Os outros Cristos

A vida de um provável agitador social, que teria vivido na Palestina dominada pelos romanos, Jesus Cristo, tem a sua versão oficial contada em quatro evangelhos, e é considerada a única verdadeira pela Igreja Católica.

Outras, narradas por alguns dos mais importantes escritores do mundo moderno, que talvez sejam apenas fantasias, são muito mais interessantes e criativas.

Vamos falar sobre quatro delas e seus autores (Norman Mailler, Nikos Kazantzakis, José Saramago e Gore Vidal), aproveitando a chegada de mais uma Semana da Páscoa, quando novamente vai se falar muito sobre Jesus Cristo

Norman Mailler (1923/ 2007)

É talvez o mais polêmico dos modernos escritores americanos. Crítico do socialismo, do capitalismo americano e do feminismo especialmente, é autor de alguns dos principais romances americanos do século, em obras que misturou fatos reais com sua fértil imaginação, principalmente nas pretensas biografias de Marylin Monroe (73), Lee Oswald (96) e Hitler ( Uma Casa na Floresta/ 2007). Mailler será sempre lembrado pelos seus livros Os Nus e os Mortos, Um Sonho Americano, Os Degraus do Pentágono e a sua visão profana de Cristo em O Evangelho Segundo o Filho, além das suas frases provocativas, como estas de um machismo assumido:

“Porque há muito pouco de honra  na vida americana, há uma certa tendência construída para destruir a masculinidade nos homens americanos’.

‘A revolução feminista transformou a mulher num tipo de homem que me aborrecia muito quando eu era jovem: alguém que tinha que trabalhar das nove até as cinco, de uma maneira monótona e sem ser dono do seu destino. Foi assim que terminou essa revolução e esse assalto ao poder”.

O Evangelho Segundo o Filho é considerada uma obra menor na carreira de Norman Mailler, mas nem por isso destituída de interesse. A ironia do autor está sempre presente ao descrever um Jesus Cristo humano e atrapalhado, como no famoso episódio da transformação de água em vinho, quando é repreendido pelo anjo por gastar milagres à toa: “Assim como um barril transbordante de mel pode ser esvaziado, o Filho tolo desperdiça seu estoque de milagres”.

Nikos Kazantzakis (1883/1957) – É considerado o mais importante escritor grego moderno e se tornou famoso no mundo inteiro quando seu livro Zorba, o Grego, foi levado para o cinema, em 1964, por Michael Cacoyannis, com Anthony Quinn, no papel de Zorba e com uma trilha musical de Mikis Theodorakis, quase tão lembrada quanto o filme. A versão de Kazantzakis para a história bíblica se chama O Cristo Recrucificado e tem um sentido intencionalmente político.

Na pequena aldeia grega de Licovrissi,dominada pelos turcos, a reconstituição do julgamento e condenação de Cristo durante a Semana Santa, realizada a cada sete anos, é uma oportunidade para denunciar os turcos usurpadores como os novos romanos e os sacerdotes ortodoxos gregos como traidores da causa nacionalista. Quem faz essa denúncia é Manolios, um agricultor inculto, que incorpora a figura do Cristo. O livro também foi levado ao cinema num filme memorável de Jules Dassin, chamado Aquele que Deve Morrer, com Pierre Vanneck (Manolios/Cristo), Melina Mercouri (Katerine/Maria Madalena) e Jean Servais (Pope/ o Padre).

Kazantzakis tem ainda outro livro onde aborda de uma maneira totalmente contrária aos evangelhos, a história de Cristo. O livro se chama A Última Tentação de Cristo e também virou filme em 1988, direção de Martin Scorsese, com Willen Dafoe (Cristo), Harwey Keitel (Judas) e David Bowe (Pôncio Pilatos).

Na história de Kazantzakis, aconselhado por um anjo, Jesus desce da cruz e reencontra Maria Madalena. Um tempo depois, após a morte de Maria Madalena, se casa com Marta, passando a viver como um homem comum, até o dia que encontra Paulo que pregava sobre o Messias e seu sacrifício. Jesus desmente essas afirmações, mas Paulo diz que seguirá pregando de qualquer maneira. No final, Jesus vive suas últimas horas, momento em que os antigos apóstolos voltam e o recriminam por não ter consumado sua paixão. Quando Jesus tenta explicar que foi um anjo que lhe deu esse conselho, os apóstolos reconhecem o diabo no suposto anjo. Jesus se levanta do leito e volta ao Calvário para consumar seu sacrifício.

.Para Kazantzakis, “um homem de verdade é aquele que resiste, que luta e que não tem medo de dizer não, nem mesmo que seja para Deus, quando isso é necessário”.

 

José Saramago (1922/2010)

O grande escritor português, José Saramago ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 e será sempre lembrado por ter escrito, em seu estilo inconfundível, obras primas da literatura portuguesa como Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez, Todos os Nomes, o Homem Duplicado e a Caverna, mas foi com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que ele recebeu os maiores elogios dos seus admiradores e as críticas mais pesadas da tradicional igreja católica portuguesa,ao recriar um Cristo humano e preocupado com as questões sociais dos trabalhadores historicamente injustiçados.

Fiel às suas posições políticas de esquerda, Saramago viveu longe de Portugal, nas Ilhas Canárias, seus últimos anos de vida.

No seu Evangelho, Saramago não poupa críticas à religião estabelecida: ”No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade”, ao mesmo tempo em que faz uma releitura dos valores do mau ladrão da versão bíblica: “um homem muito reto, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza”.

Gore Vidal (1925/2012)

Gore Vidal foi um dos maiores escritores americanos. Filho da nobreza política da Costa Leste dos Estados Unidos, escandalizou o mundo literário americano com seu livro A Cidade e o Pilar, de 1948, quando abordou abertamente a questão da homossexualidade.

Sua obra, no final da vida, se concentrou na história da antiguidade greco-romana (Criação e Juliano) e na história americana (Burn. Washington DC, O Império e Lincoln) contadas em forma de grandes romances.

Gore Vidal era um apaixonado pelo cinema, o que levou a ser o roteirista de alguns filmes, inclusive do célebre Ben Hur, de Willian Wyller, no qual ele disse ter inserido um subtexto gay nas relações de Ben Hur com o legionário Massala. O engraçado é que Charlton Heston (Bem Hur) que sempre defendeu posições conservadoras, sendo inclusive presidente da National Rifle Association, disse que nunca percebeu a intenção de Gore Vidal.

Numa obra menor, Ao Vivo, do Calvário, ele usou toda sua ironia para modernizar a história da crucificação do Cristo.

Num determinado momento, a tecnologia para viajar ao passado está sob o domínio das grandes corporações como a General Eletric e das redes de TV dos Estados Unidos.
Uma delas consegue os direitos de transmitir ao vivo a crucificação de Cristo.
A novela relata o desenrolar desse programa levado ao ar diretamente para milhões de lares americanos.

Sobre religião, disse uma vez Gore Vidal: “A idéia de uma boa sociedade é algo que não precisa ser sustentado com religião e punição eterna. Você só precisa de religião se tiver medo de morrer.”

Mailler, Kazantzakis, Saramago e Gore Vidal, com suas visões sobre o Cristo podem ser assuntos interessantes para se discutir agora que se aproxima outra Semana Santa.

Schindler x Janot

Depois da famosa Lista de Schindler, a lista mais falada hoje é a do Janot,que inclui centenas de políticos de todos os partidos brasileiros, acusados de favorecer a corrupção.

 

Como a lista original, a de Schindler, ela é cercada de muita hipocrisia.

 

Era para ser secreta, mas todos os jornais e a televisão  divulgaram os nomes do que nela estão incluídos, juntando prováveis  corrompidos , com possíveis inocentes.

Tudo para atender o roteiro de mais um espetáculo mediático, que Guy Debord já tinha antecipado há alguns anos atrás, destinado a atender os anseios moralistas de uma classe média raivosa, que despreza o jogo político.

Como no caso da lista de Schindler, a do Janot parte de uma base falsa.

Schindler, que virou herói depois do filme que Steven Spielberg fez sobre ele em 1993, era um nazista da pior espécie,  que usava uma aparente motivação política para ganhar dinheiro.

Ele chegou a Cracóvia, na Polônia, em 1939, logo depois da ocupação da cidade pelo exército alemão e com apoio dos oficiais da Wehmarcht  e das SS, adquiriu uma fábrica para produzir panelas para o exército.  Para aumentar seus lucros, ele vai usar judeus do gueto, como operários,  que trocam seu trabalho pela oportunidade de ficar mais tempo vivos. Para isso, ele ganhará a colaboração de Itzhak Stern, um membro da Judenrat – o Conselho Judeu que colaborava com os nazistas – para selecionar seus trabalhadores escravos.

Quando a Polônia é libertada pelo Exército Vermelho, Schindler, pagando grandes subornos a oficiais nazistas, como Amon Goth e Rudolf Hoss, consegue a autorização para levar uma centena de operários judeus especializados junto com a fábrica que transfere para sua cidade natal, na Alemanha, Switt Au-Brinnlitz.

Ou seja, como na atual lista de Janot, os critérios de Schindler eram eticamente duvidosos.

As imensas campanhas eleitorais dos grandes partidos, que assistimos periodicamente no Brasil, com produções caríssimas de televisão e uma logística de viagens dos candidatos, que implicam em grandes investimentos, só podem ser feitas com o apoio dos grandes empresários.

É óbvio, que esses empresários não fazem isso porque estão ideologicamente comprometidos com um partido político e muito menos porque acreditam na democracia. Fazem porque vão cobrar um forte retorno depois, seja qual for o partido escolhido.

Não é sem propósito que todos os partidos com alguma chance de ganhar uma eleição – PMDB, PSDB, PP ou PT – se valem desses investimentos empresariais.

É um dinheiro que, nem os empresários, nem os partidos, têm interesse que sejam contabilizados no seu total.

É ilegal? É

É imoral? Talvez

Mas, se não quisermos ser hipócritas, é do jogo. E desse jogo, participam políticos e empresários desde que os militares voltaram aos quartéis.

Antes que alguém pense que na época dos militares era diferente, é bom lembrar que foram os empresários que financiariam o golpe de 64 e continuaram apoiando o regime militar e lucrando com ele, enquanto isso foi possível.  Tudo isso com uma vantagem a mais: o silêncio imposto pela censura.

A lista de Janot, que prudentemente só começa quando o PT chegou ao governo, inclui  quase todos os políticos importantes que disputaram e ganharam eleições.

É bem provável, que alguns deles, além de se beneficiarem do caixa 2 dos seus partidos, fizeram também alguns negócios particulares com os empresários.

Será que em nome disso, vale à pena causar tantos danos à Petrobrás e punir grandes empresas e não apenas grandes empresários, provocando como conseqüência perversa essa profunda aversão à política que existe hoje no Brasil?

Nunca é demais lembrar que, quando a política é transformada em algo descartável, abre-se a possibilidade para que a democracia, onde ela é praticada, se transforme numa ditadura.

 

A praga do desemprego

O desemprego é a maior praga do sistema capitalista. O desempregado se torna um pária numa sociedade onde o consumo é endeusado e com ele desmorona, quase sempre, toda sua estrutura familiar.

A capacidade de trabalhar é a razão que permitiu separar o homem do restante do reino animal. Foi acompanhando com rigor científico o desenvolvimento das técnicas para controlar as forças da natureza, desde o primitivo homem das cavernas até os dias de hoje, que se tornou possível contar a história da humanidade.

Quem estiver disposto a vivenciar o significado que o desemprego traz para a vida familiar, não precisa se ater aos frios relatórios sobre o mercado de trabalho. Em qualquer sebo da cidade certamente será possível encontrar o livro de John Steinbeck, As Vinhas da Ira, que conta a saga de trabalhadores americanos nos anos de depressão que abalaram a maior economia do mundo, no princípio dos anos 30, do século passado.

Enquanto no escravismo e no feudalismo existia uma relação interpessoal entre as partes envolvidas no trabalho – o dono com o escravo e o suserano com o vassalo – no sistema capitalista, esta relação é inteiramente impessoal. Para os empresários, os trabalhadores são apenas números dentro de uma planilha de investimentos destinados a gerar lucros. Por isso mesmo podem ser removidos de seus empregos para atender o objetivo fundamental da empresa, que é sempre o lucro.

Somente numa sociedade comunista – hoje apenas um sonho utópico – este quadro alienante poderia ser modificado, com o fim da divisão de classes e o estabelecimento da política de pleno emprego.

A vitória da burguesia, com o fortalecimento do sistema capitalista, se foi revolucionária e progressista na medida em que destruiu instituições retrogradas como o escravismo e o feudalismo, criou também uma nova e perversa forma de explorar a força de trabalho dos homens.

Além de se apropriar, como lucro, de uma parte do trabalho não pago, a mais valia, os capitalistas logo se deram conta que manter um exército de reserva no mercado de trabalho, permite chantagear os trabalhadores ativos com ameaças permanentes de demissão.

Com isso, é possível arrochar os salários e negar ganhos trabalhistas. Um simples olhar nos processos de disputa entre patrões e empregados que ocorrem a nossa volta, permite constatar como essa técnica de opressão continua sendo aplicada, nas grandes empresas, nos bancos e mesmo nas instituições de ensino.

Grécia, Espanha, Portugal, com seus índices estratosféricos de desemprego, estão sempre nas manchetes dos jornais, mostrando que o capitalismo esgotou suas possibilidades de gerar novos empregos. Mesmo nos países centrais da Europa e nos Estados Unidos, os índices de desemprego não baixam dos dois dígitos.

A globalização, que permite aos empreendedores das grandes nações interferirem nas relações econômicas de países menos desenvolvidos e o uso de técnicas de produção cada vez mais sofisticadas, que levam a prescindir do trabalho do homem, apontam para um futuro cada vez mais negro para as expectativas de trabalho da maioria das populações em todo o mundo.

Um olhar mais atento para o mercado de trabalho brasileiro ajuda a entender as razões da imensa campanha desencadeada contra os governos Lula e Dilma.

Em março de 2013, a taxa de desemprego no Brasil caiu para 5%, o menor índice registrado pelo IBGE, desde que a instituição começou a pesquisar este segmento em 2002.

A crise cíclica do capitalismo que atingiu os países desenvolvidos e emergentes no mundo inteiro a partir de 2014, levou o empresariado a defender cada vez mais uma política de arrocho nos salários dos trabalhadores, de cortes nos direitos trabalhistas e de demissões em massa.

No caso brasileiro, por mais que os governos do PT tenham transigido em suas políticas em defesa dos trabalhadores, determinadas medidas que interessavam os empresários nunca foram aceitas, daí a necessidade de se colocar no poder um governo, que sem compromissos populares, se dispusesse a cumprir esse papel.

É isso que o governo Temer está fazendo e os seus perversos resultados já apareceram. O índice de desemprego no Brasil subiu no final do ano de 2016 para  1,8%.

Um estudo do Banco Credit Suisse mostra que o quadro é ainda pior. Usando o critério de desemprego ampliado, que soma o número de desempregados com várias formas de subemprego, o banco mostra que entre 31 países desenvolvidos ou em processo de desenvolvimento, o Brasil figura em sexto lugar, com um índice de 21,2%, o que corresponde a 23 milhões de trabalhadores.

A inveja que fingimos não ter

A inveja é o sentimento que move a humanidade para frente. Sem ela estaríamos ainda na idade da pedra.  O mais mal visto dos atributos do ser humano, tanto que figura como um dos sete pecados capitais, a inveja é quem dá a adrenalina que todos nós precisamos para enfrentar a concorrência dos outros, em casa, na escola, no trabalho, no amor, sempre, todos os dias.

Ninguém se orgulha dela. Pelo contrário, todos apontam o seu potencial de auto-destruição, esquecidos de que ela é como certas substâncias ,  que, em pequenas doses funcionam como remédio, mas que em doses maiores são venenos mortais.

Para dar um caráter mais técnico à afirmação acima, fui pesquisar no Google, como todo mundo faz quando quer se exibir, e descobri qual é a substância mais letal do mundo e que mesmo assim virou remédio para a vaidade de homens e mulheres.

Abrir parênteses:

“Ela é tão perigosa que só pode ser fabricada em instalações militares com custo elevadíssimo.

Apesar de ser tão tóxica, esta substância está em altíssima demanda. Muitas pessoas pagam grandes fortunas para injetá-la em suas testas.

Trata-se da toxina botulínica – popularmente conhecida como Botox – que é produzida pela bactéria que foi descoberta em uma fábrica de salsichas no século 18. O nome “botulus” vem da palavra em latim para “salsicha”.

Fechar parênteses.

No momento em que a inveja se instala na mente de uma pessoas, ela  cresce de forma incontrolável e nos acompanha desde que acordamos até a hora de dormir.

Como a nossa civilização se construiu através da repressão desse sentimento natural,  exibimos sua imagem de uma forma pasteurizada, quase sempre disfarçada sob outros nomes,  espírito crítico, na maioria das vezes.

Não admitimos, nem mesmo para nós mesmos, que o sucesso dos outros nos faz mal e que nos sentimos mais merecedores do que eles dos seus prêmios e honrarias.

O sentimento de inveja está potencialmente, em todos nós. Em alguns, ele fica adormecido a vida inteira e nesses casos, as pessoas são consideradas quase santas. Noutros, ele explode com uma violência arrasadora e pode destruir, não apenas contra quem ele se volta, como também contra o seu autor.

Como sempre acontece, é nas artes e não nas descrições científicas, que podemos ver como este sentimento funciona.

Talvez a mais rica e criativa descrição desse sentimento tão perverso, seja do filme Amadeus, que Milos Forman fez em 1984, a partir de um roteiro de Peter Schaff, colocando em dois extremos a genialidade instintiva de Wolfgang Amadeus Mozart e a mediocridade musical de Antonio Salieri.

A inveja extrema e teatralizada de Salieri pelo sucesso de Mozart vai levá-lo a uma guerra com o Deus, que ele jurou servir e no final à loucura e Mozart, à morte.

Veja o filme (no youtube você vai encontrá-lo) e não se envergonhe pela sua inveja, pequena ou quase tão grande como a de Salieri.

 

A ética, a política, o PT e o PSDB

A ética é uma questão pessoal definida por uma determinada época histórica. Certos comportamentos que no passado eram considerados éticos, hoje não são mais. No futuro, novos valores vão balizar o comportamento das pessoas. Quem sabe, daqui a poucos anos, não separar o lixo, seja considerado um comportamento tão antiético como é hoje aceitar uma propina para facilitar determinado negócio.

As instituições políticas não são regidas por estes valores pessoais. Um partido político tem por objetivo conquistar o poder e nele permanecer a maior parte do tempo possível. Como ele é composto por pessoas, muitas delas serão éticas, outras não, de acordo com os valores da época. E, elas estarão tanto no partido A, quando no partido B.

O que deve ser avaliado na questão dos partidos, diferentemente da avaliação das pessoas, é a quem estes partidos, o A e o B, estão representando.  Quais interesses eles servem.

Tomamos, por exemplo, o PT e PSDB, a quem eles servem? Alguém disse e talvez tenha razão, que eles são muito parecidos, na medida em que são ramos nascidos da democracia social européia.

Admitindo este tronco comum, seria preciso pensar no que é, ou melhor, do que foi a democracia social na Europa. Simplificando, diríamos que foi uma concessão da burguesia dominante, dentro do capitalismo ao crescente movimento operário na luta por conquistas sociais. Usando o surrado ditado, foi uma maneira de dar os anéis para salvar os dedos.

Marx disse no seu famoso manifesto que o comunismo era um fantasma que assombrava a Europa. Para exorcizar este fantasma, a burguesia aceitou uma série de reivindicações operárias, desde o limite nos horários de trabalho, às férias remuneradas, à erradicação do trabalho infantil, à igualdade de direitos entre homens e mulheres, até a introdução do sufrágio universal, onde cada pessoa seria um voto.

A partir de 1917, com a vitória da Revolução Soviética, as concessões se ampliaram com o temor da burguesia de que o exemplo russo pudesse contaminar as massas trabalhadoras do resto da Europa. De conquista em conquista, os trabalhadores chegaram até o chamado Estado do Bem Estar Social, que a nova crise geral do capitalismo está jogando hoje para a lata do lixo.

O que a ver tudo isso com os herdeiros tropicais da social democracia, o PT e PSDB?  Os dois representam mais um remendo na já desgastadas veste capitalista. Mas, para os milhões de brasileiros que vivem do seu trabalho, estes dois remendos têm significados muito diferentes.

Nenhum dos dois vai nos livrar do jugo capitalista, mas o projeto do PT, ao contrário do PSDB, vai permitir que milhões de pessoas vivam em condições mais humanas, sejam mais saudáveis, que tenham acesso aos bens de consumo, que se instruam e possam chegar através da educação à percepção de que hoje são instrumentos do jogo político, mas que amanhã poderão vir ser sujeitos desse jogo.

O projeto do PSDB, objetivamente visa retornar a um modelo de dependência política e econômica aos interesses norte-americanos. Embora talvez não possam dizer isso com todas as letras, os formuladores dessa política neoliberal acreditam que abandonando a solidariedade com os países africanos e latino-americanos e nos entregando de braços abertos ao ditado de Washington, seremos mais felizes. Aliás, esta não é uma idéia nova. Juraci Magalhães, um precursor desse tipo de pensamento, já disse há muitos anos atrás: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.

Para o Brasil que ele representava e que hoje é encarnado por Aécio Neves, Alckmin e FHC e seus sócios, talvez seja bom mesmo. Para o restante da população não.

O que está por trás da adesão aos interesses norte-americanos não fica para o Brasil apenas na troca de afagos, antes reservados para Bolívia, Equador e Cuba, por um lugar na mesa dos ricos. Esta nova política adesista significa basicamente desistir dos sonhos de desenvolvimento autônomo, de privatizações em áreas fundamentais, como a do petróleo e de arrocho salarial.

É preciso que as forças de oposição ao governo Temer superem suas divergências quanto a melhor estratégia política a seguir e se unam nos pontos que possam ser comuns, antes que seja tarde demais.

.Em 1964, se falava na tibieza do governo Jango e de que seus avanços propostos eram pequenos e enganadores. Naquela ocasião, os que poderiam defender aquele governo, que com todas duas fraquezas, tinha uma proposta reformista, também foram incapazes de se organizar em torno de um programa comum

Aí veio o golpe dos militares. Todas as conquistas foram perdidas e vinte anos depois foi preciso começar tudo de novo. Nossas maiores lideranças desapareceram e só sobraram os Tancredos, os Sarneys, os Ulysses e os Simons para liderar o recomeço.

E por que não se falou até agora no PMDB, que afinal, nominalmente ao menos, é a cara do Governo Temer ?

Porque até aqui se discutiu ideologias e o PMDB, com todo o respeito por alguns de seus membros, no passado e até mesmo no presente, só pensa em fisiologia.

Penso, logo duvido

No Dia da Mulher fiz uma pequena provocação na minha página no facebook, lembrando o que disse o Millôr Fernandes, de que o mais importante movimento feminista era o dos quadris.

Disseram que o Millôr tinha posições de direita.

Não tinha, não.

Ele e muito mais o Nelson Rodrigues, eram anarquistas e sempre duvidavam das verdades estabelecidas.

Infelizmente, todos esses movimentos que dizem representar as minorias (as mulheres, os negros, os LGBT, os indígenas) são profundamente maniqueístas e vivem de verdades estabelecidas, quase dogmas religiosos que não podem ser contestados e nem ao menos discutidos.

Não que eles não tenham razão.

Têm.

Não, que não devam dramatizar seus eventos fundadores.

Devem.

O problema é que eles não aceitam contestações as suas verdades e nada melhor do que uma contestação ao que pensamos, para que possamos aprofundar nossas certezas.

Nós, que nos pretendemos comunistas, sabemos bem como isso funciona.

Admirávamos de uma forma quase religiosa a Stalin, como o “genial condutor dos povos”, até que Kruchiov,  no seu famoso relatório secreto, apontou todos os seus crimes. Fizemos o mesmo com Prestes, no Brasil. Desiludidos, acreditamos na Perestroika e na Glasnost de Gorbachiov,  até nos darmos conta que seu papel foi fundamental para o esfacelamento da União Soviética.

Agora surge o escritor italiano Domenico Losurdo , com o seu livro A História e a Crítica de uma Besta Negra, falando sobre a demonização de Stalin e de certa forma, tentando recuperar a sua imagem

Duvidar sempre, prontos a mudar para melhor o que pensamos, pode ser o melhor caminho, pois como dizia o Barão de Itararé mudar uma idéia não é ruim. Ruim é não ter uma idéia para mudar.

É preciso enxergar nos homens e nos fatos toda a sua complexidade.

Nelson Rodrigues defendeu a ditadura, mais para provocar a esquerda que ele achava pouco inteligente do que por acreditar nela, mas ela, a ditadura, prendeu e torturou seu filho.

Millor dizia que livre pensar é só pensar e ironizava os militares no Pif-Paf, mas foi o único que não foi preso, quando toda a redação do Pasquim foi para a cadeia, possivelmente para o incompatibilizar com seus companheiros.

Lula foi preso pelo delegado do DOPS, Romeu Tuma, mas cultivou uma estranha amizade com ele, a tal ponto que o filho de Tuma escreveu um livro dizendo que Lula passava informações do movimento sindical.

Nem por isso, Lula deixou de representar uma esperança de retorno do Brasil à democracia perdida no golpe contra Dilma.

Os nazistas ocuparam boa parte da França durante quatro anos e os franceses ainda hoje gostam de exaltar os feitos da sua resistência.

Esquecem que um dos seus maiores romancistas, Cèline, defendeu abertamente os nazistas em seus livros.

Que Sartre nunca foi incomodado pelos ocupantes alemães.

Que Maurice Chevalier e Edith Piaf cantaram em campos de concentração de prisioneiros alemães pagos pelos nazistas.

Que Cocô Chanel vivia no Hotel Ritz com o amante, um oficial alemão.

Que o famoso diretor de cinema Sacha Guitry era amicíssimo do embaixador alemão, Otto Abetz.

Que Picasso viveu em Paris sem ser incomodado durante a ocupação e que se recusou a assinar uma petição pedindo a libertação do poeta Max Jacob.

Esquecem, finalmente, que o famoso arquiteto Le Corbusier, para agradar às autoridades nazistas das quais precisava para financiar seus projetos, chegou a afirmar que “a sede dos judeus por dinheiro corrompeu a França.”

É preciso questionar certas “verdades” e desfazer algumas “mentiras”.

Israel é uma democracia, pelo menos para os judeus.

Mas, impediu que um judeu norte-americano, Norman Finkelstein, filho de pais assassinados em Auschvitz, desembarcasse em Tel  Aviv.

Motivo: ele escrevera um livro chamado A Indústria do Holocausto, denunciando interesses escusos de alguns na divulgação do episódio.

Cuba é uma ditadura que não dá liberdade de expressão aos cubanos.

Apesar disso, Cuba permite que a blogueira Yoani Sanchez, paga pelo jornal espanhol  El Pais, continue falando mal do governo e o escritor Leonardo Padura fique rico, escrevendo seus livros sem sair da Ilha, em nenhum deles falando bem da Revolução Cubana.

No Dia da Mulher ouvi os discursos das vereadoras Sofia Cavedon e Fernanda Melchionna, duas valorosas defensoras do movimento feminista, do qual parecem disputar a liderança, e mais uma vez me dei conta de como elas perderam uma bela oportunidade de discutir a importância da luta histórica das mulheres ao preferirem apenas lançar, em altos decibéis, palavras de ordem que, pela repetição, se tornaram inócuas

Com o que sonham os professores

Os professores estaduais anunciam uma greve para o dia 15. Protestam por melhores salários, condições de trabalho e pelas ações  dos governos Temer e Sartori contra a educação.

É uma greve política?

Felizmente sim, o que mostra a conscientização, pelo menos dos professores, sobre a necessidade de lutar por seus direitos.

A Rosane Oliveira já disse na Zero Hora que a greve vai ser um fracasso e possivelmente vai ser mesmo.

Uma amiga, bastante intelectualizada, disse que os professores deveriam buscar novas  formas de luta e que essa greve  não levará a nada.

Será que minha amiga defende que os professores tomem na marra o Ministério e a Secretaria da Educação?

Provavelmente, não.

O que será então que esses críticos esperam que os trabalhadores façam?

As mulheres camponesas que marcharam no dia 8 em direção ao centro de Porto Alegre foram criticadas em Zero Hora porque picharam as ruas com o slogan Fora Temer e frases contra a reforma da Previdência

Não adianta nada, disse a renomada jornalista, porque os parlamentares não ouvem a voz das ruas

Novamente deve ter razão.

Meu amigo, o jornalista e professor, Tibério Vargas, escreveu emocionado texto no facebook, lamentando que depois de 30 anos como professor na PUCRS, ao pedir demissão, não recebeu nem um muito obrigado da direção da faculdade.

A universidade pagou em dia, sempre, seus salários, por que então reclamar do que o sistema capitalista não tem para dar?

Por que as pessoas não são máquinas e não querem apenas salários. Querem também o reconhecimento pelo seu trabalho.

Por isso, elas não devem aceitar as injustiças do sistema e mesmo que não possam mudar agora, devem lutar para que um dia isso seja possível.

Mao Tse Tung dizia que o caminho para a vitória passa por muitas derrotas e Lenin afirmava que é preciso sonhar sempre.

E eles foram vitoriosos,depois de múltiplas derrotas.

Então, os professores, e todos nós junto com eles,devemos saber que vamos viver ainda muitas derrotas, o que nunca nos impedirá de sonhar com a vitória final.

Com o que sonhamos?

É melhor deixar o grande poeta Carlos Drummond de Andrade contar com o que sonhamos

‘Uma cidade sem portas, de casas sem armadilha,

Um país de riso e glória como nunca houve nenhum.

Este país que não é meu nem vosso ainda, poetas.

Mas ele será um dia o país de todo homem”.

Obsolescência Programada, como isso afeta sua vida.

A Obsolescência Programada é que sustenta o sistema capitalista. O termo foi usado pela primeira na década de 20 para se referir a ação de Alfred Sloan, presidente da General Motors, para estimular as vendas dos carros que produzia

Hoje, foi incorporada a estratégia das grandes empresas internacionais, principalmente aquelas que fabricam o que os marqueteiros consideram produtos cujo uso projeta um determinado status para o seu usuário e vão do automóvel, ao celular, ao tênis e até mesmo aos preservativos.

Traduzindo o palavrão para o português do nosso dia, é aquele verniz que encobre o defeito do móvel antigo, aquele polimento que esconde o arranhão do carro ou puxadinho no fundo da casa para criar um novo quarto.

Ou seja, o produto continua basicamente o mesmo, mas sua aparência fica muito melhor.

Agora, imagine essa prática artesanal, multiplicada por mil, com o uso da mais alta tecnologia e temos então a Obsolescência Programada.

Como no sistema capitalista não se produz para atender as necessidades das pessoas, mas sim para gerar mais lucros para os empresários, é preciso que as pessoas considerem velhos, o carro do ano anterior, o celular, o tênis e milhares de outros produtos.

Como uma empresa que produz tênis, por exemplo, não pode fabricar geladeiras, e mesmo que todos os possíveis compradores já tenham comprado  seus modelos do ano anterior, ela precisa continuar vendendo seus tênis.

Então, usando as chamadas técnicas de marketing, ela precisa convencer os usuários de tênis comprados em 2016, que esse é um modelo ultrapassado e que eles precisam comprar o modelo 2017, ainda que a grande diferença entre um e outro seja apenas uma pequena tira colorida no solado.

O sistema capitalista só funciona assim, por isso ele é irracional e destrutivo, gerando um enorme desperdício de materiais.

Só uma economia planificada que produzisse o que as pessoas precisam, seria algo racional e ela só é possível num sistema socialista de produção.

Muito bem e por que não deu certo na União Soviética, que pelo menos teoricamente foi um regime socialista?

Em 1917, os revolucionários comunistas imaginaram que os eventos na Rússia seriam o estopim que iria provocar uma revolução socialista em toda a Europa, principalmente na Alemanha, mas isso não ocorreu e foi preciso tentar construir um modelo não capitalista em um só país, inicialmente por uma necessidade objetiva e mais tarde por decisão política de Stalin.

Ocorre que num país isolado, atacado por exércitos estrangeiros e enfrentando resistências armadas internas, o ideal de democratização das decisões econômicas foi sendo sempre adiado e acabou sendo esquecido, porque em torno de Stalin já havia se formado um grupo (a chamada nomenklatura) que se sentia confortável exercendo um poder absoluto

O mais trágico é que Stalin adotou a mesma lógica de produção capitalista, investindo apenas em determinadas áreas da economia, procedimento que Lenin já havia criticado nos seus últimos anos de vida.

Enquanto a União Soviética investia pesado em bens de produção, principalmente nas tecnologias militares, faltavam casas para as pessoas morarem com alguma dignidade, automóveis, geladeiras e telefones.

É claro que durante a segunda guerra mundial, foi essa opção de Stalin que permitiu ao Exército Vermelho derrotar o nazismo, mas a conquista da mente das pessoas para o modelo socialista estava perdida.

Quando a revolução tecnológica, representada inicialmente pela internet, conquistou as pessoas no mundo inteiro, aquele modo stalinista de dirigir  a economia e que seus sucessores continuaram seguindo, esboroou de vez.

Nada que nos impeça de continuamos sonhando com algo melhor para a humanidade do que essa roda vida representada pela Obsolescência Programada.

No cinema, uma boa demonstração do que, como ela é nociva para a sociedade pode ser vista no filme O Homem do Terno Branco (The Man in the white Suit), 1951, de Alexander Mackendrik, com o inesquecível Alec Guinness ( 1914-2000), aliás, Sir Alec Guinness.

O filme conta a história do químico Sidney Stratton, que cria um tecido feito de uma fibra que repele a sujeira, não desbota e dura para sempre. Em vez de aplausos, ele vai ser perseguido pelos donos da indústria de tecidos, que temem perder seus lucros e pelos em pregados que temem perder seus empregos.

Na vida real, uma prova que o capitalismo se preocupa apenas com o lucro é a experiência com a “Centenial Bulb”, uma lâmpada criada por Adolf Chaillet em 1901, que está ligada até hoje e é conservada no posto de bombeiros 6, em Livermore, no norte da Flórida.

A diferença é que ela usa filamento de carbono muito mais durável que o tungstênio usado nas lâmpadas comuns.

Obviamente, não interessa aos capitalistas vender uma lâmpada que você irá comprar uma só vez na vida.

Então, não espere desaparecer os automóveis movidos por derivados do petróleo, nem aviões comerciais supersônicos voando com mais rapidez pelo mundo inteiro porque não é exatamente o progresso que interessa ao sistema capitalista, mas o lucro.

Meu tipo inesquecível

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Sozinho em Gramado, devia com urgência encontrar algumas coisas para passar o tempo, além dos jogos de futebol na televisão, as palavras cruzadas e os livros que, mesmo com centenas de páginas, duravam muito pouco.

Pensei, quem sabe, escrever em muitos capítulos, a história de algum personagem que despertasse interesse nos leitores e pudesse um dia se transformar num livro?

Diga-se de passagem, que publicar um livro sempre foi uma obsessão para mim e para muitas pessoas que, como eu, em algum momento da vida, se acharam em condições de escrever algo que pudesse interessar aos outros.

Quem sabe, com o objetivo inicial de passar o tempo, eu não alcançasse essa meta?

Foi quando decidi escrever uma história de um personagem que fosse bastante interessante, digamos para um leitor comum, obviamente alguém que lesse mais que os jornais diários, mas que não me avaliasse pelos mesmos critérios estéticos que lê uma obra do Gabriel Garcia Marques, do Érico Veríssimo ou até mesmo da Martha Medeiros.

Primeira tarefa seria então, encontrar o tal personagem, alguém cuja vida fosse cheia de aventuras, alguém cujos feitos provocassem a admiração das pessoas.

Nada de um livro com personagens pensadores e cheios de filosofia. Parece que nessa nova sociedade de consumo, os leitores querem ação, aventuras, que não encontram nas suas vidas reais.

Um aventureiro, um herói, um grande esportista, um grande ator, um milionário excêntrico, qualquer um desses personagens ajudaria a chamar a atenção para a história, mas quantos desses personagens, eu conhecia com algum grau de profundidade, para me atrever a contar suas vidas?

Poucos, talvez nenhum.

Teria que fazer uma longa pesquisa, conhecer a fundo este personagem, saber de sua vida em todos os detalhes, algo que exigiria muito tempo, atenção e, também, dinheiro para financiar este trabalho, coisa que, vamos deixar claro, não tinha.

Além disso, não atenderia o objetivo inicial de passar o tempo em Gramado. Exigiria viagens, estudos, pesquisas de campo.

Mas, se fizesse uma revisão da memória, será que não encontraria um personagem pronto, acessível ao que pretendia?

Quem seria a pessoa que conheço mais profundamente no mundo, pessoa sobre a qual tenho uma memória completa, cheia de detalhes e curiosidades?

Obviamente, eu mesmo.

Embora isso possa parecer uma impossibilidade sob o ponto de vista freudiano, acho que conheço bem e me lembro dos principais momentos da minha vida, salvo alguns lapsos de memória que possam ser atribuídos a indícios de uma senilidade precoce.

Seria uma versão atualizada daquela secção que costumava ler nas Seleções  do Reader’s Digest, quando era apenas um menino em Farroupilha, Meu Tipo Inesquecível.

Então, o personagem eu já tinha, mas isso não resolvia totalmente o problema. Quais seriam os fatos desse personagem que pudessem caracterizar uma vida de aventuras capaz de interessar a hipotéticos leitores, algo que fizesse dele um personagem inesquecível?

Já disse antes que sou uma pessoa comum, sem grandes acontecimentos na vida.

E, então?

Então, eu voltei a Porto Alegre, recomecei a encontrar parentes e amigos, a freqüentar outras vezes as salas de cinema, mas a idéia de escrever um livro, uma biografia livre, ou melhor, uma fantasia biográfica, não me abandonou.

Fazendo uma rápida retrospectiva na minha vida, vi que em alguns momentos, se tivesse tomado uma decisão diferente da que tomei, mais do que isso, se tivesse tomado uma decisão e não deixado as coisas correr no seu curso normal, poderia ter sido um guerreiro no Oriente Médio, um jogador de futebol de prestígio internacional, um advogado famoso, um rico empresário ou, quem sabe, um ator reconhecido nacionalmente.

Como o que pretendia escrever era uma obra de ficção, nada impediria de que no último segundo antes da decisão que me fez ser mais uma pessoa comum no mundo, eu tivesse seguido outro caminho.

O que aconteceria então com este personagem que chamaremos apenas de Marino?

A primeira oportunidade, eu a desperdicei, ao nascer num dia 15 de agosto, do distante ano de 1939. Como naquela época, as crianças nasciam nas casas de suas mães, assistidas por uma velha e prática parteira, eu perdi a oportunidade de ser trocado na maternidade.

Não posso contar uma história de uma troca ao nascer, porque fui o único a nascer, naquele dia de inverno, naquela casa da Avenida Veneza, nome que trocaram para Buarque de Macedo por causa da guerra.

Depois, supondo que tivesse nascido na Beneficência Portuguesa e não em casa, não estaria sendo nenhum um pouco original. Já se contaram várias histórias dessa troca em maternidades, fazendo com que filhos de ricos, fossem condenados a viver como pobres e filhos de pobres chegassem à riqueza.

Eu seria o filho de casal pobre, que viveria como rico, até o dia em que inesperadamente conheceria a mãe biológica, por uma inexplicável atração dos sentidos.

Algo difícil de acreditar, hoje em dia.

Vamos então esquecer essa possibilidade, primeiro porque nasci numa casa da Avenida Veneza, hoje Buarque de Macedo, número 708, no bairro São João, em Porto Alegre e segundo porque seria um terrível dramalhão, no qual nem aquelas senhoras da Vila do IAPI, ainda acreditam

Vamos começar então essa história 16 anos depois, estabelecendo as seguintes premissas: o cenário é o velho estádio dos Eucaliptos, do Internacional, na Rua Silveiro, Bairro Menino Deus, Porto Alegre.

O personagem principal, o grande herói será sempre eu. Os demais, serão simples coadjuvantes. Fica estabelecido que, poderei a qualquer momento, modificar os fatos reais e introduzir personagens fictícios sem qualquer aviso prévio.

Como condutor dessas histórias, terei sobre elas o domínio completo, nada me obrigando a respeitar, quando interferirem em situações já conhecidas, a verdade do que aconteceu realmente.

Vamos então à esta primeira aventura, abrindo as portas da fantasia, sem qualquer compromisso com pessoas e fatos reais.

Essa primeira história terá o título de O Gênio da Bola começará assim:

Era o terceiro gol que eu marcava naquele Grenal, quando inesperadamente…

Cidade é civilização

A cidade, principalmente a grande cidade, é a forma mais civilizada que o homem já encontrou para estabelecer uma relação construtiva com outros homens.

É só nela que existe o espaço suficiente para que ele realize todas suas potencialidades como ser político, como construtor, como artista.

Desde a pólis grega, foi sempre nas cidades que o futuro da humanidade foi escrito. O renascimento não existiria sem Firenze e Roma. As caravelas que fizeram os grandes descobrimentos  partiram de Gênova e Lisboa. A Revolução Francesa aconteceu em Paris. Foi com a tomada do Palácio de Inverno em São Petersburgo que se deu início à Revolução Comunista.

 

As Torres Gêmeas, cuja destruição provocou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, estavam em Nova York.

Juscelino dizia que o Brasil precisava de uma nova cidade como capital e Niemayer e Lúcio Costa construíram Brasília, essa bela e grande cidade onde antes não havia nada.

Os poetas populares cantam sempre as grandes cidades, como o Rio de Janeiro.

Quem não lembra Cidade Maravilhosa, de André Filho, que virou hino oficial do Rio.

“Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil”

 

São Paulo. É possível escolher entre Sampa, do Caetano Veloso e o Samba do Arnesto do Adoniram Barbosa

“Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de tuas meninas”.

“O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás. Nós fumos, não encontremos ninguém. Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez, nós num vai mais.Nós não semos tatu”.

Porto Alegre. Pode ser Porto Alegre é Demais, do Fogaça:  “Porto Alegre me faz tão sentimental. Porto Alegre me dói. Não diga a ninguém, Porto Alegre me tem. Não leve a mal, a saudade é demais. É lá que eu vivo em paz”, ou o Grupo Graforreia Xilarmônica, com Amigo Punk:” Pega a chinoca, monta no cavalo e desbrava esta coxilha. Atravessa a Osvaldo Aranha e  entra no Parque Farroupilha.

Os poetas maiores, como Carlos Drummond de Andrade, também cantaram as cidades

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

Onde antes havia um campo aberto, um lugar selvagem e sem ordem, o homem organizou os caminhos. Traçou ruas, criou praças, tornou possível a proximidade entre as pessoas. Criou espaços: aqui a escola, ali a igreja, mais adiante o teatro, o estádio para esportes, e pôs tudo isso em mapas, para as pessoas pudessem rapidamente chegar aos seus destinos.

Pena que a maioria delas seja ainda cidades divididas por muros e cercas que separam brancos, de negros, ricos, de pobres.

Mas isso não é culpa das cidades. É culpa do sistema capitalista, que as criou quando destruiu o feudalismo, mas que não percebe que seu tempo terminou e não dá lugar ao novo, ao socialismo.

Eu gosto muito das cidades, como também um dia cantou Renato Russo (Acho que gosto de São Paulo e gosto de São João. Gosto de São Francisco e São Sebastião).

Gosto de Paris, de Porto Alegre, de Berlim, de Pelotas, de Amsterdam, de Viamão, da Colônia do Sacramento, de Torres, de Rothenburg ob der Tauber, de Lujan, de São Miguel das Missões, da Pinheira, de Karlov Vary, de Rio Grande, de Cuzco, de Cidreira, de San Pedro do Atacama

 

e também de Sebastião do Caí.