Verdade ou mentira

Um amigo reclamou que muitas histórias que conto na minha página no Facebook, ou no meu blog, parecem puras fantasias.

As vezes são mesmo.

Eu expliquei a ele que era uma forma de dramatizar determinado fato em busca de uma verdade mais profunda e exemplifiquei com o filme “A Chinesa” (La Chinoise) de Jean Luc Goddard.
Na época, começavam as maiores divergências entre os partidos comunistas da URSS e China (1967). Estudantes chineses que estudavam em Moscou, convocaram a imprensa ocidental para denunciar que foram espancados pela polícia russa quando faziam uma manifestação em favor de Mao Tse Tung.
O porta-voz dos estudantes tinha o rosto coberto de ataduras.
Quando terminou seu relato, tirou as ataduras e todos perceberam que seu rosto não sofrera nenhum arranhão. Quando os jornalistas começaram a gritar – fraude…fraude – ele explicou que realmente não fora ferido, mas as ataduras eram apenas um recurso para dramatizar sua narrativa e assim lhe emprestar mais realismo.
É o que eu, modestamente, tento repetir.


Em abril, devo visitar a Rússia e fiquei imaginando o que o Presidente Putin estaria pensando sobre minha próxima visita e escrevi sobre isso.
Quando soube que eu iria à Rússia em abril, me ligou o Putin. Queria que eu levasse uma camisa do Inter (diz que é vermelho desde criança) e um pacote de mariolas de Santo Antônio. O pior é que ele quer marcar um jantar no Kremlin para que eu cozinhe o meu famoso “camarão ao catupiri”. Não posso me negar para não criar um incidente internacional.
Essa história do telefonema e a próxima que falo de um passado encontro com Gorbachev ,você acredita se quiser.

A viagem à Rússia, Moscou (Moskva) e São Petersburgo (Leningrado), porém, é rigorosamente verdadeira.

Quando estive pela última vez no Kremlin, quem pensava que mandava no País, era o Gorbachev.
Não mandava em lugar nenhum. Na Rússia, o bam-bam-bam era o Ieltsin e em casa, a Raísa.

O Putin ainda era da KGB, mas eu avisei ao Gorba: cuidado com esse cara que ele vai longe. O Gorba achava que o Putin só queria saber de lutar caratê. Respondi que ele ia dar um ypon em todo o mundo. Não deu outra.
Eu também avisei o Gorba: para que parasse com aquelas frescuras de perestroika e glasnost, senão os americanos iriam tomar conta de tudo.
Ele não quis me ouvir e foi o que aconteceu. Hoje, os russos podem comer no Mac Donalds e tomar Coca Cola,mas a vida só melhorou para poucos.
Agora, o Putin está tentando recuperar o terreno perdido, más não consegue agradar todo o mundo.
Algumas das minhas amigas,por exemplo, reclamam que ele é, as vezes, um pouco machista e querem que eu lhe entregue um abaixo assinado das mulheres gaúchas, que começa com aquela famosa frase do Guevara “hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”, assim mesmo em espanhol.
Não sei se o Putin vai entender e se entender, vai gostar.

Em todo o caso, como não sou nenhum machista, vou levar o abaixo assinado e entregar ao Putin logo que desembarcar em Moscou.

Todas essas fantasias ficam pequenas diante do que aconteceu na noite de 30 de outubro de 1938, quando um programa radiofônico da CBS nos Estados Unidos foi interrompido por uma edição extraordinária de notícias anunciando que a Terra estava sendo invadida por marcianos, gerando pânico nas grandes cidades americanas, principalmente New Jersey e New York, de onde a transmissão estava sendo feita.

A ideia, produção e apresentação foram de Orson Welles, que fez uma radiofonização de um livro de Herbert Wells, Guerra dos Mundos, usando recursos do rádio jornalismo, como reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas.

A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade o sintonizou quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radio- teatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Dessas, meio milhão teve certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando linhas telefônicas e tentando fugir das cidades que estariam sendo atacadas.

 

O juízo final

Depois que os padres deixaram de rezar missa em latim, o ritual católico perdeu muito do seu encanto e alguns fieis.

Eu por exemplo, até os 15 anos, tinha assinatura da missa das 10 Igreja São João,  um pouco pela minha campanha de um dia chegar ao céu e muito por aquela menina, que também era assídua naquele horário.

Os homens ficavam do lado direito e as mulheres à esquerda, pelo menos os solteiros e eu, nunca tive coragem de atravessar aquela linha de separação, para, quem sabe dizer a ela que éramos irmãos em Cristo e talvez isso valesse um matinê no cinema Rosário.

A igreja, não só trocou o latim pelo português, numa estratégia inadequada de marketing, como foi abandonando aos poucos aqueles seus grandes mitos.

O que e era real, virou simbólico e aí, perdeu a graça.

Por exemplo, o Juízo Final.

A gente imaginava um evento maior do que a final da Copa do Mundo, o Rock in Rio ou o Super Bowl, de acordo com a Bíblia.

Todos os vivos e mortos tinham direito a este juízo final e definitivo para o qual não havia apelação.

Era o céu ou inferno.

E não eram apenas as almas que iriam comparecer. Eram as almas e os corpos, segundo nos ensinaram.

Milhões e milhões de almas com seus corpos (seriam os corpos em que fase da vida?).

Iria faltar espaço, mas certamente Deus tinha muito auxiliares entre anjos e santos para resolver esse problema de logística.

Imagino que os corpos voltariam para os lugares onde viveram.

Meu pai teria problemas para se localizar em Porto Alegre. Enquanto estava vivo, até 1969, ele insistia em chamar a Salgado Filho de 10 de Novembro, a Marechal  Floriano, de Rua dos Bragança e a André da Rocha, de Beco do Oitavo, quando elas já tinham mudado de nome há muito tempo.

Com as novas perimetrais e viadutos, acho que teria que servir de guia para o “seu” Alcides , enquanto estivéssemos esperando  a  vez de sermos  chamados para ouvir nossas sentenças.

Parece, porém, que a Igreja já disse que devemos ler essa história como um simbolismo.

Vamos, então, perder um grande espetáculo, maior ainda que aquele do filme do Cecil B. de Mille, que ele chamou de “O Maior Espetáculo da Terra”.

(Para os cinéfilos: O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth) foi dirigido por Cecil B de Mille, tinha entre seus principais atores Charlton Heston, James Stewart, Betty Hutton e Cornel Wilde e ganhou o Oscar de melhor filme em 1952)

Vamos falar sobre hipocrisia


Vamos falar da hipocrisia do Lava Jato e das licitações e concorrências em geral.
As concorrências nos órgãos públicos foram criadas exatamente para permitir a corrupção. Seria muito mais honesto e econômico se cada um deles pudesse escolher o fornecedor de sua confiança.

Como diretor de criação de várias agências de propaganda em Porto Alegre, participei de inúmeras concorrências para as contas publicitárias de órgãos públicos e a gente sempre sabia antecipadamente quem iria ganhar a fatia maior do bolo e quem receberia, no máximo, um prêmio de consolação.

Ninguém duvidava que as agências de propaganda que haviam investido antes na campanha publicitária que ajudara a eleger o novo governador, ou o novo prefeito, ficariam com a parte de leão e que aquelas outras agências, não importa a criatividade, que haviam escolhido o candidato derrotado, sabiam também que teriam que esperar quatro anos por uma nova oportunidade.
E tudo era feito de acordo com a lei.

Nesse tipo de concorrência, quase todas as agências somavam o mesmo número de pontos nos itens técnicos, mas um item totalmente subjetivo – criatividade – permitia que se fizesse a diferença entre os amigos da casa e os outros.E contra isso não havia recurso, porque, afinal, gosto não se discute. É claro que este é um pequeno deslize, que não pode ser chamado de corrupção, ainda mais comparado com o que descobriu a Lava Jato.

Quando Fernando Henrique, Lula e Dilma se elegeram Presidente, isso só foi possível porque, por trás deles, havia uma coligação de partidos, que agora iria indicar seus membros para comandar os órgãos mais importantes do governo.

Eram os compromissos de campanha que teriam que ser cumpridos sob pena de não haver condições de governabilidade para quem estava iniciando seu trabalho.

São as tais cotas partidárias, que ficam acima da vontade do Presidente, que quando muito pode ter ao seu lado um ou dois políticos, identificados então como “da cota pessoal do Presidente”.
Alguém pode, honestamente, dizer que foi a Dilma quem indicou por vontade própria, por exemplo, este Cerveró, o outro pilantra da mesma estirpe, para afanar na Petrobrás.

Claro que não. Ele e os outros eram indicações partidárias.
Este comportamento pouco ético que permeia as relações entre governos e empresários é inerente a todo o sistema capitalista e é igual no Brasil, nos Estados Unidos ou no Japão.
Como disse aquele juiz amazonense Luís Carlos Valois, presidentes e governadores almoçam e jantam com os ricos e essas são sempre boas horas para tratar de negócios.

Essa semana, o ex-presidente Obama foi visto na ilha de Necker, de propriedade do bilionário inglês Richard Branson, no Caribe, se hospedando num resort para 34 pessoas, alugado aos outros, não a Obama, por um preço de 80 mil euros a diária.

Então, parece uma grande hipocrisia da Lava Jato misturar o louvável combate à corrupção, com denúncias políticas que envolvem apenas uma facção política, no caso a do PT, quando essa convivência pouco saudável entre políticos e grandes empresários sempre existiu, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro capitalista

Descobrindo o mundo

Descobri aos poucos que o mundo não se dividia em bons e maus e que Deus costumava recompensar os bons e castigar aos maus, num longo processo de sofrimento e dor.

Não é simples abandonar as certezas que nos ensinaram em casa, na escola e na igreja e vagar pelas incertezas de um mundo sem Deus, e onde ser bom ou mau é apenas uma questão pessoal e não nos dá direito a reivindicar prêmios ou castigos numa hipotética e segunda vida.

Mas se houve um momento em que esta ruptura com o passado ficou clara, foi numa noite, no velho Teatro São Pedro, no distante ano de 1957.

Era uma noite fria de inverno gaúcho, e eu, nos meus gloriosos 18 anos, num silêncio quase religioso, junto com mais uma centena de pessoas, assistia a estréia em Porto Alegre da peça de Jean Paul Sartre, “Entre Quatro Paredes” (Huis Clos), com Tônia Carrero, Paulo Autran e Margarida Rey, com direção de Adolfo Celli, quando fiz uma descoberta que iria me acompanhar pela vida inteira, que “o inferno são os outros”.

Sartre era um dos papas do existencialismo e dizia que estamos condenados à  liberdade e sua peça nos mostrava como essa liberdade nos custava caro.

Numa sala fechada, sem espelhos, três personagens são obrigados a se verem através dos olhos dos outros dois e discutir tudo que não foram em suas vidas.

Garcin, o escritor, se pretendia um herói, mas não passa de um covarde; Estelle, uma pequena burguesa fútil que foge da sua culpa por ter matado o bebê que teve com um amante e Inês, a lésbica, que se dedicou em vida a atormentar os outros.

Estelle tenta seduzir Garcin, que tem medo que ela descubra sua covardia, enquanto Inês procura jogar um contra o outro.

A conclusão de Sartre, que Garcin verbaliza e que todos nós saímos do teatro, naquele distante ano de 1957 concordando, é que realmente o inferno são os outros

Essa é a liberdade da qual não podemos fugir: o de fazer o papel que nos foi destinado nesse jogo.

É interessante como as pessoas da minha geração aprenderam valores que iriam levar pela vida inteira através da ficção, do teatro, dos livros, do cinema.

O humanismo socialista, antes de Marx, Lenin eTrotsky, nós o conhecemos nas páginas de Les Thibault, acompanhando a vida de Jacques Thibault.

Beethoven, Mozart e Bach, nos foram apresentados por Romain Rolland em Jean Christophe.

O ateísmo, que substituiu aquela incômoda religiosidade herdada da infância em colégios de padres, começou a ser construído com a leitura do drama de Jean Barois, muito antes de Richard Dawkins nos provar que Deus é um delírio

Foi lendo os poemas de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, que descobrimos que a poesia podia ser revolucionária.

Foi nas salas escuras dos cinemas Ópera, Continente e no pequeno Palermo da Rua 7 de Setembro, que aprendemos com  Jules Dassin (Aquele que deve morrer), com Alain Resnais (Hiroshima meu amor) e com Stanley Kubrick (Glória feita de sangue), que o cinema,  mais do que uma indústria do passatempo, poderia ser um instrumento poderoso para transformar o mundo.

Não era uma época de certezas, mas de grandes dúvidas. Um dia, éramos comunistas estalinistas, no outro, trotskistas convictos, mais adiante pensávamos que a única resposta estava no anarquismo.

Todas essas certezas pareceram desaparecer quando lemos, com alguns anos de atraso, a trilogia de Sartre, Os Caminhos da Liberdade (Les Chemins de la Liberté) – A Idade da Razão (L´Age de Raison), Sursis (Le Sursis) e Com a Morte na Alma (La Mort dns l´ Âme).  Nosso herói, por algum tempo, passou a  Mathieu, o cínico e incrédulo professor de filosofia.

Naquele Brasil ensolarado do final dos anos de JK, cheio de energia e vigor, queríamos ser soturnos, como o personagem criado por Sartre e que segundo todos diziam, reproduzia a sua vida numa França assustada com a guerra fria e com medo da destruição atômica

Mas logo a vida nos chamaria para novas revelações. Os gloriosos anos da primeira década de 60, quando tudo parecia ser possível num Brasil que achávamos às portas da revolução, terminariam em breve no drama do golpe militar de 1964.

Mas, então, o que era apenas ficção, virou realidade.

Tantos anos depois daquela noite de descobertas no Teatro São Pedro, nos perguntamos, quantas coisas ainda existem para serem descobertas nos livros, no cinema, no teatro?

Apenas um homem bonito

Ele era um homem bonito. Apenas isso, o homem mais bonito de todos os homens de Porto Alegre.

Ele sabia disso. Bastava se  olhar no espelho para confirmar essa verdade, não havia um homem mais bonito que ele.

Quando pequeno, sempre ouvia a mãe dizer que beleza não põe mesa, mas ele era a melhor prova de que a mãe estava enganada. Sua beleza não punha apenas mesa, mas punha tudo que ele quisesse, apartamento de luxo, automóvel do ano, viagens à Europa em primeira classe, dólares e euros em profusão nos bolsos.

Aos trinta e poucos anos, ele vivia de ser bonito.

Mas, nem sempre fora assim.

Ele nascera e crescera como uma pessoa feia. Na adolescência era magro – um pau de vira tripa, dizia o pai – o rosto encovado fazia com que seus dentes saltassem para fora da boca. O rosto era cheio de espinhas e o cabelo era cortado sempre rente, porque a mãe implicara que ele tinha “cabelo ruim”, como o pixaim dos negros. Ela dizia que a culpa era do pai, “que tinha uns parentes com o pé na África”.

Na escola, era ignorado pelas meninas e até os 16 anos permaneceu virgem,  obrigado a se auto-satisfazer sexualmente.

Foi nessa idade, que as coisas começaram a mudar.

Ele lembra exatamente o dia ,  que pediu à mãe para repetir o café com leite, pão e manteiga. Daí em diante, sua dieta mudou: carne,  ovos, pão, nada chegava.  Os seus 60 quilos se transformaram rapidamente em 80. Os dentes se esconderam dentro da boca, as espinhas desapareceram e o cabelo,que ele se recusou a continuar cortando, cresceu louro e sedoso.

Como sempre caminhou muito e ia de bicicleta para a escola, não ficou gordo, ficou forte. Ficou bonito, cada vez mais bonito.

Aquelas meninas, que antes não olhavam para ele, agora disputavam sua atenção. E ele, até para se vingar da indiferença  do passado, foi levando uma a uma para cama, sem nunca se comprometer com nenhuma delas .

Ele agora era um rapaz bonito, muito bonito e logo seria um homem bonito, muito bonito e então se deu conta de que na sociedade em que vivia, essa qualidade poderia ser um diferencial muito importante.

Passou então a explorar sua beleza, viver do fato de ser um homem bonito.

Começou a fazer anúncios e filmes de homem bonito que usa coisas bonitas, que outros homens não tão bonitos, compram para parecerem bonitos.

Seu rosto, cada vez mais bonito, começou a aparecer em todas as revistas da moda.

De todas as mulheres disponíveis, cada uma delas mais bonita que a outra, escolheu para casar uma que era tão feia quanto ele fora na adolescência.

Ela tinha outro tipo de beleza: uma conta bancária inesgotável

Então, além de bonito, ele se tornou um homem rico, muito rico.

No domingo, dia 12 de fevereiro de 2017, quando completava 33 anos, ele acordou na sua mansão à beira do Rio Guaíba, às 10 horas e 23 minutos, ainda cansado da longa noite de orgia que vivera, depois de levar para sua cama três lindas mulheres e se olhou no grande espelho importado da Itália, que ocupava quase toda uma parede do quarto.

Viu, então, com assombro duas coisas que ele pensou nunca ver: uma ruga que começava embaixo da pálpebra do olho direito e descia, ainda quase invisível, pelo lado do rosto e um pequeno fio de cabelo branco, na têmpora esquerda.

Seu corpo foi encontrado na segunda feira pela empregada, Maria de Lourdes, deitado sobre a cama, morto com um tiro no ouvido.

O que fazer?

 

No início do século passado, Lenin escreveu um livro clássico para o movimento socialista russo, tentando responder quais suas tarefas mais imediatas, num momento em que ele estava disperso e desorganizado, cujo título era uma pergunta: o que fazer?

Talvez esteja faltando alguém que diga hoje para as esquerdas brasileiras o que fazer nesse momento de derrota e perplexidade geral.

A professora Céli Pinto, do Departamento de História da UFRGS, faz uma tentativa nesse sentido, num artigo muito interessante que escreveu para o Sul 21, com o título “Eles fazem o que querem, porque podem”

Eles, são os golpistas que se apossaram do poder e agora chegaram a este ponto, inimaginável tempos atrás:  o Temer indicar o seu Ministro da Justiça  para o Supremo Tribunal Federal  e isso não causar nenhuma reação maior da classe política, para não falar da população, totalmente indiferente ao que acontece em Brasília.

O que se pode sentir na leitura do artigo da Professora Céli, é o seu profundo desalento pela falta de qualquer perspectiva de reação.

E, não é apenas ela.

Todos nós, ao que parece, sentimos o mesmo.

Como ela disse, “eles fazem porque podem fazer”.

Estamos como o José, do poema clássico de Carlos Drummond de Andrade, sozinhos no escuro e sem saber o que fazer.

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope
você marcha, José!
José, para onde”.

Arrisco a dizer que o atual arremedo de democracia em que vivemos é pior que a ditadura, que os mais velhos experimentaram a partir de 64.

Naquela ocasião, a divisão era clara. Era mais fácil escolher um lado. A democracia contra a ditadura.

Lutávamos – uns mais, pegando até em armas, os mais corajosos, como a Presidenta Dilma –  e outros, com menos coragem, como a maioria de nós, torcendo pelos mocinhos contra os bandidos. Mas estávamos unidos, lutando pela mesma causa, quando mais não fosse, ouvindo as músicas de protesto do Chico.

“Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que eram subtraídas
Em tenebrosas transações”

Hoje, dizem que vivemos numa democracia, uma estranha democracia, onde um grupo de parlamentares, eleitos com o dinheiro de empresários e pelo obscurantismo de seitas religiosas, com o apoio da mídia e a indiferença geral da população, revoga o resultado de uma eleição legítima.

Dizem que os direitos são respeitados, mas um governo nascido na ilegalidade retira conquistas históricas dos trabalhadores.

Jornais, revistas e televisão, em voz uníssona, transformam em figura nacional, um juiz de província, que usa seu poder para misturar casos policiais com políticos.

Apesar de todos esses sinais de que o Brasil está se transformando naquela imagem clássica que os americanos sempre tiveram de nós – uma república das bananas – não se vê, ou se vê muito pouco – sinais de reação.

O que se discute como opção para a resistência?

Lula em 2018?

Se o que disse a Professora Céli está certo, de que eles podem tudo, alguém pode imaginar que eles permitirão uma candidatura do Lula com chances de vitória?

Nunca é demais relembrar o que disse Carlos Lacerda, quando Getúlio se lançou como candidato em 1950.

“O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Embora chamasse de revolução, o que Lacerda ajudou a construir foi um golpe de estado que acabou em 54 com o suicídio de Vargas.

Retornando ao ponto de partida, voltamos à pergunta que a Professora Céli não respondeu em seu artigo ou respondeu de forma vaga, o que fazer?

“É duro para nós ter de dizer isto, mas se não nos convencermos da urgente necessidade de nos recolocarmos politicamente na arena pública, não teremos como reagir”.

Diz ela, finalizando seu artigo.

O que me parece, é que existe hoje no Brasil é uma batalha pelos corações e mentes das pessoas e essa batalha se trava fora da arena política, se imaginarmos esta arena como um local onde atuam partidos e políticos.

A primeira tarefa é identificarmos nossos inimigos.

Hoje, a maior inimiga das esquerdas é a grande mídia e é contra ela que devemos iniciar essa batalha.

E ela quem legitima o estado de exceção em que vivemos e convence os brasileiros que não vale à pena lutar por uma sociedade mais justa e humana.

Aqui no Rio Grande do Sul, ela se chama RBS.

Uma tarde no tribunal

Filmes de tribunal compõem um subgênero do cinema norte-americano de sucesso no mundo inteiro, principalmente por causa daquelas surpresas de última hora, quando uma testemunha surge do nada para destruir todas as certezas que o expectador vinha construindo pouco a pouco.

Só para lembrar alguns desses clássicos de Hollywood, que os admiradores do gênero jamais esquecerão: Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution), com Tyrone Power, Charles Laughton e Marlene Dietrich, talvez o melhor de todos eles; 12 Homens e uma Sentença (Angry Men), com Henry Fonda; Veredito ( The Verdit), com Paul Newmann; As Duas Faces de um Crime (Primal Fear)  com Edward Norton; O Sol é para Todos ( To Kill  Mockinbird), com Gregory Peck e O Vento será tua Herança (Inherit The Wind), com Spencer Tracy, que conta o famoso caso do professor americano julgado por ensinar aos alunos a Teoria da Evolução das Espécies de Darwin.

Obviamente, ao fazer estes filmes, os diretores americanos certamente recriaram em seus roteiros, o ritual definido pela lei penal norte-americana para a atuação do juiz, dos jurados, dos acusadores e dos defensores.

Seguindo a legislação penal brasileira, os julgamentos nos nossos tribunais  dariam material para um filme?

É o que tentei comprovar, assistindo um julgamento da Primeira Vara do Tribunal do Júri, de Porto Alegre.

Nesse dia estava sendo julgado um homem, acusado de matar com quatro tiros outro homem, possivelmente por desavenças oriundas de uma disputa por uma mulher, companheira de um deles.

O acusado já cumpria pena pelo assassinato de um policial durante uma tentativa de assalto a um ônibus.

Independente da importância desse fato, o que me levou a decidir por este júri, é que nele estariam atuando dois mais renomados advogados de acusação e defesa atualmente em atividades em Porto Alegre

Pela acusação, o promotor Eugênio Amorim, famoso por suas polêmicas em defesa de uma maior rigidez da lei contra o que ele define como “bandidos” e “vagabundos”..

Pela defesa, a Dra. Tatiana Kosby Boeira, defensora pública, com participação em dezenas de júris de grande repercussão.

O julgamento começa no início da tarde, com o sorteio dos jurados e o interrogatório do réu, mas só ganha emoção, quando o promotor inicia a sua peça de acusação.

Na sua apresentação aos jurados, ele começa por uma definição de seu posicionamento político: é contra os vagabundos em geral, considera que a justiça é leniente muitas vezes com os criminosos porque alguns juízes são “molengas”, vê os islâmicos como terroristas e para que não fique dúvida sobre o lado que assumiu na vida política brasileira, diz da sua admiração pelo procurador do Lava Jato, Dalton Dallagnol e, mostrando a que veio, faz uma provocação direta à advogada de defesa, desfazendo das preocupações da Defensoria Pública com os direitos humanos.

Durante a sua hora e meia de discurso, mostra um talento inesperado para as artes cênicas. Como se estivesse num palco, alterna seu discurso com uma fala coloquial e outra altissonante. É histriônico em todos os momentos, mas não deixe de ser inteligente em suas colocações. Fala suavemente, quase no ouvido de uma das juradas, cita o nome de alguns desses jurados, se mostra preocupado com o fato de que uma das juradas possa estar sentido frio no ambiente refrigerado do tribunal e inopinadamente atravessa a sala até ficar vis a vis com réu, para chamá-lo, em altos brados, de covarde e vagabundo.

Fiquei me perguntando se é certo isso? Deve ser porque o juiz não fez nenhuma intervenção.

Ao manusear o processo, se apóia em testemunhos pouco consistentes, mesmo para um leigo como eu, para acusar o réu. Basicamente é uma trama que envolve algumas mulheres, o réu, a vítima e possíveis testemunhas, que são citadas, mas não são vistas no julgamento.

Essa já é uma grande diferença com os filmes americanos de tribunal, onde as testemunhas, normalmente roubam a cena.

Uma das provas que o promotor apresenta, é um boletim de ocorrência policial contra o réu, registrado por uma antiga companheira, por ameaça armada, isso antes do crime que a agora está sendo julgado ocorresse, o que seria mais um antecedente a provar a violência do réu.

Nesse momento, acontece a primeira quebra no script, se o que estivéssemos assistindo fosse um filme: a defesa descobre que esta mulher citada pelo promotor estava na platéia.

Depois de longas discussões e contra a vontade do promotor, o júri decide que ela deve ser ouvida.

Ela afirma então que a denúncia que fizera na polícia era falsa e fora motivada apenas pelo ciúme do marido, o réu do julgamento.

Na volta dos debates, o promotor, inconformado com o ocorrido, fala em chicana, em quebra das regras da lei processual  penal, mas não deixa de tentar convencer o júri que deve condenar o réu lendo trechos do Velho Testamento, onde um Deus cruel e vingativo (ao contrário do Deus do Novo Testamento) pune os maus e defende os bons.

Afirma que só um louco não condenaria aquele réu e eu me pergunto novamente se isso não ofende o direito dos jurados de decidir livremente sem esse tipo de pressão. Obviamente, devo estar errado porque ninguém protesta.

Nesse momento, o promotor aproveita para reafirmar sua crença na divisão da humanidade entre bons e maus, dizendo que chamar de maniqueísta uma pessoa que pensa dessa maneira, só pode ser coisa de comunista e ateu.

Depois é a vez da Defensora Pública. Ela é racional, mas fala com emoção. Defende a importância dos pobres terem uma defesa do mesmo nível que os ricos têm (certamente são poucos os ricos que já se sentaram naquela cadeira dos réus) e diz que faltam provas no processo para condenar o réu. Mostra a trama de ciúmes que permeia as acusações das mulheres contra o réu, que a julgar pelo que é dito, é um grande conquistador. Aliás, em certo momento ele é definido por uma delas como um Don Juan.

Sua fala é interrompida, a qualquer  momento, pelo promotor, com pedidos de apartes e mais do que isso, falando muitas vezes ao mesmo tempo que ela em comentários destinados aos jurados.

Pergunto novamente se isso não prejudica a defesa e em conseqüência o réu, mas devo estar mais uma vez errado, porque o promotor segue na sua tática de tentar abalar a advogada de defesa.

Em determinada momento, Conrado, meu filho, que também acompanhava o julgamento, faz uma observação que tem algum sentido: “parece aquele programa esportivo de rádio, Sala de Redação, onde as pessoas falam ao mesmo tempo e a gente não entende nada do que dizem”.

Como no programa de rádio, o mediador, no caso, o juiz, bem que esforça para que cada um fale na sua hora, mas o promotor não parece disposto a esperar a sua vez para a  réplica e continua falando ao mesmo tempo que a defensora.

Haveria ainda réplica e tréplica, mas não fiquei para ver. Já tinha material suficiente, senão para um filme, pelo menos para este artigo.

E o resultado do julgamento, que só terminaria quase as 10 da noite, o leitor que chegou até aqui perguntaria?

O réu foi condenado a 15 anos de prisão.

 

 

Jornais e jornalistas

O Dr. Franklin Cunha está sempre lamentando que a esquerda não disponha de um grande jornal impresso para disputar com a direita os corações e as mente da nossa classe média, tradicionalmente alienada.

Quando lembro que agora dispomos, pelo menos, do Sul 21 e outros sites jornalisticamente independentes, ele concorda, mas não deixa de lamentar.

– Só os grandes jornais impressos têm influência política e muitas vezes são eles que pautam à mídia virtual e às redes sociais.

Pensando bem, eu concordo com ele e acrescento.

– Aqui no Sul é ainda muito pior.

O Correio do Povo, há muito que perdeu a força que já teve no passado e em suas páginas, o que se pode ler, as vezes, é apenas um comentário mais critico e inteligente do Juremir Machado.

Sobra a Zero Hora, o veículo líder de um grande grupo de comunicação, que historicamente sempre se colocou em posições conservadoras e muitas vezes, através dos seus editores e jornalistas, defende posições reacionárias e contra os interesses mais legítimos da população.

Não é sem razão isso, se lembrarmos que o jornal nasceu do corpo da antiga Última Hora, quando esta foi praticamente extinta durante o golpe de 1964, e desde o seu início se transformou em porta voz do movimento militar.

Hoje, Zero Hora fica inclusive distante de outros jornais do centro do País, tão conservadores como ela, mas que guardam ainda, um certo respeito pela tão enaltecida, mas pouco praticada, diversidade de opiniões.

A Folha de São Paulo deu guarida, em sua página de debates, a uma carta do ex-deputado Eduardo Cunha.

Não se discute as qualidades éticas e morais de Cunha, mas obviamente ele é um personagem que teve grande influência na vida política do País há até pouco tempo e é importante saber o que ele pensa do juiz Moro e das razões para a sua prisão.

Quando Cunha era o principal agente, com o beneplácito da Justiça, para o trabalho sujo de desestabilização do Governo Dilma, ele merecia as manchetes e até elogios da imprensa. Quando sua tarefa foi concluída, o jogaram na lata do lixo.

Nós sabemos que, praticamente, todos os grandes jornais do Brasil apoiaram o golpe militar de 64, mas em algum momento, alguns deles tiveram a coragem de enfrentar os desmandos dos militares.

A Folha, que agora publica uma carta do Eduardo Cunha e tem entre seus editores e cronistas, talvez o maior importante jornalista político do País, Janio de Freitas, durante a ditadura chegou a emprestar suas caminhonetas, destinadas à distribuição de jornais, para carregar presos políticos.

O Estadão, o ultra conservador jornal paulista, que sempre se colocou contra os governos progressistas do Brasil, bancou o perseguido político Flávio Tavares como  seu correspondente em Buenos Aires e publicava poemas do Camões e receitas de bolo nas páginas do jornal que a ditadura censurava.

O Jornal do Brasil, na época talvez o mais influente veículo da mídia brasileira, apoiou decididamente o golpe de 64, mas quando a censura se tornou cada vez mais rígida, assumiu posições críticas. Ficou na história do jornalismo, a página da previsão do tempo do JB, no dia seguinte à edição do AI5, para ludibriar a censura.

Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O ar está irrespirável.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília. Mín.:5º, nas Laranjeiras.

Mas, de todos os jornais brasileiros, o caso mais notável de mudança de linha editorial, foi do Correio da Manhã, do Rio

Ficaram famosos seus editoriais, com as manchetes CHEGA e BASTA, nas vésperas do golpe de 64, pedindo explicitamente a derrubada do governo de João Goulart, o que não impediu que o jornal se transformasse logo  a seguir no maior crítico do regime, principalmente pelos textos dos seus jornalistas, editorialistas e colaboradores, como Carlos Heitor Cony, Hermano Alves, Otto Maria Carpeaux e até o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Nada disso, você vai encontrar nos arquivos dos nossos grandes jornais gaúchos.

As criticas, quando surgiam, eram apenas nas mídias alternativas, incapazes de chegar ao grande público  que precisaria ser esclarecido, fato que, como  não cansa de constatar o Dr. Franklin Cunha, permanece até hoje.

 

Vivendo em Reykjavick, Islândia

Cada dia fico mais impressionado com os mistérios da tecnologia moderna.Um exemplo: este computador onde escrevo agora e este programa de relacionamento social que participo.

Aparentemente, estou muito próximo dos meus amigos.
Ontem postei uma foto com o Roberto Pintaúde, antigo, mas cada vez mais criativo publicitário gaúcho, em frente a um painel na Casa do Estudante Gaúcho, na Rua Riachuelo, centro de Porto Alegre, Brasil, mas há um ano vivo na Islândia, em Reykjavik, uma cidade de 323 mil habitantes, quase dois terços da população total do País.
Como é possível isso? Não sei. Talvez porque eu tenha me transformado num cidadão do mundo. Alguém que vive nesse calor selvagem de Porto Alegre, no sábado, e nesse frio de “renguear cusco” aqui em Reykjavik, no domingo.
Aliás, tentei traduzir essa expressão gaudéria – “renguear cusco” – para a língua local, com o auxílio do Curryland, uma linda nativa que funciona como minha tradutora, mas nem ela entendeu.
O pessoal aqui fala Islandês, mas desde pequeno estudam e falam fluentemente inglês, além do dinamarquês. Eu, é que do inglês sei apenas aquele célebre expressão, “the book on the table” e olhe lá.
O que faço aqui?
Este mês, nada, porque está muito frio, as ruas estão cheias de neve e então fico em casa com a Curryland, treinando o meu islandês, fazendo “otras cositas mas” e eventualmente, aparecendo em Porto Alegre para tomar um trago com o Pintaúde.
Quando esquenta um pouco e fica aquela maravilhosa temperatura de zero grau, treino uma equipe de futebol feminino de uma escola da cidade.
Treinador de futebol ?

Você nunca fez isso no Brasil vão dizer.

Caluda, bico calado, eles acham que eu sou o Antônio Carlos Zago e eu não desminto. Nunca disse que era o Zago, mas quando cheguei, o cara da Alfândega, que era vidrado em times italianos, (acho que o Zago jogou na Itália) , foi dizendo que vira na televisão que o Zago iria treinar o time de futebol feminino da escola, que é também a seleção nacional e eu fiz que sim com a cabeça, mesmo não entendendo nada do que ele disse.
Como faço para treinar as meninas?
Simples, a Curryland me ajuda um pouco, embora agora tenha inventado que eu teria tido um caso com a zagueiro central, a Astrud, uma loira de quase dois metros de altura, bateu a porta e me deixou sozinho no vestiário.
Não foi das piores coisas da vida, conviver com aquelas moças tão desinibidas que ficam peladas na minha frente sem constrangimento nenhum.
Eu é que encabulava um pouco nas primeiras vezes. Agora já me acostumei.
Dou minhas instruções, enquanto a Curryland continua emburrada, cheia de ciúmes, usando apenas mímicas, vou explicando o que quero: marcação alta, triangulaçao, bola no ponto futuro.
Acho que alguma coisa elas entendem.
Outro dia, ganhamos da seleção das Ilhas Faro por 13 a 11 e fui cumprimentado até pela primeira ministra.
Acho que era primeira ministra, ou presidenta ou no mínimo, a diretora da escola.
Como cheguei aqui?
Simples. Depois de 20 anos de casado, minha mulher (agora ex-mulher) também 20 anos mais nova do que eu, me mandou embora.
Eu tinha envelhecido e ela não.
Não só me mandou embora de casa, mas foi bem enfática.
– Fique o mais longe possível de mim.
Bem, eu achei então que Reykjavick fosse um lugar bastante longe para ela.
Se não for, ainda tem a Groenlândia, um pulo daqui.

Uma vez, fomos radicais


No seu poema “Nosso Tempo”, Carlos Drummond de Andrade começa dizendo que “esse é tempo de partido, tempo de homens partidos” e termina lembrando: “tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas, enérgicas, comprimidas há tanto tempo perderam o sentido, apenas querem explodir”.
O poeta certamente ficaria escandalizado vendo e ouvindo o que dizem os homens de hoje nos jornais, na televisão, no parlamento, quase todos incapazes de se posicionar radicalmente sobre questões que tem apenas dois lados.
Deveria ser “sim” ou “não” e você ouve “quem sabe”, “vamos ver”, “talvez”.
Em nome da prudência, as pessoas não se posicionam, não assumem um lado.
Talvez apenas no futebol, ainda sobre um resquício dessa paixão por uma cor, por uma bandeira, embora em vez de Inter e grêmio você já ouça um Barcelona, um Manchester United ou Bayer de Munique.
Que eu lembre, não éramos assim na infância. Tínhamos posições definitivas , o que não impedia que pudéssemos mudá-las diante de argumentos racionais.
Era importante fazer uma escolha e nessa escolha nos afirmávamos como homens em formação: você não podia ser colorado ou gremista ao mesmo tempo; seu herói ou era Capitão Marvel ou o Super Homem. A Folha Esportiva nos ajudava nessas escolhas: sem nunca ter entrado no Prado, eu torcia para o Ganganeli Cunha contra o Armando Reina nas estatísticas do melhor jóquei e era fã do Bochófilo Navegantes no campeonato de bocha.
Algumas escolhas, percebemos depois que estavam equivocadas, como a do mocinho do faroeste contra os índios ou a dos americanos contra os mexicanos e então mudamos de lado.
A opção, as vezes, refletia a influência do nosso pai: eu era PTB, contra o PSD e a UDN.
Unanimidade surgia apenas no nosso relacionamento com as gurias. De insuportáveis e chatas, que não jogavam futebol, nem bolinha de gude, a partir de certo momento, elas se transformaram em objetivos de vida.
Salvo alguns comportamentos divergentes daqueles meninos que nossas mães diziam que eram apenas bem comportados e que nós, maldosamente, chamávamos de “frescos”, quase ao mesmo tempo, todos nós passamos a sonhar com a possibilidade de chegar ao tesouro que, sabíamos que elas escondiam em seus santuários inexpugnáveis.
Fomos ensinados em casa, na escola e na igreja, que para entrar naqueles santuários, cujos nomes só poderiam ser pronunciados “a bocca chiusa”, tínhamos que cumprir um longo ritual pela frente. Eu e quase todos meus amigos cumprimos esse trajeto, até podermos abrir a caixa de Pandora, muitas caixas, algumas surpreendentemente vazias.
Em determinado momento da vida e diante de outras situações, muitos de nós foram mudando, por entender que estariam mais próximos de algum tipo de sucesso se não fossem tão radicais em suas opiniões e gostos.
Lembrando mais uma vez nosso poeta maior, nem todos aceitaram a sua sina: “Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sobra, disse: vai Carlos ser gauche na vida”.
Poucos quiseram ser “gauches” e a maioria se transformou nessas pessoas que hoje nos aconselham à moderação, a respeitar o politicamente correto, a esperar para ver para onde vai a corrente, antes de embarcar em alguma idéia.
Pelo que vejo e ouço, eles são a maioria e estão em toda a parte, principalmente na universidade, nos meios de comunicação e da política.


Proponho um teste para identificá-los, perguntando qual figura histórica eles mais admiram: Galileu Galileu ou Giordano Bruno.
Os dois enfrentaram a ira do Santo Ofício da Igreja Católica em 1600. Galileu, fundamentalmente por ensinar que a Terra se movia em torno do Sol e Giordano Bruno por duvidar de alguns dogmas da Igreja. Galileu não só renegou sua ciência como afirmou na sua confissão:
“E eu juro que no futuro não direi nem asseverarei oralmente ou por escrito essas coisas nem aquelas que me forem similarmente suspeitas; e se eu ficar sabendo de algum herético, ou de um suspeito de heresia, eu irei denunciá-lo para este Santo Ofício, ou para o Inquisidor ou para o Ordinário do lugar onde eu estiver.”
Segundo a lenda, depois de escrever sua confissão, e ser poupado da fogueira, Galileu teria murmurado “e pur si muove” (porém, ela se move).
Já Giordano Bruno se recusou a mudar o que havia escrito e ensinado e antes de ir para a fogueira, afirmou aos seus juízes: “vocês devem estar sentido mais medo ao pronunciar esta sentença, do que eu a ouvi-la”
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