Não é hora de conciliação

O triste episódio da morte da mulher do Lula,  Marisa Letícia,  além da dor que trouxe para o ex-presidente e sua família, serviu para mostrar algumas coisas que mereceriam uma análise de conteúdo sociológico e político porque dizem respeito a todos nós brasileiros.

Primeiro a constatação do ódio profundo que move certos segmentos da sociais contra o PT e seus representantes ,demonstrado em dezenas de mensagens  colocadas nas redes sociais em que internautas se regozijam pela morte de Marisa Letícia.

Acho que a morte não absolve ninguém de um julgamento pelas suas atividades quando vivo, mas a mulher de Lula, ao que se saiba, sempre limitou sua participação político ao apoio, aliás esperado, ao marido e nunca se imiscuiu em questões  do governo.

Mas se tivesse tido uma participação ativa na vida política, poderia ser criticada por isso e não como escreveu um idiota de que estava sendo castigada por Deus, e que isso estaria acima da justiça dos humanos.

Segundo, o pouco respeito de alguns médicos em relação a uma pessoa doente e sem defesas num hospital considerado padrão no Brasil, o Sírio Libanês, de São Paulo. Uma médica vazou para seus amigos os exames que mostravam o quadro irreversível da paciente, quebrando uma norma elementar da ética médica.

Felizmente, foi demitida do hospital.

A terceira ilação que se pode tirar do episódio é de cunho político e ela,  infelizmente não valoriza os representantes da esquerda  na política brasileira.

Todos nós sabemos que o governo Temer, além do seu conteúdo profundamente reacionário e entreguista, tem uma marca indelevel de traição. O próprio Temer e seus auxiliares mais diretos,  todos  oriundos do PMDB , integravam  o governo de Dilma e além de se locupletarem com o golpe parlamentar, foram agentes diretos dessa ação.

Que Temer e seu grupo  – Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Moreira Franco, Romeiro Jucá e Henrique Meireles, entre outros –  tenham percebido astuciosamente que uma visita de solidariedade a Lula no hospital, ajudaria a desmanchar um pouco a ideia de que a morte de Marisa Letícia teve algo a ver com o estresse provocado pelas acusações injustas contra ela, que eles, de certa forma, ajudaram a criar, se entende.

O que não se entende é a disposição de Lula de se oferecer para dialogar com Temer,  como se fosse possível uma conciliação entre posições que devem ser opostas.  Aceitar a solidariedade pessoal  desses políticos, que afinal até participaram do seu governo, é normal,  mas jamais deveria se estender para algum tipo de comprometimento político.

Sobre esse aspecto, a visita de Fernando Henrique Cardoso e suas declarações sobre o encontro, foram muito mais dignas.

O gesto de Lula, que nunca perde a oportunidade de mostrar seu lado de negociador, quando na política há momentos de conciliação e outros de rompimento, parece sinalizar o que as pessoas costumam dizer dos políticos – que são todos iguais.

Se,em nome de uma hipotética conciliação nacional é possível  passar por cima de diferenças radicais que separam as concepções políticas do grupo de Temer , da esquerda, a qual  Lula mal ou bem ainda representa, a política perde toda  a sua importância e vira aquele jogo que nos acostumamos a ver no parlamento brasileiro de troca de favores e interesses menores.

Segundo os jornais, Lula teria aconselhado Temer a não propor uma reforma previdenciária nesse momento de recessão (em outro momento, ele concordaria?) e se pondo a disposição para discutir o assunto, com o que Temer teria dito que faria isso.

Temer e Lula conversando no Palácio do Planalto sobre reformas políticas e previdenciárias, enquanto no Senado e na  Câmara, onde a direita montou uma base sólida, se organiza um grande assalto aos direitos dos trabalhadores,  com o apoio da grande mídia e as bênçãos do judiciário, é tudo que as esquerdas não mereceriam ver.

A nossa liberdade começa pelo direito de escolher a marca do papel higiênico

Uma tarde num supermercado pode convencer, até mesmo um socialista empedernido como eu, das delicias de viver numa sociedade de consumo capitalista.

Lá você se sente um homem livre. É sua excelência, o consumidor e eu estava prestes a receber uma lição prática de como isso funciona

Um canapé feito com queijo de cabra, uma pequena prova de vinho branco da Serra Gaúcha, um biscoito integral, tudo isso certamente já lhe foi oferecido para degustação nos supermercados da cidade, por aquelas mocinhas simpáticas sempre com um sorriso encantador, que possivelmente serviria também para lhe oferecer um novo dentifrício capaz de deixar alvos os dentes de qualquer fumante inveterado.

Caso você aceite, por exemplo, um pequeno gole daquela vinho branco, terá que ouvir o discurso, que a pobre moça teve que decorar e que agora despeja numa torrente, para não esquecer nenhum adjetivo, sobre as qualidades do vinho, incluindo o fato de ter sido feito de videiras selecionadas, de ter um teor alcoólico de 12 graus e de se harmonizar com peixes e frutos do mar. Então, é bom passar rápido por estes locais e ir direto ao que lhe interessa nas prateleiras, ainda mais se você for um apreciador do malbec argentino.

É o que eu tentava fazer, um dia desses, num daqueles imensos supermercados da Avenida Ipiranga, talvez porque não estivesse ainda  convencido da minha condição de consumidor. Até aquele momento, eu era ainda um reles comprador de objetos de uso pessoal.

O novo item na minha listinha de compras marcava papel higiênico. E lá estava eu diante de uma enorme prateleira com um mundo de marcas de papel higiênico: com ou sem perfume, colorido, neutro, com ilustrações, folhas simples, folhas duplas, um mundo de opções. Quando localizei o rótulo conhecido e avancei para apanhar a embalagem, uma daquelas moças sorridentes criadas pela imaginação sempre fértil dos marqueteiros de vendas, se postou diante de mim com a pergunta previsível.

O senhor conhece este papel higiênico? Nas mãos, uma embalagem colorida, certamente de uma nova marca há pouco lançada no mercado e que precisava do aval de consumidores como eu, pouco afeitos a novas experiências de consumo, ainda mais de um produto tão pouco atraente como um rolo de papel higiênico.

Não, eu não conhecia e não tinha nenhum interesse em verificar na prática como é imensa hoje a liberdade de escolha de produtos de consumo, inclusive de um produto com uma destinação tão pouco nobre. Era a tal liberdade que nós, habitantes de um país onde impera o sistema capitalista e onde existe a livre iniciativa, temos e aqueles outros, que por ventura ainda vivam em regimes comunistas, não terão nunca.

Eu não estava valorizando mais esta possibilidade de escolha que só sistema capitalista pode oferecer as pessoas. Como castigo deveria ser enviado para Cuba, onde a saúde e a educação são públicas e gratuitas, mas certamente não existe toda uma variedade de papel higiênico como aqui.

A minha pífia desculpa para tanta ingratidão era que eu queria apenas completar as compras da minha listinha e chegar logo ao caixa antes que as filas se tornassem ainda maiores.

Minha negação, longe de desestimular a simpática mocinha, deu a ela novos argumentos. Eu teria que conhecer aquela nova maravilha posta a nosso serviço diário. Então, para o meu espanto, ela desenrolou um pedaço de papel do rolo que tinha nas mãos e começou a falar das qualidades do produto. É tão sedoso quanto este que o senhor ia comprar. Já usava o verbo no passado, certa que tinha abalada a minha decisão de compra. E foi despejando outras qualidades do produto. Tem também folha dupla, a mesma extensão, 50 metros e suprema vantagem, custa menos.

Temendo que ela quisesse avançar ainda mais na demonstração das qualidades do produto, rapidamente eu disse que sim. Tudo que eu queria era levar para a casa o novo e maravilhoso papel higiênico. Peguei logo duas embalagens e joguei no carrinho, armei meu melhor sorriso de comprador agradecido e me toquei para o caixa, antes que uma nova e sorridente demonstradora me apanhasse pelo caminho.

Você quer saber se o produto que levei para casa correspondeu às expectativas? Não sei. Sem querer decepcionar os publicitários, marqueteiros e defensores da sociedade de consumo capitalista, ainda penso que papel higiênico é tudo igual ou pelo menos, que a coisa mais parecida com uma marca de papel higiênico é outro marca de papel higiênico.

Pensando bem, ainda não me tornei um verdadeiro consumidor digno de viver numa sociedade de consumo capitalista.

 

Ainda bem que temos o Eike Batista

Não só o prenderam, como rasparam os cabelos do Eike Batista, embora alguns estejam dizendo que era um aplique capilar que ele usava para esconder a calvície.

Os jornais deram em destaque a notícia. Muita gente festejou. Agora estão prendendo os graúdos. Resultado da Lava Jato.

Outros foram mais longe ainda: é o fim da corrupção no País.

Embora a ministra Carmen Lúcia tenha homologado a delação da Odebrecht, mas não divulgado os nomes dos envolvidos, os jornais afirmaram que estamos caminhando para um Brasil sem corrupção.

Dizem que o Temer suspirou aliviado. Estamos salvos por enquanto.

Está tudo no Jornal Nacional, da Rede Globo, na RBS, no Estadão, no O Globo ou na Folha para os mais politizados.

Todo mundo é convidado a falar sobre os temas da hora: Eike Batista e delação da Odebrecht

O David Coimbra, que o Pintaúde insiste em chamar de Deivid Corigha (pergunte a ele, o Pintaúde, o porquê do apelido) disse na sua coluna em ZH que está com pena do Eike, inadaptado para uma vida na prisão.

Está certo, o David.

A Dra. Tatiana, Defensora Pública, diz que, como o Eike existem milhares de pessoas presas no Brasil, muitos em prisão provisória por crime muitos menores dos que os praticados pelo Eike.

Está certa, a Dra. Tatiana.

O importante é discutirmos esses assuntos pautados pela mídia.

Quando eles se esgotarem, a mídia tem muitos outros em estoque para as nossas discussões diárias.

Tem a sempre presente Lava Jato, tem a situação dos presídios, tem as loucuras do Trump, tem o verão na praia, tem o futebol e qualquer coisa, se volta a discutir a tragédia do boite Kiss.

Esse é o papel da mídia: nos propor temas para debates

Não todos, é claro. Temos que acreditar que as coisas melhoraram com a saída da Dilma, que a corrupção está com os dias contados com a Lava Jato e que o capitalismo brasileiro é uma maravilha.

O IBGE diz que o percentual de desempregados continua crescendo no Brasil e já existem mais de 11 milhões de brasileiros sem emprego: a mídia esconde nas páginas internas e jamais dirá que é fruto da política recessiva do Temer.

Falta dinheiro para investir na saúde e na educação: a mídia não vai dizer que é culpa dos governos que temem cobrar os sonegadores, preferindo financiar os empresários com esse dinheiro.

A violência cresce nas ruas e a mídia diz que faltam presídios, mas não diz que os soldados do crime são formados pela divisão social que empurra milhões de brasileiros para a miséria.

A história recente do Brasil mostra que houve uma hegemonização da mídia. Os jornais, as revistas, as emissoras de televisão e rádio, dizem a mesma coisa, apenas se diferenciando pelo seu estilo.

Os que pensam e escrevem coisas diferentes do que o establishment diz que é o correto sob o ponto de vista político, foram expurgados para os meios alternativos de comunicação, para as redes sociais, onde devem conviver com os mais estranhos assuntos, que vão desde o último escândalo social às receitas de comida vegetariana.

A mídia que forma opinião, que define comportamento, está solidamente nas mãos de meia de dúzia de empresários, que se transformaram em guardiões de um dos sistemas capitalistas mais injustos do mundo.

Assuntos como a dívida pública, o ajuste fiscal, a influência retrograda do discurso religioso e até o mesmo o futuro dos partidos de esquerda, ficam restritos a poucos iniciados nesses temas e não interessam à população.

A maioria das pessoas só se interessa e discute assuntos pautados pela mídia.

Devidamente industriadas pela mídia, quando chegam às eleições, segundo dizem o grande momento de definição da nossa democracia, as pessoas elegem o Sartori, O Crivella, o Dória, o Marchezan.

Ou seja, fazem exatamente aquilo que a grande mídia diz que devem fazer.

Os grandes revolucionários da história moderna, como Lenin, Mao e Fidel, quando, se aproveitando de situações fortuitas do momento (guerras impiedosas que desorganizaram as sociedades em que viviam, nos casos de Lenin e Mao e uma corrupção generalizada do governo anterior,  no caso de Fidel) tomaram o poder num golpe de força, trataram de monopolizar os meios de comunicação, obviamente mais precários em suas épocas.

Lenin disse mais de uma vez que a revolução estava apenas começando quando os bolchevistas chegaram ao poder. Era preciso educar as massas, dizia.

Nenhum deles caiu na conversa de que era preciso ter uma ampla liberdade de imprensa. Liberdade apenas para quem for a favor da revolução, disseram.

É como se depois de uma grande luta para abolir a escravidão, um país permita que surjam jornais defendendo a volta da escravidão.

Os sucessores de Lenin e Mao não pensaram assim. Na União Soviética, Gorbatchov, deslumbrado com a abundância dos supermercados americanos (não para todos americanos, é claro), quis fazer rapidamente o mesmo no seu País e pôs fora o que já fora construído em 70 anos.

Cuba, possivelmente, vai pelo mesmo caminho.

As pessoas são convencidas de que a coisa mais importante na vida é conquistar um bem material. Svetlana Aleksiévitch (O fim do homem soviético) mostra como os russos trocaram uma vida pobre, mas com garantia de trabalho, saúde e educação da melhor qualidade, pela aventura do capitalismo que lhe oferecia calças jean, sanduíches do McDonalds, Coca-Cola e a oportunidade de comprar um carro moderno, ainda que apenas para alguns.

Os alemães do lado oriental levantaram um muro em Berlim para separar o lado ocidental que os americanos transformaram num imenso outdoor, mas não adiantou muito. Acabaram derrubando o muro.

Mas, se as pessoas acham que e o lado ocidental era melhor em Berlim, se o capitalismo era melhor para a Rússia e a China e vai acabar sendo melhor para Cuba, porque impedir essa mudança?

Por que, basicamente, o capitalismo é pior para a maioria das pessoas e só é bom para os empresários e seus servidores mais próximos, que afinal não são tão poucos.

É preciso explicar, mostrando dados e fatos, que no sistema capitalista poucos ganham e a maioria perde.

Eu posso achar por mil razões que o sistema socialista é melhor para a imensa maioria das pessoas, mas eu preciso provar isso.

Numa sociedade moderna, isso só pode ser feito através dos meios de comunicação de massa.

Seria preciso uma disputa ideológica aberta entre os dois sistemas através da grande mídia, mas isso é impossível hoje porque os grandes empresários que as controlam não têm nenhum interesse em facilitar a vida dos seus adversário.

Não existe nenhum Gorbatchov, hoje, entre os empresários. Eles agem como Lenin, Mao e Fidel fizeram no passado e só cedem algum espaço para seus adversários sob forte pressão.

No caso, uma pressão popular organizada.

Por isso, a grande tarefa da esquerda como a melhor representante da parte mais esclarecida da população, hoje, é de, se não conseguir conquistar o acesso pleno à mídia, lutar para abrir, ao menos, algumas brechas nesse monopólio.