Porque devemos odiar o grêmio


Nós, colorados, odiamos o grêmio, tanto que escrevemos seu nome com letra minúscula no início (é um nome genérico), da mesma maneira que acreditamos que os verdadeiros gremistas odeiam o Internacional.
Os idiotas da objetividade, como dizia o Nelson Rodrigues, falam que o futebol é apenas um esporte, quando se trata da pura transferência para uma outra área do velho e bom ódio de classes.
Freud e Lacan identificaram como transferência o processo pelo qual o paciente retoma traumas do passado e as transfere para o terapeuta.
Essa mudança de lugar de um sentimento pode ser vista também na relação do torcedor com o seu clube de preferência, com um detalhe a mais: o ser (ou coisa) no qual depositamos nosso amor transferido, está sempre sendo ameaçado pelo outro, mau e despossuído de valores
Para nós, colorados, esse outro desprezível é o grêmio.
Na vida social, todos nós, em algum momento, nos sentimos preteridos injustamente pela ação do outro, que toma o lugar na escala social que imaginávamos nos pertencer por direito, conquistam aquela pessoa que gostaríamos que nos amasse; são ricos, enquanto somos pobres.
As pessoas mais esclarecidas percebem que boa parte dessas “injustiças” é fruto de uma divisão de classes. Por nascerem em famílias mais ricas, alguns levam um grande handicap na corrida pelo sucesso, enquanto outros precisam fazer um esforço muito maior para equilibrarem as chances.
Essas pessoas se engajam, então, em ações de contestação a esse sistema “injusto”, rotuladas de “movimentos de esquerda”, enquanto os mais esclarecidos desse grupo aderem ao marxismo, depois que descobrem que a essência desse processo está na maneira como se dá a divisão do resultado do trabalho de toda a sociedade.
Uma grande parte da população é mantida, porém, distante dessa racionalidade por toda uma estrutura social (são as instituições como judiciário, polícia, legislações e a mídia) e precisa transferir essa pulsão interna para outros campos.
O futebol se torna, então, o lugar ideal para isso, na medida em que repete todo o ritual das guerras que sempre dividiram os homens em campos opostos. Temos as cores diferenciadas, as bandeiras e até mesmo as organizações táticas dos exércitos ( 4x4x2 ; 3x4x2, etc). Até mesmo os termos são derivados da guerra (carga pesada, bombardeio, bomba,tiro direto, etc)
Então, em vez de odiarmos a burguesia que rouba nosso futuro, odiamos o grêmio que rouba nossas vitórias e vice-versa.
Na antiga União Soviética, o futebol era teoricamente amador, porque as autoridades russas simulavam que a luta de classes terminara.
Por isso, essa iniciativa tão saudava pela nossa imprensa alienada, de torcidas misturadas em grenais, além de hipócrita é uma forma reacionária de evitar que as pessoas, na falta de um objetivo maior ( a luta de classes) pratiquem ao menos um simulacro dessa luta.u

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