O juízo final

Depois que os padres deixaram de rezar missa em latim, o ritual católico perdeu muito do seu encanto e alguns fieis.

Eu por exemplo, até os 15 anos, tinha assinatura da missa das 10 Igreja São João,  um pouco pela minha campanha de um dia chegar ao céu e muito por aquela menina, que também era assídua naquele horário.

Os homens ficavam do lado direito e as mulheres à esquerda, pelo menos os solteiros e eu, nunca tive coragem de atravessar aquela linha de separação, para, quem sabe dizer a ela que éramos irmãos em Cristo e talvez isso valesse um matinê no cinema Rosário.

A igreja, não só trocou o latim pelo português, numa estratégia inadequada de marketing, como foi abandonando aos poucos aqueles seus grandes mitos.

O que e era real, virou simbólico e aí, perdeu a graça.

Por exemplo, o Juízo Final.

A gente imaginava um evento maior do que a final da Copa do Mundo, o Rock in Rio ou o Super Bowl, de acordo com a Bíblia.

Todos os vivos e mortos tinham direito a este juízo final e definitivo para o qual não havia apelação.

Era o céu ou inferno.

E não eram apenas as almas que iriam comparecer. Eram as almas e os corpos, segundo nos ensinaram.

Milhões e milhões de almas com seus corpos (seriam os corpos em que fase da vida?).

Iria faltar espaço, mas certamente Deus tinha muito auxiliares entre anjos e santos para resolver esse problema de logística.

Imagino que os corpos voltariam para os lugares onde viveram.

Meu pai teria problemas para se localizar em Porto Alegre. Enquanto estava vivo, até 1969, ele insistia em chamar a Salgado Filho de 10 de Novembro, a Marechal  Floriano, de Rua dos Bragança e a André da Rocha, de Beco do Oitavo, quando elas já tinham mudado de nome há muito tempo.

Com as novas perimetrais e viadutos, acho que teria que servir de guia para o “seu” Alcides , enquanto estivéssemos esperando  a  vez de sermos  chamados para ouvir nossas sentenças.

Parece, porém, que a Igreja já disse que devemos ler essa história como um simbolismo.

Vamos, então, perder um grande espetáculo, maior ainda que aquele do filme do Cecil B. de Mille, que ele chamou de “O Maior Espetáculo da Terra”.

(Para os cinéfilos: O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth) foi dirigido por Cecil B de Mille, tinha entre seus principais atores Charlton Heston, James Stewart, Betty Hutton e Cornel Wilde e ganhou o Oscar de melhor filme em 1952)

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