sucesso da Purga em suas cidades, e de como ela foi importante para assegurar a paz nas cidades, até que uma última voz de homem diz:

“Mataram meus dois filhos. Eu era um americano orgulhoso do meu país. Não sou mais”

Não é bem assim

 

Quem viu o filme, O Discurso do Rei (The King Speech), está autorizado a pensar que o Príncipe Albert, o Duque de York, se tornou o Rei Jorge VI (Colin Firth) porque seu irmão mais velho, o Príncipe de Gales, o Rei Eduardo VIII (Guy Pearce) se apaixonara por uma divorciada americana, Wallis Simpson (Eve Best) e renunciou ao trono por este amor e que o único problema do novo rei era sua gagueira, providencialmente curado pelo fonoaudiólogo Lionel Logue (Geoffrey Rush).

Há muito tempo já se sabia que a história não se desenrolou seguindo esse roteiro.

Basicamente, o que ocorreu foi uma queda de braço entre Eduardo VIII e seus ministros a respeito de como tratar a Alemanha Nazista de Hitler. O rei era a favor de uma convivência pacífica e até mesmo muito amigável com Hitler e o governo inglês, primeiro com Stanley Baldwin e mais tarde com Winston Churchill, entendia que não havia lugar na Europa para duas potências como o Reino Unido e a Alemanha.

Eduardo VIII, que assumira o trono com a morte do pai, o Rei Jorge V, em 20 de janeiro de 1936, renunciou ao trono em 11 de dezembro do mesmo ano para casar com Wallis Simpson.

No ano seguinte, já apenas como Duque de Windsor, ele e Wallis Simpson estiveram em Berlim, onde foram recebidos por Hitler. Anos mais tarde, ele diria que se tivesse continuado como rei, teria evitado a guerra com a Alemanha.

Sabe-se que durante todo o período da guerra, o casal esteve continuamente sob a vigilância de americanos em ingleses durante o tempo em que viveram na França, na Espanha e Portugal.

Já como Primeiro Ministro, o grande temor de Churchill era que os alemães pudessem seqüestrar Eduardo VIII e tentar fazê-lo novamente rei dos britânicos, o que parece ter sido também um desejo de Hitler.

Em 1957, foram divulgados telegramas entre o Ministro do Exterior da Alemanha nazista, Joachim von Ribbentrop e seus embaixadores na Espanha e Portugal, durante a guerra  pedindo que Eduardo VIII fosse informado dessa decisão.

Essa semana, documentos liberados pelos Arquivos Nacionais Britânicos, revelam que Winston Churchill agiu junto aos governos da França e Estados Unidos, logo após o final da guerra (1945) no sentido de que esses telegramas não fossem revelados nos 20 anos seguintes, preocupado que estava que as revelações das relações do antigo rei com os nazistas pudessem abalar o prestígio da família real britânica.

Num deles, transcrito agora pelo jornal The Independent, Ribbentrop informa aos seus embaixadores que “o Duque precisa ser informado que a Alemanha deseja a paz com o povo britânico e de que a facção que apóia Churchill é um obstáculo a essa paz” e garante que “a Alemanha está determinada a forçar à Inglaterra a aceitar a paz através do uso de todos os métodos e que se isso acontecer estará pronto para atender todos os desejos do Duque, especialmente o seu regresso ao trono, com a Duquesa ao seu lado”

 

Uma comédia que quase se tornou realidade

Em 1964, Stanley Kubrick fez um dos mais importantes filmes do cinema americano, Dr. Strangelove, (How I Learned to Stop Worryng and Love the Bomb/ Como Aprendi a Deixar de me Preocupar e Amar a Bomba), uma irresistível comédia e ao mesmo tempo um poderoso libelo contra a guerra, com Peter Sellers, vivendo três papeis, o Presidente Muffley, o capitão Mandrake e o próprio Dr.Strangelove, (uma lembrança de Werner Von Braun, o criador das bombas V2 dos nazistas), um misterioso cientista alemão, cuja mão biônica insiste em fazer a saudação nazista mesmo contra sua vontade.

A história é contada num tom farsesco, que começa quando o general Jack D. Ripper (alusão a Jack o Estripador), personagem vivido por Sterling Hayden, desconfia que os comunistas estariam envenenando a água que os americanos bebem e ordena um ataque atômica à União Soviética.

Enquanto o capitão Mandrake tenta dissuadir o general do seu intento, o presidente Muffley reúne seus assessores, entre os quais o Dr. Strangelove e o general  BuckTurgidson (George C Scott) machista e anticomunista radical, que é a favor do bombardeio, para decidir o que fazer. Como o general Ripper se recusa a revelar o código que comanda o lançamento da bomba, o presidente liga para seu colega russo, pedindo que o avião americano seja derrubado antes de chegar ao alvo. Acontece que o piloto do avião é um maluco texano disposto a cumprir sua missão até o fim, nem que seja cavalgando a bomba como se ela fosse um cavalo xucro. Nessa altura, o embaixador soviético Sadesky (uma alusão ao Marques de Sade) comunica que seu país construiu a Máquina do Juízo Final, que será acionada e destruirá todo o mundo no momento em que a primeira bomba cair em solo soviético.

O que o mundo todo viu e muito riu dessa farsa ao militarismo americano, talvez não estivesse assim tão longe da realidade.

Em 2015, de acordo com as leis americanas, milhares de documentos, antes tidos como secretos e conservados nos arquivos do Departamento de Segurança Nacional, foram disponibilizados para pesquisas dos interessados, entre eles a chamada “Operação Dropshot”, que  previa o lançamento de 300 bombas nucleares e outras 29 mil bombas convencionais sobre 200 alvos e cerca de 100 cidades e vilas na URSS. O objetivo era acabar com 85% do potencial industrial soviético com um só golpe

Em artigo publicado na versão eletrônica do Pravda, Igor Razin, da Gazeta Russa, fornece maiores dados sobre essa macabra operação.

“Em 1949 surgiu o plano Dropshot. A ideia era que os EUA atacassem a União Soviética e lançassem mais de 300 bombas nucleares e 20 mil toneladas de dispositivos convencionais contra 200 alvos situados em 100 áreas urbanas, incluindo Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo).

Para tanto, foi produzida uma lista de alvos para ataques nucleares nos territórios da União Soviética e seus aliados. A relação continha nada menos que1.200 cidades desde a Alemanha Oriental, no Ocidente, até a China, no Oriente. Moscou encabeçava a lista, com 179 “alvos designados” (incluindo a própria Praça Vermelha), contra 145 em Leningrado. A potência das armas nucleares empregadas oscilaria entre 1,7 e 9 megatons (a da bomba atômica Little Boy, lançada em Hiroshima em agosto de 1945, era de 0,013 a 0,018 megatons). Caso a URSS não se rendesse após os ataques, Washington continuaria bombardeando regularmente áreas urbanas e industriais até sua destruição total.

Além disso, os idealizadores planejavam iniciar uma campanha terrestre contra os soviéticos para obter uma “vitória completa” junto  com seus aliados europeus.

E os planos dos EUA iam muito além da Rússia e países próximos. Pequim figurava em 13º lugar em número de bombardeiros, com 23 áreas destinadas à destruição.

De acordo com documentos desclassificados em 2015, as ogivas seriam lançadas a partir de aviões baseados no Reino Unido, no Marrocos e na Espanha. Também empregariam bombardeiros intercontinentais B-52, que, no momento do planejamento, estavam começando a ser distribuídos para a força aérea americana.

Em 29 de agosto de 1949, a União Soviética tornou pública que dominava também a tecnologia para a produção de armas atômicas, o que possivelmente influiu na decisão norte-americana de suspender seus planos de ataques, temerosos de que pudessem sofrer uma retaliação.

Felizmente, a guerra atômica aconteceu apenas com o filme do Kubrick.

A guerra dos “snipers”

Na história da humanidade, as guerras quase sempre serviram para nações mais poderosas se apossarem das riquezas das mais fracas. As exceções seriam as guerras de libertação nacional dos povos da África, Ásia e América Latina e possivelmente a da União Soviética contra a invasão nazista.

Elas, as guerras, se tornaram realidade quando os argumentos políticos que justificariam a submissão de um grupo econômico por outro, não são mais eficientes.

O general prussiano Carl Phillip Gottlieb Von Clausewitz (1780/1831) sintetizou essa mudança na sua famosa assertiva, publicada no livro “Da Guerra” (Von Kriegs), de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”

Sendo, portanto, quase sempre um choque de interesses econômicos em conflito, a guerra acaba sendo vencida pelo lado mais forte.

Isso implica na utilização de grandes recursos tecnológicos e na mobilização de milhões de homens, sobrando pouco espaço para algum tipo de ação individual.

Por isso mesmo, quando um personagem, por alguma razão, consegue se destacar nesse meio, ele se transforma num verdadeiro herói.

É o caso dos franco atiradores, que os americanos tornaram conhecidos como os “snipers” e que pela sua ação, ajudaram a abalar a moral do inimigo, na medida em que agiam sempre de uma forma oculta.

Duas dessas figuras ficaram famosas e como não poderia deixar de ser, acabaram por ver suas façanhas transformadas em filmes de sucesso.

O primeiro e mais famoso desses ‘snipers’ foi uma mulher: Lyudmila Pavlichenko. Estudante de História da Universidade de Kiev, em1942, ela se alistou no Exército Vermelho e recusando a destinação para qual normalmente encaminhavam as mulheres – a enfermagem – atuou na infantaria.

Com seu rifle semi-automático Tokareve SVT-40, Lyudimila foi responsável pela morte de 500 inimigos, sendo 309 reconhecidos oficialmente, inclusive 36 “snipers” alemães.

Promovida a major, ela ganhou a Estrela de Ouro de Heróis da União Soviética.

Dizem que além da pontaria, Lyiudimila se destacava pela paciência em esperar o momento certo para atirar. Uma ocasião teria ficado imóvel durante incríveis 18 horas até chegar o momento certo para usar seu rifle.

Antes do final da guerra, visitou os Estados Unidos e foi a única militar da União Soviética recebida na Casa Branca pelo presidente Roosevelt e sua mulher Eleanor.

Curiosamente, ela foi homenageada pelo cantor de música country, Woody Guthrie, com a canção Miss Pavlichenko.

A história de Lyiudimila Pavlicenhenko, que morreu em 1974, aos 58 anos, está contada no filme russo-ucraniano de 2015, A Batalha de Sebastopol, de Sergei Mokritskiy, com Yuliya Peresild.

O “sniper” americano foi Chris Kyle, considerado o atirador mais letal da história militar dos Estados Unidos, com 255 mortes, dos quais 160 confirmadas pelo Pentágono. Chris Kyle, ao contrário de Lyiudimila, que agiu numa guerra defensiva contra um invasor estrangeiro,   participou da invasão norte-americana do Iraque.

Sua história foi contada num grande filme de Clint Eastwood de 2014, O Sniper Americano baseado nas suas memórias, relatadas no livro The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S Military History.

Bradley Cooper viveu o papel de Kyle no filme, que foi o maior sucesso de bilheteria no ano de sua produção.

Embora o filme possa ser criticado pelo seu tom patriótico e até racista em certos momentos, não dá para não perceber como o diretor trata o seu personagem, transformado num homem solitário, incapaz de retornar à uma vida normal quando retornou do Iraque, bem diferente do que se espera de um herói americano

Precisamos ler os ensaios do Dr. Franklin

 

Conheci Franklin Cunha há uns três anos, quando ele me convidou para participar do site Imagem Política. O site tinha sido criado por um grupo de médicos de esquerda para defender o programa “Mais Médicos”, que as entidades da classe médica criticavam, e continuou para promover a reeleição de Dilma à Presidência e depois para defendê-la dos ataques da direita.

Há um ano, talvez porque as políticas de Dilma estavam ficando indefensáveis ou porque seus idealizadores começaram a ter outras preocupações, o site terminou, mas a amizade ficou.

Até hoje, continuamos a nos encontrar periodicamente. Fico feliz em poder dizer que sou amigo do Mareu Soares, Luíz Octavio Vieira, Airton Fischmann, Lenine Cunha e Luís Carlos Lantieri, mas é com Franklin que meus encontros são mais freqüentes.

Admirador de bons vinhos tintos e leitor obcecado por temas políticos, o Dr. Franklin sempre lamenta que não tenhamos bons ensaístas no Brasil, ao contrário da Argentina, onde eles são muitos.

Pois, ele agora dá a sua contribuição para sanar essa deficiência, ao colocar à disposição dos leitores seu livro “A Lei Primordial e outros ensaios”.

Ex-piloto da Varig, profissão de grande prestígio no passado, a qual abandonou para cursar a Faculdade de Medicina, ginecologista durante muitas décadas e membro da Academia Rio-Grandense de Letras, Franklin usou todas essas experiências para falar sobre tudo, da medicina, da política e da vida, num estilo  enxuto e direto.

“E pensar que escrever é a segunda profissão desse homem”, diz na contra-capa do livro, Luís Fernando Veríssimo.

Vou copiar para os meus poucos leitores, duas passagens de seus ensaios.

O primeiro é parte do ensaio “Limbus Puerorum”:

“Na teologia católica o limbo é o lugar para onde vão as almas das crianças mortas, excluídas do para paraíso pelo pecado original não redimido pelo batismo. A culpa familiar e social gerada pela alta mortalidade infantil na Idade Média obrigou o Concilio de Trento (1545) a agendar em suas discussões o problema do que fazer com a grande quantidade de crianças mortas sem batismo para as quais o Inferno parecia ser uma pena assaz cruel. Os teólogos católicos que antes previram apenas o Céu para os bons e o Inferno para os réprobos, ncontraram uma solução conciliatória ao criar um novo lócus para os frutos inocentes do “pecado da carne”. Lá, eles não gozariam da visão divina, mas também não sofreriam os tormentos infernais. O “Limbus Puerorum”, segundo Tomás de Aquino,  deveria ser destinado às crianças, onde aguardariam o Juízo Final.  Salvar um bebê para a eternidade, evitar os castigos infernais, era uma maneira de a família aliviar o luto e a culpa de uma morte precoce”

No segundo ensaio, Ciência e Barbárie, Franklin nos fala sobre os doutores Edward Wirths e Hans Hinselmann. O primeiro foi médico no campo de extermínio de Auschwitz , onde como ginecologista realizou uma série de experiências em mulheres prisioneiras sobre lesões pré-cancerosas do colo uterino, desenvolvendo com o apoio da excelente indústria ótica alemã, o colposcópio, enquanto o segundo, dirigia um laboratório em Hamburgo que examinava o colo uterino retirado das pacientes.

Em 1945, Wirths se suicidou logo depois de se entregar às autoridades britânicas de ocupação, enquanto Hinselmann nunca foi julgado.

No final desse ensaio, escreve Franklin: “Ambos eram excelentes médicos, competentes ginecologistas que muito contribuíram para a detecção precoce e para a cura do carcinoma do colo uterino. Provavelmente, ouviam Wagner, Bach, Beethoven e cantavam emocionados Die Schone Mullerin e outros lieder de Schumann, assim como deviam ler, embevecidos, Heine, Schiller, Goethe e Nietzsche. E segundo consta, eram perfeitos pais de família e freqüentavam regularmente os cultos religiosos dominicais. Enfim, pertenciam ao cerne da cultura européia, como disse Steiner, mas, em nome dela e da ciência médica, praticaram crimes que jamais deverão ser esquecidos. Mesmo quando de sua ciência só restará o olvido.”