Vamos falar sobre hipocrisia

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Vamos falar da hipocrisia do Lava Jato e das licitações e concorrências em geral.
As concorrências nos órgãos públicos foram criadas exatamente para permitir a corrupção. Seria muito mais honesto e econômico se cada um deles pudesse escolher o fornecedor de sua confiança.

Como diretor de criação de várias agências de propaganda em Porto Alegre, participei de inúmeras concorrências para as contas publicitárias de órgãos públicos e a gente sempre sabia antecipadamente quem iria ganhar a fatia maior do bolo e quem receberia, no máximo, um prêmio de consolação.

Ninguém duvidava que as agências de propaganda que haviam investido antes na campanha publicitária que ajudara a eleger o novo governador, ou o novo prefeito, ficariam com a parte de leão e que aquelas outras agências, não importa a criatividade, que haviam escolhido o candidato derrotado, sabiam também que teriam que esperar quatro anos por uma nova oportunidade.
E tudo era feito de acordo com a lei.

Nesse tipo de concorrência, quase todas as agências somavam o mesmo número de pontos nos itens técnicos, mas um item totalmente subjetivo – criatividade – permitia que se fizesse a diferença entre os amigos da casa e os outros.E contra isso não havia recurso, porque, afinal, gosto não se discute. É claro que este é um pequeno deslize, que não pode ser chamado de corrupção, ainda mais comparado com o que descobriu a Lava Jato.

Quando Fernando Henrique, Lula e Dilma se elegeram Presidente, isso só foi possível porque, por trás deles, havia uma coligação de partidos, que agora iria indicar seus membros para comandar os órgãos mais importantes do governo.

Eram os compromissos de campanha que teriam que ser cumpridos sob pena de não haver condições de governabilidade para quem estava iniciando seu trabalho.

São as tais cotas partidárias, que ficam acima da vontade do Presidente, que quando muito pode ter ao seu lado um ou dois políticos, identificados então como “da cota pessoal do Presidente”.
Alguém pode, honestamente, dizer que foi a Dilma quem indicou por vontade própria, por exemplo, este Cerveró, o outro pilantra da mesma estirpe, para afanar na Petrobrás.

Claro que não. Ele e os outros eram indicações partidárias.
Este comportamento pouco ético que permeia as relações entre governos e empresários é inerente a todo o sistema capitalista e é igual no Brasil, nos Estados Unidos ou no Japão.
Como disse aquele juiz amazonense Luís Carlos Valois, presidentes e governadores almoçam e jantam com os ricos e essas são sempre boas horas para tratar de negócios.

Essa semana, o ex-presidente Obama foi visto na ilha de Necker, de propriedade do bilionário inglês Richard Branson, no Caribe, se hospedando num resort para 34 pessoas, alugado aos outros, não a Obama, por um preço de 80 mil euros a diária.

Então, parece uma grande hipocrisia da Lava Jato misturar o louvável combate à corrupção, com denúncias políticas que envolvem apenas uma facção política, no caso a do PT, quando essa convivência pouco saudável entre políticos e grandes empresários sempre existiu, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro capitalista


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2 pensamentos em “Vamos falar sobre hipocrisia”

  1. Não lembro de ter discordado de nenhum comentário do Marino. Seja por seu poder de síntese, seja por sua lucidez no alinhavo de argumentos lógicos, a leitura é sempre fácil, agradável e, acima de tudo, proveitosa.

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