Quando os jornalistas só olham para seus umbigos

Numa parceria do Sul21 com o Instituto Goethe, começou terça-feira um ciclo de debates sob o título de Conversas Cidadãs, reunindo o cineasta Jorge Furtado e os jornalistas Cristina Charão da TVE e Thomas Fischermann, correspondente da imprensa internacional no BrasiL para discutir o tema Mídia e Poder.

Segundo publicou o Sul 21 (o restante da nossa imprensa fez de conta que o evento não existiu) os debates poderiam ser sintetizado a partir de uma frase de Hannah Arendt, segundo a qual a sobrevivência da raça humana só é possível se dissermos a verdade.

Verdade, para a filósofa alemã tem um conteúdo ontológico muito mais complexo do que os jornalistas e debatedores do encontro parecem supor. Hanna Arendt, que deu um salto para a fama, quando se dispôs a fazer a cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichamann em Jerusalém, estava preocupada, não em repetir os fatos conhecidos sobre as atrocidades nazistas, mas em entender a transformação de um ser humano, com sentimentos e valores morais, numa fria máquina de matar.

Ao cunhar a sua famosa frase sobre a banalidade do mal, ela não estava dizendo uma simples verdade, mas propondo uma discussão filosófica sobre o comportamento humano. Em suma, ela não estava fazendo jornalismo, mas filosofia.

Embora o empenho dos participantes em dar à atividade jornalística um caráter fundamental em nossa sociedade, ela é apenas um instrumento usado pela classe dominante para manter sob controle a grande maioria das pessoas.

Nesse aspecto, Cristina Charão foi mais precisa na sua avaliação da realidade do que os outros dois debatedores, quando disse: “Toda vez que a gente pergunta o que vai acontecer com o jornalismo, a gente nunca pergunta se aquele discurso produzido por ele continua valendo. A gente esquece que ele só existe, porque existe como indústria”

Jorge Furtado, a julgar pela síntese publicada no Sul21, foi quem mais falou e por isso mesmo mais se expõe a contestações.

No que parece ser uma defesa corporativa dos meios de comunicação oficiais, ((jornais, revistas, rádio e televisão) ele faz uma óbvia crítica às redes sociais, ao dizer que,  “se por um lado a internet ajudou a acelerar a circulação e a produção de informações, em escalas nunca imaginadas antes, por outro, o mar de notícias também ajuda a confundir e esconder aquilo que realmente importa”

Aí se coloca uma nova questão: o que realmente importa?

Jorge Furtado lembrou, por exemplo, de como na semana em que o Brasil ouviu em áudio o Presidente da República corroborando relatos de corrupção de um empresário, a notícia mais lida do portal UOL era o fato de que a atriz Taís Araújo havia se negado a comer abóbora em um programa matinal.

Ficamos tentados, então a lembrar aquela máxima de Bertold Brecht de que “o pior ignorante é o ignorante político”, mas não podemos esquecer que essa ignorância é planejada e executada pela mídia.

Ela faz isso porque é parte da superestrutura de um sistema que defende a dominação de uma classe sobre as outras e os jornalistas que a contestam (Furtado citou Janio de Freitas, o mais importante de todos no Brasil) são usados para comprovar uma falsa imparcialidade que ilude o público.

Furtado compara os jornais brasileiros com os americanos – “Talvez só no Brasil a gente tenha uma grande imprensa tão unificada. A impressão que dá, muitas vezes, é que a mesma pessoa escreve as manchetes de todos os jornais. Então, temos todos os jornais dizendo a mesma coisa. Isso não acontece nos Estados Unidos, não acontece na Inglaterra, não acontece na França. Tu chegas em uma banca e tem jornais de várias tendências diferentes. Há uma diversidade, que aqui não há” – esquecendo de lembrar que esses países vivem estágios diferentes do capitalismo.

Em alguns, o capitalismo é ainda quase patriarcal como no caso do Brasil e a imprensa reflete esse momento, enquanto que em outros, ele vive com graus de contradição mais avançados. como ocorre nos Estados Unidos.

O que ele diria dos jornais chineses onde o capitalismo (muitos duvidam que seja esse o sistema chinês) adquiriu uma característica totalmente diferenciada?

Diz Furtado:

“O futuro do jornalismo depende dos jornalistas. Porque tem jornalistas bons em qualquer lugar, eles podem escrever até sozinhos.”

Onde?

Na internet, onde as pessoas querem mais saber da abóbora que Taís Araújo come no café da manhã?

Parece ingenuidade pensar que, saindo fora do sistema, você pode atacá-lo com algum grau de eficiência.

Essa é a grande contradição que os jornalistas de esquerda não querem entender: dentro do sistema você é usado; fora, você desaparece.

Estranho que os debatedores, já que estavam tão preocupados com a verdade, não tenham (pelo menos na síntese publicada no Sul21) saudado três grandes figuras que se destacaram na sua busca e que pagam com a prisão e o exílio essas suas buscas: Julian Assange, Edward Snowden e Bradley Manning (hoje se transformou numa mulher e se chama Chelsea).

Assange era apenas um hacker; Snowden, um funcionário de uma agência de informações americana e Bradley(Chelsea) um militar servindo no Iraque.

Nenhum era jornalista.

O Mestre

“A hegemonia neoliberal está claramente desmoronando. O que precisamos é de uma Tatcher de esquerda, um líder que repita o gesto de Tatcher na direção oposta.” – (Slavoj Zizek – Problema no Paraíso – Do Fim da História ao Fim do Capitalismo – Jorge Zahar Editor -2014)

Qual teria sido para Zizek, esse gesto de Margaret Tatcher?

Foi: “Se aferrar ao seu projeto de liberalismo econômico, de início percebido como louco e gradualmente elevando sua loucura singular ao nível de uma norma aceitável, até o ponto em que se pode dizer que havia criado um novo trabalhismo, uma vez que até os seus adversários políticos adotaram suas práticas econômicas básicas”

Margaret Tatcher seria então um Mestre.

Zizek vai buscar na psicanálise a figura do Mestre, basicamente em Lacan e em Roudinesco (“A posição do mestre permite a transferência: o psicanalista supostamente sabe o que o analisando vai descobrir. Sem esse conhecimento atribuído ao psicanalista, a busca da origem do sofrimento é quase impossível”) para tentar provar que só ele pode representar os anseios do povo e transformá-los em realidade.

Para Zizek, nem sempre, o povo é capaz de perceber em qual direção o futuro aponta e nessa hora, só o Mestre pode fazer essa leitura.

No início da segunda guerra, depois da vergonhosa derrota de suas tropas diante dos nazistas, os franceses ansiavam pela paz, mesmo que ela significasse apoiar o Marechal Petain e seu governo colaboracionista de Vichy.

Foi preciso que o General De Gaulle, mesmo minoritário e ridicularizado pelos ingleses, assumisse o papel de Mestre e resistisse, no seu exílio na Inglaterra, ao poderio nazista porque, entre os militares franceses, ele foi um dos poucos a perceber que o nazismo representava um retrocesso histórico e por isso, no final, seria derrotado.

De Gaulle foi um Mestre.

O Mestre é um solitário, que precisa assumir riscos, contrariar vontades e arcar com suas conseqüências.

Nas suas Memórias sobre a Segunda Guerra Mundial (Editora Nova Fronteira -1959) Winston Churchill diz que diariamente precisava ouvir o que pensavam o seu Gabinete de Guerra, seus ministros, generais, almirantes e o parlamento, para depois tomar uma decisão, sozinho. Era sim ou não, mas essa escolha poderia significar vitória ou derrota. Poderia significar que milhares de pessoas iriam morrer ou viver.

Churchill foi um Mestre como também foram Robespierre, Lenin, Fidel Castro e para incluir um brasileiro, Leonel Brizola.

Na Revolução Francesa, Robespierre implantou o “terror” contra a nobreza e o clero para que a revolução burguesa fosse vitoriosa. Quando votou pela decapitação do Rei Luis XVI, ele disse que era o Rei ou a Pátria.

Robespierre foi um mestre.

Quando os mencheviques e socialistas revolucionários, na Rússia, disseram que a revolução contra o Czar deveria se consolidar numa democracia burguesa, Lenin foi um dos poucos que foi capaz de perceber que era preciso dar novos passos para frente.

Lenin foi um mestre.

Quando seu movimento guerrilheiro parecia ter perdido o rumo, Fidel Castro no seu julgamento de Moncada, afirmou “a História me Absolverá”. Seis anos depois entrou vitorioso em Havana.

Fidel foi um Mestre.

Em 1961, quando políticos de todas as matizes buscavam conciliação com o golpe militar que queria afastar Jango da Presidência, Leonel Brizola não concordou e assumiu o comando de um movimento rebelde, contraditoriamente chamado de Legalidade e mesmo que depois tenha sido traído por seus aliados, foi também um Mestre.

Quem leva esse conceito mais a fundo é o filósofo francês Alain Badiou, quando diz: “Estou convencido de que é preciso restabelecer a função capital dos lideres no processo comunista, qualquer que seja o estágio”.

Badiou diz que é preciso fazer isso seguindo a lição de Lenin, que via na educação das pessoas a única forma de conquistar o socialismo, mas usando um discurso diferente para cada público: “Quando lido com pessoas cujo jargão é lacaniano, digo: uma figura do Mestre. Quando são militantes, digo ditadura, no sentido de Carl Schmitt (anti liberal e anti parlamentar). Quando são trabalhadores, digo líder de massa e assim por diante. E logo me entendem”.

Quem poderá ser o novo Mestre capaz de capitalizar a revolta latente de todos os brasileiros e apontar a direção a ser seguida?

Livre pensar é só pensar (Millor)


Não seria melhor para a esquerda que o Temer completasse seu mandato, com suas trapalhadas diárias, dando tempo à ela de se organizar e buscar apoios para 2018?

Os golpistas, com o apoio que têm da mídia, permitiriam hoje uma candidatura do Lula?

Numa improvável eleição direta agora, a esquerda teria chances de ganhar ou se limitaria, num hipotético segundo turno, a apoiar um Jobim qualquer para impedir a vitoria de um Bolsonaro da extrema direita?

Na França, foi o que ocorreu, com a esquerda dita democrática, ajudando a eleger o neo liberal Macron.

Leia-se o livro Submissão de Michel Huellebecq.

Não é por acaso que a Rede Globo quer derrubar o Temer porque ele está comprometido demais e sem forças para fazer o que a claque empresarial quer, as reformas previdenciária e trabalhista para aumentar a opressão dos trabalhadores.

Feminismo ou socialismo?


Nada como uma boa disputa sobre posições políticas ou comportamentais, onde você assume posições radicais para estimular o seu oponente a sair da defesa e também atacar.
Ainda que pequena, minha militância política, mais teórica do que seria desejável, tem me colocado em confronto com posições de grupos segmentados (mulheres, negros e gays) que transformaram suas lutas contra o preconceito e o racismo em objetivos de vida.
Minha posição, ainda que discutível, no caso é simples: essas lutas, ainda que justas, quando não entendidas claramente como partes de uma luta maior contra a sociedade capitalista e em favor de uma revolução social, canalizam grandes energias para objetivos menores e suprema ironia, podem ser usados para amortecer a luta maior.
Basta um simples olhar sobre como os grandes meios de comunicação, hoje sustentáculos de uma sociedade de classes, tratam questões como o racismo e a homofobia.
Tomamos, como exemplo, a Rede Globo e suas novelas e noticiários. Quem foi mais eficiente do que ela ao desmistificar o preconceito contra a comunidade gay, quando inseriu em suas novelas o famoso “primeiro beijo gay na televisão”? Ela deve ter feito mais pela aceitação da diferença sexual que todos os tratados sociológicos já publicados.
Quando a “mulher do tempo” no Jornal Nacional foi vítima da imbecilidade ululante de alguns telespectadores, a Globo aproveitou para uma cruzada nacional, extremamente eficiente, contra o preconceito de cor.
Agora, jamais vamos ver a Globo usar seus poderosos meios de comunicação para uma campanha pelo fim da pobreza. Pelo contrário ela se promove defendendo a permanência do status quod em que vivemos através de campanhas filantrópicas como Criança Esperança, por exemplo.
A tarefa de lutar por uma sociedade socialista é de todas as pessoas que já se deram conta, como diz Meszáros que a outra opção é a barbárie.
Somente uma sociedade de pessoas socialmente iguais é que será capaz de eliminar os preconceitos de raça, cor e sexo.
A Revolução Soviética, com todos seus erros, foi a única capaz de criar uma sociedade onde as mulheres, realmente foram igualadas em direitos e deveres aos homens, inclusive em algo que ainda hoje não é aceito no Brasil, como, por exemplo, o direito ao aborto.
Como o acesso das mulheres à plena igualdade de direitos e deveres em relação aos homens passa pela construção de uma nova sociedade, também o fim do racismo só é possível integralmente no socialismo.
Frantz Omar Fanon (1925/1961), o grande intelectual, filósofo e ensaísta francês, negro, nascido na Martinica, disse “eu me encontro no mundo e reconheço ter um único direito: o de exigir dos outros um comportamento humano”.
Fanon criticou mais de uma vez um pensamento comum entre os negros, de reivindicar uma cultura original negra para se opor aos brancos, dizendo: “ Não sou um escravo da escravidão que desumanizou meus ancestrais. Seria de enorme interesse descobrir uma literatura ou arquitetura negra do século III a.C. Ficaríamos muito felizes em saber da correspondência entre algum filósofo negro e Platão. Mas não conseguimos ver, de modo algum, como esse fato iria mudar a vida de garotos de oito anos de idade trabalhando em plantações de cana-de-açúcar na Martinica ou em Guadalupe.
Minha síntese, ainda que imperfeita, é de que a única luta que vale a pena é pelo socialismo.

Como era difícil o sexo em Porto Alegre


Os homens, que hoje podem usufruir dos prazeres sexuais com suas amantes ou namoradas, despreocupados e seguros em motéis confortáveis ou em suas casas, deveriam interromper por alguns segundos suas atividades para prestar uma homenagem a nós, os precursores dessa batalha pelo direito do sexo livre.
Nas décadas 60 e 70, em Porto Alegre, ter uma boa e variada vida sexual não era nada fácil. Uma parte das moças que nos interessavam, ainda praticava aquela velha chantagem que suas mães lhe ensinaram: sexo só depois do casamento.
Mesmo com aquelas avançadas em seu tempo, havia um grave problema de logística: onde levá-las. Quem já tinha carro, poderia arriscar ser assaltado, preso pela polícia ou, na melhor das hipóteses sofrer um torcicolo, ao transformar os bancos do seu carro (quase sempre um Fusca) em cama.
Sobravam os lugares que alugavam quartos por hora. Como acontecia com alguns prostíbulos, essas casas não tinham nenhuma sinalização que nos orientasse em sua busca. Era um segredo, passado de boca em boca.
Tinha a “casa do meio” na Botafogo, quase de domínio público, mas as outras, na sua maioria, eram lembradas pelo nome de alguma benfeitora: a casa da Emília, a casa da Dorinha, da Lourdes e assim por diante.
Eram lugares de pouca higiene e quase nenhum conforto. Em vez de um banheiro, uma bacia com um jarro dágua ao lado e um rolo de papel higiênico.
Sim, pessoal, fomos os heróis desbravadores do sexo em Porto Alegre.
Então, aquela senhora, antiga prostituta que ascendeu na vida pelo seu esforço diário, a Dona Marli, revolucionou o mundo do sexo na cidade, criando o primeiro motel digno desse nome em Porto Alegre. Grande, com estacionamento, portaria, apartamentos confortáveis e banheiros com água quente.
Suas modernas instalações ficavam na Padre Cacique, quase esquina José de Alencar, onde o Prefeito Thompson construiu aquele viaduto, até hoje praticamente inútil, ao qual deu o nome de Pedro I.
Deveria merecer uma estátua dos que defendem o capitalismo e a livre iniciativa: uma grande empreendedora, Dona Marli, mas em vez disso foi vilipendiada e perseguida.
Naquele ano de 1972, vivia-se o auge da ditadura militar no Brasil e os milicos estavam comemorando o sesquicentenário da Independência.
Dentre as solenidades previstas estava a colocação de uma urna com os ossos do imperador, trazidos de Portugal, num espaço do viaduto que levava seu nome.
Ocorre que ninguém chamava aquele viaduto pelo seu nome oficial. Era o Viaduto da Marli.
O que acontece então?
O Motel da Marli é fechado, a Marli é presa e os que naquela noite se dedicavam aos prazeres do sexo foram levados para a Delegacia de Costumes (sim, existia) para prestarem esclarecimentos.
Algum tempo depois, o motel virou um estacionamento e o viaduto continua lá, inútil e enfeiando a paisagem.
Acho que ainda é conhecido como o Viaduto da Marli.

Quem foi Tancredo Neves

Os brasileiros têm o péssimo costume de transformar em heróis pessoas que em vida pouco fizeram para merecer essa distinção.

Essa característica é ainda mais visível na classe política. Os ditadores de ontem se transformam nos democratas de hoje.

Ninguém mais que Tancredo Neves representa esse tipo de comportamento dos brasileiros que se recusam a analisar o que fez esse político em especial, preferindo prantear sua morte como  a de um amigo pessoal e não de um agente público.

Tancredo Neves (1910/1985) foi um político sempre foi fiel à tradição de moderação da oligarquia mineira, uma das forças responsáveis pela continuidade no Brasil de uma longa política de segregação social.

A exceção de um curto período, durante o segundo Governo Vargas, quando como Ministro da Justiça de Getúlio, pareceu ter incorporado a postura nacionalista do Presidente (seu discurso junto ao túmulo de Vargas em São Borja é uma prova disso), Tancredo logo retomou a sua linha de moderação, influindo negativamente no processo das lutas democráticas no Brasil.

Em 1961, quando os militares golpistas quiseram impedir a posse de Jango, provocando a reação da Legalidade, aceitou o papel de agente dos militares para negociar com João Goulart o arremedo de um regime parlamentarista, no momento em que o movimento popular comandado por Brizola ameaçava revolucionar o País.

Aliás, Brizola percebeu claramente isso e pretendeu prender Tancredo, quando seu avião que vinha de Montevidéu, onde conversara com Jango, pousasse em Porto Alegre. Avisado desse intento, Tancredo voou direto para Brasília.

Quando do fim da longa ditadura militar, embora formalmente tenha apoiado o movimento das Diretas Já, negociou com alguns segmentos militares (principalmente com o grupo de Geisel) a alternativa da eleição indireta e o compromisso de impedir que fossem esclarecidos os crimes da ditadura.

Derrotada as Diretas Já, surgiu como candidato da oposição, mas também de segmentos civis que apoiaram a ditadura (Sarney e ACM) e dos militares mais moderados, para derrotar o candidato oficial da Ditadura, Paulo Maluf.

Eleito indiretamente pelo Congresso, não pode assumir por causa de uma grave doença que levou à morte no dia 21 de abril.

Sua longa agonia e a coincidência da morte no dia de Tiradentes, criaram todos os elementos emocionais para o transformar num herói nacional, quase um santo, com todo mundo querendo esquecer seu passado pouco recomendável como político.

O que você pensa do comunismo?

Quando  tentava convencer as pessoas que só poderíamos nos realizar como seres humanos completos numa sociedade comunista, havia sempre dois tipos dois tipos de reação;
a) Das pessoas que foram ensinadas que o comunismo era a encarnação do mal e o recusavam por princípio
b) Das pessoas que admitiam que na teoria o comunismo poderia ser algo bom, mas que o egoísmo nato do homem sempre impediria seu sucesso.
Obviamente a atitude do primeiro grupo não é racional e não pode ser modificada usando argumentos racionais.
O segundo grupo poderia ser convencido desde que admita que, ainda que com alguns retrocessos (guerras, por exemplo) a história do ser humano é a história de renúncias de alguns direitos pessoais ( o gozo pleno) para poder participar de comunidades, fora das quais a vida é impossível.
Então, me parece que na medida em que nos afastamos da condição de bebês, quando nosso egoísmo é total e vital para a nossa sobrevivência, estamos dando passos em direção a uma sociedade comunista.
A dúvida, é como disse, Mèszaros, se ainda dará tempo de chegar lá, antes que a barbárie do capitalismo tome conta de tudo

Porque devemos odiar o grêmio


Nós, colorados, odiamos o grêmio, tanto que escrevemos seu nome com letra minúscula no início (é um nome genérico), da mesma maneira que acreditamos que os verdadeiros gremistas odeiam o Internacional.
Os idiotas da objetividade, como dizia o Nelson Rodrigues, falam que o futebol é apenas um esporte, quando se trata da pura transferência para uma outra área do velho e bom ódio de classes.
Freud e Lacan identificaram como transferência o processo pelo qual o paciente retoma traumas do passado e as transfere para o terapeuta.
Essa mudança de lugar de um sentimento pode ser vista também na relação do torcedor com o seu clube de preferência, com um detalhe a mais: o ser (ou coisa) no qual depositamos nosso amor transferido, está sempre sendo ameaçado pelo outro, mau e despossuído de valores
Para nós, colorados, esse outro desprezível é o grêmio.
Na vida social, todos nós, em algum momento, nos sentimos preteridos injustamente pela ação do outro, que toma o lugar na escala social que imaginávamos nos pertencer por direito, conquistam aquela pessoa que gostaríamos que nos amasse; são ricos, enquanto somos pobres.
As pessoas mais esclarecidas percebem que boa parte dessas “injustiças” é fruto de uma divisão de classes. Por nascerem em famílias mais ricas, alguns levam um grande handicap na corrida pelo sucesso, enquanto outros precisam fazer um esforço muito maior para equilibrarem as chances.
Essas pessoas se engajam, então, em ações de contestação a esse sistema “injusto”, rotuladas de “movimentos de esquerda”, enquanto os mais esclarecidos desse grupo aderem ao marxismo, depois que descobrem que a essência desse processo está na maneira como se dá a divisão do resultado do trabalho de toda a sociedade.
Uma grande parte da população é mantida, porém, distante dessa racionalidade por toda uma estrutura social (são as instituições como judiciário, polícia, legislações e a mídia) e precisa transferir essa pulsão interna para outros campos.
O futebol se torna, então, o lugar ideal para isso, na medida em que repete todo o ritual das guerras que sempre dividiram os homens em campos opostos. Temos as cores diferenciadas, as bandeiras e até mesmo as organizações táticas dos exércitos ( 4x4x2 ; 3x4x2, etc). Até mesmo os termos são derivados da guerra (carga pesada, bombardeio, bomba,tiro direto, etc)
Então, em vez de odiarmos a burguesia que rouba nosso futuro, odiamos o grêmio que rouba nossas vitórias e vice-versa.
Na antiga União Soviética, o futebol era teoricamente amador, porque as autoridades russas simulavam que a luta de classes terminara.
Por isso, essa iniciativa tão saudava pela nossa imprensa alienada, de torcidas misturadas em grenais, além de hipócrita é uma forma reacionária de evitar que as pessoas, na falta de um objetivo maior ( a luta de classes) pratiquem ao menos um simulacro dessa luta.u

Os libertários

O jornalismo, há muito se tornou apenas um instrumento do modelo neoliberal vigente no mundo inteiro e as vezes, a sua própria imagem pública.

Diariamente através de jornais, revistas e principalmente na televisão, o que se faz é a defesa escancarada do atual modelo de capitalismo, ficando as vozes dissidentes restritas às mídias sociais, aos sites e blogs alternativos, embora mesmo nesses segmentos o que domina é a mera reprodução dos valores da classe dominante.

O pensamento único  imposto pela ditadura da mídia tem sido contestado, hoje, principalmente por ciberativistas e hackers, que rompem a hipócrita áurea de seriedade que os governos instituíram para defender seus interesses e fazem o que Slavoj Ztizek (Problema no Paraíso – Jorge Zahar Editor – 2014) diz ser o papel crucial em manter viva a razão pública: “Assange,Manning, Snowden são nossos novos heróis, casos exemplares da nova ética que se aplica a nossa era digital.Não são mais apenas denunciantes que expõem práticas ilegais de empresas privadas (bancos,companhias de tabaco e petróleo) ou autoridades públicas; eles denunciam as próprias autoridades públicas quando estas se envolvem no uso privado da razão. Precisamos de outros Assanges, Mannings e Snowdens também na China, na Rússia, em toda a parte”

Mas, quem são esses.novos libertários?

Julian Paul Assange  nasceu na Austrália em 1971. É o principal porta voz do website WikiLeaks, fundado em 2006.  Começou publicando documentos sobre execuções extrajudiciais no Quênia e o tratamento desumano dado aos prisioneiros na base militar dos Estados Unidos em Guantanamo, mas só se tornou o “grande inimigo” do governo americano, quando vazou para os jornais El Pais, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e Te New York Times documentos secretos em 2010, sobre o envolvimento dos Estados Unidos nas guerras do Iraque e Afeganistão.

Em 2011, foi acusado de estupro e abuso sexual, na Suécia por uma mulher, que depois se soube trabalhava para a CIA e colocado numa lista de procurados pela Interpol. Assange se apresentou à Polícia Metropolitana em Londres, dizendo que tinha ocorrido na Suécia fora a prática de sexo consentido, mas a Corte Suprema do Reino Unido determinou que fosse expatriado para a Suécia. Como a Suécia tem amplos tratados de extradição com os Estados Unidos e temendo ser levado para uma prisão americana, Assange se asilou na Embaixada do Equador, em Londres, onde vive até hoje.

Essa semana, a promotoria criminal da Suécia retirou as acusações contra a Assange, mas ele ainda corre o risco de ser preso pela polícia inglesa, acusado de ter faltado a uma das audiências enquanto esteve asilado.

 

 Edward Joseph Snowden, nascido em Elizabeth City, Carolina do Norte,em 1983, era um analista de sistemas da CIA e da NSA (agências de espionagem americana) e se tornou conhecido em 2013,quando vazou para os jornais The Guardian e The Washington Post, documentos  sobre o Programa de Vigilância Global dos Estados Unidos que envolvia a espionagem de governos ditos aliados dos Estados Unidos, inclusive o Brasil. Acusado de roubo  de propriedade do governo, comunicação não autorizada de informações de defesa nacional e comunicação intencional de informações classificadas como de inteligência para pessoa não autorizada, foi obrigado a fugir, vivendo até hoje na Rússia.

Snowden disse porque fez isso: “Eu sou apenas mais um tipo que passa o dia a dia num escritório, observa o que está acontecendo e diz: ‘Isso é algo que não é para ser decidido por nós; o público precisa decidir se esses programas e políticas estão certos ou errados”

Chelsea Elizabeth Manning nasceu em 1987, em Crescent, Oklahoma e serviu o exército americano como Bradley Edward Manning ,até se tornar uma transexual e assumir o nome de Chelsea. Foi presa, acusada de vazar para o WikeLeaks telegramas diplomáticos americanos enquanto servia no exército americano Iraque. Foi presa e 2010 e em janeiro, teve sua pena comutada pelo ex-presidente Obama em um dos seus últimos atos. Foi libertada esse mês.

Quando o sexo (no cinema) era proibido para os brasileiros

Em 1975, fui a Europa à primeira vez, pago por uma agência de propaganda para participar de um festival de cinema publicitário, mas meu grande objetivo – além de conhecer Paris, Londres e Roma, além de Veneza, onde se realizou o festival – era ver os filmes que a censura da ditadura brasileira nos impedia de conhecer

Além de prender, torturar e matar, os militares nos tratavam como pobres crianças ingênuas que deveriam ser poupadas das “sacanagens” que o cinema europeu oferecia em doses cada vez maiores.

Três filmes me interessavam acima dos demais: O Último Tango em Paris, Emmanuelle e Il Decameron.

O Último Tango em Paris, vi em Londres. Era o filme “sério” nessa lista, já que tratava da impossibilidade de relacionamento entre um homem e uma mulher, que buscavam num sexo totalmente descompromissado, uma alternativa para o amor romântico. O filme tinha Marlon Brando, já  mais resmungando para a câmera do que preocupado em criar um personagem e Maria Schneider e era dirigido pelo grande diretor italiano Bernardo Bertolucci.

Independentemente de todas as consideração filosóficas que o filme poderia oferecer, o que todos queriam ver era a cena em que Brando usava um pouco de manteiga para facilitar a a prática do sexo anal com a Maria Schneider.

Hoje, com a proliferação do sexo ginecológico do cinema pornô, disponível na internet a qualquer hora do dia, O Último Tango virou programa de matinês dominicais.

Emmanuelle, de Just Jaachin era o sexo “alegre e divertido”. Vi em Paris, onde o filme batia recordes de freqüência desde o ano anterior (1974) quando fora produzido. Sylvia Kristal era a esposa de um diplomata que vai para a Banckoc, onde realiza todos seus sonhos eróticos com homens e mulheres (era o fetiche oriental já presente) sem deixar de amar o marido. No filme, ficou famosa a cena de Emmannuel fazendo sexo no banheiro do avião, o que deve ter estimulado dezenas de viajantes a tentarem depois repetir a proeza, mesmo com o incômodo que o pouco espaço do banheiro oferecia.

Il Decameron, de Pier Paolo Pasolini, era a o  “sexo transgressor”, em que o renascentista Giovani Bocaccio descreve as orgias de padres e freiras nos conventos do fim da idade média.

Vi em Roma, onde se diz que um programa obrigatório é ver o Papa. Como estava em Roma e o Papa da ocasião,  Paulo VI, prometeu que apareceria numa janela do Vaticano, lá estava eu para vê-lo, mas sempre atento ao compromisso que havia assumido comigo mesmo de ver Il Decameron, num cinema que ficava a algumas quadras adiante.

O Papa, porém, se atrasou e entre ele e o Pasolini, obviamente optei pelo último e não vi o Papa.

Certamente, ele não sentiu minha falta e acho que nem eu de tê-lo visto abanando para os seus fieis na Praça de São Pedro.