O filme que a gente leva no coração.

Quem gosta de cinema, sempre tem seu filme do coração, guardado a sete chaves no lado esquerdo do peito, como diz a canção do Milton.

O meu é “Aquele Que Deve Morrer” (Celui Qui Doit Mourir), dirigido por Jules Dassin, em 1957.

O problema é quando você é tentado, naquelas sessões vespertinas de filmes antigos na TV, a rever o seu filme do coração.

Não recomendo a experiência.

Vi “Aquele Que Deve Morrer” numa dessas sessões. O que torna o filme envelhecido é o maniqueísmo dos personagens e uma boa dose de ingenuidade na avaliação do caráter dos homens que o cinismo dos dias atuais não mais permite.

Vou escrever então sobre o filme, aquele que vi em 1957, no antigo Cinema Ópera, da Rua da Praia.

“Aquele Que Deve Morrer” é baseado num livro de Nikos Kazantzakis ( o autor de Zorba, o Grego) , nascido 1883 e morto em 1957 e até hoje considerado um dos maiores escritores gregos de todos os tempos.

Jules Dassin (nasceu nos Estados Unidos em 1911 e morreu em Atenas, em 2008).

Ficou famoso na década de 40, nos Estados Unidos, ao realizar “Brutalidade” (1947), com Burt Lancaster e “Cidade Nua” (1948), com Barry Fitzgerald. Na década de 50 ele foi mais uma das vítimas da perseguição política do macartismo, acusado de ser comunista, e se obrigou a viver na Europa, onde realizou, pelo mais, dois ou três clássicos do cinema, além de ”Aquele Que Deve Morrer”: “Sombras do Mal”, na Inglaterra, com Gene Tierney;  o policial “Rififi”, com Jean Servais na França e que conta um assalto a uma joalheria de uma maneira que faria escola no cinema.

Ao filmar “Aquele que Deve Morrer”, se apaixonou pela atriz grega Melina Mercouri (nascida em Atenas em 1911 e falecida em Nova York em 1994), com quem fez outro bom filme, a comédia  “Nunca aos Domingos” e com quem se casou.

Melina, além de ser uma bela atriz, teve também intensa ação política, exercendo o cargo de Ministra da Cultura da Grécia, na década de 80, depois que a democracia retornou ao País, com o fim da ditadura dos coronéis gregos.

O filme conta como os gregos, oprimidos pelos turcos, se revoltam sob a liderança de um pastor, Cristo/Manolios (Pierre Vaneck – 1931/2010) motivados pela representação da Paixão de Jesus Cristo durante a Semana Santa. O filme é uma parábola sobre a história de Cristo, visto como um revolucionário político e não apenas como um líder religioso.

“Eu não vos trago a paz, mas a espada da guerra”, diz em certa altura o Padre Fotis, vivido por Jean Servais (1910/1976), que lidera um grupo de famílias expulsas de sua aldeia pelos turcos, citando uma passagem menos conhecida da Bíblia.

Pensando bem, talvez valha a pena ver de novo “Aquele Que Deve Morrer”, ainda que numa sessão da tarde e na tela da televisão, quando mais não seja para rever a mais bela Maria Madalena do cinema, Melina Mercouri.

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