Os perversos

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Grandes romances exigem grandes personagens. Gente comum como nós, pequenos burgueses, preocupados em viver honestamente seus dias sempre iguais, certamente não interessariam aos melhores contadores de histórias. O máximo de argumentos que poderíamos oferecer daria apenas para uma história típica do neo-realismo italiano ou do cinema novo brasileiro, exemplos de uma estética que ficou no passado.

Monstros, assassinos impiedosos, estes sim, têm material de sobra para escritores de talento que pretendam entender até que pouco a maldade pode fazer parte da vida humana.

Mas para chegar lá é preciso, além de talento, que o candidato a escritor esqueça seus valores morais e se disponha a mergulhar na psique complexa dessas pessoas que se recusam a seguir as normas da civilização, que segundo Freud envolve uma renúncia às pulsões mais sombrias que todos nós temos em algum momento da vida.

Vamos falar de dois escritores americanos, que em seus livros, chegaram ao fundo da perversidade de alguns homens, Norman Mailler e Truman Capote.

Poderíamos começar com Fiodor Dostoievski, com o celebre Crime e Castigo, mas seu personagem, Raskolnikov, nos leva mais para um ensaio sobre o poder, a culpa, e o  perdão,dentro de uma visão até certo ponto religiosa, ao contrário de Mailler e Capote, que não julgam, apenas relatam o que enxergam.

Quem no Brasil poderia seguir por este caminho?

Talvez, Rubem Fonseca, mas há tempos não se houve falar dele.

Ficamos então com os americanos, começando por Mailler.

Norman Mailler (1923/2007) teve uma vida que certamente daria também um romance ou um filme, do qual as pessoas sairiam do cinema, dizendo que não era uma história verdadeira. Escreveu alguns dos mais importantes romances americanos e biografias que deram o que falar. Ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer, o mais valioso do jornalismo americano. Pela sua oposição à guerra do Vietnam ficou preso durante dois anos, foi candidato derrotado à Prefeitura de Nova York, foi casado seis vezes e teve oito filhos.  Em 1960, depois de uma bebedeira, esfaqueou a mulher, mas como ela não quis prestar queixa, ficou poucos dias na prisão.

Em 1979, regiamente pago por uma revista americana, foi a Salt Lake City para entrevistar a Gary Gilmore, que acusado de dois crimes de morte, se recusava a fazer qualquer petição de clemência e de participar do tradicional jogo jurídico norte-americano de condenações e suspensões da execução da pena.

O que escreveu se transformou num livro de mais de mil páginas, chamado A Canção do Carrasco (The Executoner´s Song) e conta a vida de Gilmore, desde os assassinatos que cometeu em Provo e dos quais nunca se arrependeu, até a sua execução final, quando desafiou os soldados que iam atirar contra o seu peito, com essa frase: “acabem logo com isso”.

Truman Capote (1924/1984), nasceu  Truman Streckfus  e mais tarde adotou o sobrenome Capote, do seu padrasto cubano.  Era um homossexual assumido, frequentador das rodas de ricos de Nova York, escritor do livro Bonequinha de Luxo (Breakfast  at Tiffany), que Audrey Hepburn tornou famoso no mundo inteiro,  em 1961, na sua versão para o cinema, com direção de Blake Edward, quando largou tudo em Nova York e foi para o Kansas atrás da história do assassinato dos quatro membros da família do fazendeiro  Herb Cluter,na pequena cidade de Holcomb, pelos jovens Richard Hickock e Perry Smith.

Capote entrevistou praticamente todas as pessoas da comunidade, leu todos os documentos referentes ao caso e se aproximou tanto dos acusados, que dizem ter dito um romance com um deles, Perry, e acompanhou o caso até o seu desfecho final, com o enforcamento dos acusados em abril de 1965.

Levou quatro  anos escrevendo seu romance, que ele denominava de romance não ficção, A Sangue Frio (In Cold Blood), publicado inicialmente em quatro partes pela revista New Yorker, em setembro de 1965, cinco meses após a morte dos principais personagens.

Capote foi escrevendo sua história durante quatro anos, praticamente enquanto ela se desenrolava ao vivo. Quem lhe ajudou nesse trabalho foi Harper Lee, que ficou famosa com seu único livro, enquanto viva,  Sol é Para Todos ( Vá, Coloque um Vigia, é uma obra póstuma).

No cinema, À Sangue Frio, deu a Philip Seymour Hoffmann, o Oscar de melhor ator em 2005, quando interpretou Capote, num filme dirigido por Bennet Miller, chamado simplesmente Capote.

Antes disso, em 1967, Richard Brooks já havia filmado a história com o nome original, de A Sangue Frio.

Em 2006, uma nova versão da história apareceu, Confidencial , com direção de Douglas Mc Grath,  centrada mais na relação de Capote (Toby Jones) com o criminoso Perry

Capote, mesmo depois de morto, continuou provocando polêmicas e não apenas pela sua obra, mas por uma disputa inusitada de suas cinzas entre sua amiga Joane Carson e Jack Duphy, seu companheiro de muitos anos.

 


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