Precisamos falar sobre suicídios e suicidas

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Um ato que exige extrema coragem ou uma demonstração de covardia de quem teme enfrentar as agruras da vida?

Não importa. Quem ainda não pensou em suicídio?

Segundo o psiquiatra Roosevelt Cassoria, especialista brasileiro em suicídio, “todos já pensamos em suicídio em algum momento na vida. É um pensamento humano. Se não desejamos nos matar, ao menos cogitamos morrer – morrer para escapar do sofrimento, para nos vingar, para chamar a atenção ou para ficar na história”.

 O filósofo e escritor franco argelino Albert Camus (1913-1960) diz que só há um problema filosófico verdadeiramente sério sobre o qual o homem deve refletir: o suicídio. Segundo ele, a questão fundamental da filosofia é responder se vale a pena ou não viver.

Camus decidiu que vale a pena.

Já o escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), 12 anos antes de se matar com barbitúricos, tinha escrito: “Ninguém, nunca deixa de ter um bom motivo para se matar”.

Na era da comunicação, o suicídio pode também ser uma forma de enviar uma mensagem aos que ficam. No seu livro “Suicídio – Testemunhos do Adeus”, a psicóloga Maria Luiza Dias Garcia diz que, como vivemos numa rede de relacionamentos, a nossa morte significa algo para as outras pessoas.

As estatísticas parecem provar que existe muita gente no mundo querendo se comunicar dessa forma radical.

Segundo o mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 804 mil pessoas se mataram no ano 2012 em todo o mundo – uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes. Isso significa um suicídio a cada 40 segundos. A “violência autodirigida”, como o suicídio é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é hoje a 14ª causa de morte no mundo inteiro. E a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, de ambos os sexos.

No Brasil são aproximadamente 12 mil casos por ano, o que significa 32 suicídios por dia, ou seja, uma média de 4,5 suicídios por 100 mil habitantes nos últimos 20 anos. Na Finlândia, esse percentual é de 23,4 casos em 100 mil pessoas. As taxas brasileiras de suicídio se elevam conforme a idade dos indivíduos, até atingir sua máxima expressão na faixa de 70 anos ou mais, quando chegam a 7,3 suicídios em 100 mil. A média de suicídios aumentou no mundo inteiro em 60% nos últimos 50 anos.

Os psiquiatras e psicólogos dizem que pensamentos suicidas são mais comuns nas mulheres, mas taxas de suicídio masculino são mais elevadas. Certamente porque eles usam métodos mais definitivos e violentos, como arma de fogo e enforcamento. Em média, ocorrem cerca de três suicídios masculinos para um feminino.

Algumas mulheres, porém, são mais determinadas na busca do seu objetivo. A poetisa americana Sylvia Plath (1932-1963) tentou se matar duas vezes antes de concretizar o suicídio. As duas experiências fracassadas serviram para escrever o romance A Redoma de Vidro.

Os sinais do seu inconformismo com a vida, podem ser lidos no que ela escreveu:

“Meu Deus, a vida é solidão, apesar de todos os opiáceos, apesar do falso brilho das festas alegres sem propósito algum, apesar dos falsos semblantes sorridentes que todos ostentamos

A vida de Sylvia Plath foi contada no cinema, com Gwyneth Paltrow recriando a sua vida e seus amores em “Sylvia – Paixão Além das Palavras”.

O tema suicídio já foi mostrado inúmeras vezes no cinema, mas talvez os que mais avançaram na sua discussão foram “Mishima, uma vida em 4 tempos”, sobre o escritor japonês Yokio Mishima (1925/1970), que cometeu um suicídio ritual e “Os Últimos dias”, sobre Kurt Cobain (1967/1994), vocalista do Nirvana, feito por Gus Van Sant.

Os dois falavam muito sobre a morte:

Nos últimos cinco anos eu desejei a morte todos os dias. Às vezes cheguei bem perto”. (Kurt Cobain)

“A vida humana é finita, mas eu gostaria de viver para sempre” (Mishima)

As artes buscaram muitas vezes inspiração no ato de suicídio, outras vezes o inspiraram como dizem ser o caso da música “Gloomy Sunday”, Domingo Sombrio, criada na década de 1930 pelo húngaro Rezso Seress. Ela teria estimulado, segundo essa lenda urbana, mais de 100 suicídios por volta de 1935, quando estava no auge do seu prestígio.

Seress, nascido em 1889, também se suicidou em 1968. Mas para isso teve que tentar duas vezes, primeiro saltando da janela do seu apartamento, depois se enforcando com uma corda, no hospital, para onde foi levado depois da primeira tentativa.

Mas, por que as pessoas se suicidam?

As respostas são muitas.

“Existem causas imediatas predisponentes – como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira – que agem como o último empurrão para o suicídio”, segundo a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da PUCRS.

Pode ser uma alteração no metabolismo da serotonina. O psiquiatra Pavel Hrdina, diretor do Laboratório de Neurofarmacologia da Universidade de Ottawa, Canadá, descobriu que pacientes depressivos, portadores de uma mutação no gene responsável por codificar um dos receptores da serotonina, apresentavam duas vezes mais chances de cometer suicídio que aqueles sem a mutação.

Doenças mentais podem provocar uma vulnerabilidade maior ao suicídio. Estudos de autópsia psicológica, feitos com base em entrevistas com amigos, familiares e médicos do suicida mostram que mais de 90% das pessoas que se mataram no mundo tinham alguma doença mental.

Para a doutora Maria Cecília de Souza Minayo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, a adolescência e a velhice são os dois momentos mais propícios tanto para a ideação e as tentativas de suicídio quanto para concretização do ato, por razões diferentes. Na velhice, os motivos se devem à depressão, sentimentos de rejeição e abandono e à dificuldade de aceitar certas enfermidades dolorosas e incapacitantes.

O problema parece tão grave que a Organização Mundial da Saúde (OMS), lançou, em 1999, o SUPRE, um programa mundial para a prevenção do suicídio. O objetivo é reduzir as taxas de mortalidade de “violência autodirigida”, acabar com o preconceito em relação ao tema e prestar assistência técnica aos países para a formulação de políticas públicas e programas de prevenção.

Outros pensam diferente. O caso mais famoso é do médico e patologista americano Jack Kevorkian, chamado o Dr. Morte (1928/2011) que defendia o direito dos pacientes terminais a um suicídio assistido. Ele deu essa assistência em mais de uma centena de casos nos Estados Unidos, criando inclusive uma máquina, a Thanatron, que permitia ao próprio paciente se injetar uma droga mortal, para fugir das acusações de assassinato que a justiça americana levantou contra ele.

Em 2010, a HBO contou a história do Dr. Morte no filme “You Don´t Know Jack”, com Al Pacino e Susan Saradon.

Depois da morte de Kevorkian, a Thanatron foi a leilão nos Estados Unidos e por 200 mil dólares ficou nas mãos de um colecionador.

Em alguns países do mundo, com graus diferentes de exigências legais, se permite a prática do suicídio assistido. Os mais tolerantes são Holanda, Suíça, Bélgica e Alemanha. Nos Estados Unidos, ela é permitida em cinco Estados: Washington, Oregon, Vermont, Novo México e Montana. Na Colômbia já foi dada autorização judiciária para um caso.

No Brasil, é considerado crime.


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3 pensamentos em “Precisamos falar sobre suicídios e suicidas”

  1. Informações adicionais que nada acrescentam ao brilhante texto do Marino:
    – Assis Valente, dentista de favela, inspirado compositor de sambas, tentou 5 vezes o suicídio. Na quinta, uma dose de formicida resolveu seu problema.
    – Marx tem um pequeno opúsculo sobre o suicídio. Disso ele pouco ou nada entendia. Também…. ele não podia entender de tudo.

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