Matou a mulher por causa da novela da Globo

Tem certos sentimentos que parecem não mudar na vida dos homens com o passar dos tempos,mesmo que  as aparências digam o contrário.

Amor,  ódio, desprezo, ciúmes, como partes de um casamento, por exemplo.

Há uns 20 anos, publiquei uma crônica sobre um crime passional na Vila Floresta.

Hoje, li nos jornais algo que lembrava aquela história.

Vou recontá-la preservando os nomes dos personagens

Antônio A., bancário, 52 anos, chegou a sua casa na Vila Floresta, às 21 horas, do dia 4 de abril do ano de 1985 e tentou contar um fato qualquer para sua mulher Eronildes , 49 anos, prendas domésticas.

Ela, que assistia uma novela na Globo, mal olhou para o Antônio, dizendo apenas “Não me amola”.

Antônio, contou depois que isto vinha acontecendo há muito tempo.

Eronildes via todas as novelas, os casos especiais, as reprises de sucesso e o Madrugadão, não sobrando um minuto para ele.

Amor, nem pensar.

Foi nesse momento, às 21 horas de uma sexta-feira, dia 4 abril de 1985, que Antônio decidiu matar Eronildes.

Tiros, facas e enforcamento eram coisas que não combinavam com o Antônio. Ele disse no seu depoimento à policia, que queria matar Eronildes seguindo um plano inteligente, que não deixasse pistas nem sangue.

No dia seguinte, sábado, Antônio fez algo que nunca tinha feito em 25 anos de casado, dormiu fora. Na casa de um primo, em Sapucaia.

Era a primeira etapa do seu plano. Na segunda, publicou no Correio um convite para o seu próprio enterro, às 10 horas, no São Miguel e Almas, calculando que Eronildes só ia ler a notícia depois do meio dia, quando costumava se levantar.

Na terça, pediu a Janice, sua colega do banco, que ligasse para a sua casa, dando pêsames a Eronildes, explicando a ela que se tratava de uma brincadeira. Janice contou que do outro lado da linha apenas deram uma risada e desligaram.

Na quarta, Antônio ligou para sua casa de um orelhão e quando Eronildes atendeu, impostou a voz e disse que tinha morrido por causa dela. Nem esperou a resposta, desligando antes.

Na quinta, ligou novamente e quando ela atendeu, falou com a voz mais cavernosa que conseguiu: “Morri porque você não me dava mais atenção”.

– Ah, Antônio que legal, tudo igualzinho a uma novela com o Tarcísio e a Glória. Ele finge que morreu e depois começa a assustar a pobrezinha para que ela morra do coração e ele fique com toda a herança.

Antônio disse, mais tarde, para o Delegado, que tinha bolado seu plano depois que vira o filme do Clouzot, As Diabólicas, com o Yves Montand, a Simone Signoret e a Vera Clouzot. Coisa fina e inteligente, mas a Eronildes só lembrou  daquele pastiche da Globo.

– No Brasil não tem espaço para criminosos inteligentes.

Na sexta-feira, Antônio chegou em casa e matou Eronildes com cinco tiros de um revolver 38, cano longo, enquanto ela assistia uma novela com a Maitê Proença e o Tony  Ramos.

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