Apenas um homem bonito

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Ele era um homem bonito. Apenas isso, o homem mais bonito de todos os homens de Porto Alegre.

Ele sabia disso. Bastava se  olhar no espelho para confirmar essa verdade, não havia um homem mais bonito que ele.

Quando pequeno, sempre ouvia a mãe dizer que beleza não põe mesa, mas ele era a melhor prova de que a mãe estava enganada. Sua beleza não punha apenas mesa, mas punha tudo que ele quisesse, apartamento de luxo, automóvel do ano, viagens à Europa em primeira classe, dólares e euros em profusão nos bolsos.

Aos trinta e poucos anos, ele vivia de ser bonito.

Mas, nem sempre fora assim.

Ele nascera e crescera como uma pessoa feia. Na adolescência era magro – um pau de vira tripa, dizia o pai – o rosto encovado fazia com que seus dentes saltassem para fora da boca. O rosto era cheio de espinhas e o cabelo era cortado sempre rente, porque a mãe implicara que ele tinha “cabelo ruim”, como o pixaim dos negros. Ela dizia que a culpa era do pai, “que tinha uns parentes com o pé na África”.

Na escola, era ignorado pelas meninas e até os 16 anos permaneceu virgem,  obrigado a se auto-satisfazer sexualmente.

Foi nessa idade, que as coisas começaram a mudar.

Ele lembra exatamente o dia ,  que pediu à mãe para repetir o café com leite, pão e manteiga. Daí em diante, sua dieta mudou: carne,  ovos, pão, nada chegava.  Os seus 60 quilos se transformaram rapidamente em 80. Os dentes se esconderam dentro da boca, as espinhas desapareceram e o cabelo,que ele se recusou a continuar cortando, cresceu louro e sedoso.

Como sempre caminhou muito e ia de bicicleta para a escola, não ficou gordo, ficou forte. Ficou bonito, cada vez mais bonito.

Aquelas meninas, que antes não olhavam para ele, agora disputavam sua atenção. E ele, até para se vingar da indiferença  do passado, foi levando uma a uma para cama, sem nunca se comprometer com nenhuma delas .

Ele agora era um rapaz bonito, muito bonito e logo seria um homem bonito, muito bonito e então se deu conta de que na sociedade em que vivia, essa qualidade poderia ser um diferencial muito importante.

Passou então a explorar sua beleza, viver do fato de ser um homem bonito.

Começou a fazer anúncios e filmes de homem bonito que usa coisas bonitas, que outros homens não tão bonitos, compram para parecerem bonitos.

Seu rosto, cada vez mais bonito, começou a aparecer em todas as revistas da moda.

De todas as mulheres disponíveis, cada uma delas mais bonita que a outra, escolheu para casar uma que era tão feia quanto ele fora na adolescência.

Ela tinha outro tipo de beleza: uma conta bancária inesgotável

Então, além de bonito, ele se tornou um homem rico, muito rico.

No domingo, dia 12 de fevereiro de 2017, quando completava 33 anos, ele acordou na sua mansão à beira do Rio Guaíba, às 10 horas e 23 minutos, ainda cansado da longa noite de orgia que vivera, depois de levar para sua cama três lindas mulheres e se olhou no grande espelho importado da Itália, que ocupava quase toda uma parede do quarto.

Viu, então, com assombro duas coisas que ele pensou nunca ver: uma ruga que começava embaixo da pálpebra do olho direito e descia, ainda quase invisível, pelo lado do rosto e um pequeno fio de cabelo branco, na têmpora esquerda.

Seu corpo foi encontrado na segunda feira pela empregada, Maria de Lourdes, deitado sobre a cama, morto com um tiro no ouvido.


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