Maestri x Juremir

Coincidentemente neste sábado de carnaval, dois dos mais importantes intelectuais gaúchos escreveram artigos que abordaram temas semelhantes, expondo suas visões críticas sobre questões que vão do preconceito racial ao politicamente correto na sociedade brasileira.

Mário Maestri e Juremir Machado, professores com doutorados em universidades européias, Maestri voltado para o estudo da História, principalmente a americana e Juremir, se dedicando à área da Comunicação e jornalista atuante, deram em seus artigos, visões, senão conflitantes, pelo menos bem distantes uma da outra, sobre os mesmos temas.

Sinteticamente, poderíamos dizer que, enquanto o artigo de Maestri é radical e decididamente demolidor de conceitos defendidos por boa parte das esquerdas brasileiras, aproveitando que seu artigo foi publicado no Sul21, hoje o espaço mais democrático da mídia gaúcha; o de Juremir, é bastante moderado, deixando dúvidas no leitor sobre qual é,afinal, a sua posição nas questões que aborda, talvez até mesmo porque escreva no Correio do Povo, um jornal que pertence ao braço de comunicação da Igreja Universal, do bispo Edir Macedo.

A questão, claramente discutida no texto de Maestri e tocada de maneira superficial no de Juremir, diz respeito a, se as reivindicações setorizadas de alguns movimentos sociais contribuem para a democratização da sociedade brasileira ou se alienam as pessoas das questões fundamentais desse processo

Juremir foca sua atenção no possível componente preconceituoso de algumas marchas de carnaval, consideradas ofensivas aos negros e as mulheres, relativizando sua importância em função da época em que foram divulgadas, mas admitindo que elas hoje se tornaram politicamente incorretas na visão dos movimentos que lutam contra o preconceito racial e o feminista.

Maestri, por sua vez, retoma a visão marxista clássica de que a grande questão é a luta de classes e que todos esses movimentos, ainda que meritórios, não abalam o poder da classe dominante, que por razões históricas num país como o nosso, que se desenvolveu a partir do trabalho escravo do negro, é exercido por uma maioria branca.

Usando um estilo que vai do agressivo ou irônico, Maestri dedica boa parte da sua argumentação para demonstrar a fragilidade das medidas compensatórias dos governos de Lula e Dilma, na tentativa de superar o preconceito racial.

“Não se tratava, jamais, de por fim à sociedade de classes brancamas apenas de integrar alguns negros privilegiados a ela. Não se queria virar a mesa dos privilegiados, mas apenas alguns lugares no ajantarado dos bem servidos.

Um ministro, um general, um juiz, um burguês negro eram propostos como uma conquista histórica para o movimento, mesmo que nesse processo se consolidasse a exploração social e racial geral. Lutava-se para que, também no Brasil, tivéssemos os nossos Colin Power, as nossas Oprah Winfrey e Condoleezza Rice e, sonho dos sonhos, algum dia, um Barak Obama. Tudo igual ao proposto pela cartilha dos segmentos negros integrados e pró-imperialistas, sobretudo do Partido Democrata estadunidense.

O PT satisfez parcialmente essa expectativa com, entre outras iniciativas, a nomeação de alguns ministros, com destaque para a indicação de Joaquim Barbosa ao Superior Tribunal Federal, devido apenas ao fato de ser indiscutivelmente negro. .

Hoje já nos defrontamos com uma nova ordem que, ainda mais do que ontem, golpeia a todos, com destaque indiscutível para os setores mais frágeis, entre eles, as populações negras marginalizadas.

A união dos oprimidos segue sendo, mais agora do que antes, o único caminho a ser trilhado”

Essa posição de Maestri, talvez não seja a de Juremir, mas certamente não é de boa parte do que diz diariamente a imprensa brasileira.

A Revista Veja, por exemplo, aproveitou a semana de carnaval, para abordar a questão do preconceito racial.

 

Na matéria de capa, uma grande reportagem toma como referência as histórias dos atores negros Lázaro Ramos e Taís Araújo. Considerando as posições conservadoras da revista sua conclusão sobre o tema é óbvia: o talento sempre vence independentemente da divisão de classe.

Para finalizar, seria importante lembrar aqui o pensamento de Jean Paul Sartre sobre outro preconceito arraigado em várias sociedades – o antissemitismo – no seu clássico livro, a Questão Judaica (Reflexions sur Le Question Juivre) de 1946.

No seu livro, Sartre dá a receita para enfrentar esse preconceito:

 

“A revolução socialista seria o caminho mais efetivo, uma vez que mudaria a situação do anti-semita, permitindo-lhe fazer outras escolhas. O anti-semita busca uma união nacional contra a divisão da sociedade de classes, reduzindo, contudo, a divisão da sociedade à divisão entre judeus e não-judeus”

Sartre acreditava que a abolição da sociedade de classes conduziria a uma situação capaz de gerar outras escolhas

Como que, antecipando o que diria Maestri 70 anos depois, ele lembra um exemplo concreto: dois operários trabalhando numa linha de montagem, um judeu e outro árabe, se enxergam como colegas operários e não como representantes de raças ou povos diferentes.

 

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