Stalin, santo ou demônio?

 

A esquerda comunista é movida por sentimentos de culpa e em função disso, muitas vezes, repete o discurso maniqueísta da direita, transformando os santos de ontem em demônios de hoje.

Um bom exemplo é Josef Stalin.

Durante anos foi chamado de “O Guia Genial dos Povos”, mas a partir do famoso relatório de Nikita Kruchiov, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, passou a ser um demônio, alguém que, no dizer de Kruchiov, “descartou o método leninista de convencer e educar e abandonou o método de luta ideológica em favor da violência, repressões em massa e terror”.

É bem possível que Kruchiov tivesse razão, embora soe estranho que a denúncia tenha sido logo dele, alguém que,durante os anos de poder de Stalin, foi um dos seus mais próximos colaboradores.

Essa nova imagem de Stalin como o gênio do mal ganhou espaço na mídia ocidental e foi repetida inclusive, ou principalmente, por comunistas arrependidos.

Durante alguns anos, após 1956, tudo era culpa de Stalin, até que com o fim do comunismo na Rússia, ela passou a ser dividida com Marx, Engels e Lenin, todos vistos como mentores do que a imprensa burguesa via como o fracasso inevitável de uma utopia socialista.

Contra Stalin sempre foram feitas duas acusações básicas: a coletivização forçada da agricultura no início da década de 30, que provocou milhões de mortos e os grandes expurgos das lideranças soviéticas em 1937.

A primeira acusação procede e Stalin mesmo a admitiu publicamente num encontro com Churchill, em Moscou, no ano de 1942.

Nas suas memórias, Churchill disse que provocou Stalin sobre o tema e que ele explicou que as populações russas sofriam ciclos periódicos de fome que matavam milhões de pessoas e que era preciso aumentar de qualquer maneira a produção de grãos no país.

“Precisávamos mecanizar nossa agricultura. Quando demos tratores aos camponeses, todos se estragaram em poucos meses. Só as fazendas coletivas, que tinham oficinas, conseguiam lidar com os tratores. Mas, os camponeses não aceitavam isso. Foi preciso usar a força. Dez milhões de pessoas morreram. Foi assustador. Durou quatro anos, Foi tudo muito ruim e difícil, mas nós, não só aumentamos largamente o abastecimento de alimentos, como melhoramos considerável mente a qualidade dos grãos” teria dito Stalin para Churchill.

Podia ter sido feito de outra maneira? É bem possível que sim, mas como em todos os fatos históricos, julgar a “posteriori” é muito fácil.

A outra acusação contra Stalin é ter eliminado seus adversários de maneira brutal e injusta.

Certamente verdade, embora hoje fique claro para os historiadores que desde que substituiu Lenin no comando da URSS, Stalin enfrentou ameaças de golpes permanentes dos seus adversários, incluindo Trotski, Kamenev, Zinoviev, Ovsenko, Preobrajnsky, Radek, Bukarin e o marechal Tukachevky, que certamente, se vitoriosos, também não teriam poupado sua vida, como parece ser hábito na história dos golpes internos da política russa dentro dos czares.

O historiador italiano Domenico Losurdo, em sua obra Stalin, a História Crítica de uma Lenda Negra (Storia Critica di uma Leggenda Nera), não tenta transformá-lo num santo novamente, mas também não repete outro escritor, o inglês Simon Sebag Montefiore (Stalin, A Corte do Czar Vermelho) que  mostra Stalin apenas como um demônio, mas tenta olhar com toda a imparcialidade possível seus longos de poder despótico na União Soviética.

Se para nós, a imagem predominante de Stalin ainda é a do demônio, para os russos atuais, ele ainda é considerado o mais importante personagem da sua história.

Uma pesquisa feita essa semana pelo Instituto Levita, que ouviu 1.600 pessoas, mostrou que Stalin é o personagem mais importante da Rússia, com 42% dos votos, contra 34% do atual presidente, Putim e do poeta Pushkin e apenas 32% do grande líder revolucionário Lenin.

A pesquisa revelou outro dado interessante, que deve surpreender os que imaginavam que o regime comunista na Rússia era mantido contra a vontade do povo: o Partido Comunista é ainda hoje considerado o segundo mais importante da Rússia apesar de tudo que se disse contra ele.

Uma pequena análise de quatro publicitários famosos

Durante quase trinta anos trabalhei com publicidade, como criador em algumas das principais agências gaúchas e como professor em duas universidades.

Raramente falo sobre essa época, até porque acho que foi uma escolha equivocada de vida profissional, mas hoje vou abrir uma exceção para tentar encontrar em quatro personagens que conheci nesse período, uma síntese de determinados tipos de comportamentos do mundo da propaganda.

São eles: Luís Augusto Cama, Sérgio Gonzales, Roberto Pintaúde e Edgar Ferreti.

O Cama e o Gonzales têm em comum o fato de chegaram aos mais altos postos em agências de propaganda de expressão nacional, sendo apenas empregados e nunca patrões ou sócios, o Cama na Standard/Ogilvy e o Gonzales, na MPM.

Como a publicidade, da maneira que conhecemos, nasceu nos Estados Unidos, vale citar duas definições de americanos famosos sobre a publicidade para tentar encontrar o que, na minha observação, separa o Cama do Gonzales.

Primeiro, Henry Ford: “Se eu tivesse um único dólar, investiria na publicidade”

Depois, Henry Wells: “A publicidade é a mentira legalizada”.

O Cama sempre acreditou no Ford e por isso, além de ser um praticante de sucesso da publicidade, se transformou em um brilhante divulgador da sua arte e técnica, em cursos, conferências e publicações no mundo inteiro.

O Gonzales, que gosta de dizer que não vendeu sua alma à publicidade, apenas alugou, deve se filiar, certamente, à linha de pensamento de Wells.

Um talento incrível como diretor de arte e redator, que mesmo acumulando prêmios e mais prêmios como criador, sempre olhou com desdém a importância que, principalmente os mais jovens, davam à atividade publicidade.

E os outros dois, o Roberto Pintaúde e o Edgar Ferreti?

O Pintaúde é o cara errado no lugar certo e o Ferreti, o cara certo no lugar errado.

Vou tentar explicar.

O Pintaúde é um talento bruto, uma usina de criatividade, um desconstrutor que trabalha num negócio destinado a construir. Construir unanimidades (que como dizia o Nelson Rodrigues é sempre burra) em torno de produtos e empresas, é a função da publicidade. E isso significa uma contradição permanente na vida do Pintaúde, que poderia ser tudo no mundo da criação, menos publicitário. Por isso, ainda que possa ser vitorioso em muitos momentos da sua vida profissional, é um sujeito voltado para a perda. Ou seja, ele é um cara errado, porque questiona, numa profissão feita de certezas.

Já o Edgar Ferreti é uma obra em elaboração permanente. Um conjunto feito de acumulações óbvias de informações comprovadas, sobre as quais nunca teve dúvidas. Como produtor e diretor de filmes comerciais e jingles para o rádio, fez muito sucesso no mercado, exatamente porque não era criativo no sentido que sobra ao Pintaúde. Ele, nos seus trabalhos, não destruía nada. Seus filmes eram bonitos, alegres, formalmente bem feitos e seus jingles engraçados e fáceis de serem apreendidos. Eram sempre construtivos. Ou seja, ele reforçava a mentira e por acreditar nisso é que era um cara certo para algo que é errado por definição, a publicidade.

Espero não ter ofendido nenhum dos quatro com estes comentários, até porque pode não ser nada disso que escrevi e o errado seja apenas eu.

Deus não joga, mas fiscaliza

Os narradores de futebol, no rádio e na televisão, cansaram de dizer que Deus era brasileiro. Na última Copa do Mundo, com a goleada diante da Alemanha ficou uma dúvida. Deus não teria se bandeado para os lados dos germânicos?
Agora na Copa das Confederações, será que a eliminação da Rússia pelos mexicanos tem a ver com alguma mágoa antiga Dele pelo fato dos russos terem sido comunistas durante mais de 70 anos?
Quem acompanha os jogos pela televisão já viu centenas de vezes jogadores e até juízes, fazendo o clássico sinal da cruz, quando começa o jogo, quando os atacantes fazem gols ou quando o goleiro defende um pênalti. É um aviso para o público e os telespectadores: “olha aí, o Homem está comigo”. No final dos jogos, os jogadores – os vencedores, claro – são mais explícitos: “Deus me iluminou e saímos vencedores”. Os perdedores não cobram nada, tipo “que sacanagem, a gente contava Contigo, fez promessa e tal, e nada deu certo”. Certamente não querem incomodar o Homem e perder totalmente a confiança Dele. Afinal o campeonato é longo.
Atualmente virou ritual, quando o atacante consegue fazer um gol, reunir seus companheiros num canto do gramado e ajoelhados erguer os braços para os céus, agradecendo o feito e pedindo que Deus não se acanhe em favorecer a conquista de outros.
Há alguns anos chegaram a se formar confrarias de jogadores transformados em cruzados de alguma seita religiosa. Eram os chamados Atletas de Cristo, que pediam proteção para si e para seu clube, mas não poupavam as canelas dos adversários.
Eram crentes modernos, com um olho em Deus e outro no marketing. Quando faziam um gol corriam em direção às câmeras de televisão, com a camisa levantada para mostrar frases do tipo Deus é fiel ou Cristo salva. Para evitar a a concorrência com os anunciantes que pagam fortunas para por seus nomes nas camisas, a FIFA proibiu esses gestos de fé mercadológica.
.Deve ser complicado para Deus escolher o lado vencedor, tantos são os pedidos dos concorrentes. É como nas guerras antigas, onde cada lado levava seus estandartes e seus capelães e dizia defender a causa divina. Quando, por exemplo, era uma guerra entre cristãos – tipo Alemanha contra França – devia ser muito difícil para Deus se posicionar. A menos, que ele fizesse opção pela maioria católica (França) contra maioria protestante (Alemanha).
Nas cruzadas, era mais fácil. Jeová versus Alá.
A pergunta é se o que vemos nos campos ou na Tv é só futebol, onde ganha o melhor ou que pelo menos, ganha quem tenha um Neymar no ataque, ou tem a ver com milagres e demonstrações explicitas da vontade divina?
Talvez a melhor resposta seja a de um antigo narrador de futebol no Rio Grande do Sul, que depois virou até deputado federal. Dizia o Mendes Ribeiro: “Deus não joga, mas fiscaliza”.
Nesse sábado, parece que Deus deu uma olhada para o nosso time e ganhamos uma lá em Pelotas. Como o gol foi do Fabinho, podemos acreditar em milagre.

Comunismo, um vocábulo magnífico

 

O marxismo, apontado muitas vezes como uma doutrina exótica, é um produto genuíno da cultura ocidental. Suas três vertentes formadoras são as idéias humanistas dos socialistas utópicos franceses, as teses sobre a economia do escocês Adam Smith e a visão dialética do alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A partir de 1948, com a edição do Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels lançaram as bases teóricas e práticas para a construção de uma sociedade socialista, sonho até então utópico da humanidade.
Em 1917, contrariando as idéias de Marx e Engels, que imaginavam esse evento acontecendo na Inglaterra, na Alemanha ou na França, foi realizada na Rússia a primeira tentativa de edificação de um estado baseado nos princípios marxistas, graças à liderança de dois dos maiores revolucionários do século XX, Lenin e Trotsky.
Com o passar dos anos, a premissa marxista de que seria preciso um período de ditadura da classe trabalhadora para o enfrentamento dos contra-revolucionários – e no caso da nova União Soviética, eles foram tantos internos, como externos – convergiu para uma ditadura de um único partido, depois para um pequeno grupo dentro do partido, cuja imagem dominante foi Josef Stalin.
Mesmo com todos seus erros, Stalin foi capaz de mobilizar o seu povo na luta contra a máquina de guerra alemã na Segunda Guerra, o que permitiu à civilização ocidental superar a maior ameaça a sua existência no século passado.
Ainda que com muitas adulterações nos pressupostos lançados por Marx e Engels, principalmente a defesa do conceito do socialismo num só país, União Soviética conseguiu se tornar uma grande potência e num curto período, após a segunda guerra mundial, parecia se aproximar do sonho de uma sociedade socialista mais humana e justa.
A chamada Guerra Fria e o bloqueio econômico norte-americano, porém, debilitaram a economia da União Soviética e nem o discutível esforço de Mikhail Gorbatchov de instituir a Perestroika – reconstrução econômica – e a Glasnost- transparência política – foi capaz de salvar o regime que desapareceu em 1991. Com o fim da União Soviética, políticos e intelectuais burgueses do mundo inteiro decretaram o fim do comunismo e o domínio perene do capitalismo na sua versão neoliberal.
Toda essa recuperação histórica se faz necessária no momento em que despontam no mundo inteiro movimentos no sentido de recuperar as propostas de Marx e Engels para a edificação de uma sociedade socialista, obviamente aperfeiçoadas pelos novos conhecimentos adquiridos nas últimas décadas nas áreas de sociologia, da economia e da política.
Os contínuos fracassos econômicos do capitalismo, com suas devastadoras crises cíclicas, colocaram na ordem do dia novamente a possibilidade de edificação de uma sociedade baseada em valores mais humanos.
Dentro dessa nova perspectiva, é que renovadas correntes marxistas estão surgindo para propor uma pergunta que certamente vai assombrar muita gente: o comunismo está realmente morto?
Um dos filósofos franceses mais importantes da atualidade, Alain Badiou, professor na École Normale Supérieure, de Paris, lançou o livro “L’Idée du Communisme” (A Idéia do Comunismo), que reúne textos de conferências feitas em Londres por ele e mais 14 pensadores europeus sobre o tema.
Na apresentação do livro, Badiou justifica o seu lançamento como “uma maneira de repor em circulação esse velho vocábulo magnífico (comunismo) e não deixar os partidários do capitalismo liberal globalizado imporem um balanço pessoal de sua utilização.
Relançar a discussão sobre as etapas e os desvios inevitáveis da emancipação histórica da humanidade, é uma tarefa necessária para o que hoje se mostra dramaticamente ausente: uma independência total de pensamento diante do consenso ocidental “democrático” que apenas organiza universalmente sua própria e deletéria continuação desprovida de sentido”.
Outro participante do livro, o filósofo Jacques Rancière, diz: “A crise atual é de fato o freio da utopia capitalista que reinou sozinha durante os 20 anos que se seguiram à queda do império soviético: a utopia da auto-regulação do mercado e da possibilidade de reorganizar o conjunto das instituições e das relações sociais, de reorganizar todas as formas de vida humana segundo a lógica do livre mercado”.
Tomara que essa saudável discussão ocupe também os interesses dos intelectuais brasileiros, que hoje parecem apenas interessados em questões também importantes, mas menores em sua significação humana, como direitos de minorias e hábitos de consumo. Seria importante que nos voltássemos também para questões macros porque são elas que vão decidir os caminhos que a humanidade vai seguir nesse novo século.

A banalização do mal

Zona de Interesse (Zone of Interest) é um livro do americano Martin Amis, que a Companhia das Letras lançou há pouco mais de um ano sua tradução para o português.
O nome era uma ironia macabra dos nazistas. Zona de Interesse, em Auschwitz, era o local onde os judeus que chegavam ao campo, passavam por uma triagem na estação ferroviária, processo que determinava se seriam mandados para trabalhos forçados durante algum tempo, ou iriam diretamente para as câmaras de gás.
Para evitar alguma confusão, os alemães montavam um verdadeiro circo, até mesmo com banda de música e promessas de banho quente e alimentação farta para os que chegavam diariamente nos trens vindos dos diversos países ocupados pelos nazistas.
A ideia era fazer crer aos judeus que eles iriam trabalhar para os alemães durante algum tempo e depois voltar aos seus lares. A ilusão só terminava quando eram fechadas as grandes portas que deveriam levar os presos para os chuveiros, mas que eram realmente câmaras de gás.
O livro retoma na forma de ficção, o tema da banalidade do mal, que Hannah Arendt havia tornado universal com a cobertura que fez do julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961, para a revista The New Yorker, posteriormente transformado em livro com o título de Eichmann em Jerusalém (Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evyl – Companhia das Letras, 2011).
Antes de Amis, Jonathan Littel, dentro da mesma linha, misturou ficção e realidade para contar a história de Maximilien Aue, oficial da SS nazista que participa do extermínio de judeus na segunda guerra, no seu livro As Benevolentes (Les Bienveillantes , Editora Objetiva, 2007).
Seguindo o procedimento burocrático, que Hannah Arendt identificou no comportamento de Eichmann, Littel mostra até que ponto a alienação da ideologia nazista transformou burocratas em verdadeiros monstros, imunes a qualquer sentimento de culpa e por isso mesmo capazes de manter uma vida “normal” fora de suas funções “profissionais”.
Jorge Semprun, em a Longa Viagem (Le Grand Voyage, Editora Arcadia -1963) ao descrever sua internação em Buchenwald, de certa maneira já havia antecipado essa visão de um campo de concentração nazista.
Nenhum deles conseguiu, porém, o mesmo impacto da obra de Amis que, a parte este caráter sociológico, tem uma qualidade literária admirável.
Um livro que prende a atenção do leitor da primeira à última de suas quase 400 páginas.
A história é contada, de forma intercalada, por três personagens: Angelus Thonsen, oficial do exército, sobrinho de Martin Bormann, o secretário pessoal de Hitler, um cético quanto os objetivos nazistas; Paul Doll, comandante do campo, um bufão, sempre bêbado e desprezado pela mulher, Klara, objeto de desejo de Angelus e Szmul, integrante de um “sonderkommando”, grupo formado por judeus, que em troca de algumas vantagens materiais, fazia o trabalho sujo para os alemães.
São estes “sonders” que encaminhanam os presos para as câmaras de gás e depois carregavam os cadáveres para o crematório ou para as valas comuns, não sem antes se responsabilizarem pela retirada do ouro dos dentes e os cabelos das mulheres mortas.
Na narração dos fatos, feita pelos três personagens, há uma superposição entre os acontecimentos trágicos que se desenrolam no campo – a execução diária de centenas de homens, mulheres e crianças, as monstruosas experiências médicas com os presos e a fome permanente dos judeus preservados para o trabalho escravo – com um simulacro de vida normal dos alemães que vivem no campo.
O comandante vive com a mulher e as filhas numa casa dentro do perímetro do campo; os oficiais alemães se reúnem periodicamente para jantares e para assistir peças teatrais e apresentações de balé, como se a vida continuasse igual aos tempos anteriores à guerra.
Chama a atenção a maneira como os oficiais nazistas tratam suas ações no campo de concentração, discutindo questões que representam a vida ou a morte de milhares de pessoas como negócios comuns do dia a dia.
É como se o campo de Auschwitz fosse apenas uma grande empresa capitalista cujos sócios se dividissem entre bons e maus administradores. Em muitas discussões ficam em polos opostos os que defendem um aumento na ração de alimentos para que os presos que realizam os trabalhos escravos tenham uma vida útil maior (seriam hoje os defensores de um capitalismo com preocupações sociais) e de outro lado, os fanáticos que enxergam na destruição física dos judeus um objetivo de vida (seriam hoje os defensores do capitalismo selvagem).
Como tudo aconteceu, é uma discussão que não tem fim. Como foi possível que a Alemanha, terra de grandes filósofos, poetas e cientistas, tenha se transformada no algoz de populações inteiras durante mais de dez terríveis anos?
Tudo teria obra apenas de um maluco, Hitler?
Ou a responsabilidade deve ser dividida com o seu círculo de poder, como decidiu o tribunal de Nuremberg que incriminou: Goering, Hess, Ribbentrop, Keitel, Kaltenbrunner, Rosenberg, Frank, Frick, Streicher, Funk, Sauckel, Jodl, Seyss-Inquart, Speer, Neurath, Bormann, Schirach, Raeder, Doenitz, Schacht, Papen e Fritzsche?
Foram 19 condenações, 12 à forca, 3 à prisão perpétua e 4 à pena de prisão de 10 a 20 anos.
Isso significa a absolvição de todos os demais, que tornaram possível a existência de um sistema nazista de governo?
E os alemães que acreditavam que o nacional socialismo era a salvação do País e, em grande maioria, apoiaram os nazistas, pelo menos enquanto eles estavam ganhando a guerra?
Hoje se discute muito a responsabilidade das populações civis da Alemanha e de Israel em relação às atrocidades praticas nos países ocupados e mesmo dentro da Alemanha, pelos nazistas durante a guerra e hoje, na Faixa de Gaza e no sul do Líbano, pelos israelenses.
O que se diz mais comumente é que não se pode condenar toda uma população pelos crimes cometidos a mando dos seus dirigentes, embora tanto no caso da Alemanha, no passado e Israel, hoje, eles tenham chegado ao poder por processos eleitorais formalmente democráticos
Embora os maiores campos de extermínio – Auschwitz, Treblinka, Belzec e Majdanek – estivessem na Polônia, de 1933 (ano da ascensão dos nazistas) até 1945 (fim da guerra) existiram 16 campos de concentração dentro da Alemanha e alguns bem próximos de grandes cidades, como Sachsenhausen, de Berlim; Bergen-Belsen, de Hannover; Dachau, de Munique e Buchenwald, de Weimar.
Esses campos, onde milhões de judeus, ciganos, doentes mentais e opositores políticos, principalmente comunistas, foram mortos, dispunham de um número enorme de funcionários, não apenas militares, mas também médicos, enfermeiros, dentistas e técnicos de vários níveis que, forçosamente, mantiveram relações comerciais e sociais com as populações em torno.
Isso sem falar nas grandes indústrias químicas, de remédios e também de armamentos que se estabeleceram nas proximidades para usar a mão de obra escrava proporcionada pelos campos de concentração, transformados em empresas financiadas pelos grandes empresários alemães.
No caso da Alemanha nazista, tema dos livros citados, é difícil admitir que a maioria da população não soubesse da existência dos campos de concentração. O mais certo é pensar que a maioria das pessoas não queria saber de suas existências.
Talvez a melhor explicação esteja num poema que tem duas versões A primeira, do pastor Martin Niemoller (1892/1986), ampliada depois por Bertold Brecht (10/02/1898 – 14/08/1956).

A versão de Niemoller:

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar”

A versão de Brecht:

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”

Os moralistas de cuecas e a banda podre da política


A reunião de um grupo de fanáticos e puritanos, os Procuradores da República no Paraná, com um Juiz sedento de fama, criou a ‘República de Curitiba’ e dela nasceu esse monstrengo jurídico chamado Operação Lava Jato, alimentado pelas delações premiadas de corruptos assumidos e promovido por uma imprensa pouco ética.
O problema é que depois que soltaram os demônios, eles não querem mais voltar para o seu antigo inferno. Os golpistas, que estimularam suas primeiras denúncias, estão vendo agora elas se voltarem contra o seu centro de decisão, hoje encastelado no governo de Temer.
Mas quem são esses grandes atores que mantém aceso o fogo destruidor da Lava Jato, os Procuradores da República?
Nascidos de uma decisão política, tomada na Constituição de 1998 de garantir a independência dos Procuradoria da República na fiscalização dos atos do Executivo, eles abominam a política e se regem por seus próprios códigos, onde a lei é vista como algo imutável e eterno.
Seu Alcorão é composto pelos códigos civil e criminal. Sonham com uma versão ocidental da “sharia”, esquecidos que vivem numa sociedade capitalista movida pela busca do lucro a qualquer custo e onde a política se mistura perigosamente com os negócios.
Em vez de usar seus poderes para buscar uma depuração desse processo, usando os mecanismos da lei para punir os infratores, sem por em risco as instituições, eles preferem histericamente destruir o nosso tênue sistema democrático, ao disseminar a ideia de que todos os políticos são corruptos e que o Brasil pode viver sem eles.
O lema que eles defendem e que segmentos alienados da população repetem, de que é preciso passar o País a limpo, tem uma inequívoca conotação fascista, na medida que pretende por na lata do lixo todos os avanços democráticos penosamente conquistados nos últimos anos.
Ao mirar no PT como seu alvo principal, eles não estão fazendo apenas uma opção ideológica, eles estão dando um recado preconceituoso de que, um partido que pretende representar os trabalhadores, não pode ser valer, dentro de uma sociedade burguesa, dos mesmos instrumentos que durante décadas permitiram aos outros partidos chegarem ao poder.
O jogo de influências numa sociedade capitalista não prescinde do dinheiro. Na forma direta do papel moeda passado de mão em mão, das transferências eletrônicas para bancos suíços ou de oferta de posições de poder que vão gerar vantagens logo adiante, é o dinheiro que rege todas as relações que movem um país para frente.
E não é apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, que alguns ainda apelidam de “A Grande Democracia do Norte” vimos na recente disputa Hillary Clinton X Donald Trump, uma pública e contabilizada conta de chegar, entre as duas candidaturas, para ver quem arrecadava mais dinheiro dos grandes empresários. Obviamente, lá como aqui, não será um dinheiro dado, mas um dinheiro emprestado que deve voltar com juros e correção aos seus donos.
Todo mundo está cansado de saber que nem os empresários, nem a maioria dos políticos, nem os partidos, querem acabar com esse sistema, aprovando, por exemplo, o financiamento estatal das campanhas políticas.
Assim como está, todos têm chances de ganhar.
Diante desse quadro, quem são os moralistas de cuecas? São os procuradores, com o seu jacobinismo fora de época, que agem como analfabetos políticos, no dizer de Bertold Brecht; são os empresários sonegadores que financiam as campanhas dos alienados que repetem nas ruas os slogans fascistas de passar o País à limpo e são, ainda, os veículos da imprensa venal que transforma tudo isso em grandes manchetes.
Quando concorreu pela quarta vez à Presidência, Lula deixou bem claro que, dessa vez, iria à disputa para ganhar. Isso significou um grande acordo com partidos de centro e com empresários e obviamente, significou também a necessidade de abrir mão, pelo menos durante algum tempo, das bandeiras mais radicais do PT.
Lula cumpriu o trato, ao mesmo tempo, que conseguiu realizar algumas das promessas que fez aos seus eleitores. Foi reeleito e elegeu Dilma duas vezes. Foram campanhas milionárias (como também foram as dos demais partidos) e ninguém é ingênuo para supor que elas pudessem ser possíveis sem grandes verbas, sem o investimento de muito dinheiro.
Como ocorreu com todos os principais candidatos (aqueles com chances de ganhar), foi um dinheiro que entrou por vias legais e também por outras nem tanto. Até mesmo a campanha do falecido Eduardo Campos e da vestal Marina Silva, foi turbinada com dinheiro desviado de órgãos públicos.
Errado?
Claro.
Mas como mudar esse quadro?
Talvez começando por fechar a torneira maior que irriga a famosa Caixa 2: o financiamento empresarial.
Ocorre que nos 14 anos de governo do PT, como na Rússia stalinista, criou-se também uma “nomenklatura”, que não resistiu à tentação de por no bolso uma parte de tanto dinheiro que circulava nos negócios, teoricamente destinados a apoiar o partido.
E não foi apenas o PT e seus políticos que se beneficiaram. Todos os demais partidos que se integraram às campanhas de Lula e Dilma, disputaram com unhas e dentes uma parte nesse butim. Como disse o Ministro Barroso do Supremo, ninguém é ingênuo para supor que os cargos de mando nos órgãos públicos eram disputados por pessoas que queriam apenas servir o País.
Muitos dos nomes, que participaram dos governos do PT, como Padilha, Geddel, Jucá e Moreira Franco, sempre vistos como suspeitos de negócios pouco éticos, estão ou estiveram no governo de Temer, comprovando que, nesse jogo, existe pouca fidelidade ideológica.
Independentemente de que muitas das acusações que estão sendo feitas a políticos do PT, possam não ser verdadeiras, parece pouco provável que todas sejam falsas.
O mais provável é que esses longos anos junto às fontes do poder na República criaram uma banda podre no PT, que agora permite que uma boa parte da opinião pública, insuflada por uma mídia interessada em destruir o partido, enxergue nesse fato o fim de qualquer possibilidade de, através de um partido de inspiração popular, mudar o centenário quadro de dominação das elites brasileiras sobre todo o País.

Uma revolucionária exemplar

Como todos bons (?) alemães, os policiais da Gestapo, a polícia nazista, deixavam registrados todos seus passos. Numa pasta, com oito dossiês e cerca de duas mil folhas, eles contam toda a história da prisão Olga Benario Prestes, desde a sua saída do Brasil em 1936, os anos que passou no campo de concentração de Ravensbruck e sua morte numa câmara de gás em Bernburg, em abril de 1942.

O que existe de fundamental nesse material, textos e fotos, está disponível a partir de agora, analisado pela historiadora Anita Leocádia Prestes, a filha de Olga, nascida na prisão de Ravensbruck no dia 27 de novembro de 1936, num pequeno, mas imperdível livro, editado pela Boitempo no último mês de abril.

Fernando Morais, que escreveu uma biografia muito lida e citada de Olga Benario, diz sobre o livro de Anita: “Mais do que uma excelente obra de referência, Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar”.

A leitura dos documentos chama a atenção do leitor, como ressalta Fernando Morais, a pétrea decisão de Olga de não transmitir a seus algozes nem sequer uma solitária informação a respeito de seu passado e de suas atividades políticas na União Soviética e no Brasil, mesmo sendo submetida a maus tratos e supressão de alimentos.

Num documento (pasta 163) um oficial da Gestapo afirma: “Os 2 anos e 9 meses de prisão preventiva certamente não exerceram nenhuma influência devida sobre ela” …”Não vale a pena gastar mais tempo com ela. Ela disse apenas o que já havia declarado em seu interrogatório de 27 de agosto de 1937”.

“Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”, diz Olga numa carta à Leocádia Prestes, a avó de Anita, mãe de Luís Carlos Prestes, que faz parte dos arquivos.

O material catalogado pela Gestapo começou a ficar disponível para os historiadores a partir de 2015, depois de um acordo entre o Instituto Histórico Alemão em Moscou e a Fundação Max Weber da Alemanha.

Os Arquivos da Gestapo foram apreendidos pelo exército soviético após a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra, em 1945, e levados para Moscou. Na década de 1960, o conjunto foi transferido para o Arquivo Central do Ministério da Defesa da antiga União Soviética e só foi tornado público e 2015, 70 anos após o fim do conflito. A perspectiva é que toda documentação – 28 mil dossiês e cerca de 2,5 milhões de folhas, – seja digitalizada até 2018.

Anita Leocádia dedicou seu livro – in memoriam – a “Olga Benario Prestes, minha mãe e a todos os que tombaram na luta contra o fascismo”

Tributo a Jacob Gorender

Entre o movimento pela Legalidade, em 1961 e o golpe de abril de 1964, o Brasil viveu talvez o período mais pleno de democracia e liberdade da sua história. Quem, como eu, participou daquele clima de euforia naqueles anos, como aluno da UFRGS,jamais poderá esquecer do otimismo e das esperanças em que o Brasil estava mergulhado.

Um novo país, socialista e justo com todos os seus filhos, parecia estar às portas.

Foi nesse clima, que conheci alguém que eu iria reconhecer sempre como o mais importante intelectual brasileiro, Jacob Gorender, numa série de conferências sobre o Humanismo Marxista, no antigo restaurante universitário da Rua da Azenha, ironicamente transformado em Escola da Polícia, depois do golpe de 64.

Gorender não era ainda o consagrado escritor de Escravismo Colonial, de 1978, nem Combates nas Trevas, de 1987, mas já era visto como um dos mais importantes intelectuais marxistas brasileiros

Gorender nasceu em Salvador, em 1923, filho de judeu ucraniano pobre. Estudou no Ginásio da Bahia e a partir de 1941 na Faculdade de Direito, curso que abandonou para lutar como voluntário da FEB na Segunda Guerra, na Itália.

Ao voltar ao Brasil, se ligou ao Partido Comunista, ocupando importantes postos no seu comitê central, até abandonar o partido em 1967, por divergir da sua linha reformista, para fundar o Partido Comunista Revolucionário.

Como historiador, Gorender não se limitou a analisar o Brasil apenas sob a ótica do marxismo, como fizeram outros historiadores importantes, mas de certa forma inovou nessa matéria, ao criar além das categorias tradicionais do escravismo, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, uma nova forma de sociedade, que chamou de “escravismo colonial” e que ele definiu assim: “A mistura de trabalho escravo e capitalismo mercantil (dominante na metrópole) criou uma sociedade peculiar.Os mercadores coloniais constituíam uma burguesia mercantil integrada na ordem escravista,e tão interessada na sua conservação quanto os plantadores.Boa parte desses mercadores,aliás,se dedicava ao tráfico de escravos da África para o Brasil colonial e Imperial.”

 

Como historiador marxista, Gorender se alinhou com as teses de Lenin no grande debate que sempre dividiu seus membros, ao dizer que a classe operária é possuidora de uma “ontologia reformista” e não “revolucionária”, ao criticar o determinismo histórico, ao afirmar a importância dos intelectuais para a formação da consciência revolucionária e ao defender a necessidade do Estado na sociedade socialista.

Como participante da luta armada, Gorender faz um relato extremamente importante sobre o seu significado no livro Combates nas Trevas:

 “Se quiser compreendê-la na perspectiva da sua história, a esquerda deve assumir a violência que praticou. O que em absoluto fundamenta a conclusão enganosa e vulgar de que houve violência de parte a parte e, uns pelos outros, as culpas se compensam. Nenhum dos lados julga pelo mesmo critério as duas violências – a do opressor e a do oprimido. É perda de tempo discutir sobre a responsabilidade de quem atirou primeiro. A violência original é a do opressor, porque inexiste opressão sem violência cotidiana incessante. A ditadura militar deu forma extremada à violência do opressor. A violência do oprimido veio como resposta”

Jacob Gorender morreu em 2013, em São Paulo, com 90 anos de idade. Em 1999, sua importância como um grande intelectual foi reconhecida com a entrega a ele do prêmio Juca Pato por ter sido considerado o Intelectual do Ano.

 

 

A pena de morte e o “American way of life”

 

Três grandes nomes do cinema norte-americano, Tim Robbins, Susan Sarandon e Sean Penn, estiveram juntos em 1995, num dos mais importantes libelos contra a pena de morte, em “Os Últimos Passos de Um Homem” (Dead Man Walking).

Robbins, um excelente ator, como provou em “Sobre Meninos e Lobos” (Mystic River), de Clint Eastwood e em “Shorts Cuts – Cenas da Vida”, de Robert Altmann, foi o diretor do filme e com ele ganhou o Oscar da Academia como o melhor diretor do ano.

Sean Penn, também de Sobre Meninos e Lobos e Milk, ganhou o prêmio de melhor ator

Susan Sarandon, a inesquecível atriz de Thelma e Louise, recebeu o Globo de Ouro como melhor atriz.

Em comum, os três tinham, além do enorme talento, também o ativismo em defesa das boas causas políticas nos Estados Unidos.

Talvez por causa de filmes como este, tem diminuido a cada ano nos Estados Unidos o número de presos executados, mas mesmo assim o país é o segundo no mundo em termos de execuções de presos, vindo logo depois da China.

Entre 1975 e 2015, foram executados 1.447 presos, dos quais 541 no Texas.

Além da barbárie da punição, existe sempre o risco de estarem sendo condenadas pessoas inocentes. Nos últimos 40 anos, 151 pessoas condenadas à pena capital, foram inocentadas posteriormente.

Ainda hoje, 31 dos 50 estados norte-americanos têm prevista em sua legislação a pena de morte, executada através das chamadas injeções letais. A última execução por qualquer outro método que não a injeção letal ocorreu em 2013, na Virgínia, onde o prisioneiro Robert Gleason optou pela cadeira elétrica.

No passado, o método mais utilizado era a cadeira elétrica, mas também já foram utilizados câmara de gás, enforcamento e fuzilamento.

Pesquisa do Pew Research Center, este ano, revelou que 56% dos americanos ainda são favoráveis à pena de morte. Há 20 anos, esse percentual era de 78%.

Além de todos os motivos humanitários contra a pena capital, os legisladores americanos se inclinam em alguns estados pela sua erradicação pelos altos custos de sua manutenção como forma de punição.

Um dos estudos mais recentes sobre o tema, feito no estado americano do Kansas em 2003, revelou que o custo de uma sentença capital era até 70% mais alto que uma condenação ao cárcere. Um único caso de pena de morte custava aos cofres públicos, em média, US$ 1,26 milhão (valor gasto do início do processo até a execução), contra US$ 740 mil de um caso comum (até o fim da pena).

O principal argumento pelo fim da pena de morte, no entanto, é o fato de que ela simplesmente não funciona – não, pelo menos, na redução da criminalidade. Exemplo: nos 36 estados americanos que adotam a pena, o índice de assassinatos por 100 mil habitantes é maior que o registrado nos outros 14 estados que não condenam à morte.

O sistema carcerário americano é o maior do mundo, com mais de 2 milhões de presos, ou seja 500 presos por 100 mil habitantes, a maioria negros e latinos.

Enquanto, por exemplo, os afro-descendentes americanos correspondem a 13% da população do país, nas prisões estaduais e federais 59% dos presos são de minorias étnicas, com 37% de negros e 22% de hispânicos.

Segundo o Escritório de Estatísticas do Departamento de Justiça americano, em 2013, 3% de todos os homens negros do país estavam na prisão, contra 1% de hispânicos e 0,5% de brancos.

Para um país que se apresenta como a pátria da liberdade, são dados desalentadores para quem valoriza a vida humana acima de tudo e não nos ajudam a acreditar na “American way of life”.

 

O “novo jornalismo” começou com Euclides da Cunha?


Relendo algumas páginas de Os Sertões de Euclides da Cunha, fiquei pensando se não podemos ver no nosso grande escritor um precursor do que viria ser chamado, na década de 60 do século passado, o New Journalism (Novo Jornalismo), movimento que reuniu nos Estados Unidos figuras como Tom Wolfe,Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote, entre outros.
Euclides publicou Os Sertões em 1902, onde relata a Guerra dos Canudos, movimento chefiado por Antônio Conselheiro, que resistiu durante dois anos (1896/97) o cerco de milhares de soldados do Exército, no sertão baiano.
Dividido em três partes – a Terra, o Homem e a Luta – o livro é considerado, ao lado de Grandes Sertões Veredas e os Lusíadas, as três maiores epopéias de língua portuguesa.
Tom Wolfe, o jornalista sempre lembrado pela sua marca de “Radical Chique”,foi quem primeiro definiu o que seria o novo estilo de escrever, abusando da utilização de recursos literários, subjetividade autoral como forma de apreensão da realidade e, principalmente, admitindo o relato da realidade na forma de interpretação, além de questionar o método tradicional de reportagem.
Segundo Tom Wolfe, o New Journalism, se tornou “tão absorvente e fascinante quanto o romance e o conto”.
Logo esse produto híbrido pulou das páginas das revistas literárias, principalmente New Yorker e Esquire, para páginas dos livros.
Gay Talese publicou A Mulher do Próximo, com personagens reais, provocando uma verdadeira revolução literária, ao descrever a mudança radical nos hábitos sexuais dos americanos na década de 60.
Truman Capote, em 1965, se muda para a cidade de Holcomb, no Kansas, de 270 habitantes, para conhecer em todos os detalhes o assassinato de quatro membros da família Clutter pelos jovens Perry Smith e Richard Hickock, acompanhando o caso, desde a prisão dos assassinos até o seu enforcamento quase cinco anos depois. O resultado de todo esse esforço é o clássico livro A Sangue Frio.
Em 1979, Normal Mailer, já consagrado como escritor, lança A Canção do Carrasco, contando em centenas de páginas a história de Gil Gilmore, acusado de dois assassinatos e cujo único pedido, repetido até mesmo quando está diante do pelotão de fuzilamento, é de que se “acabe logo com isso”.
Euclides da Cunha se antecipa em muitos nos processos que seriam as marcas do Novo Jornalismo ou o Jornalismo Literário, de Wolfe, Talese, Capote e Mailer, usando todo o seu trabalho de pesquisa para escrever textos de extraordinário valor literário, tanto na descrição dos personagens (O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos), como na narrativa da luta entre os sertanejos e os militares.
Suas últimas linhas sobre a batalha final em Canudos estão entre as mais poderosas da língua portuguesa: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados“.