O golpe na Venezuela

O novo golpe parlamentar da direita, hoje na Venezuela, tem uma história.

Não é por acaso que tenha começado no Paraguai essa fórmula moderna de golpe de estado contra governos progressistas, usando uma maioria ocasional no Parlamento.

De 1954 a 1989, o Paraguai foi governado por uma ditadura chefiada pelo General Alfredo Stroessner.

Em 2008, Fernando Lugo, um bispo católico e ativista de esquerda, chegou a Presidente da República, mas como aconteceria com outros representantes dos movimentos populares da América Latina, foi apenas tolerado pelas elites empresariais do Paraguai, que sonhavam com a volta de um regime que defendesse seus interesses acima de tudo.

Em 2012 foi destituído do seu cargo pelo parlamento, inaugurando uma nova forma de golpe de estado que logo faria escola na América com a derrubada do governo legítimo de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

A crise econômica mundial e a incapacidade dos governos reformistas, que surgiram em vários países sul americanos, de radicalizar o processo de transferência de renda para as populações mais pobres, retirou uma parte do apoio que tinham da maioria da população e facilitou esse novo tipo de golpe.

No caso da Argentina, a direita não precisou apelar para esta medida e chegou ao poder através das eleições, com Macri.

Quem ainda resiste a este processo é a Venezuela, onde um exército fortemente politizado garante ao Presidente Maduro o direito de continuar exercendo o poder que lhe foi conferido pelo povo.

Por quanto tempo, é difícil afirmar.

Aproveitando que os preços do petróleo, base da economia venezuelana, foram artificialmente rebaixados pelos interesses americanos de agir contra grandes produtores como o Irã e a Rússia, mas cujas conseqüências chegaram também à Venezuela, uma maioria parlamentar, apoiada pela grande mídia e diretamente, durante o governo Obama, pelos Estados Unidos, tenta derrubar o governo de Maduro.

Reagindo a este golpe, o Supremo Tribunal de Justiça, assumiu as funções do Congresso, depois que esse desacatou uma determinação judicial e deu posse a três deputados condenados por corrupção.

A frente golpista de direita na Venezuela já conta com o apoio explicito do presidente da Organização dos Estados Americanos, um braço político dos interesses americanos, Luis Almagro e do Itamarati. Apenas a presidente do Chile, Michelle Bachelet, falou de forma institucional condenando qualquer situação que “altere a ordem democrática” na Venezuela, o que fundamentalmente significa o afastamento de Maduro.

Como não poderia deixar de ser, toda a mídia brasileira assume as versões dos golpistas venezuelanos, falando em defesa da democracia, exatamente como fizeram no golpe arquitetado contra Dilma no Brasil, cujo principal artífice foi o deputado Eduardo Cunha, aquele que, de herói, foi transformado em bandido para salvar os pruridos moralistas da classe média brasileira

 

Assim caminha a humanidade

 

 

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes  (Manifesto Comunista)

Logo após um período em que os homens exploraram comunitariamente as poucas riquezas que lhes eram oferecidas para a sua sobrevivência, começou um longo processo de separação das pessoas em classes sociais, que se distinguiam basicamente pela sua relação com o trabalho.

Pouco a pouco, foi se formando uma minoria, que pela força física e habilidade no uso dos precários mecanismos de sobrevivência então existentes, foram exercendo uma liderança sobre os demais, que com o passar dos tempos se transformou na mais pura exploração do trabalho alheio.

Durante séculos, a sociedade humana foi se modificando tendo sempre como referência a forma de relacionamento dos grupos sociais com sua grande fonte de riqueza, o trabalho. Embora não tenha sido concomitante em todas as partes do mundo onde grupos sociais se formaram, houve uma evolução nesse relacionamento, passando por períodos que, a grosso modo, foram denominados de escravismo, feudalismo e capitalismo.

Cada um desses períodos representou um avanço em termos de progresso material sobre o anterior e só foi superado pelo seguinte quando a sua ordenação social se tornou um entrave para o desenvolvimento como um todo. Em comum, embora sempre com formatos diferenciados, todos eles  apresentaram uma divisão de classes, com um grupo minoritário vivendo da força de trabalho do grupo majoritário.

Embora essa divisão social tenha sido o motor a estimular o crescimento material da sociedade humana, setores mais sensíveis à clara injustiça que ela trazia como consequência, nunca deixaram de sonhar com uma volta à sociedade primitiva e ao igualitarismo. Em muitos casos, essa nostalgia pelo passado se transformava numa forma utópica de socialismo, a ser conquistado pela boa vontade das pessoas. Em outros casos, se manifestava como uma revolta contra o progresso, como no caso dos seguidores de Ned Ludd, na Inglaterra de 1811, que destruíam as máquinas que lhe roubavam os empregos.  Era o chamado “ludismo”, um movimento operário inspirado em idéias anarquistas.

Foi somente depois que a industrialização e o colonialismo enriqueceram as nações européias, na segunda metade do século XIX e nos primeiros anos do século XX, que o sistema capitalista de exploração das riquezas se firmou e passou a exercer um domínio mundial, transformando o que era antes fenômenos restritos a determinadas nações, num acontecimento que superou todas as fronteiras. Em conseqüência, os setores dominantes do capitalismo passaram a se concentrar na Inglaterra, nos países do centro da Europa, principalmente França e Alemanha e mais tarde nos Estados Unidos.

Com isso começa surgir com destaque o fenômeno do imperialismo, que seria a fase mais avançada do capitalismo, quando não apenas as pessoas se transformavam em objetos, mas também as nações mais fracas, ainda que formalmente capitalistas, se transformavam em caudatárias das mais fortes.

Inevitavelmente, também como conseqüência da criação de novas formas de capitalismo, a oposição ao sistema por parte dos mais sacrificados pelo processo, os trabalhadores, se tornou mais radical e organizada. Dentro desse quadro é que surge a figura genial de Karl Marx, que apoiado pelo tripé formado pelas antigas idéias socialistas, principalmente dos franceses; pela filosofia dialética alemã de Hegel e pela economia política inglesa,  formula a sua tese sobre a possibilidade de superação do capitalismo burguês por uma nova forma mais avançada de vida social.

No seu famoso Manifesto Comunista de 1848, junto com Engel, faz uma retrospectiva histórica do desenvolvimento das forças produtivas e propõe uma estratégia para a criação de uma sociedade onde as pessoas seriam avaliadas apenas pelas suas qualidades pessoais e não pelo pertencimento a um determinado grupo econômico. O apelo final do manifesto –  Proletários do mundo, uni-vos – é sinal de que o caminho para a superação do sistema capitalista, assim como ele, também teria que ter um caráter internacional.

O marxismo, nome pelo qual foram sintetizadas as idéias de Marx e Engel, se transformou desde então na principal bandeira de luta dos movimentos operários na Europa. Para os dois teóricos, as condições ideais que propiciariam uma revolução com o caráter comunista se localizavam principalmente na Alemanha e na Inglaterra, mas foi na economia capitalista dependente da Rússia, que subitamente elas se tornaram mais vivas por algumas razões históricas objetivas.

O capitalismo russo mesclava uma forte concentração operária nas suas grandes cidades, principalmente em São Petersburgo, com uma economia camponesa, vivendo com resquícios do feudalismo e altamente explorada por uma corte dissoluta e decadente dos czares.  Rapidamente, estes grupos operários se tornaram adeptos das idéias socialistas de inspiração marxista,  em suas três vertentes principais – a dos mencheviques,a dos bolcheviques e a dos socialistas revolucionários – e se organizaram em sovietes, uma espécie de parlamento operário.

Durante os primeiros anos do século, a Rússia se transformou num cenário de lutas políticas cada vez mais agudas de contestação ao regime tzarista, cujos principais episódios foram a revolta no Encourado Potenkin em 1904 (a história seria contada em 1925 por Sergei Eisensten, no que é considerado um dos mais importantes filmes da história do cinema) e a tentativa de revolução de 1905, sufocada pelas tropas do Czar.

Em 1917 a revolva da população contra o Czar chegaria ao seu ápice em duas etapas: em fevereiro, quando uma coligação entre os sovietes, nesta altura já de operários e soldados, e a burguesia liberal, derrubou a monarquia e em outubro, quando os sovietes, já totalmente dominados pelo Partido Bolchevique chegaram ao poder em São Petersburgo e proclamaram o início da era socialista.

O que levou a Rússia, mais atrasada que Inglaterra, França e Alemanha, onde havia classes trabalhadoras maiores e mais conscientes politicamente, a antecipar a derrota do capitalismo, foi a exasperação das condições de vida no País, depois que a guerra imperialista de 1914 sugou as riquezas russas e matou milhões de pessoas.

Com a bandeira de paz a qualquer custo e reforma agrária, os bolcheviques,  sob a liderança de Lenin e Trotski, mobilizaram operários e soldados e quase pacificamente derrubaram o Governo Provisório e iniciaram a primeira tentativa de construir um regime socialista na Europa.

Depois dos primeiros anos extremamente difíceis, tendo que suportar uma intervenção de tropas estrangeiras e, em seguida, uma longa guerra civil contra os exércitos brancos que pretendiam restaurar a monarquia, o governo se estabilizou, ainda que a necessidade de fortificar o poder central tenha eliminado algumas das mais importantes idéias de Lenin e Trotski, como a democracia interna dentro Partido Comunista, o respeito às diversas nacionalidades que compunham a nova União Soviética e o crescimento conjunto dos bens de consumo ao lado dos bens de produção.

Durante mais de 60 anos, a União Soviética conseguiu conservar algumas das características de uma sociedade socialista, mas seus problemas internos e a pressão econômica gerada pela concorrência com os Estados Unidos, principalmente no campo militar, levaram a uma crise interna que gerou, primeiramente o esfacelamento da unidade dos países integrantes do bloco socialista e mais adiante a própria queda do que restava da União Soviética, com a restauração do capitalismo.

Essa experiência frustrada faz supor que o sonho socialista pudesse estar morto e enterrado. Entretanto,a crise geral em que se envolveu o mundo capitalista nos últimos anos, com guerras localizadas, desemprego crescente e retorno de ideologias de caráter fascista predominando em varias regiões do mundo, colocou a humanidade novamente numa encruzilhada: ou avança em direção à barbárie ou retoma o sonho do socialismo humanitário, escrito nas páginas do Manifesto Comunista de Marx e Engel.

Os próximos anos dirão para qual caminho andará a humanidade

Respondendo a Tarso Genro

 

Tarso Genro é hoje, sem dúvida alguma, o único político da nossa esquerda, que se expõe semanalmente ao debate sobre o futuro do País, fora do discurso partidário quase sempre redutor das lideranças petistas.

Em resposta, porém, o que se vê, é um silêncio constrangedor daqueles que, por suas funções de dirigentes políticos, deveriam assumir o aplauso às posições de Tarso ou o contraditório à sua versão da realidade brasileira.

Será o temor em contrariar o que ele escreve por falta de argumentos mais sólidos?

Ou devemos todos assinar embaixo quando ele diz, no artigo que assinou no Sul21, com o título de “Daniel Blake encontra Antonio Gramsci’, como se fosse uma verdade definitiva, que:”a esquerda ficou atada nas análises da contradição clássica da sociedade industrial, entre uma “burguesia”, que não é mais a mesma – pois é mera caudatária do capital financeiro globalizado – e o “proletariado”, que não é mais o mesmo, pois foi levado a ser indiferente à “escória” desempregada, que se marginalizou ou veio de “fora”, disputar seus empregos

A pergunta no caso é se essa nova sociedade em que vivemos, descrita por Tarso, não se divide mais, fundamentalmente, entre as pessoas que vivem do seu trabalho (seja em tempo integral, em casa, temporários, terceirizados ou  seja lá qual for suas condições) e os que vivem do trabalho dos outros (exploradores diretos do trabalho alheio, como banqueiros, industrialistas, comerciantes ou aqueles que indiretamente se beneficiam desse sistema, como diretores, gerentes e altos funcionários integrantes de uma nova elite econômica)?

Outra questão: Seria viável, a construção de uma sociedade mais humana dentro do sistema capitalista?

No seu artigo, Tarso inicialmente admite que isso seja possível:

“Com estes meios de produção e esta experiência acumulada na organização do trabalho, poderíamos ter uma sociedade humana, não só reconciliada com uma exploração racional da natureza, mas também uma organização social e estatal transparente, onde ninguém passasse fome, frio, dormisse ao relento, onde todos tivessem um sistema de proteção à velhice e à saúde à disposição, com uma boa educação pública”.

Mais adiante, ele põe em dúvida essa possibilidade:

“Mas toda esta riqueza material e da inteligência humana -acumulada pela ciência e pela técnica- possibilitou, não a emancipação, mas um sistema produtivo e social gerador de mais desigualdades, que no seu próprio sócio-metabolismo gera mais riqueza concentrada, consumo suntuário, privilégios de poder e territórios arrasados pela guerra e pela morte. A vitória da contra-revolução neoliberal é uma vitória política, que soube combinar a força da espontaneidade do mercado, com o convencimento político de que a solidariedade e a igualdade são improdutivas e opressivas”.

Então, por que Tarso insiste em se colocar como um reformista de esquerda e não um revolucionário?

Serão seus compromissos com uma ordem social estabelecida, que ele considera injusta, mas que não pretende destruir, admitindo que possa ser humanizada, como quando diz “.Nesta época de crise da acumulação privada devotada aos bancos, todavia, – nesta mesma época – já foram criadas todas as condições materiais e pressupostos técnicos e tecnológicos para, pela primeira vez na história da humanidade, eliminar a carência?

Itsván Mészáros, que está entre as leituras de Tarso, pensa exatamente o contrário , quando lembra o célebre aforismo de Rosa Luxemburgo “Socialismo ou barbárie”, com este complemento, “barbárie, se tivermos sorte”.

Diz Mészaros: “A maior e mais perigosa ironia da história moderna é que a outrora tão incensada “destruição produtiva” se converteu, na fase descendente de desenvolvimento sistêmico do capital, em uma produção destrutiva ainda mais insustentável, tanto no campo da produção de mercadorias quanto no domínio da natureza, complementada pela ameaça definitiva de destruição militar em defesa da ordem estabelecida. É por isso que a alternativa socialista não só é possível – no sentido já mencionado de sua sustentabilidade histórica –, mas também é necessária, no interesse da sobrevivência da humanidade”.

Hoje, se tornou comum se falar no capital financeiro globalizado como se fosse algo abstrato, que dispensa instituições concretas para se realizar e que na fase atual do capitalismo, as relações de trabalho analisadas por Marx e Lenin desapareceram ou perderam toda a importância.

O que ocorre na realidade parece contrariar essas teses. O que vemos é o Estado, cada vez mais forte, monopolizado pelo capital, agir como guarda pretoriana dos seus interesses no mundo inteiro, financiando indústrias que operam com métodos escravagistas que já pareciam ter sido abandonados há muito.

Isso sem falar na mais gigantesca operação industrial, que cada vez capta mais recursos públicos para o seu desenvolvimento, o complexo político-militar, denunciado por Eisenhower há mais de 50 anos, mas cada vez mais ativo, como se viu agora quando o Presidente Trump anunciou que ele receberá investimentos ainda maiores nos próximos anos.

As velhas relações de trabalho estão visíveis também nas grandes indústrias de produção de bens de consumo, do automóvel ao smartphone, dos cosméticos aos alimentos.

A divisão fundamental, que separa os homens, entre os que vivem do seu trabalho e os que vivem do trabalho dos outros, mesmo que disfarçada sobre formas modernas de relacionamentos, ainda persiste e é ela que precisa ser atacada.

Slavoj Zizek  diz com ironia que os que mais atrasam uma hipotética revolução socialista, são os políticos socialistas.

Mészaros não vê garantia histórica alguma de que algum grande evento revolucionário ocorrerá, “mas estou certo de que, se nada ocorrer, vamos nos aproximar, pouco a pouco, talvez não de uma catástrofe global, mas de uma sociedade extremamente triste”.

Mészaro, diz ainda que essa revolução, se ocorrer, não virá de um lugar específico. ”Vejo espaços potenciais de tensão. Por exemplo, há literalmente centenas de milhares, talvez milhões, de estudantes na Europa em meio a seus cursos. Eles estão cientes de que, em inúmeros casos, não terão chance alguma de um empreguinho”
Outros pensam na ação de um partido político com um novo perfil.

Citando Antonio Negri, Zizek, diz que existe uma diferença fundamental entre um partido político que assume inteiramente a função representativa e que é legitimado pelas eleições e um Partido (com P maiúsculo) que considera secundário o procedimento formal das eleições democráticas e age revolucionariamente.

Em outubro de 1917, quando os mencheviques não cansavam de dizer que não era possível se fazer uma revolução socialista, Lenin estimulou os bolcheviques, não a construir o socialismo diretamente, mas ”errar melhor que o Estado burguês normal”, talvez se antecipando à famosa frase de Derrida de que “a condição de impossibilidade é a condição de possibilidade”.

Alain Badiou na sua obra A Hipótese Comunista, não acredita nos velhos partidos para a instauração do socialismo, mas em algum tipo de ação direta das massas:

“Houve na França, há muito tempo, dois tipos de manifestações: as sob a bandeira vermelha e as sob a bandeira tricolor. Acredite em mim: no que concerne a reduzir a nada os pequenos grupos fascistas identitários e assassinos – aqueles que apelam para formas sectárias do Islã, a identidade nacional francesa ou a superioridade Ocidental –, não são as tricolores, controladas e utilizadas pelos poderosos, que são eficientes. Estas bandeiras são outras, as vermelhas, e que precisam voltar.”

Noves fora Mészaros, Zizek . Negri, Badiou e outros citados, os caminhos que se abrem para os leitores de esquerda do artigo do Tarso Genro são: seguir sua linha de pensamento e se engajar na sua luta pela redemocratização do País ou mesmo, concordando que essa possa ser a tática adequada ao momento, não abrir mão da estratégia de uma solução revolucionária e lutar por ela, mesmo que ela possa ser considerada apenas uma utopia.

O que não pode mais continuar ocorrendo é o que diz Tarso Genro com a sua longa vivência do mundo político brasileiro: “Não é de pasmar que os debates internos e os Congressos dos partidos políticos do campo da esquerda, despertem pouca atenção, fora de um círculo restrito dos seus militantes e dirigentes e se tornem, mais ajustes entre já convencidos, do que propriamente respostas amplas a questões políticas e econômicas de fundo, que já estão no cotidiano das classes populares”.

Judeus que Israel não gosta.

Uma das grandes mentiras, que já tem 70 anos, é de que o Estado de Israel vive ameaçado pelos árabes na Palestina.

Goebbels já dizia que uma mentira repetida mil vezes vira verdade.

Os pobres palestinos foram expulsos de sua terra pela maior potência militar do Oriente Médio, inclusive possuidora de armas atômicas e têm apenas um apoio apenas formal dos corruptos governos árabes da região e mesmo assim, o lobby judaico no mundo inteiro, os transformou num perigo para a paz na região.

Ainda bem que existem intelectuais judeus que se recusam a compactuar com essa mentira histórica. Vamos lembrar aqui alguns deles, começando por Noam Chomsky, o mais conhecido deles todos

Avram Noam Chomsky, nasceu em 1928, na Filadélfia, é linguista, filósofo, cientista e professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts e apesar de todos estes títulos, está proibido de visitar Israel, por causa de suas críticas ao governo israelense, como nessa comparação que fez sobre a política do apartheid na África:

“Nos territórios ocupados, o que Israel está fazendo é muito pior que o apartheid. (…) os brancos sul-africanos precisavam da população negra. Era sua força de trabalho. Eles tinham de sustentá-los. Os “bantustões” eram horríveis, mas a África do Sul precisava deles. (…) A relação de Israel com os palestinos é diferente. Israel simplesmente não quer os palestinos. Israel os que fora de sua terra ou pelo menos na prisão”.

Sobre o Hezbollah : “Foi fundamental para expulsar os israelenses do Sul do Líbano, por isso é chamado de organização terrorista pelos Estados Unidos”

Sobre o Hamas: “Eu sou contra as políticas do Hamas em quase todos os aspectos. No entanto, devemos reconhecer que as políticas do Hamas são mais próximas e mais propícias a uma solução pacífica do que as dos Estados Unidos ou de Israel”

Shlomo Sand, nasceu em Linz, na Áustria, em 1946 é professor da História na Universidade de Tela vi. Seu livro mais famoso, A Invenção do Povo Judeu, desmancha o mito fundador do Estado de Israel, de que os judeus atuais são descendentes dos antigos hebreus que viveram na Palestina durante o Império Romano e por isso mesmo teriam direitos exclusivos às terras que os árabes ocuparam depois.

Sand argumenta que é provável que os ancestrais da maioria dos judeus contemporâneos sejam principalmente de fora da Terra de Israel (Eretz Ysrael)  e que uma “nação-raça” dos judeus, com uma origem comum, nunca existiu. Assim como os cristãos mais contemporâneos e muçulmanos, são descendentes de pessoas convertidas, não dos primeiros cristãos e muçulmanos, o judaísmo era originalmente, assim como seus dois primos, um proselitismo. religioso. Muita da população judaica mundial presente hoje em dia é descendente de europeus, russos e grupos africanos.

Sand ataca também outra história cara para o judaísmo, de que depois da revolta de Bar Kokhba, os judeus foram expulsos da Palestina pelos romanos. Diz ele que a maioria dos judeus não foi exilada pelos romanos e muitos se converteram ao islamismo, após a ocupação da Palestina pelos árabes no século sétimo.

O sionismo, segundo Sand, foi mais um dos movimentos nacionalistas surgidos na Europa no século XIX que sonhavam com uma hipotética “idade do ouro”, existente no passado. Os judeus seriam então descendentes de um mítico reino de David, o que significaria um fundo comum étnico, quando o que os unia, na verdade, era apenas a religião comum.

Norman Gary Finkelstein, nascido em 1953, em Nova York, filho de pais sobreviventes de Auschvitz, doutor pela Universidade de Princeton e professor da Universidade de Nova York, é mais um dos intelectuais judeus proibidos de entrar em Israel, principalmente por causa do seu livro,  “A Indústria do Holocausto — Reflexões Sobre a Exploração do Sofrimento dos Judeus” onde afirma que ““o organizado judaísmo americano explorou o Holocausto nazista para desviar as críticas de Israel e suas políticas moralmente indefensáveis

Segundo Finkelstein, depois da Segunda Guerra Mundial, as organizações judaicas dos Estados Unidos, as mais poderosas do mundo — sempre com o apoio de publicações como “New York Times” e “Washinton Post”, os dois jornais mais conhecidos do país, além de revistas, como “Time” e “Newsweek” —, praticamente esqueceram o Holocausto, isso porque a Alemanha tornou-se um aliado crucial no confronto dos EUA com a União Soviética.

Lembrar o Holocausto nazista era etiquetado como causa comunista. As associações judaicas chegaram a fazer vistas grossas à entrada de nazistas nos Estados Unidos.

Ainda segundo Finkelstein, a partir de junho de 1967, com a guerra árabe-israelense,o Holocausto tornou-se uma fixação na vida dos judeus americanos. De sua fundação em 1948, até a guerra de junho de 1967, Israel não figurou como foco no planejamento estratégico americano. “A indústria do Holocausto só se difundiu depois da dominação militar esmagadora e do florescente e exagerado triunfalismo entre os israelenses”.

Diz Finkelstein: “Não foi a alegada fraqueza e isolamento de Israel, nem o medo de um ‘segundo holocausto’, mas antes sua comprovada força e aliança estratégica com os Estados Unidos, que conduziram as elites judaicas a produzir a indústria do Holocausto, depois de junho de 1967.

Outro forte motivo por trás desta farsa, era material. O governo alemão do pós-guerra compensou os judeus que estiveram em campos ou guetos. Muitos desses judeus fabricaram seus passados para atender essas exigências”

Ilan Pappé nascido em 1954, Haifa, Israel, é um historiador, professor de História na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Foi docente em Ciências Políticas em sua cidade natal, na Universidade de Haifa.

É um dos chamados Novos Historiadores, que reexaminaram criticamente a História de Israel e do sionismo. Pappé faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes. Em particular, ele defende em seu livro mais importante, Limpeza Étnica na Palestina que houve a expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina – operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas.

Pappé considera a criação de Israel como a principal razão para a instabilidade e a impossibilidade de paz no Oriente Médio. Segundo ele, o sionismo tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.
Ilan Pappé é um importante defensor da solução de um único estado para palestinos e israelenses.
Em 2008, Ilan Pappé exilou-se na Grã-Bretanha, onde atualmente é professor de história na Universidade de Exeter e diretor do Centro Europeu de Estudos sobre a Palestina.
Antes de deixar Israel, ele havia sido veementemente condenado no Knesset, o parlamento de Israel. Um ministro da educação havia pedido a sua demissão da universidade, e sua foto havia sido publicada em um jornal, no centro de um alvo. Além disso, Pappé havia recebido várias ameaças de morte.
“Fui boicotado na minha universidade e houve tentativas de me expulsarem do meu trabalho. Estou recebendo ligações telefônicas com ameaças todos os dias. Não estou sendo visto como uma ameaça para a sociedade israelita, mas o meu povo pensa que sou louco ou que a minha opinião é irrelevante. Muitos israelenses acreditam também que estou trabalhando como mercenário para os árabes.

Judith Butler , nascida em Cleveland, Ohio, em 1956, de origem judaica, teve sua família pelo lado materno morta em campos de concentração nazista na Hungria. É professora de Filosofia na European Graduate School, na Suíça, sendo considerada uma das principais teóricas do feminismo do mundo inteiro. Seu livro “Caminhos Divergentes: Judaísmo e Critica do Sionismo” a levou a ser considerada como antissemita pelo jornal Jerusalém Post, porque defendeu o binacionalismo em Israel, dizendo que “é preciso acabar com a ocupação, que é ilegal e uma extensão de um projeto colonial”.

 

Judith Butler defende outra tese, que os governantes de Israel detestam ouvir: o direito de retorno dos palestinos expulsos de suas casas e de suas terras e que eles sejam indenizados pelas  suas perdas.

É preciso salvar a História, dos historiadores

É preciso salvar urgentemente a História, dos historiadores, assim como a política, dos políticos; a medicina, dos médicos, a economia, dos economistas, a justiça, dos juristas e assim por diante

Quem já fez um curso universitário de História, sabe que os mesmos fatos e seus personagens (da História do Brasil, por exemplo), começam a ser contados nos primeiros anos do colégio e só terminam na universidade, como se fosse uma novela de televisão que se desdobra em vários capítulos

A cada ano que se avança, novos dados são acrescentados a biografia dos heróis e os fatos ganham um desenho mais completo.

 

Começa assim: Dom Pedro proclamou a independência do Brasil a 7 de setembro de 1822 às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo e termina com uma análise do comportamento pessoal do Imperador, a influência de José Bonifácio e as intrigas das cortes no Rio e em Lisboa.

Com certo exagero, algumas vezes, se chega ao detalhamento das condições do ambiente que cercava o imperador naquele momento crucial de sua vida, quem eram os acompanhantes, como estavam vestidos e a que hora realmente Dom Pedro bradou: ”Laços fora, soldados! Independência ou Morte, seja a nossa divisa”

Muitas vezes se faz apenas a tradução em palavras do que Pedro Américo já mostrou em seu quadro famoso. O máximo que se diz, fora da descrição linear do fato histórico, é um exercício barato de psicologia sobre os sentimentos de prepotência de quem preferia ser rei no Brasil, que príncipe em Portugal, com pitadas de conhecimentos sobre a conjunção de interesses existentes na época entre o imperialismo inglês e os defensores da independência na colônia.

Outro exemplo (verídico) dessa superficialidade: numa aula de História da América, o professor – falando sobre a chegada de Colombo na nova terra – faz uma pergunta que ele imagina importante para o conhecimento do aluno: o que disse Rodrigo de Triana, na madrugada de 12 de outubro de 1492, quando tentava ver algum sinal de terra do alto gávea da caravela Pinta:

Para esta pergunta, só havia uma resposta certa: uma luz bruxuleante no horizonte.

Esquecendo o ensinamento de Plekhanov (1856/1918) de que “a história decorre em funções de leis objetivas, mas os homens fazem história, na medida em que atuam, avançando ou retrocedendo em função dessas leis”, o foco principal se localiza quase sempre no relato dos feitos dos grandes homens que lideraram guerras ou revoluções.

Nada contra essa postura. Ela, porém, é incompleta, mas, certamente, é ainda melhor do que a atual moda de minimização dos grandes feitos históricos, substituídos pelos acontecimentos do cotidiano, como é comum dos novos filósofos e comunicadores franceses.

O correto seria inserir cada um dos grandes personagens da História na vida real de suas épocas, seus condicionamentos sociais, políticos e econômicos e analisar as razões e contra- razões de suas atitudes, avaliar suas consequências e inferir até que ponto suas ações tiveram maior ou menor relevância para o avanço ou retrocesso do processo histórico.

Tomemos, apenas como motivação para um debate, o que está sendo dito por historiadores sobre e os personagens da “Santíssima Trindade soviética”: Lenin, Stalin e Trotsky.

O último, até porque muito cedo foi afastado do poder na União Soviética e pode assim se transformar numa fonte viva de informações sobre a revolução de 1917, ganhou uma biografia exemplar de Isaac Deutscher com a sua trilogia: “O Profeta Armado, Desarmado e Banido”.

Lenin e Stalin, entretanto, enquanto perdurou a URSS, mereceram apenas biografias laudatórias, despidas de qualquer espírito crítico. Com o fim da União Soviética e a abertura dos arquivos mantidos em segredo até então, imaginava-se que com todo esse material, os historiadores poderiam, enfim, traçar uma história dos 60 anos de vida da experiência soviética e o que fizeram ou deixaram de fazer seus líderes.

Duas das obras mais badaladas sobre estes líderes soviéticos são; “Stalin – a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Sebag Montefiore e “Lenin – a biografia definitiva”, de Robert Service.

O primeiro – vencedor do prêmio de melhor livro de história do British Book Awards de 2004, se perde nas minúcias da vida privada de Stalin e transforma sua atuação nos grandes expurgos de 1937, na Segunda Guerra e no fortalecimento do seu poder pessoal, num enredo digno de uma Revista Caras.

Stalin manda matar seus antigos companheiros de Revolução, mas, ao mesmo tempo é um pai de família carinhoso. Isso pode ajudar a conhecer a dubiedade de um ser humano, mas é pouco importante para entender o grande (para o bem e para o mal) personagem histórico.

Mesmo assim, você não deve deixar de lê-lo. No caso de Stalin, seria bom comparar o que escreveu Montefiore, com o livro do professor italiano Domenico Losurdo  “Stalin, a História Crítica de uma Lenda Negra”, que volta a discutir todos os atos de alguém que comandou a vida na União Soviética durante 30 anos, chegando a uma conclusão oposta do que hoje é voz corrente entre os analistas da Revolução Soviética.

 

 

 

Stalin, para Losurdo não foi o demônio pintado, até mesmo pelos comunistas após famoso Relatório Kruschev, mas o homem que conseguiu transformar a União Soviética numa grande potência mundial, responsável pela derrota do nazismo na Segunda Guerra.

O livro sobre Lenin, do também professor inglês, Robert Service, apesar do pretencioso subtítulo – a biografia definitiva – é ainda mais detalhista em determinados períodos da vida do grande líder revolucionário russo – como no caso da execução do seu irmão mais velho, acusado de ações terroristas contra o czar – mas perde de vista os grandes feitos de Lenin como condutor da Revolução de Outubro, suas motivações e consequências. Além de tudo, o autor faz questão de manifestar suas posições anticomunistas, típicas do período da guerra fria, que não condizem com a sua pretensa objetividade.

Assim, quem estiver interessado nesses três personagens, sobre Trotsky, além de Deutscher é preferível que leia até uma obra de ficção como “O Homem que Amava os Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, para ficar bem informado, do que alguns historiadores oficiais.

Sobre Lênin e Stalin, ninguém melhor do que Slavoj Zizek, ainda que, sua obra, “As Portas da Revolução” – cubra apenas um período da vida de Lenin– os preparativos e o desfecho da revolução e “Em defesa das causas perdidas”, Stalin é mais um dos inúmeros personagens que povoam o livro,

Zizek não é especificamente um historiador, mas um intelectual, um filósofo com muitas preocupações e interesses, inclusive sobre a história.

É claro, que se você não estiver diretamente interessado em saber até que ponto, determinados personagens influíram na História, fazendo com que andasse para frente ou retrocedesse, nada melhor que ler a obra monumental do inglês Eric Hobsbawm em quatro volumes: A Era das Revoluções (1789- 1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era do Império (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991)

Uma última lembrança. Caso o seu interesse seja sobre as questões do Oriente Médio – a Inglaterra, a França, os árabes e os judeus – quem melhor escreveu sobre isso não foi um historiador tradicional, mas um jornalista atuante ainda hoje, Robert Fisk, com seus dois grandes livros: A Grande Guerra pela Civilização ( mais de mil páginas sobre o que de mais importante ocorreu na região) e Pobre Nação, sobre o Líbano

 

 

Um livro assustador

 

 

Na sua permanente tentativa de desconstruir os movimentos de resistência palestina na Cisjordânia, o primeiro ministro de Israel, Binyamim Netanyahu acusou o líder religioso árabe El Husseimi, de durante a Segunda Guerra Mundial ter ido a Berlim para pedir a Hitler que “queimasse os judeus”, dando início ao Holocausto.

Realmente em 1943, o Mufti de Jerusalém, Hadj Amin El Husseimi, um líder religioso e nacionalista árabe, que comandou as revoltas contra a Inglaterra, que ocupava a Palestina, foi a Berlim pedir o apoio de Hitler para a sua luta, já que os alemães tinham se tornado, também, inimigos dos ingleses.

O encontro foi documentado com muitas fotos, mas Hitler, preocupado com o começo da derrocada de seus exércitos a leste pelo Exército Vermelho e ameaçado pela abertura de uma segunda frente no Ocidente, deu pouco atenção ao Mufti e nunca enviou algum tipo de ajuda militar. El Husseimi, mesmo assim, organizou um destacamento militar na Bósnia (região islâmica nos Balcãs) para lutar ao lado dos nazistas.

É bem provável que Husseimi tenha falado com Hitler sobre a migração judaica para a Palestina, o que transformava estes judeus em novos inimigos para os árabes já envolvidos na luta contra os ingleses, mas sugerir a Hitler que criasse campos de extermínio como disse Netanyahu, não faz sentido, porque os alemães já tinham estes campos desde 1936, quase 10 anos antes da visita do Mufti a Berlim.

O campo pioneiro foi o de Sachsenhausen, nas proximidades de Berlim, inicialmente utilizado para encarcerar os inimigos políticos do Reich e que só mais tarde foi usado como parte do projeto de “solução final do problema judaico”, eufemismo criado para denominar o massacre de judeus de toda a Europa

Quando El Husseimi foi a Berlim, estavam em plena atividade 16 campos de trabalhos forçados e extermínio. Os mais importantes eram os de Auschwitz – Birkenau, Treblinka, Belzec e Majdanek  (na Polônia), Bergen-Belsen,Dachau e Buchenwald  (na Alemanha).

A questão do Holocausto, passados mais de 70 anos do fim da guerra, permanece um tema aberto a discussões, não no sentido de negar que ele tenha ocorrido, mas sim no de analisar as reações das vítimas – os judeus –  diante da monstruosidade criada pelos nazistas para tentar justificar o conceito de raça pura.

Quando das lutas pela criação do Estado de Israel, a imagem do Holocausto não tinha o mesmo significado que tem hoje, até porque o movimento pela independência teve o caráter de luta armada contra os dominadores ingleses. Os guerrilheiros judeus que lutaram pela criação do seu estado nacional não poderiam se espelhar na passividade dos prisioneiros nos campos de concentração.

Hannah Arendt levantou esta questão – a passividade dos prisioneiros – no seu livro “Eichmann em Jerusalém. Agora, ela é questão central do livro “Os belos dias de minha juventude”, de Ana Novac, prisioneira durante 6 meses em Auschwitz, em 1944.

Ana, nascida na Transilvânia, região hoje pertencente à Romênia, era uma adolescente de 15 anos quando chegou a Auschwitz e conseguiu se manter viva até o resgate pelo exército soviético, em 1945.

Seu livro, além da ironia do título, tem uma particularidade: escrito em forma de diário (Ana escrevia com um lápis em papeis e papelões tirados do lixo) é considerado o único documento autobiográfico, produzido em campos de concentração que foi preservado depois da guerra.

Chama a atenção na história dos campos de extermínio o fato de que, uma minoria de militares alemães tenha conseguido controlar milhares de prisioneiros, todos sabedores de que seu tempo de vida era, de um modo geral, curto e que pouco teriam a perder se optassem por uma revolta, mesmo que ela tivesse poucas chances de sucesso

Poucas revoltas ocorreram nos campos, a exceção de algumas ações individuais e a explicação parece estar no fato de que os líderes dos prisioneiros não estimulavam os atos de resistência com medo das represálias nazistas.

No seu depoimento em Nuremberg, Rudolf Hoss, que foi comandante em Auschwitz, disse que 3 milhões de pessoas morreram nas câmaras de gás ou por fome e doença no campo. Embora os historiadores prefiram acreditar que o número de mortos foi menor – aproximadamente 1 milhão e 300 – ainda assim é um dado estatístico assombroso.

No livro, Ana Novac tenta entender porque isso aconteceu sem maiores resistências dos presos. Uma das possiblidades é o extremo individualismo da maioria dos presos, explorado pelos nazistas como forma de dividir o grupo.

A distribuição de vantagens a alguns dos presos (normalmente uma pequena melhoria na ração alimentar), fazia reacender neles a esperança em sobreviver por mais algum tempo e qualquer ato de resistência dos demais poderia ser visto pelos nazistas como uma falha no comando dos prisioneiros aos quais haviam dado um pequeno poder.

Já nos guetos das cidades polonesas, de onde veio uma boa parte dos prisioneiros, uma polícia formada por judeus (a polícia judaica) ajudava a organizar as filas dos que iriam para Auschwitz ou para outros campos na Polônia.

Dentro do campo, havia uma disputa feroz entre os prisioneiros para os poucos cargos que os nazistas ofereciam aos presos, na esperança de uma melhoria na ração alimentar e na expectativa de ir adiando o encontro marcado com a morte nas câmaras de gás.

No seu livro, Ana Novac dá o nome de algumas dessas “mordomias”:  kapos, presos que colaboravam com os nazistas; sonderkommando, grupo encarregado de levar os presos para as câmaras de gás, retirar os cadáveres e arrancar os seus dentes de ouro e o cabelo das mulheres; stubendienst, presa que cuidava da sopa e da faxina; lagerkapo, chefe de um grupo de kapos; blockalteste, chefe de um pavilhão; berkapos, presos que vigiavam no trabalho externo;

Todos eram judeus e alguns casos, eram mais cruéis que os SS nazistas na hora de usar o chicote nas costas de um prisioneiro que não estivesse trabalhando na velocidade desejada.

Ana Novac nasceu em Siebenburgen, hoje cidade da Romênia, em 1929 e morreu em Paris, em 2010, ano que seu livro foi editado no Brasil pela Cia de Letras

O que você vai fazer quando encontrar um famoso?


Políticos e gente famosa, normalmente, evitam contatos com pessoas como você e eu, para não se envolverem situações inconvenientes, como uma crítica mais agressiva ou até um prosaico pedido de autógrafo.

Claro que se você é metalúrgico em Canoas, um bancário do Banrisul, ou até mesmo uma professora de uma escola pública no Sarandi, gente que gasta quase todo seu tempo lutando pela sobrevivência, suas chances de encontrar um famoso são pequenas.

Mas, se você é um jornalista, um médico, um advogado de algum sucesso ou simplesmente tem uma conta bancaria que lhe permita frequentar restaurantes como o Barranco, ir ao teatro ou viajar de avião, corre o risco de eventualmente encontrar um desses personagens

Afinal, o Temer foi a uma churrascaria de Brasília, num final de semana, para mostrar a diplomatas estrangeiros que a nossa carne não era tão fraca assim; o Ministro da Cultura, Roberto Freire veio a Porto Alegre para visitar o Museu Iberê Camargo e parece que até o deputado Bolsonaro andou por aí em sua defesa permanente das piores causas.

E se você, por um acaso do destino, em algum momento, estivesse vis-a-vis com esses personagens, o que faria?

Vamos supor que você vai a São Paulo a negócios, senta na poltrona 13 ao lado da janela e é surpreendido pelo deputado Bolsonaro, que vai tomar o lugar exatamente ao lado do seu.

Como ele está sempre em campanha, vai querer puxar conversa, o que você vai responder?
a) Aproveita a oportunidade para criticar suas posições políticas, todas elas.
b) Chama a comissária e diz que quer trocar de assento.
c) Não diz nada e responde ao seu comprimento com uma cusparada como fez o Jean Wyllys.

Você está naquela Churrascaria de Brasília, onde o Temer está comendo a sua picanha.
a) Você finge que é um americano e grita para que ele ouça: thanks Mr. President.
b) Você levanta da mesa e grita bem alto para que todos possam ouvir: este lugar já foi melhor freqüentado.
c) Simplesmente, em silêncio, você levanta um grande cartaz onde escrito # Fora Temer.

Você é um intelectual e está visitando o Museu Iberê Camargo, num final de semana, porque ele fica fechado nos outros dias, quando chega o Ministro da Cultura cercado por aqueles empresários que fingem gostar da cultura porque podem abater do Imposto de Renda seus investimentos na Lei Rouanet.


a) Você se aproxima com o livro Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, nas mãos e ironicamente, oferece de presente para o Ministro.
b) Você se aproxima do Ministro com um livro de Stalin nas mãos e o saúda, dizendo “como vai camarada”.
c) Você grita para todo mundo ouvir: Roberto Freyre como Ministro da Cultura foi a melhor piada do Temer.

Mas não sejamos tão otimistas assim: você pode apenas estar na lotação Cristal e sentar ao lado do Píffero.

O que você, como colorado condenado à segunda divisão, faria?
a) Como uma pessoa educada, diria apenas: não há de ser nada, no ano que vem a gente volta.
b) Fingiria que não o conhece
c) Começaria a cantar baixinho, mas não tanto, para que ele possa ouvir, o hino do grêmio composto pelo Lupicínio Rodrigues.

Pense nisso, porque a qualquer momento em famoso pode cruzar pelo seu caminho e você deve estar preparado para compartilhar com ele seus 15 segundos de fama.

Os perversos

Grandes romances exigem grandes personagens. Gente comum como nós, pequenos burgueses, preocupados em viver honestamente seus dias sempre iguais, certamente não interessariam aos melhores contadores de histórias. O máximo de argumentos que poderíamos oferecer daria apenas para uma história típica do neo-realismo italiano ou do cinema novo brasileiro, exemplos de uma estética que ficou no passado.

Monstros, assassinos impiedosos, estes sim, têm material de sobra para escritores de talento que pretendam entender até que pouco a maldade pode fazer parte da vida humana.

Mas para chegar lá é preciso, além de talento, que o candidato a escritor esqueça seus valores morais e se disponha a mergulhar na psique complexa dessas pessoas que se recusam a seguir as normas da civilização, que segundo Freud envolve uma renúncia às pulsões mais sombrias que todos nós temos em algum momento da vida.

Vamos falar de dois escritores americanos, que em seus livros, chegaram ao fundo da perversidade de alguns homens, Norman Mailler e Truman Capote.

Poderíamos começar com Fiodor Dostoievski, com o celebre Crime e Castigo, mas seu personagem, Raskolnikov, nos leva mais para um ensaio sobre o poder, a culpa, e o  perdão,dentro de uma visão até certo ponto religiosa, ao contrário de Mailler e Capote, que não julgam, apenas relatam o que enxergam.

Quem no Brasil poderia seguir por este caminho?

Talvez, Rubem Fonseca, mas há tempos não se houve falar dele.

Ficamos então com os americanos, começando por Mailler.

Norman Mailler (1923/2007) teve uma vida que certamente daria também um romance ou um filme, do qual as pessoas sairiam do cinema, dizendo que não era uma história verdadeira. Escreveu alguns dos mais importantes romances americanos e biografias que deram o que falar. Ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer, o mais valioso do jornalismo americano. Pela sua oposição à guerra do Vietnam ficou preso durante dois anos, foi candidato derrotado à Prefeitura de Nova York, foi casado seis vezes e teve oito filhos.  Em 1960, depois de uma bebedeira, esfaqueou a mulher, mas como ela não quis prestar queixa, ficou poucos dias na prisão.

Em 1979, regiamente pago por uma revista americana, foi a Salt Lake City para entrevistar a Gary Gilmore, que acusado de dois crimes de morte, se recusava a fazer qualquer petição de clemência e de participar do tradicional jogo jurídico norte-americano de condenações e suspensões da execução da pena.

O que escreveu se transformou num livro de mais de mil páginas, chamado A Canção do Carrasco (The Executoner´s Song) e conta a vida de Gilmore, desde os assassinatos que cometeu em Provo e dos quais nunca se arrependeu, até a sua execução final, quando desafiou os soldados que iam atirar contra o seu peito, com essa frase: “acabem logo com isso”.

Truman Capote (1924/1984), nasceu  Truman Streckfus  e mais tarde adotou o sobrenome Capote, do seu padrasto cubano.  Era um homossexual assumido, frequentador das rodas de ricos de Nova York, escritor do livro Bonequinha de Luxo (Breakfast  at Tiffany), que Audrey Hepburn tornou famoso no mundo inteiro,  em 1961, na sua versão para o cinema, com direção de Blake Edward, quando largou tudo em Nova York e foi para o Kansas atrás da história do assassinato dos quatro membros da família do fazendeiro  Herb Cluter,na pequena cidade de Holcomb, pelos jovens Richard Hickock e Perry Smith.

Capote entrevistou praticamente todas as pessoas da comunidade, leu todos os documentos referentes ao caso e se aproximou tanto dos acusados, que dizem ter dito um romance com um deles, Perry, e acompanhou o caso até o seu desfecho final, com o enforcamento dos acusados em abril de 1965.

Levou quatro  anos escrevendo seu romance, que ele denominava de romance não ficção, A Sangue Frio (In Cold Blood), publicado inicialmente em quatro partes pela revista New Yorker, em setembro de 1965, cinco meses após a morte dos principais personagens.

Capote foi escrevendo sua história durante quatro anos, praticamente enquanto ela se desenrolava ao vivo. Quem lhe ajudou nesse trabalho foi Harper Lee, que ficou famosa com seu único livro, enquanto viva,  Sol é Para Todos ( Vá, Coloque um Vigia, é uma obra póstuma).

No cinema, À Sangue Frio, deu a Philip Seymour Hoffmann, o Oscar de melhor ator em 2005, quando interpretou Capote, num filme dirigido por Bennet Miller, chamado simplesmente Capote.

Antes disso, em 1967, Richard Brooks já havia filmado a história com o nome original, de A Sangue Frio.

Em 2006, uma nova versão da história apareceu, Confidencial , com direção de Douglas Mc Grath,  centrada mais na relação de Capote (Toby Jones) com o criminoso Perry

Capote, mesmo depois de morto, continuou provocando polêmicas e não apenas pela sua obra, mas por uma disputa inusitada de suas cinzas entre sua amiga Joane Carson e Jack Duphy, seu companheiro de muitos anos.

 

Um novo Lula em 2018

Lula perdeu três eleições, a primeira para a Collor, e as duas seguintes para FHC, quando foi candidato com um projeto radical de esquerda e ganhou a quarta, quando fez uma composição com o centro e a direita.

Como Presidente, por dois mandatos, seu projeto reformista retirou da miséria milhões de brasileiros, mas foi incapaz de construir na população uma consciência de classe que ajudasse o seu governo e posteriormente o governo de sua sucessora, Dilma Rouseff, a enfrentar os anos de turbulência econômica que a crise geral do capitalismo provocou no mundo inteiro.

Dilma, por sua vez, sem o carisma de Lula, rompeu a já tênue aliança com a população mais pobre e montou seu segundo governo numa aliança espúria com a direita, enfraquecendo suas bases de apoio.

O governo Temer, que chegou ao poder através de um golpe parlamentar, com a anuência do judiciário e o apoio declarado da mídia, mal consegue sustentar o arremedo de democracia em que vivemos e todos os sinais indicam que talvez não consiga completar seu mandato e se conseguir será com concessões cada vez maiores aos interesses do capital internacional.

A cortina de fumaça, levantada pela onda de um moralismo típico da classe média, através das operações espetaculosas da Polícia Federal, dos Procuradores da República e do Juiz Moro, não consegue esconder que, deliberadamente ou não, essas operações estão destruindo a base industrial que os governos do PT conseguiram construir no Brasil, começando pela Petrobrás.

Dentro desse cenário, surge como uma luz no fim do túnel, a declaração de Lula, essa semana na Paraíba, onde ele foi para receber do povo nordestino seus agradecimentos pela importante obra de transposição das águas do Rio São Francisco, que Temer, de uma forma grotesca, tentou assumir a autoria.

Mesmo descontado o tom de bravata, que Lula gosta de assumir, o que ele disse em Monteiro, no meio de um grande manifestação popular, nos faz pensar : “eles,(os golpistas) peçam a Deus que eu não seja candidato, porque se eu for é para ganhar”.

A ala jurídica do golpismo perdeu o timing (como ela gosta de dizer) para prender Lula. Hoje, isso – se ainda for possível – vai virar um escândalo nacional e internacional. Sua estratégia, me parece, será usar toda a força da mídia para colar em Lula a imagem de corrupção, mesmo que não tenha nenhum fato concreto para apontar.

E Lula, só será candidato para ganhar, se radicalizar seu discurso, até mesmo porque os partidos de centro abandonaram de vez o seu barco, começando pelo PMDB.

Em 2018, teremos, então, finalmente, uma eleição entre dois projetos: o de Lula, apoiado pela população pobre do país e alguns segmentos mais informados da intelectualidade e do outro, seja qual for o candidato escolhido, o projeto da direita,apoiado pelo empresariado associado ao capital estrangeiro e segmentos da nossa classe média, medíocre e alienada, com o apoio fundamental da mídia.

Será a grande revanche daquela disputa de 20 anos atrás entre Lula e Collor, na ocasião, decidida pela ação deletéria da Rede Globo a favor de Collor, com grandes chances de uma vitória da esquerda.

O único receio é de que os golpistas de hoje, sabendo que podem perder em 2018, não permitam que o povo seja chamado a decidir.

Corruptos e sonegadores

 

A revista Super Interessante nunca foi minha preferência como leitura, mas na ante-sala de um consultório odontológico, aguardando a malfadada hora de sentar na cadeira de dentista, ela ajuda a suportar a tensão da espera.

Como é de hábito começar a leitura pelo fim da revista, uma matéria cheia de gráficos coloridos logo chama a atenção nas últimas páginas.

Fala sobre impostos e começa dando a impressão de que vai repetir aquela velha história tão de agrado dos moralistas mal informados. Pagamos muitos impostos e os serviços que o governo nos dá em troca são muito ruins. Além de tudo a corrupção dos políticos é um poço sem fundo a drenar os recursos que poderiam ir para a educação e a saúde.

Antes de largar a revista, porque a espera pelo dentista se prolonga, vou em frente pelas páginas seguintes e os dados que vou lendo são surpreendentes.

Passo alguns para os leitores desse site.

– Somados todos os impostos (municipais, estaduais e federais) sobram apenas 4.085 dólares para o Estado gastar com cada um dos brasileiros, no período de um ano. Isso inclui escolas, polícia, hospitais, universidades, tribunais, ruas, estradas e portos, ou seja, todos os serviços prestados pelo Estado. Nos Estados Unidos, são 13.429 dólares para cada habitante por ano.

– Embora a economia brasileira tenha criado mais de 14 milhões de empregos com carteira assinada nos últimos 10 anos dos governos petistas, o salário médio de contratação é de mil reais. Ainda que sejamos a sétima economia do mundo, nossa população é de quase 200 milhões de pessoas, o que dá um PIB per capita de US$ 11,8 mil por habitante, nos colocando com isso no lugar 74 do ranking global. Ou seja: para cada indivíduo que acha que paga muito imposto sobre o salário e sobre os produtos que consome, há um número muito maior de pessoas que pagam pouco ou não pagam nada, porque ganham pouco e consomem pouco.

– No Brasil, 45% da arrecadação tributária vêm de impostos sobre o consumo, enquanto nos países ricos, a média é de 29%. Isso é, o pobre e o rico pagam o mesmo valor de imposto sobre o que consomem.

Enquanto isso, o Imposto de Renda, que poderia ser um fator de redistribuição de renda tem uma alíquota máxima de 27,5%, contra, por exemplo, 56,6%, na Suécia para quem ganha mais de 5.400 dólares mensais. Acrescente-se a isso, que quem paga religiosamente os 27,5% no Brasil são as pessoas que vivem dos seus ganhos como trabalhadores e tem este imposto descontado em folha.

– Segundo dados da FIESP, o Brasil perde pelo menos 41,5 bilhões de reais todos os anos por causa da corrupção.

Em qualquer movimento de empresários e mesmo de segmentos da classe media reclamando dos impostos altos, o ralo da corrupção é sempre o mais citado, mas o outro dado muito mais impactante raramente é lembrado: a sonegação.

Surpreendentemente, a revista escreve lá no encerramento da matéria: “Um estudo do Banco Mundial aponta que o Brasil é o vice-campeão dessa prática. Segundo o estudo, perdemos nada menos do que US$ 280 bilhões anuais por conta da sonegação. É uma quantidade astronômica de dinheiro – quase o dobra de tudo que entra via imposto de renda”

Em março de 2015, a Polícia Federal, a partir de uma denúncia anônima, montou a chamada Operação Zelotes,(lembrança daquele grupo de judeus que ousou desafiar o poder romano) para apurar a ação de quadrilhas que atuavam junto ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, revertendo ou anulando multas.

Começaram a aparecer então lobbies envolvendo grandes empresas do país, como a Gerdau, a RBS e grandes bancos como o Bradesco, Itaú e Safra e se imaginou que desta vez a sonegação fiscal em grande escala seria atingida. Logo, porém, as notícias sobre esse evento se tornaram escassas e como sempre convém aos donos do poder do País, os alvos passaram a ser pessoas físicas, em mais uma tentativa de envolver o PT e Lula nas denúncias.

Sobre as grandes empresas, não se falou mais.

Enquanto me encaminho, finalmente, para a cadeira do dentista, fico pensando em que são os grandes sonegadores. Certamente não são pessoas como nós que vivem de salários, vencimentos, pensões e aposentadorias.