Sobre o discurso de Tarso

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No último debate dentro do ciclo 100 anos da Revolução Russa, Tarso Genro, Roberto Amaral e Renato Rabelo falaram sobre o tema “A Luta pelo Socialismo no Século XXI”.

Dos três palestrantes, foi Tarso quem mais se deteve na análise da Revolução de Outubro, enaltecendo a sua importância histórica, sua contribuição para as conquistas sociais no Ocidente , suas contradições e o papel de três dos suas três principais figuras: Lenin, Stalin e Trotski

Como sempre, seus conhecimentos históricos e a fluência da sua narrativa, provocaram a concordância dos demais debatedores e dos que o ouviam no auditório para uma das suas premissas:: o socialismo possível no século XXI terá que ser construído de uma forma bem diferente do que foi em 1917, porque a base daquele movimento – a classe operária clássica -não tem mais a importância que teve no passado e partirá de uma luta intensa das esquerdas pela conquista da hegemonia política.

Sintetizando essa parte do seu discurso: devemos nos apoiar mais em Gramsci e sua teoria de formação de um bloco hegemônico, capaz de disputar com a burguesia o controle dos instrumentos ideológicos (fundamentalmente, hoje, os meios de comunicação) que garantem o seu domínio sobre a sociedade, do que em Lenin.

Nada a opor, principalmente no caso brasileiro, onde a abertura de um espaço na mídia parece ser a condição essencial para uma combate conseqüente contra atual governo golpista, etapa essencial na luta por uma sociedade democrática que possa avançar sobre o socialismo.

O que me permite colocar algumas questões no discurso de Tarso, é sua avaliação sobre o chamado “socialismo real”, existente na União Soviética, porque uma avaliação mais profunda desse período nos permitirá impedir a repetição dos seus erros.

Na sua exposição, Tarso não fugiu da questão central da Revolução Russa: Lenin contrariou a visão de Marx de que a revolução só seria possível em países de ponta do capitalismo, onde suas contradições internas tencionassem o sistema (como diziam os mencheviques e socialistas revolucionários) ou, pelo contrário, adaptou o marxismo às condições de um país agrário e atrasado, como era a Rússia, com a sua teoria do “elo mais frágil”, por onde começaria a ser rompido o sistema capitalista?

Na sua visão, essa contradição inicial, de certa forma, conduziu todo o desenvolvimento posterior do socialismo na Rússia, provocando num primeiro momento, o retorno à determinadas formas de capitalismo (NEP – A Nova Política Econômica de 1921 a 1927), por parte de Lenin e a reação de Stalin, em 1937, com a coletivização forçada da agricultura e os planos quinzenais de desenvolvimento industrial.

Ou seja, o socialismo na Rússia nasceu de uma forma contrária aos manuais clássicos do marxismo e isso marcou sua existência e de certa maneira, foi responsável pela sua queda.

A tendência dos historiadores e parece que Tarso segue nessa linha, é absolver Lenin e condenar Stalin, sem sequer admitir que possa ter havido uma linha de continuidade na ação dos dois.

Lenin era um internacionalista (acreditava que à Revolução de Outubro, se seguiriam movimentos semelhantes, principalmente na Alemanha), mas admitiu a ideia de implantação do socialismo num só país.

Quando, depois de 1917  perceberam que não haveria revoluções em outros lugares da Europa, seus companheiros o criticaram  por ter desencadeado o movimento numa hora inapropriada, provocando uma guerra civil interna, Lenin respondeu ironicamente: quem sabe entregamos o poder novamente ao Czar?

Stalin, o nacionalista russo (ironicamente, não era russo, mas georgiano), defensor do socialismo num só país, estendeu esse regime (ou o simulacro dele, como querem seus críticos) para boa parte do leste europeu depois da Segunda Guerra (ainda que com as armas do Exército Vermelho) e assegurou o apoio soviético a boa parte dos movimentos anticapitalistas no mundo, desde as lutas anti-coloniais na África e Ásia, até a futura formação de países formalmente socialistas, como os casos do Vietnam, Coréia e Cuba.

No seu livro de memória, Churchill conta que num encontro em Moscou com Stalin, o provocou sobre o custo da coletivização forçada da agricultura e esse o surpreendeu, admitindo que tinham morrido mais de 4 milhões de pessoas nesse processo

– Uma tragédia – teria dito Stalin para Churchill – mas a mecanização forçada da agricultura era a única condição de por fim aos ciclos permanentes de fome que atingiam a Rússia há mais de um século e que também mataram milhões de pessoas.

A industrialização forçada da Rússia para a produção principalmente de armamentos, impediu o país de investir em bens de consumo e o deixou atrasado em relação ao Ocidente, dizem todos os críticos de Stalin.

Mas será que sem esse esforço tremendo a União Soviética teria podido resistir ao nazismo e derrotado a máquina de guerra da Wehrmacht?

Trotski, o outro crítico dos caminhos que tomaram a Revolução de Outubro, também crítico do “socialismo num só país” e defensor da Revolução Permanente,  visto sempre como um libertário, foi quem negociou na paz de Brest Litovk as enormes concessões territoriais feitas aos alemães na Primeira Guerra e foi quem comandou o ataque à Fortaleza de Kronstadt, onde marinheiros rebelados, defendiam uma das bandeiras da revolução de Outubro, a liberdade

Ao colocar essas questões em contraponto ao discurso de Tarso, estou apenas tentando chamar a atenção para as enormes contradições que fazem parte de qualquer processo revolucionário e me colocando ao lado dele, que sempre defendeu a pluralidade de opiniões.


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