Pobres jornalistas

 

Quando jovens, eles se imaginam capazes de mudar o mundo com os instrumentos que aprenderam a manejar na universidade, mas não percebem que são apenas peças de uma engrenagem que não dominam.

Quando se dão conta disso, já são velhos e só têm dois caminhos a seguir: ou se tornam cínicos e por isso mesmo capazes de conviver com seus limites ou se tornam amargurados e sofrem com a sua impotência.

Estamos falando dos jornalistas em geral

Transformados em escritores, historiadores, cronistas ou simples testemunhas, eles, há séculos contam a história dos homens e dos seus feitos, quase sempre com a ilusão de que fazem isso em busca de uma verdade superior, porque se imaginam acima dos condicionamentos das sociedades em que vivem, chegando à suprema arrogância de se dizerem hoje  “formadores da opinião pública”.

Para não ir muito longe na História, tomemos como ponto de partida o acontecimento mais crucial do século XX, a Segunda Guerra Mundial vista pela nossa ótica, de brasileiros que viveram aquela  época.

Independentemente do que escrevesse um ou outro jornalista, havia algumas “verdades” aceitas pela maioria das pessoas e tornadas hegemônicas pela mídia, ainda que esse termo não estivesse já em uso:

  1. a) vivíamos sob a ordem e o progresso e não precisávamos pensar em política porque o Dr. Getúlio fazia isso por nós; b) o ideal inalcançável, era a classe média americana com suas casas de jardins na frente, piscina nos fundos e um carro na garagem; c) Mussolini havia feito os trens andarem no horário na Itália e Hitler recuperara a Alemanha; d) os índios eram malvados não apenas nos filmes de faroeste; f) e o que não podíamos jamais esquecer, os comunistas eram fundamentalmente maus.

Essa era a opinião pública, um conceito hegemônico que interessava à classe dominante, não o construído por um ou outro jornalista, mas por uma já grande máquina da comunicação, independentemente da possível divisão de suas opiniões particulares.

Quando o capitalismo criou a sua serpente venenosa, na forma do fascismo e depois do nazismo, foram os execrados comunistas da União Soviética, os únicos com capacidade e coragem, capazes de destruir essa máquina diabólica.

Então, independentemente do que poderiam pensar alguns jornalistas, a opinião pública foi informada que os comunistas não eram tão maus assim e o Exército Vermelho passou a ser exaltado e os feitos dos soviéticos vistos com todo seu heroísmo.

Até o nosso grande poeta, Carlos Drummond de Andrade, teve espaço para escrever versos como este:

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas, mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Quando a guerra terminou, ao contrário do que pensava Drummond, a velha ordem capitalista precisava ser recomposta e o comunismo mostrado outra vez como grande adversário.

Isso foi feito com guerras localizadas, até os dias de hoje, mas, principalmente, com uma grande lavagem cerebral, pelos meios de comunicação, independentemente do que poderia estar pensando ou escrevendo alguns jornalistas.

Os Estados Unidos iniciaram a grande meta, definida pelo Presidente Eisenhower de conquista dos corações e mentes em todo o mundo para o “american way of life”, independentemente do que pudesse pensar um ou outro jornalista

Para isso, foram usados não apenas os grandes meios de comunicação de massa, mas também a cooptação de personagens importantes da ciência e da cultura onde eles estivessem, para que falassem da “Grande Democracia do Norte” e deixassem de lado o fato de que essa democracia era quase que só dos brancos.

Então, ficamos sabendo que os norte-americanos eram nossos grandes aliados, a quem devíamos solidariedade (ou seria submissão?), que os russos viviam atrás de uma cortina de ferro e que fazíamos parte do país do futebol e do carnaval, independentemente do que poderiam pensar ou até dizer algum jornalista inconformado.

Hoje, com meios de comunicação cada vez mais sofisticados, esse processo se tornou mais eficientes e as novas “verdades” que interessam objetivamente à classe dominante passaram a ser “verdades” de todos nós.

Independentemente de jornalistas tão importantes e esclarecidos, como um Robert Fisk, no plano internacional e um Janio de Freitas, entre outros no Brasil, a maioria das pessoas acredita que:

  1. a) Israel faz o papel do mocinho e os palestinos o de bandido, no Oriente Médio; b) que os Estados Unidos defendem a democracia no mundo inteiro;c) que todos os políticos brasileiros são corruptos; d) que a corrupção entre os partidos é uma exclusividade do PT; f) que Lava Jato pretende apenas depurar a vida política nacional; g) que foi legal o impeachment da Dilma; h) que o Lula não pode voltar em 2018; i) e que bandido bom é bandido morto.

Independentemente, portanto, do que podem pensar um ou outro jornalista, poderíamos percorrer o alfabeto inteiro, anotando o que a mídia decidiu ser politicamente correto e com o que devemos concordar.

Algumas verdades sobre Israel que precisam ser ditas

 

Dificilmente você irá ler essa matéria em jornais brasileiros. Trata-se de um texto dos jornalistas Arturo Hartmann e Bruno Hubermann, publicado no site IC Arabe e reproduzido pela edição eletrônica em português do jornal russo Pravda, sobre o conflito na Palestina e tem como ponto de partida a visita de políticos e artistas brasileiros (Gregório Duvivier, Marcelo Crivella, Jean Willys, Jair Bolsonaro, Kátia Abreu, Humberto Costa e Jorge Viana) a Israel.

Como o texto é bastante longo, vamos transcrever aqui apenas alguns parágrafos. A versão completa pode ser lida no site port.pravda.ru.

“Escrevemos aqui para revelar o que o discurso sionista, em especial, aquele auto-intitulado de esquerda, escamoteia, confunde e omite questões importantes para o leitor. Quando dizem que são contra a ocupação israelense nas terras palestinas, a que estão se referindo? E o que não se menciona? Omite-se que o Estado de Israel foi criado, em 1948, por meio de uma limpeza étnica do território, que provocou a expulsão forçada de 800 mil nativos palestinos e a demolição de 615 cidades e vilarejos palestinos [1] em um processo que deixou um rastro de massacres e expulsões forçadas: Deir Ayyub, Khisas, Balad al Shayk, o bairro de Wadi Rushmiyya (em Haifa), Lifta, Sa’sa, Qastal, Deir Yassin, Qalunya, Saris, Beit Surik, Biddu, Safad, Tantura, Lydd e Ramla. Que os territórios de Cisjordânia e Gaza foram ocupados militarmente, em 1967, por meio de novas expulsões e massacres – fatos que se repetem cotidianamente até hoje. Que a propriedade privada palestina tem sido sistematicamente expropriada legal e ilegalmente pelas autoridades israelenses, que constroem cada vez mais colônias, muros e rodovias para segregar e inviabilizar a vida palestina em todo o território – seja dentro de Israel ou nos Territórios Palestinos Ocupados. Importante observação: tudo isso realizado diretamente ou com apoio de dirigentes do sionismo de esquerda. Entendemos, portanto, que é fundamental que a opinião pública compreenda o que significa atualmente a proposta de dois Estados para a sustentabilidade desse projeto político.

Significa não respeitar o direito de retorno dos mais de seis milhões de palestinos espalhado pelo mundo – as pessoas ou os parentes daqueles que foram expulsos em 1948; muitos, inclusive, encontram-se no Brasil, alguns em seu segundo refúgio. Aliás, esses refugiados palestinos, nascidos no exílio na Síria, no Líbano, no Iraque ou na Jordânia, nunca puderam conhecer o vilarejo da sua família, colocar os pés na Palestina, pois o Estado de Israel não permite a sua entrada no país. Como vemos, o sionismo tornou-se uma forma de colonialismo: para o sionismo real, a realização de um Estado majoritariamente judaico na Palestina, como resposta à perseguição aos judeus na Europa, teve e tem que recorrer a práticas colonialistas, de uma sistemática expulsão e segregação dos palestinos. O retorno dos milhões de palestinos para as suas casas afetaria decisivamente o balanço demográfico do território, fazendo dos judeus uma minoria, o que contraria a visão de qualquer sionista, até mesmo aqueles de esquerda”.

“O debate, portanto, não é sobre este ou aquele governo israelense, mas sobre o regime de Israel, moldado pelo sionismo, que se fortalece pelos ganhos militares, ganhos econômicos e a indiferença da comunidade internacional em relação às violações israelenses. O processo de paz, como disse Edward Said, foi a rendição palestina. O que os presidentes Donald Trump e Bibi Netanyahu fizeram na semana passada, ao por fim ao processo de paz, foi apenas enterrar uma farsa iniciada por Yithzak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat. O projeto de Estado Nação sionista está acima das nuances entre os partidos e as forças políticas israelenses. Nosso argumento é que há uma convergência de agendas entre a esquerda e direita israelense para a manutenção do Estado judaico com uma ampla maioria judaica. E isso tem implicações relevantes. Nas palavras do historiador Ilan Pappe, o fato de a limpeza étnica realizada na Palestina entre 1947 e 1949 não ser colocada a sério no cotidiano é, no mínimo, “desconcertante”. Segundo ele, existe um “grande abismo entre a realidade e a representação” no caso da Palestina.”+

“Mais recentemente, outro herói da esquerda sionista, o falecido Shimon Peres, quando presidente, em 2009, foi aos EUA vender colônias no deserto israelense do Negev, que segregariam e desocupariam os beduínos palestinos que ali vivem, para a classe dominante judaica dos EUA com a promessa de “fazer alyah [o processo de imigração de judeus para Israel] e viver com estilo” em condomínios com pistas de golfe, piscinas olímpicas e casas elegantes com ar condicionado central. E não fica por ai. Peres foi também o garoto propaganda da indústria armamentista israelense no Brasil. Quando o país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, Peres veio ao país como representante de corporações envolvidas em diversos crimes na Palestina, como os ataque à civis em Gaza e na construção do Muro na Cisjordânia”

“Como bem expôs o jornalista Andrew Fishman, diferente do discurso de um sionista conservador, o liberal “quer convencer que não existe um lado correto e um lado errado, é apenas ‘um conflito’ ou, melhor ainda, ‘uma situação complicada’ com gente boa e gente ruim nos dois lados. Só que um lado tem todo o poder e privilegio e o outro vive cada vez mais apertado e violado”. Israel tem o completo controle vertical e horizontal de todas as fronteiras do território (terra, água e ar), do fornecimento de água, da moeda e do recolhimento de impostos, tem uma das Forças Armadas mais bem equipadas do mundo, instituições fortes e uma economia desenvolvida; enquanto os palestinos não tem controle sobre a sua própria terra, não possuem Forças Armadas, mas apenas uma polícia despreparada, instituições fracas e uma economia subdesenvolvida e dependente da israelense”.

“Não achamos que a militância de esquerda sionista é falsa, achamos sim que é hipócrita. Ela pode ter sido relevante quando se mobilizou nas ruas entre os anos 1980 e 1990 para apoiar um acordo de paz que, não sabiam ainda, se seria manipulado para perpetuar a ocupação. Mas é hipócrita ao se posar como ativista pró-palestina ao mesmo tempo em que rejeita o direito de retorno dos refugiados que foram expulsos. Ao fazer assim estão consentido, implicitamente, com a máxima de que a Força cria o Direito. Assim como denunciou Norman G. Finkelstein, ao revelar que existem judeus que lucram como falsas vítimas do Holocausto, os militantes da paz da esquerda sionista”

Caso você tenha ficado interessado no assunto e queira continuar lendo sobre o assunto, além das versões pró-Israel, recomendamos os livros “A Invenção do Povo Judeu”, de Shlomo Sand, Professor de História da Universidade de Tel Aviv; “A Indústria do Holocausto”, do professor americano, filho de sobrevivente de Auschwitz, Norman Finkelstein e o clássico sobre as questões do Oriente Médio, “A Grande Guerra pela Civilização”, do jornalista inglês, Robert Fisk.

Maestri x Juremir

Coincidentemente neste sábado de carnaval, dois dos mais importantes intelectuais gaúchos escreveram artigos que abordaram temas semelhantes, expondo suas visões críticas sobre questões que vão do preconceito racial ao politicamente correto na sociedade brasileira.

Mário Maestri e Juremir Machado, professores com doutorados em universidades européias, Maestri voltado para o estudo da História, principalmente a americana e Juremir, se dedicando à área da Comunicação e jornalista atuante, deram em seus artigos, visões, senão conflitantes, pelo menos bem distantes uma da outra, sobre os mesmos temas.

Sinteticamente, poderíamos dizer que, enquanto o artigo de Maestri é radical e decididamente demolidor de conceitos defendidos por boa parte das esquerdas brasileiras, aproveitando que seu artigo foi publicado no Sul21, hoje o espaço mais democrático da mídia gaúcha; o de Juremir, é bastante moderado, deixando dúvidas no leitor sobre qual é,afinal, a sua posição nas questões que aborda, talvez até mesmo porque escreva no Correio do Povo, um jornal que pertence ao braço de comunicação da Igreja Universal, do bispo Edir Macedo.

A questão, claramente discutida no texto de Maestri e tocada de maneira superficial no de Juremir, diz respeito a, se as reivindicações setorizadas de alguns movimentos sociais contribuem para a democratização da sociedade brasileira ou se alienam as pessoas das questões fundamentais desse processo

Juremir foca sua atenção no possível componente preconceituoso de algumas marchas de carnaval, consideradas ofensivas aos negros e as mulheres, relativizando sua importância em função da época em que foram divulgadas, mas admitindo que elas hoje se tornaram politicamente incorretas na visão dos movimentos que lutam contra o preconceito racial e o feminista.

Maestri, por sua vez, retoma a visão marxista clássica de que a grande questão é a luta de classes e que todos esses movimentos, ainda que meritórios, não abalam o poder da classe dominante, que por razões históricas num país como o nosso, que se desenvolveu a partir do trabalho escravo do negro, é exercido por uma maioria branca.

Usando um estilo que vai do agressivo ou irônico, Maestri dedica boa parte da sua argumentação para demonstrar a fragilidade das medidas compensatórias dos governos de Lula e Dilma, na tentativa de superar o preconceito racial.

“Não se tratava, jamais, de por fim à sociedade de classes brancamas apenas de integrar alguns negros privilegiados a ela. Não se queria virar a mesa dos privilegiados, mas apenas alguns lugares no ajantarado dos bem servidos.

Um ministro, um general, um juiz, um burguês negro eram propostos como uma conquista histórica para o movimento, mesmo que nesse processo se consolidasse a exploração social e racial geral. Lutava-se para que, também no Brasil, tivéssemos os nossos Colin Power, as nossas Oprah Winfrey e Condoleezza Rice e, sonho dos sonhos, algum dia, um Barak Obama. Tudo igual ao proposto pela cartilha dos segmentos negros integrados e pró-imperialistas, sobretudo do Partido Democrata estadunidense.

O PT satisfez parcialmente essa expectativa com, entre outras iniciativas, a nomeação de alguns ministros, com destaque para a indicação de Joaquim Barbosa ao Superior Tribunal Federal, devido apenas ao fato de ser indiscutivelmente negro. .

Hoje já nos defrontamos com uma nova ordem que, ainda mais do que ontem, golpeia a todos, com destaque indiscutível para os setores mais frágeis, entre eles, as populações negras marginalizadas.

A união dos oprimidos segue sendo, mais agora do que antes, o único caminho a ser trilhado”

Essa posição de Maestri, talvez não seja a de Juremir, mas certamente não é de boa parte do que diz diariamente a imprensa brasileira.

A Revista Veja, por exemplo, aproveitou a semana de carnaval, para abordar a questão do preconceito racial.

 

Na matéria de capa, uma grande reportagem toma como referência as histórias dos atores negros Lázaro Ramos e Taís Araújo. Considerando as posições conservadoras da revista sua conclusão sobre o tema é óbvia: o talento sempre vence independentemente da divisão de classe.

Para finalizar, seria importante lembrar aqui o pensamento de Jean Paul Sartre sobre outro preconceito arraigado em várias sociedades – o antissemitismo – no seu clássico livro, a Questão Judaica (Reflexions sur Le Question Juivre) de 1946.

No seu livro, Sartre dá a receita para enfrentar esse preconceito:

 

“A revolução socialista seria o caminho mais efetivo, uma vez que mudaria a situação do anti-semita, permitindo-lhe fazer outras escolhas. O anti-semita busca uma união nacional contra a divisão da sociedade de classes, reduzindo, contudo, a divisão da sociedade à divisão entre judeus e não-judeus”

Sartre acreditava que a abolição da sociedade de classes conduziria a uma situação capaz de gerar outras escolhas

Como que, antecipando o que diria Maestri 70 anos depois, ele lembra um exemplo concreto: dois operários trabalhando numa linha de montagem, um judeu e outro árabe, se enxergam como colegas operários e não como representantes de raças ou povos diferentes.

 

Dando nome aos bois

Bertold Brecht disse que o pior analfabeto é o analfabeto político porque ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

Existe um espécime ainda pior do que o alienado político, definido tão magistralmente por Brecht: são aqueles sujeitos que defendem os interesses contrários a classe a qual pertencem.

Eles são motoristas de taxi, vendedores de seguros, caixeiros de lojas, advogados, publicitários, garçons, autônomos, biscateiros, militares e aposentados.

Estão em dezenas de profissões e não poucos deles exigem serem chamados de doutores.

No passado formavam uma maioria de homens, mas hoje não existe mais uma distinção de gênero na categoria.

Nunca foram operários que acordam cedo e dão duro no trabalho durante o dia inteiro, lutando por um salário mínimo, mas também não chegaram a conhecer a boa vida de alguns profissionais liberais e muito menos conviveram com grandes empresários e políticos importantes.

Eles fazem parte da grande família da classe média que Marilene Chauí, uma vez definiu como os grandes representantes do reacionário brasileiro.

Hoje, eles são contra o PT, mas no passado eram assombrados com o perigo comunista.

Eles falam alto no restaurante a quilo que frequentam, na lotação e nas filas dos supermercados.

Deles, você jamais ouvirá um pensamento original. Repetem apenas o que ouviram à noite passada no Jornal Nacional ou leram na Zero Hora.

Quando você ousa defender uma posição de esquerda diante deles, gritam em uníssono: “vá para Cuba”, ou na versão mais atual, “vá para a Venezuela”.

São viciados nos jogos dos celulares e o último livro de que são capazes de citar o nome, embora possivelmente também não tenham lido, é da Martha Medeiros e só lembram dessa autora, independentemente do seu talento,  porque também escreve na Zero Hora.

Preferem ver os filmes na televisão, “porque as ruas estão muito perigosas hoje em dia”, mas quando vão ao cinema do shopping, é para ver algum filme bem digestivo, tipo La La Land, porque de “complicada, basta à vida”.

Nunca pergunte a eles se conhecem a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen, porque eles vão imaginar que é uma dupla sertaneja.

Nas eleições, votam sempre naqueles candidatos que conheceram da televisão ou do rádio, independente de que partido sejam, ou naquele jogador de futebol que foi ídolo do seu time

São moralistas e a favor do combate à corrupção, mas só a praticada – verdadeira ou não – pelos petistas. Nunca ouviram falar em sonegação de impostos feita pelos empresários, mas se soubessem, aprovariam porque acham que não pagar o que se deve ao governo é uma ação correta

Se dizem patriotas, vestem verde e amarelo e vão para as praças bater panela, quando, pelo menos uma vez na vida, são tratados como iguais pelos grandes “coxinhas” e suas mulheres dondocas, mas logo que a manifestação termina voltam de ônibus para a casa, enquanto aquele “amigo” e sua bela mulher, que descobriram na praça, voltam no carrão estacionado logo ali.

Como poderíamos chamar esses caras, que adoram ser chamados de povo, mas que vegetam num limbo, entre o povo de verdade e a elite exploradora?

No Manifesto Comunista, Marx diz que eles nunca serão revolucionários, mas conservadores “mais ainda, reacionários, pois pretendem fazer girar para trás a roda da história”

Embora, muitas vezes sejam chamados de “lumpem”, a denominação não se encaixa na definição clássica de Marx, que lançou o termo no seu livro “A Ideologia Alemã’, dizendo que eles eram plebeus, colocados entre os homens livres e os escravos e que nunca conseguiram ultrapassar a condição de “lumpenproleiariat”,

Mais adiante, no “18 Brumário de Luis Bonaparte”, Marx diz quais são os componentes dessa categoria anti-revolucionária: libertinos arruinados, descendentes degenerados e aventureiros da burguesia, vagabundos, desertores, ex-presidiários, escroques, saltimbancos, delinquentes, ladrões, alcagüetes, donos de bordeis, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, caldeireiros, afiadores e mendigos.

Nossos personagens não se enquadram nessas categorias passadas e mesmo levando em conta que muitas das profissões citadas por Marx não mais existem, o que os define hoje como uma classe social é sua condição de alienados políticos.

Depois de muito procurar na língua portuguesa o termo mais adequado que respeitasse normas de boa educação que devem reger as relações entre quem escreve e quem lê, chega-se à conclusão que só no linguajar chulo se poderá encontrar a palavra adequado para definir estas pessoas.

São uns fodidos, com o perdão do termo.

Bandidos e empresários

Os jornais de Porto Alegre deram ampla cobertura à notícia de que a polícia descobriu um túnel que estava sendo construído a partir de uma rua próxima do presídio central e que, quando pronto, permitiria a fuga de centenas de presos.

As matérias chamavam a atenção para a tecnologia que estava sendo empregada na construção do túnel, que, a partir do porão de uma casa, se transformava quase numa avenida por baixo de uma rua em frente ao presídio: escoramento de madeira, iluminação, exaustores e ventiladores, tudo para assegurar uma fuga segura e tranqüila.

A conclusão seguinte é de que a obra, interrompida pela polícia, demandaria um grande investimento financeiro, só possível por um grupo organizado dentro do presídio que dispusesse de poder e dinheiro para bancar o empreendimento.

A partir dessa constatação, os jornais apontaram a facção criminosa, denominada “Os Manos”, como a única que disporia de todos esses requisitos para bancar os serviços.

O passo seguinte foi contar a história de como “Os Manos” disputaram e ganharam as concorrências com outras facções, até chegar a uma posição de liderança.

É nesse ponto que as ações da facção criminosa e o mundo empresarial fora das grades se confundem.

Prisioneiros, agressivos e empreendedores, usaram métodos violentos, no início, para afastar seus concorrentes, até chegar ao controle absoluto de uma determinada área do crime.

A partir daí, foram deixando de lado essas ações mais agressivas, partindo para novos métodos de cooptação de apoiadores, usando principalmente as armas do suborno e do jogo de influências.

As ações violentas, que eram regra no passado, passaram a ser exceções.

Seus investimentos se diversificaram e deixaram de ser apenas em áreas do crime, passando a atuar em mercados praticamente legais.

A própria estrutura de comando do grupo se modificou, passando do poder pessoal de algum líder carismático, como foi o famoso Melara, para um colegiado que se reúne para tomar as decisões importantes em nome do grupo.

Não é preciso se fazer um grande exercício mental para estabelecer os pontos de contato entre as ações de um grupo assumidamente criminoso e muitos dos chamados grupos empresariais.

Esses últimos também começam da mesma maneira, procurando destruir todos os seus concorrentes (é claro, usando sempre que possível, métodos legais) até tomar conta do mercado. Aí se tornam honestos, éticos e exemplos para a sociedade.

Enquanto os assumidamente criminosos detestam que seus negócios sejam divulgados, os outros fazem questão de anunciar suas virtudes e alguns até, depois de mortos, dão nome à instituições de caridade ou até mesmo de centros culturais.

Não é fora de propósito, lembrar aqui, aquela máxima de Bertold Brecht, “o que é roubar um banco, comparado com fundar um”, embora nenhum jornal que noticiou a ação criminosa, tenha pensado nessa associação, mesmo que ela seja tão óbvia.

 

 

Hello, Temer, here is Trump

 

Finalmente o Trump ligou para o Temer. Dizem que foi um pedido da Embaixada Americana em Brasília, preocupada que o presidente americano já tinha ligado para os presidentes da Argentina, Colômbia e Peru e para o Temer só quem tinha ligado foi o vice-presidente, Mike Pence.

Embora o conteúdo da conversação de 2 minutos entre os dois ainda não tenha sido divulgado pelo Planalto, um hacker da equipe do Edward Snowden acaba de revelar em primeira mão o que falou Trump, já que o conteúdo vazado apenas reproduz o que foi captado do telefone americano.

As respostas do Temer não foram divulgadas pelo hacker

O texto a seguir não foi revisado e sua tradução ainda é precária porque como o Trump usa muitos termos chulos, os tradutores estão procurando as correspondências mais corretas em português.

Advertimos ainda que como se trata de um conteúdo vazado por hacker, ele precisaria ser confirmado por fontes oficiais, o que não ocorreu até agora.

Trump: Porra ( piss off) não se pode nem mais cagar em paz aqui na Casa Branca…ah é o Presidente do Brasil. Desculpe, Presidente, me passaram o telefone sem avisar do que se tratava. Como vai a senhora, Dona Dilma.

Trump:  Ah…é, mas não tinham eleito a Dilma até 2018. O Obama falava bem dela. E de Mr. Lula também.

Trump – How do you do, Mr. Trampes?

Trump – Não ligaram o tradutor automático do telefone para o espanhol. Chama o motherfucker encarregado .

Trump – Ok, ok. Você fala brasileiro e seu nome é Temer. Ok. Yes.

Trump  – Português…mas você é presidente do Brasil ou de Portugal?

Trump  – Yes, I understand (bullshit, olha a tradução). Nós também falamos inglês e não somos a Inglaterra. It´s a joke, Mr. Tomes.

Trump.  Temer.  Bonito nome. Vocês deram um golpe então? Agora estou lembrando. O pessoal da embaixada me falou. É um grupo de políticos que aqui nos Estados Unidos estaria todo na cadeia, mas que aí virou gente de confiança tua. Bom Tremer…

Trump – Certo, Tener. Cuidado cara, você tá ficando  tão a direita quanto eu (like me) Falei com aquele  arsehole, o Macri e ele me disse que pensava ser o cara mais a direita na América de baixo…

Trump- Tá bem, América do Sul, mas que tu ficou mais à direita ainda que ele. Porra, tô  falando com o cara…

Trump – Desculpe Termer…

Trump  – Certo Temer…era um assessor …eles aí na Bolívia também te enchem o saco? …

Trump –  Desculpe, Teumer…Bolívia, Brasil… é tudo muito parecido…

Trump – Temer, porra, cara., tu também é muito boring (chato) com esse negócio de nome…tá bem, Temer, mas como eu ia dizendo, a Bolívia…quer dizer o Brasil agora ficou muito amigo da gente.  Esse meu assessor de merda quer que eu te agradeça por quebrar a Petrobrás, embora eu nem saiba exatamente o que seja isso, Petrobrás.

Trump – Ah…petróleo, isso a gente gosta muito. We love them.

Trump  – Ah é, agora é tudo nosso.  Legal, cara. O Petróleo é nosso. Acho que vou usar na próxima campanha.

Trump  – Ah..é..os comunistas usaram aí. Não tem importância, vai ser um slogan em inglês – “the oil is ours” – e comuna não entende inglês. Timer…

Trump  – Temer…mas que porra de nome te arrumaram difícil de dizer em inglês.

Trump – OK…o assessor de merda está me avisando para desligar porque ainda preciso falar com o presidente da  Chechênia…by  Térme…dá um abraço no Moro

Trump  – Oi Termes…não desliga ainda, o assessor lembra que devo dizer que minha mulher , Melania, manda lembranças para a Marcela …ah…que a mulher americana admira muito a Marcela…mas que merda, a minha mulher nem é americana.  Arrivederci, Temis…é assim que vocês se despedem aí na Bolívia, não?

 

 

Também tive meu dia de cronista social

Sábado à noite em Gramado. Na falta do que fazer caminho pelo centro. Na frente da Igreja, naquela alameda onde estão os falsos profetas de pedra, uma multidão se acotovela. O que acontece?

Vou me aproximando para saber. Um casamento. E de gente muita rica. Homens de terno e gravata e mulheres espremidas em vestidos longos e decotes generosos. Deve ser casamento de gente famosa,

Um sujeito de colete e calça justa organiza, no lado de fora da igreja, a fila dos padrinhos. Essa função que ele exerce deve ter um nome em francês ou inglês que eu, um inculto socialmente, não sei. De início, por causa daquela voz em falsete que eles aprendem nos seminários e jamais esquecem, pensei que seria um padre. Talvez. O cara era autoritário, sem ser grosseiro. Uma arte, pensei eu.

Fila organizada, as madrinhas com buquês de flores nas mãos, entram na igreja. Na frente um grupo de crianças. Os meninos vestidos de adultos. As meninas com cestinhas nas mãos. São as aias que carregam as alianças, explica uma senhora (uma gorda patusca, como diria o Nelson Rodrigues) comovida, ao meu lado. Eu, do lado de fora, anotando tudo mentalmente, nessa nova função de cronista social.

Agora só falta a noiva.

Eis que ela chega, vinda da calçada da fama.

Você não sabia? Gramado tem uma calçada da fama, que nem Hollywood.

Vem numa grande camionete Hyllux, dessas com um  imenso porta mala atrás. O sujeito ao meu lado, de mão com o namorado (novos tempos, novos hábitos) diz que camionete não combina com casamento chic.

O pai da noiva certamente queria mostrar quão rico é e cometeu essa gafe imperdoável para o meu vizinho. Realmente, a noiva tem dificuldades de descer do carro porque o estribo é muito alto. Ela finalmente desce e o sujeito aquele, cuja função deve ter um nome estrangeiro, leva a noiva e o pai para a porta da igreja.

A massa ignara aplaude. A noiva é magrinha e de longe parece bem bonitinha. Quando penso que eles vão entrar, a porta da igreja é fechada eles ficam do lado de fora. Uma mulher explica para o marido desinteressado (o cara devia estar pensando no jogo do Inter que a mulher não deixou ele ver na televisão) que a noiva e o pai devem esperar a hora certa em que os acordes da Ave Maria são ouvidos para entrar.

Ela estava certa. Surge a Ave Maria, as portas se abrem e a noiva, com seu longo vestido branco entra na igreja. O noivo, eu não vi. Certamente estava esperando há muitas horas no altar. Deve ir se acostumando porque depois será ainda pior.

Antes de ir embora, ouço os últimos comentários do lado de fora. Que lindo diz aquela senhora nostálgica, com lágrimas nos olhos, talvez pensando “ai se eu tivesse uma grana dessas, iria querer um casamento assim para minha filha”.

Mais adiante, aquela moça moderninha, rebelde por natureza, cheia de tatuagens que enfeiam sua pele , deixa escapar um olhar de inveja por aquela noiva burguesa, provavelmente sem tatuagens, que está fazendo aquilo que ela diz abominar, mas com o que certamente está agora sonhando.

Termina aqui meu dia de cronista social.

Fuera Macri ou como salvei as vidas do Temer e da Marcela


Sábado à noite, marquei um encontro na Lima e Silva com a Binoche.

Eu ia vê-la no Guion em “A Espera”. Nem sei se era um bom filme. O que importa é que era um filme com a Juliette Binoche, eu estava um pouco atrasado (logo eu que digo nunca me atrasar) e não queria fazê-la me esperar.

Só não contava com o trânsito surpreendentemente engarrafado naquela hora. Quando cheguei na esquina da Venâncio, foi que me dei conta do porque a confusão. O trânsito estava bloqueado na Lima e Silva por causa de um desfile de carnaval.

Decidi ir a pé, quase correndo para ver a minha Binoche.

Já perto do Olaria, outra confusão.

Um grupo cercava, aos gritos, um casal de mascarados. Mesmo atrasado, parei para olhar. Ele tinha uma máscara do Temer e ela, da Marcela. A turba gritava “Fora Temer”, “Vai cuidar do teu lar, Marcela”. O casal estava tão atrapalhado, que não sabia o que fazer.

Foi então que salvei o Temer e a Marcela. Gritei para eles: tirem as máscaras. Eles obedeceram. Então, completei: joguem no chão e pisem em cima. Eles fizeram isso e a turba se dispersou entre risadas e aplausos.

O homem me explicou depois que eram argentinos, de Comodoro Rivadávia e estavam em férias no Brasil e nem sabiam quem eram esses tais de Temer e Marcela.

Tentei explicar rapidamente que o Temer tinha sido vice-presidente da Dilma e que se aliara a uns golpistas da Câmara e do Senado e com apoio da grande mídia assumira o poder e que Marcela era a sua mulher, jovem, bonita, prendada e do lar. O povo não se conformava com isso, porque estava perdendo todos seus direitos e por isso gritava “Fora Temer”

O argentino disse que não se metia com a política, ma que no seu país, também assumira um presidente inimigo dos interesses do povo e que, logo voltasse para a sua Comodoro Rivadávia, ia iniciar também uma campanha de “Fuera Macri”

Ele queria que fôssemos tomar “uma copa de vino”, mas expliquei que não podia deixar a Binoche esperando para sempre e marcamos um novo encontro para a próxima semana, quando vamos unir as campanhas “Fora Temer” e “Fuera Macri”.

Com tudo isso, acabei chegando atrasado no Guion, mas a Binoche ainda estava me esperando.

Sempre é hora

Aquele ex-craque de futebol e mais tarde técnico do Inter, Dino Sani, não era um homem brilhante em suas metáforas, basta lembrar duas delas: ” o futebol é uma caixinha de surpresas” e essa outra, “no futebol, se ganha, se empata ou se perde”.

Por que lembrei esse ditos acacianos?

Porque fiquei tentado a dizer que o facebook é um mundo onde todos estão representados, do futebol, às artes e principalmente à política e mesmo podendo escolher seus amigos pelos mais variados graus de afinidade, as vezes você é surpreendido pelas suas manifestações.

Feito esse longo introito, quero dizer que fiquei surpreendido com uma posição de Paulo Waimberg, advogado, poeta brilhante e meu antigo companheiro de peladas nos campos da PUC. Comentando um artigo de outra pessoa, Paulo concordou com aquela visão de que Raduan Nassar, ao receber o Prêmio Camões, tenha aproveitado para criticar o Temer e seu governo de golpistas. Não era a hora, disse a autora, com o que Paulo concordou e um discordo enfaticamente. Sempre é hora de denunciar a injustiça e na política isso é mais importante ainda porque afeta milhões de pessoas.

Um pouco para me exibir e outro tanto para ajudar as pessoas mais novas que talvez não conheçam o evento, resolvi lembrar o famoso discurso de Miguel Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, em 1936, em resposta ao general Milla Astray, fundador da Legião Estrangeira. “Agora mesmo ouvi um grito necrófilo e insensato, ‘Viva a morte’. Eu devo dizer-lhes que considero este esdrúxulo paradoxo repelente. O General Astray é um aleijado, que isso seja dito sem nenhum sentido pejorativo. Ele é um inválido de guerra. Cervantes também era. Infelizmente há demasiados aleijados na Espanha agora. Entristece-me pensar que o general MillánAstray venha ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado que não possui a grandeza espiritual de um Cervantes acostuma-se a buscar alívio produzindo mutilados em volta dele.”


“Estamos no templo do intelecto. E nele eu sou o sumo sacerdote. São vocês que profanam esses espaços sagrados. Vocês vão vencer, por que têm mais que o necessário de força bruta. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês necessitarão o que não têm: razão e justiça na luta. Eu considero fútil exortá-los para que pensem na Espanha”
Talvez não fosse a hora, mas ainda bem que Unamuno disse o que disse.
Então, para manter a coerência # Fora Temer.

Tarso x Moro

 

A rigor não houve um debate Tarso x Moro, ao estilo dos famosos debates entre Kennedy e Nixon, Lula e Collor ou até mesmo entre Frost e Nixon, que transmitidos pela televisão, tiveram importantes conseqüências históricas e políticas.

Tarso Genro foi arrolado como testemunha de defesa de Lula num processo do Lava Jato e respondeu por vídeo conferência as perguntas, inicialmente dos advogados de defesa e de acusação por quase uma hora e apenas no final, foi interrogado pelo juiz Moro.

Além disso, a televisão não transmitiu o evento e o que os brasileiros puderam ver foram as imagens e o som que veio de Curitiba através do precário sistema de gravação do tribunal, disponível no youtube.

Certamente, o que ocorreu em Curitiba não vai mudar a opinião das pessoas sobre os dois personagens, mas deveria, como foi nos casos de Kennedy, Nixon, Lula e Collor.

Depois de ter sido considerado vencedor nos debates pelo rádio, Richard Nixon fez o último debate nas eleições presidenciais norte-americanas de 1960, contra John Kennedy, em Chicago, no dia 26 de setembro,numa transmissão feita pela televisão, na época em preto e branco e assistida por 60 milhões de expectadores.

Segundo os analistas políticos da época, um Nixon inseguro e com a barba por fazer, o que lhe deu um aspecto doentio, foi amplamente batido por um Kennedy, bronzeado e agressivo nos debates. O resultado se espelharia nas urnas, com a vitória do democrata com uma vantagem de 0,1% na votação popular.

Nixon, depois da sua renúncia à Presidência, seria protagonista de um outro debate célebre, em 1977, quando para receber um cachê de 600 mil dólares, concordou em ser entrevistado em três programas pelo jornalista inglês David Frost.

Durante essa série, que ficou conhecida no mundo inteiro pela sua versão cinematográfica, Nixon, instigado pelo repórter, acabou confessando que sabia antecipadamente do caso Watergate, que até então negara conhecer.

 

Na televisão brasileira, o caso mais famoso ficou sendo o debate entre Lula e Collor na Rede Globo, em 13 de dezembro de 1989, não tanto pelo debate em si, mas pela manipulação  que a Globo fez no dia seguinte, vésperas das eleições, no Jornal Nacional,  quando mostrou uma montagem que só apresentava os melhores momentos  de Collor e os piores de Lula.

Sem a mesma importância desses debates, o diálogo entre Tarso e Moro serviu para desmistificar a figura do juiz paranaense, não apenas sob o ponto de vista político, mas também em termos de apresentação pessoal.

Realmente, como Nixon em 1960 e Collor em 89, falta a Moro “le fisique de role” para desempenhar o papel do grande justiceiro que a mídia e parte da população atribuem a ele.

Titubeante, nunca olhando para a câmera, falando com uma voz quase sumida, realmente está longe da figura majestática que lhe atribuem.

Tudo isso não seria importante, se suprisse essas deficiências com uma demonstração de lucidez, inteligência e respeito aos procedimentos jurídicos.

Não foi o que aconteceu.

Ainda que alertado pelos advogados, que a testemunha, Tarso Genro, lá estava para responder sobre as acusações contra Lula no processo da Lava Jato, de se beneficiar com a corrupção na Petrobrás, insistiu em perguntas alheias ao processo, sobre procedimentos internos no PT, durante o período que Tarso exerceu a presidência do partido.

Mesmo podendo se negar a responder essas perguntas, Tarso as respondeu de uma maneira civilizada, clara e objetiva.

Seu depoimento foi uma verdadeira aula de como deve ser um procedimento ético na vida política, e uma dura crítica ao atual modelo eleitoral brasileiro.

Pena que seu discurso tenha caído nos ouvidos moucos de Moro.