O filme que a gente leva no coração.

Quem gosta de cinema, sempre tem seu filme do coração, guardado a sete chaves no lado esquerdo do peito, como diz a canção do Milton.

O meu é “Aquele Que Deve Morrer” (Celui Qui Doit Mourir), dirigido por Jules Dassin, em 1957.

O problema é quando você é tentado, naquelas sessões vespertinas de filmes antigos na TV, a rever o seu filme do coração.

Não recomendo a experiência.

Vi “Aquele Que Deve Morrer” numa dessas sessões. O que torna o filme envelhecido é o maniqueísmo dos personagens e uma boa dose de ingenuidade na avaliação do caráter dos homens que o cinismo dos dias atuais não mais permite.

Vou escrever então sobre o filme, aquele que vi em 1957, no antigo Cinema Ópera, da Rua da Praia.

“Aquele Que Deve Morrer” é baseado num livro de Nikos Kazantzakis ( o autor de Zorba, o Grego) , nascido 1883 e morto em 1957 e até hoje considerado um dos maiores escritores gregos de todos os tempos.

Jules Dassin (nasceu nos Estados Unidos em 1911 e morreu em Atenas, em 2008).

Ficou famoso na década de 40, nos Estados Unidos, ao realizar “Brutalidade” (1947), com Burt Lancaster e “Cidade Nua” (1948), com Barry Fitzgerald. Na década de 50 ele foi mais uma das vítimas da perseguição política do macartismo, acusado de ser comunista, e se obrigou a viver na Europa, onde realizou, pelo mais, dois ou três clássicos do cinema, além de ”Aquele Que Deve Morrer”: “Sombras do Mal”, na Inglaterra, com Gene Tierney;  o policial “Rififi”, com Jean Servais na França e que conta um assalto a uma joalheria de uma maneira que faria escola no cinema.

Ao filmar “Aquele que Deve Morrer”, se apaixonou pela atriz grega Melina Mercouri (nascida em Atenas em 1911 e falecida em Nova York em 1994), com quem fez outro bom filme, a comédia  “Nunca aos Domingos” e com quem se casou.

Melina, além de ser uma bela atriz, teve também intensa ação política, exercendo o cargo de Ministra da Cultura da Grécia, na década de 80, depois que a democracia retornou ao País, com o fim da ditadura dos coronéis gregos.

O filme conta como os gregos, oprimidos pelos turcos, se revoltam sob a liderança de um pastor, Cristo/Manolios (Pierre Vaneck – 1931/2010) motivados pela representação da Paixão de Jesus Cristo durante a Semana Santa. O filme é uma parábola sobre a história de Cristo, visto como um revolucionário político e não apenas como um líder religioso.

“Eu não vos trago a paz, mas a espada da guerra”, diz em certa altura o Padre Fotis, vivido por Jean Servais (1910/1976), que lidera um grupo de famílias expulsas de sua aldeia pelos turcos, citando uma passagem menos conhecida da Bíblia.

Pensando bem, talvez valha a pena ver de novo “Aquele Que Deve Morrer”, ainda que numa sessão da tarde e na tela da televisão, quando mais não seja para rever a mais bela Maria Madalena do cinema, Melina Mercouri.

Máximas e mínimas do Barão.

Nascido em Rio Grande, em 1895 e falecido em 1971, no Rio de Janeiro, Apparício Torelly adotou o nome de Duque de Itararé para ironizar a famosa batalha que não houve entre os partidários de Getúlio Vargas e Washington Luiz, em Itararé, São Paulo, na Revolução de 30. Depois rebaixou seu título nobiliário para Barão, “por modéstia”.

Em 1961, eu era repórter da sucursal de Porto Alegre do jornal Última Hora e meu primeiro trabalho foi entrevistar o Barão de Itararé, hospedado no Hotel Plaza, na Rua Senhor dos Passos.

Na portaria do hotel já foram me avisando – o Barão está descansando e não quer receber visitas, mas você pode ligar para ele pelo telefone. Ao atender, ele foi logo dizendo – “o que você quer saber?” Procurando colocar o pronome no lugar certo, perguntei :” O que o trouxe a Porto Alegre?”.  “Isso eu posso responder pelo telefone: foi um avião da Varig”.

Depois desse início difícil, o Barão se compadeceu da minha condição de “foca” e convidou para conversarmos no seu apartamento. Não só conversamos bastante tempo, como almoçamos juntos. No final, ele insistiu em dar por escrito suas respostas às minhas questões. Voltei ao hotel no dia seguinte e ele me entregou 4 ou 5 folhas escritas num bloco de borrão sem pauta.

Infelizmente, acabei perdendo este precioso material.

Algumas das suas citações podem, porém, ser encontradas no livro Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, da Editora Record, que a agência de propaganda MPM distribuiu como brinde de final de ano em 1985.

O livro “*Entre sem bater”A vida de Apparício Torelly, da Casa da Palavra, escrito por Cláudio Figueiredo, também registra alguns dos aforismos do Barão

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”

“Quem empresta…adeus”

“Quando pobre come frango, um dos dois está doente.”

 “Banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente, se a gente apresenta provas suficientes de que não precisa de dinheiro”

Casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e outro religioso.”

“Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma”

“Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta”

“Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único”.

“Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

‘Quem não muda de caminho é trem”

  • O título do livro “Entre sem bater” é uma referência a um cartaz que o Barão mandara colocar na porta da redação do jornal A Manha, no Rio, frequentemente invadido pela polícia, que costumava quebrar os móveis e bater nos jornalistas.

Sobre o discurso de Tarso

No último debate dentro do ciclo 100 anos da Revolução Russa, Tarso Genro, Roberto Amaral e Renato Rabelo falaram sobre o tema “A Luta pelo Socialismo no Século XXI”.

Dos três palestrantes, foi Tarso quem mais se deteve na análise da Revolução de Outubro, enaltecendo a sua importância histórica, sua contribuição para as conquistas sociais no Ocidente , suas contradições e o papel de três dos suas três principais figuras: Lenin, Stalin e Trotski

Como sempre, seus conhecimentos históricos e a fluência da sua narrativa, provocaram a concordância dos demais debatedores e dos que o ouviam no auditório para uma das suas premissas:: o socialismo possível no século XXI terá que ser construído de uma forma bem diferente do que foi em 1917, porque a base daquele movimento – a classe operária clássica -não tem mais a importância que teve no passado e partirá de uma luta intensa das esquerdas pela conquista da hegemonia política.

Sintetizando essa parte do seu discurso: devemos nos apoiar mais em Gramsci e sua teoria de formação de um bloco hegemônico, capaz de disputar com a burguesia o controle dos instrumentos ideológicos (fundamentalmente, hoje, os meios de comunicação) que garantem o seu domínio sobre a sociedade, do que em Lenin.

Nada a opor, principalmente no caso brasileiro, onde a abertura de um espaço na mídia parece ser a condição essencial para uma combate conseqüente contra atual governo golpista, etapa essencial na luta por uma sociedade democrática que possa avançar sobre o socialismo.

O que me permite colocar algumas questões no discurso de Tarso, é sua avaliação sobre o chamado “socialismo real”, existente na União Soviética, porque uma avaliação mais profunda desse período nos permitirá impedir a repetição dos seus erros.

Na sua exposição, Tarso não fugiu da questão central da Revolução Russa: Lenin contrariou a visão de Marx de que a revolução só seria possível em países de ponta do capitalismo, onde suas contradições internas tencionassem o sistema (como diziam os mencheviques e socialistas revolucionários) ou, pelo contrário, adaptou o marxismo às condições de um país agrário e atrasado, como era a Rússia, com a sua teoria do “elo mais frágil”, por onde começaria a ser rompido o sistema capitalista?

Na sua visão, essa contradição inicial, de certa forma, conduziu todo o desenvolvimento posterior do socialismo na Rússia, provocando num primeiro momento, o retorno à determinadas formas de capitalismo (NEP – A Nova Política Econômica de 1921 a 1927), por parte de Lenin e a reação de Stalin, em 1937, com a coletivização forçada da agricultura e os planos quinzenais de desenvolvimento industrial.

Ou seja, o socialismo na Rússia nasceu de uma forma contrária aos manuais clássicos do marxismo e isso marcou sua existência e de certa maneira, foi responsável pela sua queda.

A tendência dos historiadores e parece que Tarso segue nessa linha, é absolver Lenin e condenar Stalin, sem sequer admitir que possa ter havido uma linha de continuidade na ação dos dois.

Lenin era um internacionalista (acreditava que à Revolução de Outubro, se seguiriam movimentos semelhantes, principalmente na Alemanha), mas admitiu a ideia de implantação do socialismo num só país.

Quando, depois de 1917  perceberam que não haveria revoluções em outros lugares da Europa, seus companheiros o criticaram  por ter desencadeado o movimento numa hora inapropriada, provocando uma guerra civil interna, Lenin respondeu ironicamente: quem sabe entregamos o poder novamente ao Czar?

Stalin, o nacionalista russo (ironicamente, não era russo, mas georgiano), defensor do socialismo num só país, estendeu esse regime (ou o simulacro dele, como querem seus críticos) para boa parte do leste europeu depois da Segunda Guerra (ainda que com as armas do Exército Vermelho) e assegurou o apoio soviético a boa parte dos movimentos anticapitalistas no mundo, desde as lutas anti-coloniais na África e Ásia, até a futura formação de países formalmente socialistas, como os casos do Vietnam, Coréia e Cuba.

No seu livro de memória, Churchill conta que num encontro em Moscou com Stalin, o provocou sobre o custo da coletivização forçada da agricultura e esse o surpreendeu, admitindo que tinham morrido mais de 4 milhões de pessoas nesse processo

– Uma tragédia – teria dito Stalin para Churchill – mas a mecanização forçada da agricultura era a única condição de por fim aos ciclos permanentes de fome que atingiam a Rússia há mais de um século e que também mataram milhões de pessoas.

A industrialização forçada da Rússia para a produção principalmente de armamentos, impediu o país de investir em bens de consumo e o deixou atrasado em relação ao Ocidente, dizem todos os críticos de Stalin.

Mas será que sem esse esforço tremendo a União Soviética teria podido resistir ao nazismo e derrotado a máquina de guerra da Wehrmacht?

Trotski, o outro crítico dos caminhos que tomaram a Revolução de Outubro, também crítico do “socialismo num só país” e defensor da Revolução Permanente,  visto sempre como um libertário, foi quem negociou na paz de Brest Litovk as enormes concessões territoriais feitas aos alemães na Primeira Guerra e foi quem comandou o ataque à Fortaleza de Kronstadt, onde marinheiros rebelados, defendiam uma das bandeiras da revolução de Outubro, a liberdade

Ao colocar essas questões em contraponto ao discurso de Tarso, estou apenas tentando chamar a atenção para as enormes contradições que fazem parte de qualquer processo revolucionário e me colocando ao lado dele, que sempre defendeu a pluralidade de opiniões.

O fascismo está batendo em nossa porta

”Todos os políticos são ladrões e o melhor que podemos fazer é ficar longe deles”.

Quantas vezes você já não ouviu essa frase de pessoas indignadas pelas notícias que enchem as páginas dos jornais e os programas de televisão, sobre a corrupção de dirigentes políticos do mundo inteiro?

Para elas, não é o sistema capitalista que corrompe a todos nós com a transformação do dinheiro em bem maior, mas algumas pessoas que se valem do poder político para se locupletarem indevidamente.

Então, nas vezes em que essas pessoas são chamadas a se manifestarem politicamente, numa tentativa ainda que frágil, de tentar mudar esse quadro, elas se omitem, ou fazem uma escolha errada.

Veja-se o resultado do primeiro turno das eleições parlamentares da França. Mais de 50 por cento dos eleitores inscritos não votaram. Os que o fizeram, deram mais de 30 por cento dos votos para o novo partido do Presidente Macron, formado em sua maioria por pessoas alheias à política. Partidos tradicionais, como os socialistas, os republicanos de centro direita e a extrema direita da Frente Nacional, diminuíram em muito a sua próxima representação no parlamento. O único partido com uma proposta política de reforma radical que cresceu, foi a França Insubmissa de Jean-Luc Melénchon.

Isso tudo ocorreu na França, um país sempre considerado com um dos mais politizados do mundo.

Os eleitores franceses, como os americanos, os ingleses e possivelmente os brasileiros, parecem querer assumirem aquele personagem tão bem descrito por Bertold Brecht, do analfabeto político:

“O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais
.

O trágico dessa história é que esse procedimento alienado só serve para abrir caminho para o fascismo.

Foi assim na chamada República de Weimar, na Alemanha, entre 1919 e 1933, cuja fragilidade abriu às portas para ascensão do nazismo de Adolf Hitler e assim foi também na Itália, onde o descrédito dos políticos e a bandeira do anticomunismo, levou Benito Mussolini ao poder.

Os sucessivos escândalos na sua vida política, o total descrédito do parlamento, caminho pelo qual parece seguir também setores do judiciário e a total fragilidade de um governo ilegal, nascido por um golpe de estado, pode levar uma boa parte dos brasileiros a, se não desejar, pelo menos aceitar um golpe de estado fascista, como foi em 64, mesmo que agora ele ocorra por uma via eleitoral corrompida pela grande mídia.

A alternativa nessa luta contra o comportamento alienado que pode nos levar ao fascismo, é a luta por eleições diretas já e se não for viável essa solução (como tudo indica que seja assim) o que nos resta é cerrar fileiras em torno da eleição de Lula em 2018, mesmo com as grandes desconfianças que ainda nos restam sobre o seu futuro comportamento.

Lula em 2018, sim, mas um Lula comprometido publicamente em fazer aquilo que prometeu, mas não cumpriu em seus oito anos de governo: reforma política, reforma agrária, regulação da mídia.

Seria uma revolução, quase um sonho, mas sonhar sonhos bons é o que de melhor pode fazer um revolucionário, como disse Lenin.

 

 

Um teste para a sua ética

Você se considera “uma pessoa do bem”, incapaz de fazer qualquer maldade para um semelhante seu?

Então responda a seguinte questão hipotética: você é um judeu e está preso no campo de extermínio de Auschwitz e para adiar a sua morte, aceita participar de um “Sonderkommand”, grupo de judeus utilizados pelos nazistas para os trabalhos mais sujos do campo.

Sua tarefa é acionar a chave que vai lançar o gás letal dentro de uma câmara para matar centenas de judeus, homens, mulheres e crianças.

O que você fará?

Aciona a chave, matando todas essas pessoas, pensando que não é culpa sua e que se não fizer isso, outro fará no seu lugar?

Recusa matar essas pessoas e corre o risco de se imediatamente morto pelos nazistas?

Essa parece ter sido a grande questão moral que o nazismo colocou para a nossa civilização, quando todos os seus crimes foram descobertos e as pessoas começaram a se perguntar como isso foi possível.

No julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, no ano 1961, Hannah Arendt, que acompanhou todo o processo, escreveu sua famosa frase: “é a banalização do mal”.

Ninguém era culpado. Todos obedeciam ordens.

Três meses após esse julgamento, o professor e psicólogo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos,  Stanley Milgram, iniciou suas pesquisas para tentar responder a seguinte questão: pode Eichmann e seus milhões de cúmplices estar apenas seguindo ordens, sem o livre arbítrio de escolha?

A experiência, feita com 40 voluntários simulava uma relação “professor” e “aluno”. O professor fazia perguntas e quando o aluno errava, este devia ser castigado. Só que o castigo era um choque elétrico, que ia aumentando de intensidade a medida que o aluno errava as respostas. O aluno era um assessor de Milgram, que fingia fortes dores após cada choque e seu queixava da sua condição de ser cardíaco.

O que Milgram queria saber era até onde as cobaias da experiência iriam, mesmo se defrontando com uma questão muito menos dramática do que aquelas vividas pelos prisioneiros de Auschwitz.

O equipamento gerava choques que iam de 15 volts ,choque leve, a 450 volts, choque muito forte.

Dos participantes, 65% foram até o limite de 450 volts e todos foram ao menos até 300 volts, quando se recusaram a continuar.

Disse mais tarde, Milgram:

‘Eu projetei um experimento simples em Yale para testar quanta dor um cidadão comum estaria disposto a infligir em outra pessoa porque um simples cientista deu a ordem. Autoridade total foi imposta à cobaia [ao participante] para testar suas crenças morais de que não deveriam prejudicar os outros, e, com os gritos de dor da vítima ainda zumbindo nas orelhas das cobaias [dos participantes], a autoridade falou mais alto na maior parte das vezes. A extrema disposição de pessoas adultas de seguir cegamente o comando de uma autoridade é o resultado principal do experimento, e que ainda necessita de explicação’’.

Mais informações:

  • Obviamente, embora as cobaias, como “professores”, acreditassem que estavam provocando choques em seus “alunos” (para dar credibilidade ao experimento, eram submetidos a um pequeno choque inicialmente) estes, na realidade, não recebiam nenhum choque
  • Stanley Milgram era um judeu, que nasceu, 1933 e morreu em 1984, em Nova York. Foi PHD em Psicologia Social pela Harvard University.

O filme O Experimento Milgram (Experimenter) dirigido por Michael Almereyde, com Peter Sarsgaard no papel de Stanley Milgram, quase documentário, está disponível no Neteflix

Quem nos representa?

“Talvez, no futuro, alguém observe também que os mitos não são tanto objetos de crença ou descrença; eles são, sobretudo e sempre, a expressão de uma necessidade. E, aparentemente, desde a Grécia antiga até hoje, a gente está sempre precisando de heróis”.

A frase é do psicanalista Contardo Calligaris, na sua coluna na Folha, e poderia ser levada também para a política, onde os heróis são muitos, embora depois a gente descubra que alguns têm os pés de barro.

Na recente viagem que fiz a Rússia, me chamou a atenção o renascimento do culto à personalidade de um líder, no caso Vladimir Putin. Seu rosto está presente na capa de revistas e, o mais interessante, em calendários que são vendidos como registro das múltiplas facetas da sua personalidade

 

Assim, temos um Putin, sempre jovem e atlético, nas figuras de um piloto de avião a jato, de jogador de hóquei sobre patins, de campeão de judô e de um diplomata.

Ele é o herói que representa a retomada da Rússia como grande potência mundial, fazendo os russos esquecerem os tristes dias que se sucederam à queda do regime comunista.

Stalin foi o mito do grande pai provedor, inacessível em seu palácio, mas capaz de resolver qualquer problema dos russos.

 

 

Nikita Khrushchev, que o sucedeu, representava o russo (embora fosse ucraniano e não russo) camponês, rústico, mas também astuto e capaz de iludir os mais sábios. Era o regime se abrindo para o mundo, sem qualquer espécie de vergonha em ser representado por um líder capaz de tirar o sapato e bater com ele em cima da mesa, como fez Krushchev numa sessão da Assembléia da ONU.

O mundo mudou e os russos precisaram de um líder mais pragmático e preocupado em organizar burocraticamente a vida do paí. Então, Leonid Brezhnev  tomou o lugar de Krushchev.

Quando os novos tempos fizeram os russos – protegidos por um sistema que lhes garantia saúde, educação e pleno emprego – idealizar uma outra sociedade, onde o consumo seria igual aos modelos da Europa Ocidental e dos Estados, os russo imaginaram que poderiam ser representados por Mikhail Gorbachev e suas fantasias da Perestroika e da Glasnot.

O mito era falso e logo os russos perderam tudo, da segurança anterior, ao sonho do consumo ocidental, que agora com Putin, começam a retomar.

Não precisaríamos ir à Rússia para identificar a presença desses heróis mitológicos que surgem em determinados momentos para representar algum tipo de necessidade dos seus povos.

Na Bolívia, com a maior parte da população de origem indígena, foi preciso surgir um presidente originário da etnia uru-aimara, Evo Morales, para que se compatibilizasse o povo e sua real representação, no poder.

No Uruguai, branco, educado e com uma longa tradição de enfrentamentos da esquerda com as oligarquias rurais, quem encarnou melhor o espírito revolucionário e popular foi Pepe Mujica, saído do cárcere de Punta Carretas para a Presidência do País.

Conhecido e respeitado no mundo inteiro pela frugalidade dos seus hábitos e seu comportamento anti-convencional, me surpreendi no Uruguai com o depoimento de uma pessoa, aparentemente da classe média., sobre ele.

Ela dizia que como presidente de um país com altos níveis de educação, Mujica deveria assumir uma postura mais adequada ao seu cargo e que ela se sentia de alguma maneira envergonhada pelas suas atitudes públicas.

E, como ficamos nós, com os nossos heróis políticos.

Olívio Dutra, com seus trajes gauchescos, sua bicicleta e seu falar pitoresco, representa o pensamento de todos nós da esquerda?

E o mais carismático de todos, Lula

O líder sindical, que fundou um partido e chegou a Presidente, sem perder a linguagem que o povo fala é o melhor representante possível para o pensamento de esquerda do Brasil?

Por que, a maioria dos porto-alegrenses e dos gaúchos, teve a necessidade de um Olívio, primeiro prefeito da Cidade e depois governador do Estado?

Por que, a maioria dos brasileiros, elegeu Lula duas vezes Presidente e se deixaram, vai o eleger pela terceira vez?

Todos esses heróis são autênticos ou são personas criadas para atender nossas necessidades, como pergunta Calligaris?

Quê socialismo é esse?

Na visão clássica de Marx, o capitalismo só seria superado pelo socialismo quando, em vez de promover o desenvolvimento material, ele se tornasse um entrave para esse desenvolvimento. Para justificar a possibilidade de fazer a revolução socialista na Rússia, Lenin lançou a ideia do elo mais frágil do sistema.

Enquanto Marx pensava na Alemanha ou Inglaterra para ser a vanguarda da revolução, Lenin viu essa possibilidade na Rússia semi-feudal, acreditando que isso seria o ponto de partida para a revolução mundial.

Agora, que se comemoram os 100 anos do movimento iniciado por Lenin, essa questão volta a ser debatida.

Na segunda feira, no ciclo de debates que se realiza em Porto Alegre, os conferencistas examinaram as experiências socialistas em Cuba, China e Vietnam.  A questão chave para as discussões foi se a introdução de aspectos capitalistas na China e no Vietnam permitem considerar esses dois países como sendo socialistas ainda, ou já se tornaram países de capitalismo de Estado.

A questão é, se num país onde a massa de trabalhadores é fundamentalmente camponesa, é possível chegar-se ao socialismo sem passar pelo regime burguês.

Nunca é demais lembrar que na Rússia, depois de quatro anos de comunismo de guerra, a resistência dos camponeses à coletivização da agricultura, levou Lenin a lançar a chamada Nova Política Econômica (NEP), com o retorno de práticas do capitalismo, principalmente no campo, processo que só terminou em 1927, com Stalin.

Nos casos do Vietnam e China, o que se diz, é que depois de algum tempo em que se repetiu o modelo soviético, seus governos retrocederam e recriaram praticamente todas as formas do capitalismo.

Ficou até estranho ouvir o deputado Raul Carrion, falar com tanto entusiasmo sobre a introdução de práticas capitalistas no Vietnam, sendo ele uma liderança do PCdoB, um partido que sempre prezou uma certa visão ortodoxa da doutrina marxista.

Outra surpresa foi o repúdio que ele manifestou ao igualitarismo, quando isso é a essência do socialismo/comunismo. Marx e Lenin ensinaram que a divisa da revolução, num primeiro momento, é “de cada um, segundo suas possibilidades”, até chegar à fase final, quando será “a cada um, segundo suas necessidades”.

A desigualdade de salários e oportunidades é uma necessidade numa primeira fase de acumulação de recursos, mas nunca um fim, como pareceu fluir do discurso de Carrion.

Mas, o mais surpreendente estava reservado para a exposição do geógrafo Elias Jabour, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que defendeu a ideia de que o socialismo no futuro teria que conviver com o mercado e também com a propriedade privada. E quando ele falou em propriedade privada não estava pensando num carro ou numa “dacha”, mas nos meios de produção.

O Estado, representado pelo Partido Comunista, se encarregaria do macro planejamento e de impedir que o egoísmo capitalista extrapolasse a determinados limites.

A pergunta que se impõe é se isso, um controle do egoísmo capitalista, precisa de um Partido Comunista e de uma revolução?

Talvez bastasse um déspota esclarecido, ou um governo de sábios, que com uma força militar poderosa nas mãos, estabelecesse uma ordem interna, controlando os excessos do capitalismo.

Todos que hoje discutem quais seriam as condições para um novo sistema socialista, admitem que ele terá que ser bem diferente do modelo soviético, mas não a ponto de perder suas principais qualidades.

.Questões como a face humanista do socialismo, o fim da exploração do homem pelo homem. e a democratização da sociedade, foram temas arquivados pela visão economicista dos palestrantes.

Observações finais; 1)Raphael Hidalgo, o diplomata cubano, fez um longo discurso descrevendo fatos relacionados à Revolução em seu país e não entrou nos temas dos outros dois conferencistas; 2) Ninguém falou sobre a experiência do socialismo na Coréia do Norte

As práticas pouco convencionais de um presidente.

O fato do Presidente e sua esposa se dedicarem a um comportamento sexual considerado pouco ortodoxo nas relações familiares comuns – com seguidas praticas de “ménage a trois”e “swing”; homossexualismo por parte do presidente, também um “voyer” na medida que assiste sua mulher dormir com um amante na cama do casal – seria uma justificativa para a corrupção que praticam, que vai da extorsão à chantagem e chega até o assassinato de testemunhas?

Estamos falando do casal Francis Underwood (Kevin Space) e sua mulher Claire, da série House of Cards, que o Netflix exibe atualmente.

Haveria um moralismo implícito por trás dessa história, ao tentar mostrar que pessoas que não respeitam as convenções matrimoniais são mais abertas às praticas de corrupção?

Ou, a leitura correta é a contrária, a de que os corruptos o são em todos os seus atos, inclusive na vida familiar?

O que também contraria aquela velha história de que grandes bandidos poderiam ser dóceis pais de família.

O certo é que depois de abandonar o Código Hays (Motion Picture Production Code) o cinema americano nunca mais foi o mesmo e o tradicional  “american way of life” deixou de ser visto até mesmo nos filmes feitos para os matines em frente à televisão.

(Qualquer semelhança entre o casal Underwood e outros casais é mera coincidência).

Preparando a Terceira Guerra Mundial

O presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o controle da emissão de gás carbônico da atmosfera, dizendo que foi eleito pelo povo de Pittsburgh (centro industrial americano) e não de Paris.

Os Estados Unidos são o segundo maior poluidor da atmosfera, vindo apenas atrás da China, que continua fazendo parte de um acordo que pretende impedir o aumento da temperatura do planeta em mais de 2 graus Celsius.

Em palestra recente em Porto Alegre, durante o seminário pelos 100 anos da revolução russa, o economista Luiz Belluzzo, depois de fazer referências aos bolsões cada vez maiores de pobreza nos Estados Unidos (segundo ele 40 por cento dos americanos vivem situações de trabalho precário, sem nenhuma garantia trabalhista) disse que foi esse segmento de público que elegeu Trump no ano passado.

Um populista de direita, Trump está se aproveitando dos longos anos de conivência das administrações democratas nos Estados Unidos com os interesses das oligarquias financeiras, para propor medidas que, num primeiro momento vão atender os interesses dos mais pobres nos Estados Unidos.

A comparação com o que fez Adolf Hitler na Alemanha é inevitável. Lá também foi possível recuperar a economia do país, com a geração de empregos e o incentivo às indústrias de armamento, coisa que Trump prometeu fazer também nos Estados Unidos com um acentuado investimento no seu complexo militar.

No discurso em que anunciou a saída dos Estados Unidos do acordo de Paris, Trump disse que se continuasse observando a limitação na emissão de gases, o país teria uma perda de 12% na produção de papel, 38% em ferro e aço e 86% em carvão até o ano de 2.040.

Trump minimizou os ganhos com o acordo (manter o aquecimento global abaixo de 2% até 2.100) e maximizou os ganhos para os Estados Unidos: a geração de milhares de novos empregos e o aumento de 3 trilhões de dólares nos valores das empresas americanas nas bolsas de valores.

Na visão de Trump, o Acordo de Paris tem menos a ver com o clima e mais com uma guerra econômica contra os Estados Unidos, no que de certa maneira tem razão ao identificar uma condição permanente do capitalismo que é o da cisão entre os interesses dos diversos grupos representados por nações ou bloco de nações.

Mais de 70 anos depois do fim da segunda guerra mundial, parece terem sido criadas novamente as condições para outro conflito, geradas pelo choque de interesses de facções do capitalismo que desprezam os valores maiores da civilização (no caso a preservação das condições de vida no planeta) em troca da sua manutenção.

Nessa hora, é bom lembrar a previsão pessimista de Meszaros que acrescentou à clássica colocação de Rosa Luxemburgo – Socialismo ou barbárie – um adendo – …”na melhor das hipóteses”, porque a continuidade das atuais políticas capitalistas podem levar o mundo à destruição total.

Será a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o primeiro passo para a Terceira Grande Guerra?