Lembranças do Julinho

O Colégio Estadual Júlio de Castilhos, ou apenas o Julinho, foi além de uma escola padrão de ensino médio no Rio Grande do Sul, principalmente nas décadas de 50 e 60 do século passado, uma instituição voltada para o desenvolvimento da consciência política e o senso de liberdade entre os seus alunos.

Frequentei seus bancos escolares nas três bases físicas em que o colégio se desenvolveu durante a década de 50: o prédio histórico da Avenida João Pessoa, incendiado em dezembro de 51, no dia em que começariam as provas de final de ano; o prédio provisório (que durou quase 10 anos) do Arquivo Público, na Riachuelo e finalmente, o novo prédio da Azenha, junto à estátua de Bento Gonçalves.

Com algum atraso, li o livro que Otávio Rojas Lima e Paulo Flávio Ledur organizaram para comemorar os 100 anos de fundação da escola e contar um pouco da sua história desenvolvida nesses três locais.

O livro faz um registro dos nomes de todos os diretores do Julinho e dos presidentes do Grêmio Estudantil, além de coletar depoimentos de alguns dos mais ilustres dos seus alunos sobre a sua vivência na escola.

Não há muito a acrescentar ao que tantos ex-alunos já disseram, mas lembrar o sentimento de um menino que vivera seus primeiros anos de estudo no Interior e que chegado à primeira série do Julinho, se deparava com um mundo de liberdades e também de grandes cobranças para as quais não estava habituado

De início, era preciso passar com coragem pelas provas que os veteranos faziam nós, os calouros, cumprir. Vencida esta etapa, éramos integrados ao espírito de camaradagem geral e poderíamos então ser considerados novos “julianos”.

Um dos segredos (nem tanto assim) que nos era revelado, dizia respeito aos apelidos pelos quais os professores eram conhecidos e que os acompanhavam por todas as séries.

Alguns deles, o tempo apagou, mas outros ficaram, certamente os dos professores mais marcantes. Assim, Zepelim era professor de Geografia, possivelmente uma homenagem a sua careca reluzente; Motorzinho, da Matemática, pela rapidez com que escrevia no quadro números e fórmulas; Lapiseira, excessivamente magro e alto, que ensinava Latim (sim, estudávamos Latim nos quatro anos de ginásio, lendo os 4 volumes dos “Ludos”,do Padre Milton Luís Valente) e Mademoiselle Fifi, obviamente era a professora de Francês.

O mais original de todos, porém, era o professor “Pauuuááá!”. O esdrúxulo apelido era fruto do sotaque alemão carregado do professor de música, sempre pronto para apontar o caminho da rua para os alunos pouco atentos ao seu batucar nas teclas do harmônio caindo aos pedaços, que dois ou três alunos recebiam a missão de carregar para a sala de aula.

Independente dos apelidos, os professores do Julinho se destacavam pelo seu saber, pela liberdade que pareciam dispor nos caminhos que escolhiam para ensinar e pelas excentricidades de alguns.

Esse comportamento inspirava aos alunos a também cultivar o espírito de liberdade e dela se gerava atitudes políticas precoces. A eleição para o Grêmio Estudantil era uma batalha política importante, até porque a entidade estudantil era extremamente atuante e tinha poder de interferir até mesmo na administração da escola.

O primeiro voto – extremamente consciente – que dei na minha vida foi para a presidência do Grêmio Estudantil em 1952. Aos 12 anos de idade, votei em Flávio Freitas Tavares, encantado com o seu discurso em sala de aula, e nunca me arrependi desse voto.

Passeando pelas páginas do livro que Rojas e Ledur organizaram, pude me dar conta, mais uma vez e sem qualquer originalidade, de uma grande mudança ocorrida no espírito dos jovens daquela época e os de hoje.

É claro que pode haver uma generalização injusta do que vem a seguir, comparando o que disse Suzana Keniger Lisbôa, no seu depoimento e uma imagem dos jornais de hoje.

Suzana, viúva de uma das vítimas mais icônicas da repressão da ditadura –  Luiz Eurico Tejera Lisbôa, o Ico – depois, uma liderança da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos – diz no seu depoimento que em 1967 teve sua foto estampada na capa de Zero Hora, com uma lata de spray na mão, durante uma passeata, pintando frases contra a ditadura e contra o acordo MEC- USAID.

Hoje, você vê menos frases políticas de protesto pintadas nos muros. Os pichadores preferem produzir estranhos garranchos, quase uns hieróglifos, de preferência nas paredes recém pintadas de um prédio público, com frases sem sentido, do tipo “e daí, cara?”

Claro que, como os tempos são outros, as frases de protesto migraram para a internet e lá talvez sejam mais eficientes para os fins a que se destinam.

Mas, de qualquer maneira, é sempre gratificante ver um “# fora Temer”, pintado no muro da esquina e quem sabe, daqui a pouco, também um “Lula 2018”.

 

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