Um livro assustador

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Na sua permanente tentativa de desconstruir os movimentos de resistência palestina na Cisjordânia, o primeiro ministro de Israel, Binyamim Netanyahu acusou o líder religioso árabe El Husseimi, de durante a Segunda Guerra Mundial ter ido a Berlim para pedir a Hitler que “queimasse os judeus”, dando início ao Holocausto.

Realmente em 1943, o Mufti de Jerusalém, Hadj Amin El Husseimi, um líder religioso e nacionalista árabe, que comandou as revoltas contra a Inglaterra, que ocupava a Palestina, foi a Berlim pedir o apoio de Hitler para a sua luta, já que os alemães tinham se tornado, também, inimigos dos ingleses.

O encontro foi documentado com muitas fotos, mas Hitler, preocupado com o começo da derrocada de seus exércitos a leste pelo Exército Vermelho e ameaçado pela abertura de uma segunda frente no Ocidente, deu pouco atenção ao Mufti e nunca enviou algum tipo de ajuda militar. El Husseimi, mesmo assim, organizou um destacamento militar na Bósnia (região islâmica nos Balcãs) para lutar ao lado dos nazistas.

É bem provável que Husseimi tenha falado com Hitler sobre a migração judaica para a Palestina, o que transformava estes judeus em novos inimigos para os árabes já envolvidos na luta contra os ingleses, mas sugerir a Hitler que criasse campos de extermínio como disse Netanyahu, não faz sentido, porque os alemães já tinham estes campos desde 1936, quase 10 anos antes da visita do Mufti a Berlim.

O campo pioneiro foi o de Sachsenhausen, nas proximidades de Berlim, inicialmente utilizado para encarcerar os inimigos políticos do Reich e que só mais tarde foi usado como parte do projeto de “solução final do problema judaico”, eufemismo criado para denominar o massacre de judeus de toda a Europa

Quando El Husseimi foi a Berlim, estavam em plena atividade 16 campos de trabalhos forçados e extermínio. Os mais importantes eram os de Auschwitz – Birkenau, Treblinka, Belzec e Majdanek  (na Polônia), Bergen-Belsen,Dachau e Buchenwald  (na Alemanha).

A questão do Holocausto, passados mais de 70 anos do fim da guerra, permanece um tema aberto a discussões, não no sentido de negar que ele tenha ocorrido, mas sim no de analisar as reações das vítimas – os judeus –  diante da monstruosidade criada pelos nazistas para tentar justificar o conceito de raça pura.

Quando das lutas pela criação do Estado de Israel, a imagem do Holocausto não tinha o mesmo significado que tem hoje, até porque o movimento pela independência teve o caráter de luta armada contra os dominadores ingleses. Os guerrilheiros judeus que lutaram pela criação do seu estado nacional não poderiam se espelhar na passividade dos prisioneiros nos campos de concentração.

Hannah Arendt levantou esta questão – a passividade dos prisioneiros – no seu livro “Eichmann em Jerusalém. Agora, ela é questão central do livro “Os belos dias de minha juventude”, de Ana Novac, prisioneira durante 6 meses em Auschwitz, em 1944.

Ana, nascida na Transilvânia, região hoje pertencente à Romênia, era uma adolescente de 15 anos quando chegou a Auschwitz e conseguiu se manter viva até o resgate pelo exército soviético, em 1945.

Seu livro, além da ironia do título, tem uma particularidade: escrito em forma de diário (Ana escrevia com um lápis em papeis e papelões tirados do lixo) é considerado o único documento autobiográfico, produzido em campos de concentração que foi preservado depois da guerra.

Chama a atenção na história dos campos de extermínio o fato de que, uma minoria de militares alemães tenha conseguido controlar milhares de prisioneiros, todos sabedores de que seu tempo de vida era, de um modo geral, curto e que pouco teriam a perder se optassem por uma revolta, mesmo que ela tivesse poucas chances de sucesso

Poucas revoltas ocorreram nos campos, a exceção de algumas ações individuais e a explicação parece estar no fato de que os líderes dos prisioneiros não estimulavam os atos de resistência com medo das represálias nazistas.

No seu depoimento em Nuremberg, Rudolf Hoss, que foi comandante em Auschwitz, disse que 3 milhões de pessoas morreram nas câmaras de gás ou por fome e doença no campo. Embora os historiadores prefiram acreditar que o número de mortos foi menor – aproximadamente 1 milhão e 300 – ainda assim é um dado estatístico assombroso.

No livro, Ana Novac tenta entender porque isso aconteceu sem maiores resistências dos presos. Uma das possiblidades é o extremo individualismo da maioria dos presos, explorado pelos nazistas como forma de dividir o grupo.

A distribuição de vantagens a alguns dos presos (normalmente uma pequena melhoria na ração alimentar), fazia reacender neles a esperança em sobreviver por mais algum tempo e qualquer ato de resistência dos demais poderia ser visto pelos nazistas como uma falha no comando dos prisioneiros aos quais haviam dado um pequeno poder.

Já nos guetos das cidades polonesas, de onde veio uma boa parte dos prisioneiros, uma polícia formada por judeus (a polícia judaica) ajudava a organizar as filas dos que iriam para Auschwitz ou para outros campos na Polônia.

Dentro do campo, havia uma disputa feroz entre os prisioneiros para os poucos cargos que os nazistas ofereciam aos presos, na esperança de uma melhoria na ração alimentar e na expectativa de ir adiando o encontro marcado com a morte nas câmaras de gás.

No seu livro, Ana Novac dá o nome de algumas dessas “mordomias”:  kapos, presos que colaboravam com os nazistas; sonderkommando, grupo encarregado de levar os presos para as câmaras de gás, retirar os cadáveres e arrancar os seus dentes de ouro e o cabelo das mulheres; stubendienst, presa que cuidava da sopa e da faxina; lagerkapo, chefe de um grupo de kapos; blockalteste, chefe de um pavilhão; berkapos, presos que vigiavam no trabalho externo;

Todos eram judeus e alguns casos, eram mais cruéis que os SS nazistas na hora de usar o chicote nas costas de um prisioneiro que não estivesse trabalhando na velocidade desejada.

Ana Novac nasceu em Siebenburgen, hoje cidade da Romênia, em 1929 e morreu em Paris, em 2010, ano que seu livro foi editado no Brasil pela Cia de Letras


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