Consultório sentimental

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Dia 7, embarco para uma viagem à Rússia e Turquia. Para não deixar órfãos meus poucos leitores convidei um amigo para ocupar o meu blog durante as duas semanas em que estarei ausente. Ele concordou e prometeu divulgar em primeira mão para os leitores do Sul21 a série de consultas com importantes personalidades, inclusive da política e que, em breve, deverão compor um livro, possivelmente editado pela Editora Libretos. Só exigiu ser identificado como Mestre e não revelar os nomes dos pacientes. Como o material que o Mestre me mandou é muito amplo, ele pode ser lido aos poucos.Quem sabe uma postagem por dia. Acho que meus leitores vão gostar, até porque o Mestre ouve problemas de todo o tipo e dá muitos conselhos práticos.

 

DICAS DE COMO AGRADAR SUA MULHER (1)

– Mestre, meu nome é Tertuliano e sou casado com a Gladis Dolores. Estamos juntos há 15 anos e nunca olhei para outra.

– Mesmo assim, meu casamento vai cada vez pior. A última vez que fizemos sexo foi depois daquele jogo em que a Alemanha goleou o Brasil na Copa do Mundo.
– Tertuliano, teu problema é o excesso de fidelidade.

– A Gladis Dolores deve pensar que “ninguém quer esse traste e sobrou pra mim”.

– Tens que fazer com que ela pense que o mulherio anda enlouquecidamente atrás de ti. Não precisas arrumar nenhuma amante que isso só dá trabalho. Já te incomodas com apenas uma mulher, imagina duas.
Vou ensinar pequenos truques que vão fazer com que a tua mulher se apaixone novamente por ti.
– Quando a Vivo ligar oferecendo aquele maravilhoso plano do G7, não desligue na hora, vá respondendo com interjeições e murmúrios – sim…não.. hum…pode ser –
Quando tua mulher perguntar quem era, diz que era a Vivo
Ela não vai acreditar.
Quando tiver vendo o horóscopo no computador e perceber que ela vem chegando por trás, desligue rapidamente.
– O que estás vendo?
– Horóscopo
Ela não vai acreditar e isso é muito bom.
No sábado, antes de ir participar da pelada com os amigos, tome banho, escove os dentes, use desodorante e ponha perfume.
Explique que o pessoal estava reclamando do bodum no vestiário e não queres que pensem que a culpa é tua.
Ela não vai acreditar, mas não importa, porque sentindo que está ameaçada de perder o que imaginava ser sua propriedade exclusiva, ela vai tentar te reconquistar de qualquer jeito. Ela está a um passo de cair de paixão por ti.

– É a hora, então, de impores tuas condições.
NA HORA DO GOL (2)

–  Mestre, Meu nome é Claudia Helenice, tenho 45 anos e moro na Tristeza.

–  Me considero uma mulher moderna e sem preconceitos, principalmente na questão sexual. Sou adepta daquela teoria de que, entre dois adultos vale tudo. Posso dizer, Mestre, que nesse quesito de variedades de posições, conheço de A a Z. E não é para me gabar que digo isso, mas só para que o senhor possa me aconselhar com conhecimento de causa.

–  Depois de experimentar os mais variados tipos masculinos, inclusive o Edgar, um gay que consegui curar, estava vivendo um caso muito romântico com a Vanda Doroty, tão doce na sua feminilidade, quando, num jogo no Beira Rio, conheci o Flávio Antônio, membro daquela torcida organizada,  A Popular, e me apaixonei novamente.

– O cara é tudo de ruim que existe no mundo. É machista assumido, todo tatuado, diz que odeia gay, votou no Sartori e no Júnior e só vai casar com mulher que seja virgem. Estou louca pelo cara, mas estou adiando o momento de ir para cama com ele com medo de que ele descubra tudo que já vivi nas muitas camas pelas quais passei e não queira assumir o compromisso pelo qual sonho: casar de véu e grinalda na Igreja Santa Terezinha. Já botei a coitada da Vanda Terezinha a correr e agora só sonho com o Flávio Antônio. O que faço Mestre?

– Desculpe, Cláudia Helenice.  Por um problema ético, não posso assumir teu caso. O Flávio Antônio é meu paciente e chegou antes que tu no consultório. Só posso dizer que te livrastes de uma boa porque ele tem um problema de difícil solução. Ele sofre do que chamamos de “pênis minores”.

– Já que vocês gostam tanto de futebol, ele é como aquele jogador que nunca entra na área para fazer gol.

– É melhor chamar de volta da Vanda Doroty.

 

MÚLTIPLAS PERSONALIDADES (3)

– Sou o Eduardo Fernando, mas as vezes tenho sérias dúvidas sobre isso. Meu caso, Mestre, é de múltiplas personalidades.E não apenas uma questão psicológica. Ele modifica meu físico.

– Tem dias que eu acordo Brad Pitt. Não posso dar um passo na rua, que as mulheres me atacam. Outro dia, estava com um traje Armani e elas me atacaram ali na frente da Praça Júlio e rasgaram toda a minha roupa. Tive que entrar só de cuecas no Bradesco e o guarda ainda quis me prender.

– Outro dia, me acordei Michel Temer e bastou sair na rua para as pessoas começarem a me vaiar. Fui descer a Ramiro para fazer um exame de sangue no Hospital Moinhos e um cara que passava de carro me jogou um ovo. Tive que voltar para casa e perdi o horário do exame.

– Na sexta, me acordei Usain Bolt e para não perder a lotação para o centro, sai correndo com tanta velocidade que acabei passando do Colégio Rosário onde devia me encontrar com uma professora e só fui parar no Mercado Público. Quando voltei, ela não estava mais me esperando.

– Pior, quando me acordei gay recém saído do armário. Nada contra ser gay, mas estava tão excitado com a minha nova identidade, que fui puxar assunto com aquele rapaz do Posto Shell e ele se incomodou e ameaçou me bater.

-Agora, pior mesmo, foi quando acordei cantor de música nativista. Nem eu mesmo consegui me suportar cantando as músicas do Teixerinha, no Parcão. O que dirá aquele pessoal que fica caminhando ali de manhã cedo. Fugiram todos.

– Meu caso tem cura, Mestre?

– Teu caso, Eduardo Fernando, é de simples solução. Vamos promover no sábado no meu consultório um brainstorming (tempestade cerebral) com todos teus alter egos.

– Deves chegar às 8 horas (pega o endereço com a minha secretária, a Mafalda Fernanda) junto com o Brad Pitt, o Usain Bolt,o gay e o cantor sertanejo. Vamos ouvir todos e depois decidir qual o personagem que deves assumir. Em princípio, te aconselharia o Brad.

– Dividiremos as 24 horas do dia entre vocês dois. De dia, seria o Eduardo Fernando, para garantir o emprego no banco e depois das 6, serias o Brad Pitt

UM BOM NEGÓCIO (4)

– Meu nome é Cornualdo Ambrósio, tenho 50 anos, trabalho como vendedor da Panvel e moro no Sarandi.

– Mestre, meu problema é que minha mulher, a Maria Adelaide, está me traindo e eu não sei o que fazer.

– Antes ela era até discreta. Eu comecei a desconfiar quando ela deu de me chamar por nomes diferentes do meu, quando a gente transava. Faz tempo isso, Mestre. Quando estranhei, ela disse que eram nomes de galãs das novelas da Globo e que isso servia para apimentar a relação.

– Eu não gostava muito, afinal tenho que ter orgulho do nome que meu pai me deu – Cornualdo, uma mistura de Cornélio, do pai dele e Romualdo, de um tio. – mas fui deixando para lá.

– Agora, ela me trai abertamente.  Ela acerta os programas com os amantes por telefone, na minha frente. Semana passada, dormiu fora duas noites e disse que tinha ficado na casa da mãe que estava doente. – Ela nem se preocupa mais em mentir com alguma credibilidade. A mãe dela morreu há dois meses e nós fomos juntos ao enterro.

– O que faço Mestre?

– Meu tio, o Gaudêncio Aparecido, que mora em Quarai, me mandou um telegrama dizendo que problema com mulher sem vergonha se resolve com uma boa surra de rabo de tatu. Minha cunhada, a Maria Conceição, irmã da minha mulher, me aconselhou a arrumar também uma amante e pelo jeito dela acho que estava se candidatando à função. Finalmente, o meu primo, o Quevedo, que é um cínico e que já foi preso por falsificação de cheque, disse que eu devia conversar com a Maria Adelaide e sugerir que fizesse os amantes contribuir para o sustento da família.

– O que senhor acha, Mestre?

– Cornualdo, esquece os conselhos do teu tio Gaudêncio. Embora no passado, o rabo de tatu tenha sido um santo remédio, hoje a prática está em desuso e até mesmo será difícil achar na cidade um bom rabo de tatu. Tua cunhada, obviamente, está querendo um lugar na tua cama. Eu não aconselharia. Vai que ela seja igual à irmã – as vezes isso é problema de família, é genético – e assim acabarás bi corno, o que não é bom para a tua imagem de vendedor da Panvel.

– Com o que chegamos ao primo Quevedo. Não descartaria essa alternativa. Tu podes chegar a um acordo com tua mulher e estabelecer uma taxa compulsória que cada amante pagaria. Seria o útil para ti, e agradável para ela.Vamos supor, 20% sobre as despesas gerais da casa. Se ela conseguir cinco amantes num mês, todas as despesas seriam quitadas e o dinheiro economizado poderia formar um pecúlio para o momento em que a Maria Adelaide tivesse que se aposentar.  Isso é ainda mais importante no momento em que o Temer está querendo acabar com as aposentadorias dos trabalhadores.

 FALTA QUE FAZ O AGÁ (5)

– Mestre, meu nome é Ercules da Silva .

– É, Mestre, sem agá, meu pai dizia que como o agá era uma letra muda, não devia ser usada. Aliás, todos meus irmãos não usam o agá no nome. Élio, Erodes e Ermes. Acho que o velho queria nos humilhar (eu não tenho nada contra o agá, Mestre, e procuro escrever certo usando todos os agás que a gramática manda usar) com esses nomes. Sei que o senhor já está encerrando suas atividades, mas queria uma consultinha bem rápida.

–  Agora em abril vai nascer meu primeiro filho, um guri, e meu pai, que já está mais prá lá do que prá cá, me pediu que atenda seu último desejo, que ponha no neto o nome de  Ermenegildo, obviamente sem agá. O que faço, Mestre?

Ércules, sei que teu nome omenageia um erói, mas esse é um serviço sério que presto à comunidade. Não é ora de brincadeiras. Por oje estou encerrando minhas consultas.

O FEIO (6)

– Alô, Mestre,estou ligando aqui de Brasília.

– Meu nome Maicon Néris, sou aposentado da Previdência Social, mas soube através de uns gaúchos que acamparam aqui na Esplanada dos Ministérios, que o senhor tem solução para todos os problemas sentimentais. Espero que o senhor aceite pacientes de outros Estados, inclusive do Piauí, onde nasci.

– Como dizem seus conterrâneos, vou ser curto e grosso

– Sou um homem muito feio. Meus amigos dizem que sou mais feio que o Temer e que nunca vou arranjar uma namorada. Não quero qualquer uma. Quero uma que seja bonita, prendada e do lar.

– O que devo fazer para conquistar a minha Dulcinéia do Toboso?

–  Desculpe Mestre. Disseram que o senhor gosta muito de citações literárias e eu li essa no Google. Esse Don Quixote, com essa história dos moinhos de vento, era meio maluquinho, não Mestre?

– Mas voltando ao meu problema, e agora sim vou ser mais curto que coice de porco (essa me foi ensinada por aquele deputado do partido que só existe aí no Sul, o tal de RBS): diga Mestre, como faço para arrumar uma namorada linda, uma baita chinoca?

– Maicon, examinei seu caso com atenção, como sempre faço, mas lamento dizer que seu perfil – nascido no Piauí, aposentado da Previdência Social e mais feio que o Temer – não é adequado ao tipo de assessoramento psicológico que costumo oferecer. Não se preocupe Maicon, você não vai ficar desassistido. A Previdência Social tem também um serviço de consultoria sentimental e já conversei com o seu diretor, o Padilha, e mediante uma módica propina, ele antecipou a sua consulta, que ficou marcada para o dia 23 de novembro de 2023.

Antes de desligar Maicon, você deve depositar 100 dólares na conta do Padilha (mando um email depois com o número da conta dele no Panamá). Minha comissão de 25% e você pode me pagar diretamente, obviamente cash.

AQUELA SENHORA (7)

– Bom dia, Mestre

– Para garantir minha segurança, Mestre, prefiro não revelar meu nome. Exerço a nobre profissão de puta aqui em Brasília. Atualmente mantenho uma relação de conjunção carnal com quatro deputados representantes da bancada BBBB.

– Não ao mesmo tempo, Mestre. Um de cada vez, que sou uma puta honesta.

– O deputado da Bíblia me obriga a me ajoelhar e rezar antes e depois. Só que o durante não acontece nada

– O deputado do Boi, vai para a cama com um berrante. Quando perguntei a razão disso, me disse que quando consumasse o ato ia lançar um grito que abalaria Brasília. Até agora a cidade dorme em paz.

– O da Bola, cisca, cisca, joga de um lado para o outro, mas nunca entra na área e até agora não fez nenhum gol.

– O da Bala, ameaça, ameaça, mas hora H só sai tiro de festim

– Eu sinto que com essas atitudes eles estão desmoralizando minha profissão. Todos me pagam com dinheiro desviado de obras públicas, mas não me sinto bem. Acho que estou recebendo, sem o fazer por merecer.

– O que faço, Mestre?

–  Minha cara e misteriosa puta. Compreendo seu grave problema existencial, mas ao mesmo tempo louvo a existência de uma pessoa tão honesta como você, em Brasília. Sugiro que viajes para Curitiba e te proponhas a ser uma delatora premiada. Não precisas citar o nome de nenhum desses teus incompetentes parceiros. Diga que não te interessas por política, mas que desconfias que os tais deputados são do PT.

– Eu sei que não são, mas esse pessoal de Curitiba só se interessa por deputados do PT. Vais ganhar destaque na Veja e dependendo das tuas condições físicas, quem sabe até um ensaio sensual na Play Boy.

DANIEL E DANIELE (8)

– É assim mesmo Mestre, Daniele, mas todo mundo me chama de Daniel.

– Não sei se foi erro do cartório ou sacanagem do meu pai, que me registrou. Eu acho que ele desconfiava que eu não fosse filho dele, daí começou a criar problemas desde que nasci.

– Bulling?

– Não tinha esse nome ainda, mas todo mundo implicava comigo na escola, lá em Iraí, onde eu nasci. Acho que por causa disso foi que fiquei diferente de todo mundo. É esse o problema que me trouxe aqui, Mestre.

– Gay?

– Não, Mestre. Diferente nas atitudes.

– Se todo mundo vai pra direita, eu vou pra esquerda. Se todo mundo gosta das novelas da Globo, eu só assisto o SBT. Minha mulher diz que eu gosto de aparecer. Minha tinha Almerinda diz que não tomei sal de fruta Eno quando criança.

– Ah…o senhor não conhece aquela propaganda, “meu vizinho é do contra, faz da vida um veneno, sal de fruta Eno”. É, Mestre, eu ouvia no rádio, lá em Iraí.

– O que eu quero que o senhor faça, Mestre?

– Que me ajude, que me dê um conselho, não é essa a sua profissão?

– Missão.

-Tá bem, sua missão.

– Vou concluir, sim. Em outubro do ano passado, tudo piorou. Meus amigos estavam divididos nas eleições. Metade ia com o Raul, metade com a Luciana. Aí, pra ser diferente, eu fui com o Júnior. Agora não posso mais entrar no bar ou jogar pelada, que meus amigos logo me apontam, olha o culpado, viu no que deu votar no Júnior?

– O que faço, Mestre?

– Olha Daniele, Daniel, acho que você vai ter que carregar essa sina até a próxima eleição. Agora, cá entre nós, Daniele, tá bem, Daniel, mas vai ser diferente assim lá prá tonga da mironga do kabuletê.

– Antes de sair, paga a consulta pra secretária, que é pra aprender o que é bom pra tosse e nunca mais fazer uma bobagem dessas.

O HOMEM DUPLICADO (9)

– Bom dia, Mestre

– Bom dia, Mestre

– Por que você está repetindo o comprimento?

– Porque somos dois, Mestre

– Porque somos dois, Mestre

– Estou vendo apenas uma pessoa sentada na minha frente.

– Eu sou Carlos.

– Eu sou Carlão

– Então, vou ouvir um de cada vez. Primeiro você, Carlos. O que você precisa me contar?

– Mestre, eu gosto de cinema, de ler a Carta Capital, torço para o Inter e votei na Dilma, no Tarso e no Raul.

– Parabéns, Carlos. Boas escolhas E, você Carlão?

– Mestre, eu gosto das novelas da Globo, de ler a Veja, torço para o grêmio e votei no Aécio, no Sartori e no Júnior.

– Meus pêsames, péssimas escolhas, Carlão.

– O seu caso, perdão, o caso de vocês, é simples e muito comum, hoje em dia: suas múltiplas personalidades vivem em conflito porque são incompatíveis entre si.

– Infelizmente, eu não atendo esse tipo de problema psicológico.  Vou indicá-lo, perdão, indicá-los, para o Dr.Temer, que é o maior especialista brasileiro em dupla personalidade.

– A consulta está encerrada. Na saída paguem 600 reais, 300 para a consulta do Carlos e mais 300 pela do Carlão.

SEM SOLUÇÃO (10)

– Mestre, ninguém me ama

– Sei, ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor A vida passa, e eu sem ninguém  E quem me abraça não me quer bem. Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso. E hoje descrente de tudo me resta o cansaço. Cansaço da vida, cansaço de mim. Velhice chegando e eu chegando ao fim.

– Antônio Maria e quem canta é a Nora Ney?

– Acertei?

– Mestre, fantástico, já tinham me dito que não precisava falar muito, bastava uma palavra e o senhor entendia tudo.

– Isso se chama perspicácia. Não quero ficar me vangloriando, mas minha técnica de decifrar a mente humana faria inveja ao Freud.

– E meu problema, tem solução, Mestre?

– Não. No seu caso, como disse uma vez o poeta Manoel Bandeira, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

– Só?

– Você precisa, também, na saída pagar os 300 reais pela consulta.

 

O GÊNIO (11)

– Mestre, eu sou um gênio

– Parabéns, somos dois, então.

– O problema, Mestre, é que ninguém reconhece minha genialidade.

– O que você faz?

– Diariamente, escrevo dezenas de posts no facebook, falando de mim.

– Alguém lê?

– Sempre os mesmos, Mestre.

– E você escreve sobre o quê?

– Sobre mim mesmo. Sobre meu passado como publicitário. Os anúncios que escrevi. Os áudios visuais que produzi. As pessoas famosas que passaram perto de mim.

– Você já ouviu falar de Guy Debord?

– Era um publicitário?

– Muito mais. Ele escreveu a Sociedade do Espetáculo, onde ele mostra que no sistema capitalista, as pessoas se desumanizaram e passaram a viver num mundo de faz-de-conta, onde o que importa é a aparência e que, para vivermos nele, precisamos criar fantasias, que só nós acreditamos, a nosso respeito.

– Não entendi, Mestre.

– Não importa, é difícil mesmo para um publicitário entender essas coisas.

– O que faço, então?

– Vou lhe dar uma carta de recomendação para o Roberto Pintaúde. Ele tem uma clínica de recuperação que atende publicitários que não se conformam em serem esquecidos.

– E isso vai me ajudar?

– Não, mas você vai se divertir um bocado.

ELA (12)

– Mestre, eu sou bela, prendada e do lar

– Não acredito. A senhora é…?

– Sim, Mestre

– E ele sabe que a senhora está aqui no meu consultório sentimental?

– Não, Mestre, ele não sabe de nada. Aliás, ele não sabe de coisa alguma.

– A senhora tem certeza que não está sendo seguida?

– Quem poderia me seguir?

– Seu marido, a Polícia Federal, o Exército, sei eu lá.

– Não, Mestre, fique tranqüilo. Ninguém me seguiu e eu preciso muito de uma orientação sua.

– O que a senhora quer saber?

– Eu quero sair de casa, trabalhar, ser igual a essas mulheres modernas.

– Mas, a senhora tem uma importante função social, é um exemplo para todas as mulheres. O que a senhora faz é muito importante.

– Importante? O Mestre acha importante limpar a casa, lavar a roupa, cozinhar, para aquele vagabundo do meu marido encher a cara todo o dia e me tratar mal?

– Mas, ele faz isso?

– Faz pior, Mestre. Todo mundo conhece a fama dele lá na Vila Brasília.

– Vila Brasília? Como é o nome do seu marido?

– Eliseu.

– Eliseu? E o seu?

– Glória

–  Então a senhora não é quem eu estava pensando?

– Em que o Mestre estava pensando?

– Nada…deixa prá lá. A consulta está encerrada e como sei que a senhora não vai pagar mesmo, fica me devendo 300 reais.

A LISTA (13)

– Mestre, estou na lista.

– Não te preocupes, isso não vai dar em nada.

– Como não vai dar em nada, Mestre, já deu.

– É só notícia pra vender jornal.

– Mestre, eu estou na pior

– Fica tranqüilo, aquela turma do Temer vai dar um jeito.

– O senhor acha que o Temer vai se meter nessa briga, também?

–  Claro ele é o mais interessado em “amorcegar” tudo isso, como diria o sempre lembrado Lauro Quadros.

–  Mas, Mestre, o que o Temer tem a ver com isso?

–  O Janot, o dono da lista, deve ser amigo dele?

– Quê Janot, Mestre?

–  O cara que te incluiu na lista

– Não, Mestre, a minha lista é a do Sartori

– O Sartori também está na lista?

– Não, Mestre, eu estou na lista dos demitidos pelo Sartori nas fundações do Estado.

– Entendi. Então vou cobrar tua consulta em suaves prestações. Cada mês tu vais me pagar 10 pilas

 

PINTAÚDE (14)

– Pintaúde, Roberto Pintaúde, a que eu devo essa honra?

– Eu ouvi falar muito desse teu serviço de pronto atendimento e quis conhecer de perto.

– Fique à vontade, Pinta. Posso chamá-lo assim, de Pinta?

– Eu tenho múltiplas personalidades, perfis, endereços e identidades, uma delas pode ser Pinta.  Pode chamar sim, do nome que você quiser, porque, de qualquer maneira eu não atendo.

– Já que estás tão tolerante hoje, vou te chamar de Pinta do Marketing.

– ????

– Viu? Eu não atendi. Agora me explica: a última vez que te vi eras um publicitário metido a criativo naquela agência do morro que tinha um nome de santa. Fizestes algum curso, fostes ao Nepal, estás ganhando algum dinheiro às custas desses caras que te chamam de Mestre?

– Sei que uso indevidamente este titulo de Mestre, mas tu mesmo dissestes que tudo no mundo é uma grande sacanagem. Eu estou seguindo tua lição para faturar uns trocados. Pelo menos, eu procuro ajudar as pessoas, e não faço como o Alcebíades.

– O que é feito dele? Ele ainda sonha em ser um grande diretor de cinema?

– Nada disso. Ele vive numa praia deserta, perto do Hermenegildo e diz que agora dirige os movimentos de pássaros e peixes.

– Sempre achei, ele meio pirado. Mas eu ainda não lhe expliquei a razão principal da minha visita.

– E qual é, Pinta?

–  Cobrar pela minha idéia,

– Que idéia, Pinta?

– Essa idéia de um serviço de pronto atendimento psicológico foi minha e precisas agora me pagar meus direitos de autor

– Certo.

– Vais pagar, então?

– Não, Pinta, certo foi o que dissestes que tudo nesse mundo é uma grande sacanagem.

 

O INOMINADO (15)

-Você aqui M…

– Psiu, você não está autorizado a pronunciar esse nome.

– Mestre

– O quê?

– Mestre, aqui eu sou chamado de Mestre. É a liturgia do cargo. Eu vou lhe chamar de Doutor. É uma exceção. Normalmente trato meus pacientes por você.

– Eu não sou seu paciente. Data vênia, o Mestre pode me chamar de Excelentíssimo Doutor e o pleito que estou postulando diz respeito a minha preocupação com uma audiência programada para breve.

–  O Excelentíssimo Doutor, se me permite a linguagem pouco jurídica, está com medo de enfrentar a fera.

– Medo é um sentimento que não comungo. Minha preocupação é de ser envolvido pelas artimanhas do depoente.

–  O cara é um avião, Excelentíssimo Doutor. Mas por que é preciso ouvi-lo? Ele já disse tudo.

– É preciso, Mestre, deixar tudo muito bem lavado.

– Agora entendi aquele nome, Lava..

– Psiu, Mestre. Certos nomes são perigosos de serem ditos em público.

– O que o Excelentíssimo Doutor espera, então, dos meus não tão modestos conhecimentos?

–  Dizem que o Mestre conhece os meandros da alma humana, principalmente de gente humilde, como é essa pessoa que vou ouvir.

– Excelentíssimo Doutor, nós dois sabemos que ele é uma pessoa de bom coração – se é que estamos falando do mesmo sujeito – que nunca fez mal a ninguém e é inocente de qualquer acusação que seus inimigos possam fazer. Então, fale de coisas simples.

– Como o quê?

– Como o Corinthians, como pescarias com amigos, como ajudar os mais pobres.

– Mas e os autos, Mestre?

– Fod…desculpe, Excelentíssimo Doutor, esqueça os autos e fale sobre futebol.

– Boa idéia. Acho que vou seguir seus conselhos, Mestre. Quanto lhe devo?

– Nada. Quero apenas uma foto ao seu lado.  Igual aquela que o Excelentíssimo Doutor fez com o Aec…

– Psiu… nada de nomes e nada de fotos. Aquela, especialmente só me deu problemas. Depois para que o Mestre quer uma foto ao meu lado?

– Marketing, Excelentíssimo Doutor. Depois que publicar a foto, minha clientela de dondocas alienadas vai crescer como nunca.

– Mestre, e se a gente fizesse um “rachide” nesse negócio?

– Olha a lav…

– Psiu.

 O PADRE (16)

Eu sou o padre Busato

– Sei. Eu sou o Papa

– Sério, eu sou o Padre Busato, lá do Partenon.

– Mas padre veste bermudas e camisa pólo?

– É pra não chamar a atenção.

– O que manda, padre Busato?

– O senhor sabe…

– Mestre

– Como?

– Aqui, o senhor precisa me chamar de Mestre;

– Eu já tinha ouvido falar dessa sua exigência.

– É pra manter um distanciamento crítico.

– Certo, como eu ia dizendo, tenho uma proposta para lhe fazer.

– Diga

–  Que tal uma franquia do seu serviço no Partenon?

– Uma franquia, que nem o MacDonalds? Não é má idéia.

– Eu tenho 10 anos de experiência, ouvindo as pessoas no confessionário. Podia usar esse expertise para ganharmos um bom dinheiro.

– O padre parece bem moderno com esses termos em inglês e quando fala em ganhar dinheiro é música para meus ouvidos. Oitenta por cento pra mim e vinte pra você.

– E na bundinha não vai nada?

– Padre pode falar assim agora?

– Depois que tiraram o latim das missas, vale tudo. Meio a meio?

– Sessenta para mim e quarenta pra ti.

– Meio a meio. Tenho que dar algum para o sacristão.

– Tá bem, vou fazer uma experiência.

– Começo no domingo, depois da missa das 10.

– O que você vai dizer para os seus fieis?

– No sermão, eu explico que existem os pecados que devem ser contados no confessionário e dúvidas existenciais, que devem ser dirimidas no nosso serviço.

–  Acho que a nossa parceria pode ir longe.

– Durante a confissão, eu reforço a idéia de que é preciso completar o serviço no consultório.

– E onde você vai ouvir os pacientes?

– Na sacristia.

– Tá bem, só tem uma coisa. A sacristia não é o lugar onde tem aquela água que os padres jogam nas pessoas.

– É a água benta e não jogam, aspergem nos fieis. Mas qual é o problema?

– É que a água do DEMAE está toda poluída e aí nos salvamos a mente dos pacientes e condenamos seus corpos.

O HOMEM (17)

– O senhor não pode ir entrando desse jeito na minha sala. Não está vendo que tenho pacientes?

–  É a Federal

– O que fiz de errado?

– Nada

– Então por que o senhor está me puxando pelo braço? E quem são esses outros sujeitos mal encarados?

– É a guarda pessoal do homem

– Que homem?

– Você já vai saber. Leia esse papel.

–  Mandado de condução coercitiva. E daí?

– Vamos, o homem está esperando.

(troca o cenário)

– Desculpe ter trazido o senhor dessa forma a minha presença..

– Mestre.

– Como?

– Devo ser tratado como Mestre, é uma questão de protocolo.

– Sim, Mestre, preciso de sua ajuda. Estou sendo assediado por fantasmas.

– Desculpe, mas não sou exorcista.

– Acho que são fantasmas que só existem na minha cabeça. Mesmo assim, eles não me dão descanso. Estão sempre me cobrando, fazendo acusações.

– O senhor leu Hamlet, do Shakespeare?

– Não, Mestre, só leio livros de Direito, mas quem foi esse  Hamlet? É de algum partido da base? Tem alguma denúncia contra ele?

– Esquece. Ele também via fantasmas.

– Somos dois, então. Foi o Eliseu quem me aconselhou a procurar seus conselhos. O que o Mestre me recomenda?

– O senhor lembra do Sal de Fruta Eno?

– Claro. Tinha até aqueles versinhos no rádio que eu ouvia lá em Piracicaba: Meu vizinho é do contra, faz da vida um veneno, Sal de Fruta Eno. Mas o que vai adiantar eu tomar Sal de Fruta Eno, se o meu problema é um fantasma que não me deixa dormir?

– Por favor, preste atenção no meu raciocínio. O fantasma é um personagem que representa o Zé da Silva.

– Quem é o Zé da Silva? Com esse nome, deve ser do PT?

– Deve, sim. Ele representa o povo brasileiro, que está puto da cara com o que você vem fazendo. Ele fica atazanando seus ouvidos, gritando Muda…Muda.

– É parece que eu ouço mesmo esse Muda…Muda… Mas mudar o quê?

– Tudo.

– E aí o fantasma vai me deixar dormir?

– Segundo pesquisas que fiz nessa área da psicologia, o índice de aprovação dessa técnica é de…

– Não me fale em pesquisas que eu tenho um troço…

– Socorro…o homem não está passando bem.

 

O LADRÃO (18)

– Isso é um assalto, Mestre

– Como um assalto?

– Simplesmente um assalto, eu sou um ladrão e vim lhe roubar.

– Como é que você passou na portaria?

– Eu disse que era um paciente seu.

– Quer dizer que além de ladrão, você é mentiroso.

– Mentiroso, não. Olha o respeito. Posso ser ladrão, mas não sou mentiroso.

– Você disse que era meu paciente, mas não é. Isso é uma mentira.

– Em termos, Mestre. Depois de lhe roubar, posso me tornar seu paciente. Afinal, terei dinheiro para lhe pagar a consulta.

– Quem sabe, fizemos uma permuta. Eu lhe ouço e não cobro a consulta. Em troca, você não me assalta.

– O Mestre está me propondo um escambo?

– Mais ou menos. Onde é que você aprendeu o significado dessa palavra.

– Eu era professor do Estado.

– Não é mais?

– Com o salário que o Sartori está pagando, ainda mais parcelado, não dá para viver.

– E como ladrão, dá?

– Não sei, Mestre, é meu primeiro roubo. Dizem que hoje é uma profissão de futuro.

– Mas, você está equipado para roubar? Tem revólver?

– Ainda não, Mestre. Minha ideia era com o dinheiro desse primeiro roubo comprar um revólver.

– Mas, você sabe atirar?

– Claro que não, Mestre. Por isso resolvi lhe assaltar. Ouvi dizer que o senhor está ganhando uma nota. Com esse primeiro roubo, pretendo comprar o revólver e me matricular numa academia de tiro.

– Posso lhe dar um conselho?

– Se for de graça, pode.

– Esse é de graça, mas não se acostume. Esse mercado que você quer entrar está muito saturado. Todo dia têm centenas de caras querendo roubar alguma coisa. É gente especializada, com formação superior na área do crime. Não é coisa para um amador como você.

– Puxa, Mestre, assim o senhor me desanima. Vim aqui cheio de esperanças de começar uma carreira de sucesso no mundo do crime e vou sair frustrado, mas uma vez. O que vou dizer em casa?

– Você avisou em casa que iria virar assaltante?

– Claro. Minha mulher disse que era a última chance que estava me dando. Não posso voltar para casa de mãos abanando.

– Quanto você esperava ganhar nesse seu primeiro assalto?

– Pra falar a verdade, Mestre, eu esperava levantar uns 100 pilas para garantir o rango dessa semana.

-Mas hoje é só segunda e você quer garantir o rango da semana inteira?

– Puxa, Mestre, você parece que não lê jornal e não sabe como está a vida de um professor.

– Vamos fazer o seguinte: eu lhe dou 500 pilas e você diz em casa que seu primeiro e último assalto foi um sucesso.

– Por que, último, Mestre?

– Porque essa é uma profissão muito perigosa. Hoje, o único crime que compensa é o do colarinho branco.

– Bem que o Pintaúde me disse que o senhor se finge de durão, mas é um tremendo sentimental, um mão aberta.

– O que o Pintaúde tem a ver com isso?

– É uma pegadinha, Mestre. Ele apostou que se eu viesse aqui, fingindo que era um assaltante, o Mestre, além do dinheiro, iria me dar bons conselhos de vida.

O AMIGO (19)

– Mestre, estou aqui como amigo, mais do que como paciente.

– Tá bem, então vou cobrar só metade da consulta.

– Que é isso, Mestre, virou um capitalista selvagem? Esqueceu os tempos do Partidão?

– O que posso fazer? O Roberto Freyre não virou ministro do Temer e ele foi até o nosso presidente?

– Posso pendurar a consulta?

– Como você foi um antigo companheiro, vou parcelar em quatro vezes, mas com juros do mercado. Pode falar.

– Lembra a Martinha, foi nossa camarada naquele aparelho na Zona Sul?

– Aquele tetéia – ainda se usa, tetéia? – claro que lembro. O que tem ela?

– Estávamos juntos há mais de 5 anos.

– Sortudo, hein, mas qual é o problema, então?

– Ela me largou.

– Acontece. É da vida.

– Tudo bem, só que a Martinha me trocou por aquele fascistazinho do MBL. Aquele que aparece seguido no rádio defendendo os golpistas.

– Eu sei que como consultor sentimental o que vou dizer é profundamente incorreto politicamente, mas nunca confiei nessas bonitinhas que se dizem de esquerda.

– O pior mestre é que quando falei que o cara era tudo aquilo que a gente sempre detestou, ela concordou, mas disse que ele era muito melhor do que eu na cama.

– Ela falou isso? Que Messalina. Me desculpe, mas não havia ninguém no Partidão que fosse melhor de cama que tu?

– Foi o que pensei, Mestre, se o problema era esse, ela não precisava procurar um cara do MBL.  Eu até fiz uma lista de companheiros que poderiam ser possíveis candidatos e mostrei para ela.

– E o que ela disse?

– Disse que eram caras problemáticos e quase todos eles passaram pelo teu consultório. Por isso estou aqui para que me digas qual o problema deles.

– Nunca te falaram sobre o segredo que um profissional como eu deve guardar sobre o que falam seus pacientes? Mas, vamos lá, tu me diz os nomes e se puder e não ser contra minha ética profissional, falo alguma coisa.

– O Adroaldo?

– Esquece, ele está morando com o Eduardo lá no Passo da Areia.

– O outro era o Eduardo, que o Mestre já respondeu. Pensei no Ananias, ele sempre falou que costumava destruir as mulheres na cama.

– Como não foi ele quem me contou, posso falar. A Isaurinha foi pra cama com o Ananias e ela disse que ele passou a noite tentando explicar a teoria da Mais Valia.

– É que é uma teoria complicada, Mestre, mas vamos riscar o Ananias.

– Pensei no Abelardo, aquele do Movimento Negro. Sem querer ser preconceituoso, Mestre, mas sabe como é, as mulheres sempre fazem fantasias sobre a potência dos negros, ainda mais o Abelardo, com seus dois metros de altura e braços de estivador.

-Risca o Abelardo da lista, pobre do Abelardo, teve que retirar a próstata na semana passada.

– Não sobrou ninguém, então. Acho que vamos ter que procurar um garanhão fora do Partidão.

– Isso nunca. Como vai ficar nossa imagem? Ninguém do Partidão se dispõe a dar o prazer que a Martinha tem o direito de exigir? Aliás, direito que todas as mulheres têm. Fico pensando…quem sabe?

– Vocês ainda não rasgaram minha ficha? Claro que não. Uma vez do Partidão, sempre do Partidão. Eu vou assumir essa responsabilidade. Tudo pela causa.

Só me responde uma coisa: a Martinha continua sendo aquela tetéia?

 O COACH (20)

– Mestre, eu vim lhe oferecer meus serviços

– O senhor errou de porta, aqui quem oferece serviços sou eu. Aliás, o verbo oferecer é um pouco inadequado para o caso. Eu vendo meus serviços.

– Eu sei Mestre, por isso mesmo o senhor precisa de mim.

– Você está me deixando nervoso. Diga logo quem é você e que serviço quer oferecer.

– Eu sou um coach

– Continuamos na mesma. O que vem a ser um co…

– Coach

– Está bem, mas o que você faz

– Faço coaching

– Você está me provocando?

– Não, Mestre. O profissional de coaching atua como um estimulador externo que desperta o potencial interno de outras pessoas, usando uma combinação de flexibilidade, insight, perseverança, estratégias e ferramentas pautadas em uma metodologia de eficácia comprovada.

– Entendi

– Caso concorde, eu poderei ser o seu coach e o Mestre será meu coachee num processo destinado a melhorar seu desempenho.

– Entendi. É mais ou menos um treinador

– Quase Mestre, é que a língua portuguesa não tem o termo adequado.

– Coach é mais do que um simples treinador.

– Entendi. Precisamos nos socorrer com o inglês.

– OK. You´re righ

– Realmente, o português é uma língua muito pobre.

Vou lhe responder então em inglês: Fuck you

 CONVERSAS CRUZADAS  (21)

–  Saia da linha que estou falando com a minha mulher

–  Você é que entrou na linha. Eu estava falando com a minha paciente.

– Sua paciente é a minha mulher?

– Eu não sou paciente e muito menos mulher de alguém.

– É uma conversa cruzada, então?

– Vamos nos apresentar. Eu sou aquele que os gaúchos escolheram para representá-los.

– Eu sou o Mestre

– Eu sou a vítima.

– Eu sou adepto daquela teoria, escreveu não leu o pau comeu.

– Eu tento entender

– Eu só levo porrada

– Depois que levei um choque naquela festa, fiquei elétrico.

– Minha função é jogar água fria na fervura

– Mandaram me queixar pro bispo. Pode ser o Edir?

– Quero deixar claro que não leio mais jornal no almoço.

– Atualmente só estou lendo bula de remédio

– Onde encontro a Lei da Maria da Penha para saber dos meus direitos?

– Não tenho mais tempo. Onde assino?

– Vou lhe mandar um recibo pelo sedex

– Vou lhe mandar a conta do hospital pela internet

– Alô, chama o seu Maurício

-Alô, chama o doutor Lacan

Alô, chama um médico. Qualquer um.


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