Medo de avião.

Nos idos de 45, quando morava em Farroupilha, um avião cruzando os céus da cidade era uma raridade. Ficava fascinado em imaginar para onde ele estaria indo e quem eram aqueles privilegiados que levava no seu interior.

Uma vez, um pequeno teco-teco, que chamavam de Paulistinha, caiu sobre uma cerca de arame farpado próximo da Rua Júlio de Castilhos. A cidade inteira correu para testemunhar o acontecera. Quando cheguei,fiquei um pouco decepcionado. Não era o avião que esperava ver, mas mesmo assim, ainda era um avião de verdade. O piloto, transformado em herói, estava ao lado do teco-teco dando muitas explicações para os curiosos, que como eu, não paravam de chegar. Foi colocado um soldado ao lado do avião para impedir qualquer roubo, mas no dia seguinte, no Grupo Escolar Farroupilha, na aula da Professora Sueli, muitos alunos trouxeram pedaços da lona que cobria as asas.
Algum tempo depois, a cidade foi abalada com a queda de outro pequeno avião em Lajeado, porque o piloto era da cidade. Lembro que o velório foi na prefeitura e o prefeito era o Dr. Jaime Rossler. Guardei o nome do piloto – Everson – e a razão da homenagem: foi o primeiro piloto nascido em Farroupilha.

Avião de verdade, daqueles das fotos nas revistas, vi pela primeira vez quando visitei a casa do tio Geraldino, na Rua Piaui, no Passo da Areia. No final da rua, uma cerca separava alguns tambos de leite da pista do aeroporto São João. Foi lá que vi os primeiros aviões que faziam parte dos meus sonhos. Acho que eram uns Dc3 ou Curtis Comander da Varig.Pareciam imensos, mas não tão grandes como um President da Pan American, que segundo meu primo, Carlinhos, tinha dois andares e ia até Buenos Aires.

Minha primeira vez, foi aos 17 anos, num DC3 da Panair, para voar de Porto Alegre ao Rio, com escalas em Florianópolis, Curitiba e São Paulo.

Eu viajava com o Glênio Prudente, meu colega do Julinho, que tinha uma irmã morando no Rio, o que nos garantiria a pousada. Para desgosto da minha mãe, que achava que esse dinheiro teria melhor aplicação, torrei o que ganhara de indenização no primeiro emprego (R.G.Dunn e Bradstreet uma firma americana de informações comerciais) na compra da passagem.

O avião estragou em Florianópolis e só chegamos no Rio à noite, depois de mais de 12 horas. Pelo que me lembro, não tive nenhum medo. Quando o avião se aproximava do Rio, um comissário, que desde o início do voo vinha me tratando com muitas gentilezas, disse que ia sentar do meu lado, porque o tempo estava muito ruim no Rio e haveria muita turbulência na chegada. No desembarque, ele sugeriu que nos encontrássemos no Mercadinho Azul, em Copacabana. Disse a ele que não conhecia o mercadinho, não conhecia o Rio e era a primeira vez que viajava de avião. O cara pediu mil desculpas e disse que eu parecia tão tranquilo, que ele se permitiu falar no possibilidade de turbulência.O tal Mercadinho Azul, como me disse depois o Glênio, era um reduto dos frescos (não se falava em homossexuais e muito menos gays) e o tal comissário, como já desconfiava, era também um fresco.

Obviamente não fui no tal mercadinho, mas continuei viajando cada vez mais de avião, principalmente quando entrei na publicidade e comecei a ganhar algum dinheiro.

O interessante é que quanto mais andava, mais tenso ia ficando. Antes das viagens, principalmente aquelas mais longas para a Europa, ficava feliz na expectativa que elas começassem. Dentro do avião, contava as horas e os minutos que faltavam para a chegada. Acompanhado, não gostava que conversassem comigo, porque eu precisa ficar atento a todos os sinais que pudessem indicar alguma anormalidade no voo. O jeito de andar das comissárias de bordo, o tom de voz do comandante ao dar algum aviso, tudo deveria ser analisado cuidadosamente. Aqueles sinais de apertar cintos e não fumar, quando ainda estávamos longe de algum aeroporto, eram geradores de um angústia devastadora. Dormir num voo de 11 horas, nem pensar.

Bastava, porém, botar o pé no aeroporto, já estava louco de vontade de pegar outro voo. Em abril, vou à Rússia e desde já estou dividido entre a alegria de entrar novamente num avião e o medo que certamente vou sentir, como sempre.

(Conversas com Franklin Cunha, médico e ex-piloto da Varig)

A dura vida de um intelectual

Eu me considero um intelectual. Embora não tenha nenhum documento que comprove isso, acho que posso me considerar um intelectual por exclusão das outras duas possibilidades. Não sou um operário, pelo menos no seu sentido clássico, porque não sei ao menos pregar um prego e a rigor nunca precisei da força física para ganhar a vida e também não sou patrão, porque nunca vivi do trabalho de outros.

Durante toda a minha vida, que já está até longa demais, vivi sempre de atividades ditas intelectuais como o jornalismo, a publicidade e o magistério, pelos quais, as vezes fui relativamente bem pago dentro dos padrões brasileiros, durante alguns períodos e mal pago na maioria deles.

Feita essa apresentação, preciso fazer uma distinção entre o intelectual que é assim considerado porque não faz trabalhos físicos – os jornalistas, os publicitários e professores – e o intelectual orgânico (vide Antonio Gramsci), aquele que atua como porta-voz de uma classe social.

Pretendo, deixando a modéstia de lado, me incluir nessa categoria de intelectual orgânico, a serviço da ideia do socialismo revolucionário, ideia que, diga-se de passagem, vem ganhando um novo destaque depois de décadas de ostracismo.

A rigor, foi com Lenin, que essa figura do intelectual engajado (outro termo que logo vai voltar à evidência) ganhou destaque. Lenin dizia “às portas da revolução” (título de um livro de Zizek) que o proletariado, por si só, seria incapaz de fazer a revolução e por isso o papel dos intelectuais (os orgânicos, certamente) seria o de dirigir a revolução.

Lenin lembrava que as lideranças operárias se limitavam a lutar por conquistas sindicais e não revolucionárias, em princípio.

Trazendo esse ensinamento para os nossos dias, se por exemplo, o PT fosse comandar uma revolução, seu líder não deveria ser Lula, porque, como líder sindical, sua visão seria apenas reformista, mas sim, talvez, Tarso Genro, por ser um intelectual orgânico.

Mas, o assunto ainda não é esse.

O que estou fazendo é uma pequena análise do papel do intelectual e as dificuldades de cumprir o que se espera de um intelectual.

Sempre soube que uma das obrigações do intelectual é ler muitos livros. Põe muitos nisso. Ler continuamente, desde a alfabetização até à cegueira final.

Cinema, teatro, música, são também importantes, mas são atividades passivas, ao contrário da leitura, que deve ser sempre ativa. Você não pode fechar os olhos nunca, como na música, ou ficar divagando, enquanto as imagens passam, num filme ou os atores dialogam, no teatro.

Os livros cobram muito e algumas vezes não te entregam o que prometem, mas se você abandoná-los no meio da leitura, corre o risco de sentir culpado depois.

Não o meu amigo Werner Becker, que arrumou uma desculpa para se absolver previamente

– Já li tanto, que se o livro não estiver me agradando, a culpa não é minha, mas do livro.

Infelizmente, ainda não cheguei nesse estado

Habitualmente, escolho bem o que pretendo ler e dificilmente erro. Recomendo estes novos filósofos marxistas, como Zizek, Badiou e Meszaros; análises históricas sobre a Segunda Guerra, a Revolução Soviética ou sobre o Oriente Médio, sempre trazem alguma coisa de útil; qualquer ensaio de Robert Fisk pode ser lido sem medo; biografias (Hitler, Trotsky,  Churchill, Stalin) são sempre interessantes; caso a pedida seja um romance e se não quisermos voltar aos clássicos com Martin du Gard, Steinbeck, Faulkner, Gore Vidal, Tolstoi, Sarte ou Saramago, podemos ler sem receio qualquer livro do Phillip Roth, do Padura ou do Ian McEwan.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, me joguei na leitura da tradução que Antonio Houaiss fez de Ullysses, de James Joyce. Virou uma guerra. Tudo me mandava colocar o livro na prateleira, mas fui heroicamente até o fim para poder dizer que tinha lido Joyce.

Há pouco, descobri lendo um artigo do Milton Ribeiro no Sul21, que o trabalho do Houaiss, apesar de meritório é confuso, que pouca gente acompanhou até o fim as desventuras de Leopold Bloom e que uma nova versão da obra, traduzida por Ceateno Gallindo, poderia devolver o prazer da leitura desse livro, considerado por muitos como o mais importante da literatura inglesa.

Ainda não arrisquei, mas com o crédito que o Milton Ribeiro ficou merecedor, aceitei uma indicação dele e comprei na Estante Virtual (recomendo), Extinção, do Thomas Bernhard. Confesso que estou penando na sua leitura, como há muito não ocorria, mas prometo que vou até o fim. Agora só faltam umas cinquenta, das suas 470 páginas.

Depois, vou recomendar o livro no meu blog, esperando que outros repitam essa minha via crucis.

Parodiando Euclides da Cunha, dos Sertões, o intelectual é antes de tudo um forte

 

A Revolução dos Cravos e o triste papel de Mário Soares

Foram os sucessivos governos ditos socialistas da Europa, a partir do fim da segunda guerra mundial, que abriram caminho para a consolidação das ideias nacionalistas e xenófobas que hoje formam a nova imagem do capitalismo.

Alain Badiou, o filósofo francês que defende a ideia de um retorno a Marx para a construção da sua “Hipótese Comunista”, diz sarcasticamente que os maiores inimigos da revolução popular na Europa sempre foram os que se intitulam de “socialistas democráticos”.

Especificamente sobre a França, diz Badiou, analisando os sucessivos governos “socialistas” de François Mitterand, Lionel Jaspin, e François Hollande: “que vergonha para os sucessivos governos, que rivalizaram nos temas conjugados da segurança e do “problema dos imigrantes”, para que não fosse muito visível que serviam acima de tudo os interesses da oligarquia económica! Que vergonha para os intelectuais do neorracialismo e do nacionalismo escondido, que pacientemente cobriram o vazio deixado no povo pelo eclipse provisório da hipótese comunista com um manto de inépcias sobre o perigo islâmico e a ruína dos nossos “valores”! São estes que hoje devem prestar contas sobre a ascensão de um fascismo desenfreado, de que eles encorajaram implacavelmente o desenvolvimento mental”.

Na crítica ao capitalismo e ao comunismo soviético, Badiou afirma que a sua ideia comunista “é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização económica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras”

Utópica, ou não, foi contra essa ideia que importantes dirigentes socialistas e trabalhistas na Europa, na Alemanha, de Will Brandt, na Inglaterra de Tony Blair, na Espanha, de Felipe Gonzales, na França, de Mitterand e em Portugal, de Mário Soares, agiram, ajudando a consolidar o capitalismo em oposição à construção de um sistema socialista.

Mário Soares, presidente e primeiro ministro em sucessivos governos de Portugal a partir de 1975 e a há pouco falecido, é agora lembrado, não por este papel tão pouco nobre, mas por sua atuação, ainda que pálida, na luta pelo fim da ditadura portuguesa de Salazar e Marcelo Caetano em 1974.

Ao contrário de outras lideranças na luta contra o fascismo em Portugal, como Álvaro Cunhal, que esteve preso, muitos anos em solitárias e que foi duramente torturado, Soares viveu boa parte da ditadura no exílio da França e fez muito pouco para a queda da ditadura, mas logo que ela caiu por força da Revolução dos Cravos, se apressou a organizar o seu Partido Socialista para assumir posições de liderança no novo governo.

Comparando com alguma figura de político brasileiro que se opôs a nossa ditadura, que foi exilado, mas não preso e que na volta da democracia se beneficiou diretamente da nova situação, poderíamos dizer que Mário Soares lembra Fernando Henrique Cardoso.

Esta semana, em seu espaço em Zero Hora, Flávio Tavares teceu um panegírico a Mario Soares, de quem não foi apenas um admirador, mas um grande amigo.

Para nós, seus amigos, Flávio merece respeito e consideração pela sua longa trajetória de luta pessoal contra a ditadura, luta que lhe custou sofrimentos que a muitos de nós foram poupados. Até mesmo por isso, e levando em consideração seu espírito sempre aberto ao debate, é que nos propormos a divergir de suas considerações sobre Mário Soares.

Em 25 de abril de 1974, um movimento militar anti-fascista e anti-colonialista, envolvido por uma ainda pouco clara ideia socialista, derrubou a ditadura portuguesa que começará com Salazar e continuara com Marcelo Caetano e instaurou governos provisórios que persistiram até novembro de 1975, quando um golpe de estado, arquitetado por Mário Soares, entre outros, encaminhou Portugal para um governo de centro-esquerda, dentro de um modelo tolerável pelos Estados Unidos,

Vasco Gonçalves, o verdadeiro líder dos capitães do exército português que deflagraram o movimento disse, em longa entrevista, pouco antes de morrer em 2005 que “quando nos restantes países europeus se abriam as flores murchas do eurocomunismo e da social democracia, correntes que renunciavam a toda a rebelião radical, não por uma momentânea debilidade de forças, mas por princípios políticos, Portugal pôs na ordem do dia a questão do poder. Isto teve lugar em plena crise capitalista – 1973/1974 – quando o dólar e o petróleo sofreram um abalo mundial, liquidando o keynesianismo do pós guerra, abrindo caminho ao neoliberalismo. A de Portugal foi uma revolução que questionava num mesmo movimento o vínculo imanente entre capitalismo, fascismo e colonialismo. Três formas de dominação que costumam ser apresentadas como se fossem fenômenos desligados entre si”.

Como toda a revolução, chega um momento em que as forças, unidas para derrotar um alvo específico – no caso a ditadura fascista portuguesa – entram em confronto entre si e será vencedora aquela mais capaz de mobilizar o apoio da população. Vasco Gonçalves admite que os radicais de esquerda cometeram muitos erros e que depois de um ano, o apoio popular decrescia, mas enfatiza que foi a ação externa do governo americano, através do seu embaixador em Lisboa, Frank Carlucci e da ação da CIA quem realmente levou ao golpe de 75.

No texto que publicou em Zero Hora, Flávio Tavares diz que Mário Soares se deu conta que a continuidade do governo da Junta de Salvação Nacional, fortemente influenciado pelo Partido Comunista e liderado pelos militares da MFA (Movimento das Forças Armadas), que fizeram a revolução, levaria a uma intervenção militar dos Estados Unidos em Portugal, ordenada por Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado norte-americano

A assertiva contradiz as estratégias usadas pelos americanos para desestabilizar os governos que não serviam os interesses dos Estados Unidos, muito mais centradas em cooptar lideranças conservadoras dos países e provocar cisões em suas forças militares, do que um confronto armado.

A razão é óbvia: as intervenções armadas provocavam quase sempre a união interna no país atacado para enfrentar o inimigo externo. O exemplo da guerra do Vietnam, que terminara em abril de 75 com a derrota fragorosa dos Estados Unidos, devia estar bem vivo na cabeça de Kissinger, que preferiu usar seu embaixador Frank Carlucci, para cooptar as lideranças do Partidos Socialista, especialmente Mário Soares e alguns segmentos militares que fizeram a revolução, para a criação de um governo mais palatável aos interesses dos americanos.

Flávio Tavares diz no seu texto que Mário Soares salvou Portugal dos dois “K” mais importantes da época: Kissinger e o Kremlin.

Quanto a Kissinger, parece que, usando, não as armas de guerra, mas as diplomáticas, conseguiu seu intento, mantendo Portugal dentro da área de influência econômica americana.

 

 

Quanto ao outro “K” o Kremlin, o equívoco é ainda maior. O governo de Leonid Brejnev, preocupado com movimentos de contestação que começavam a surgir no Leste Europeu, em momento algum, teve algum interesse em qualquer tipo de confronto com os Estados Unidos. A política soviética no início dos anos 70 era claramente de coexistência pacífica e de respeito às áreas de influência delimitadas pelos acordos do final da segunda guerra.

Na entrevista com Vasco Gonçalves, já referida aqui, ele lembra que a 15 de setembro de 1975, apenas dois meses antes do golpe, Mário Soares denunciou publicamente os revolucionários, dizendo que Portugal corria o risco de converter-se numa espécie de Cuba na Europa, dando alento à conspiração de direita que tomaria o poder em novembro.

A identificação de propósitos entre o dirigente socialista português e o embaixador americano, que seria depois vice-diretor da CIA é confirmada pelos elogios mútuos entre os dois e uma declaração de Soares, dizendo que Carlucci foi fundamental para a instauração da democracia em Portugal.

Chico Buarque fez duas versões para a sua música de apoio à Revolução dos Cravos, a primeira em 75, saudando o movimento e o segunda em 78, registrando de forma poética o significado dos dois momentos, o da revolução e o da contra revolução.

Versão de 1975

“Sei que estás em festa, pá

Fico contente

E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá

Com a tua gente

E colher pessoalmente

Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei também quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá

Cá estou doente

Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim”

Na versão de 1978, Chico trocou as duas primeiras estrofes

“Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

E ainda guardo, renitente

Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto do jardim”

Já que começamos com um pensador marxista não convencional, como o francês Alain Badiou, fica bem terminar com outro dessa mesma linha de pensamento, o esloveno Slavoj Zizek, cuja análise serve para os governos socialistas como pretendeu ser o de Mário Soares.

 

“Estou lentamente descobrindo uma lei quase geral. Se o objetivo é uma política neoliberal contra sindicatos e a legislação trabalhista, apenas um governo dito de esquerda pode impô-la’.

As vozes do além (copyright by Sérgio Gonzales)

 


Aqueles velhos amigos que se reuniam no Bar do Alcides todas as quintas feiras, a partir das 6 da tarde, tinham muitas coisas em comum: todos se consideravam intelectuais, o que significava que nenhum deles pegara no pesado alguma vez na vida; todos eram de esquerda, o que significava que votavam sempre, em qualquer eleição, no candidato mais à esquerda possível, embora um deles, o Mareu, tenha confessado que na sua juventude votara no Jânio Quadros e finalmente, todos se diziam ateus, embora quase todos tivessem casado na igreja e um deles, o Callage, fizera aquela frase cheia de dúvidas, que até hoje é sempre lembrada quando o assunto religião vem à baile: acreditar em Deus eu não acredito, mas tem algumas coisas difíceis de entender, lá isso tem.
Esse introito todo serve para explicar a celeuma que causou a proposta do Costinha numa quinta-feira, 15 de agosto, um dia de muita chuva e frio, de que fosse tomada uma decisão do grupo sobre “como seria a outra vida”.
Diga-se de passagem, que num primeiro momento, houve uma revolta geral e o Aldo, sempre o mais explosivo de todos, queria que o Costinha fosse expulso do grupo, depois que ele confirmou que sua proposta não era uma brincadeira.
O Pintaúde, que era considerado o grande conciliador e que por isso mesmo, em ocasiões mais tensas da vida nacional, chegou a ser apontado como um infiltrado de direita, fez mais uma vez jus a sua fama e conseguiu apaziguar o grupo.
– Vamos ouvir, pessoal, a proposta do Costinha.
Contra vontade do Aldo, deram a palavra ao Costinha.
– Minha proposta é simples: quem morrer primeiro, volta na próxima reunião do grupo para contar como é a vida no além.
A reunião daquela quinta-feira, 15 de agosto, terminou ali mesmo. O Aldo jogou a cadeira longe, se levantou e foi embora. Dois ou três, o Baltazar e o Beto certamente, ficaram solidários com ele e também se levantaram.
Só ficaram na mesa, o Pintaúde e o Costinha, que tentava explicar que era só uma proposta e que não queria dividir o grupo.
O Pintaúde, sempre conciliador, disse que não era a primeira vez que uma reunião terminava desse jeito e lembrou aquela vez em que o grupo se dividiu em dois, um que queria votar na Luciana e outro no Raul. Uma semana depois, estavam todos juntos novamente, defendendo o voto em branco contra o Marchezan.
– Pode deixar. Dou uns telefonemas durante a semana e na próxima quinta-feira estaremos todos juntos novamente aqui no Bar do Alcides.
Só que, dois dias depois, um sábado, dia 17 de agosto, também um dia de frio e chuva, o Costinha morreu de repente, vítima de um enfarte fulminante.
Ninguém foi no enterro, porque como dizia o Franklin, depois de certa idade, ir a enterro é chamar a morte e a reunião da quinta-feira ficou “sob judice”, como gostava de falar o Vieira, o advogado do grupo
Depois de muitos telefonemas, Pintaúde conseguiu convencer a todos que a reunião do dia 24 deveria acontecer, como de costume, no Bar do Alcides.
O Edgar disse que tinha prometido a sua mulher, a Yva, acompanhá-la numa visita à sogra em Forqueta, mas acabou prometendo que ia tentar mudar a viagem para sexta.
O Manoel já tinha combinado com o Mareu um churrasco em Mariana Pimentel com a turma do sindicato, mas quando o Pintaúde avisou que o Mareu estava confirmado, também concordou. Foi só depois de falar com o Manoel, que o Pintaúde ligou para o Mareu. O Pintaúde é um ardiloso.
O Aldo foi o último a concordar com o encontro e impôs uma condição: se alguém lembrar aquela proposta do Costinha, levanto e caio fora.
Na quinta-feira, dia 24, estavam todos novamente reunidos no Bar do Alcides. Mais uma vez, chovia e fazia frio. A exigência do Aldo criara um constrangimento, até que o Albano perguntou se pela combinação não se podia falar no nome do Costinha ou se a proibição era apenas sobre a proposta dele.
O Airton lembrou que o lema do grupo, tomado do movimento de 68 na França, era de que é proibido proibir. Foi o sinal para a volta do velho clima de vale tudo com todo mundo falando ao mesmo tempo e poucos ouvindo. Até mesmo o Aldo lembrou uma história do Costinha sobre a sua incontinência urinária numa recepção no Palácio Piratini.
– O Costinha se mijou nas calças na frente do Brizola e todo mundo dizia que fora por causa da emoção de apertar a mão do seu líder.
Por volta da meia-noite, depois da quarta ou quinta saideira, o Foguinho, sempre o mais metido a engraçado do grupo, começou o seu número tradicional de imitações, que ia do Brizola ao Lula, passando pelo Galvão Bueno e o Sílvio Santos e logo nessa noite, incluiu uma fala do Costinha, recebida com gargalhadas, inclusive pelo Aldo, que nunca ria.
– Quem morrer primeiro, volta na primeira reunião do grupo para dizer como é a vida no além.
Nesse preciso momento, um raio caiu sobre o bar, o deixando tudo às escuras.
Foi quando se ouviu a voz do Costinha
Isso aqui é uma merda muito pior do que quando estava vivo.
A luz voltou no minuto seguinte, mostrando as caras espantadas de todos e a imediata reação de apontar para o Foguinho.
– Piada muito sem graça, Foguinho, disseram quase em uníssono os participantes da mesa.
O Foguinho, pálido a ponto de parecer que estava prestes a desmaiar jurou e jura até hoje, mesmo que não frequente mais o grupo, expulso que foi, que não foi ele quem falou.

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A batalha perdida pela midia

O crescimento avassalador das ideias conservadoras no Brasil tem uma causa principal: o amplo e irrestrito domínio que o pensamento neoliberal estabeleceu no País através da monopolização da mídia.

As esquerdas perderam totalmente a grande batalha pelos corações e mentes dos brasileiros na medida em que, quando no governo, foram incapazes de criar um sistema alternativo de comunicação que fizesse o contraponto ao sistema ideológico de lavagem cerebral montado pela grande burguesia nacional, sempre associada aos interesses do imperialismo.

Uma prova de que a derrota das esquerdas nessa batalha ideológica foi enorme, é que até mesmo as expressões “burguesia” e “imperialismo” foram banidas dos meios de comunicação e parece que até mesmo os representantes da esquerda têm medo de utilizá-las.

As maiores chances de estabelecer um confronto ideológico contra o receituário neoliberal foram perdidas pelos governos de Lula e Dilma, principalmente do primeiro, quando, fortalecidos pelo alto desenvolvimento econômico e social que o Brasil experimentou a partir de 2002, preferiram escolher o caminho da composição com os grandes meios de comunicação, na esperança de que assim pudessem ser neutralizados.

As escandalosas verbas de publicidade que os governos do PT atribuíram a Rede Globo, com a expectativa de que com isso pudessem comprar uma certa imparcialidade da emissora, logo se mostrou equivocada. Ao primeiro sinal de crise, a Globo se alinhou ao lado da imprensa mais venal do País, representada pela Revista Veja, na campanha que levou a derrubada de um governo legitimamente eleito.

Hoje, os espaços para uma mídia independente se restringem às redes sociais e a alguns sites, como é o caso aqui do Sul21, em meio a um mar de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, todos falando a mesma linguagem antipopular, tentando convencer os brasileiros das vantagens de sermos governados por figuras com Temer, Sartori e Marchezan.

As pessoas, que por opção própria se recusam a assistir a Rede Globo e a RBS, que não querem ler a Revista Veja ou o jornal de Zero Hora, são submetidas a outro tipo de pressão ideológica. Há pouco tempo uma vereadora de Porto Alegre reclamou que os postos públicos de saúde tinham em suas salas de espera telas de televisão com a programação da Globo ou de canais a ela filiados.

Como um novo “big brother”, o cerco às pessoas é total. Bares, restaurantes, hospitais, academias de ginástica, em qualquer local onde pessoas esperam para serem atendidas ou praticam algum tipo de atividade em conjunto, lá estão as telas de televisão sempre com os mesmos programas.

Meu amigo, o Dr. Franklin Cunha, lembra que nos consultórios médicos e odontológicos, onde não seria de bom tom a existência de telas de televisão, já que seu público é, teoricamente, de um padrão cultural mais alto, a lavagem cerebral se faz através de revistas e jornais.

Analista do comportamento de seus ex-colegas, Franklin diz que jamais encontrou uma Carta Capital, por exemplo, nessas salas de espera. Quem quiser ler alguma coisa antes de ser atendido, precisa se contentar com Veja (presente em 9 de cada 10 consultórios), Isto É, Época e a imbatível, Caras (todos têm Caras) e uma que outra das revistas, ditas para mulheres.

Aliás, o sucesso dessas tais revistas femininas é mais uma prova de que a lavagem cerebral é um sucesso e depõe contra as ativistas dos movimentos em defesa da emancipação das mulheres.

Estou propondo ao Franklin criarmos um teste para conhecer o nível ideológico de nossos conhecidos. Quem citar como fonte de qualquer informação sobre política, o Jornal Nacional, a Revista Veja ou Zero Hora, só poderá conversar conosco sobre amenidades, como previsão do tempo ou no máximo algum assunto relacionado ao futebol.

Mulheres que tenham assinatura de Marie Claire, por exemplo, serão avaliadas apenas pelos seus atributos estéticos e nos recusaremos a discutir com elas qualquer assunto que tenha alguma relação com a política, mesmo correndo o risco de nos chamarem de machistas.

Pior seria nos chamar de alienados.

Querem transformar o Brasil num imenso presídio

Nas últimas eleições, até mesmo nas municipais, praticamente todos os candidatos colocaram como suas propostas de campanha educação, saúde e segurança para a população.

Nas próximas, é bem possível que os candidatos vitoriosos serão aqueles que prometerão apenas segurança.

Numa sociedade dividida por classes com interesses que deveriam ser conflitantes, a mídia transformou a reivindicação fundamental da burguesia e da classe média por segurança a qualquer preço, no objetivo de toda a sociedade.

Em nome dela, os governos estão sendo autorizados a deixar de lado os investimentos em saúde e educação para se concentrar na questão da segurança, vista simplificadamente como a necessidade de construir mais e mais presídios.

As matanças em presídios no norte do País, que no fundo a classe média aplaudiu, servem como justificativa para essa política.

O ideal, para os que defendem essa posição, é que cada cidade tenha o seu, de preferência construído longe dos locais onde vivem os ricos e a classe média e próximo das vilas populares, de onde certamente sairão os seus ocupantes.

Educação e saúde ficarão por conta da iniciativa privada e quem não puder pagar por elas, vai acabar se tornando um candidato em potencial a habitar os novos presídios.

Essa paranoia parte da visão maniqueísta de que o mundo está dividido em pessoas honestas, aí incluindo os empresários que sonegam impostos, os políticos corruptos , os defensores da violência contra as minorias, os adeptos da tortura, os fascistas de todo o tipo, os padres pedófilos, os novos pastores mercenários da televisão, alguns juízes de grande notoriedade, ministros e altos dignitários da Nação, jornalistas que usam seus espaços na mídia contra os interesses populares e até muitos dirigentes de clubes de futebol que enriqueceram de maneira suspeita, de um lado e de outro lado, os bandidos.

Como a classe média brasileira olha sempre como exemplo os Estados Unidos não custa lembrar que a maior população carcerária do mundo está lá. São 2,3 milhões de pessoas. O país tem 5% da população mundial e 25% de todos os presos, a maioria negros (37%) e hispânicos (22%). São números extraordinariamente grandes talvez porque em muitos estados americanos, as penitenciárias foram privatizadas. Mesmo assim, periodicamente, os Estados Unidos são assombrados com chacinas em escolas, clube e até mesmo em aeroporto, como aconteceu há pouco na Florida, o que mostra que nem o maior complexo penitenciário do mundo é capaz de impedir a violência, característica de todas as sociedades capitalistas.

A nossa classe média tem pelos presos uma raiva incontida, descrê de qualquer tentativa de ressocialização deles e vive dizendo que sustenta com os impostos que paga (quando não sonega) a ociosidade deles. Seria, então, bom lembrar o maior exemplo histórico de transformação de prisões em campos de trabalho forçado se deu na Alemanha Nazista.

De 1933, quando foi criado o Campo de Dachau, próximo de Munique e o de Sachsenhausen, em 1936, junto de Berlim, os nazistas criaram cerca de 50 campos até 1945, a maioria na Alemanha e depois, com o início da guerra nos países ocupados. A exceção dos campos criados na Polônia, voltados quase que exclusivamente para o extermínio de judeus, poloneses e ciganos, a maioria dos outros tinha como objetivo gerar trabalho escravo para as grandes empresas alemãs.

Recomenda-se as pessoas que hoje sonham em transformar o Brasil num grande sistema prisional, talvez semelhante ao dos Estados Unidos ou que sonhem com o modelo nazista de exploração do trabalho dos presos, que leiam o conto O Alienista, de Machado de Assis.

Nele, o personagem, o Dr. Simão Bacamarte, consegue construir em sua cidade, Itaguaí, um imenso manicômio, a Casa Verde, para onde vai encaminhando os que, no seu entender, não podem participar do mundo das pessoas normais. Em determinado momento, 75% da população da cidade estava internada.

 

Será que os defensores dos presídios em massa sonham com o mesmo futuro para o Brasil?

 

 

A máquina de humilhar os pobres

Quem acredita que a Previdência Social no Brasil é burocrática e desumana e não imagina que ela possa ser pior ainda em outro país, não viu como ela funciona no Reino Unido.

Ken Loach nos mostra isso em mais um dos seus grandes filmes – Eu Daniel Blake – ao nos contar como funciona a máquina burocrática da Previdência Social inglesa, depois que Margaret Tatcher chegou ao poder em 1979, iniciando a onda neoliberal, que o novo governo golpista brasileiro tenta copiar quase 40 anos depois.

Acuado por formulários e exigências contraditórias para conseguir o benefício a que tem direito, o recém-viúvo Daniel Blake se vê ameaçado de morar na rua. Entre muitas idas e vindas ao Departamento de Trabalho e Pensões, ele conhece a jovem Katie, mãe solteira despejada com os dois filhos de um conjugado em Londres, e despachada pelo Serviço Social para uma cidade a centenas de quilômetros da capital. Eles se ajudam como podem, mas esbarram nas engrenagens de organizações que acabam punindo os menos favorecidos.

Ken Loach, tem hoje 80 anos e tem usado o cinema para contar há muitos anos histórias que retratam as injustiças do sistema capitalista. Entre seus filmes mais conhecidos estão Terra e Liberdade, Pão e Rosas e Procurando Cantona. Com o filme Eu, Daniel Blake, Loach ganhou o ano o passado a Palma de Ouro m Cannes.

É interessante como nesses festivais europeus de cinema (Cannes, Berlim, Veneza) os filmes que, de alguma maneira contestam o sistema capitalista, acabam sendo premiadas pela indústria do cinema, uma das grandes responsáveis pelo processo de alienação das pessoas no mundo inteiro.

Talvez seja a maneira de mostrar para o mundo uma pretensa linha democrática na avaliação dos trabalhos, dando algum tipo de satisfação às pessoas mais intelectualizadas que ainda prestigiam os filmes que fogem ao padrão das grandes produções.

Nesse seu mais recente trabalho, Loach conta com uma excelente atuação do comediante Daves Johns no papel de Blake, para mostrar como o sistema se aperfeiçoou, usando os recursos da tecnologia moderna para dificultar ao máximo o acesso dos pobres aos direitos que ainda lhe restam na sociedade capitalista.

Quando Blake consegue romper o cerco tecnológico e obtém uma entrevista com um funcionário, esse parece treinado para ser mais frio e impessoal que os computadores.

Para sufocar qualquer manifestação de indignação das pessoas, mesmo que ela seja apenas o tom mais alto de voz, existem seguranças prontos para intervir e quando esses se acham impotentes, a polícia é chamada em socorro.

Diz Loach que os burocratas são ineficientes, “mas é uma ineficiência cujo objetivo é programado para humilhar as pessoas, mostrar que a pobreza é culpa delas”.

Loach não é nada otimista quanto ao futuro do mundo ocidental: “As pessoas estão direcionando sua raiva para os lugares errados. Antes, eram os judeus; hoje são os muçulmanos. É muito perigoso — alerta. — A União Europeia é um projeto neoliberal, que estimula a privatização. Muitas pessoas dizem que devemos sair, que precisamos mudar. Meu temor é que, se sairmos de verdade, tenhamos mais governos de extrema-direita, cada um querendo atrair mais investimentos para si e cortando leis trabalhistas e ambientais. Será uma corrida para o fundo do poço”.

Quando fez seu último filme, Loach se espelhou nos serviços previdenciários ingleses. Caso pudesse olhar a realidade brasileira, veria, talvez com mais nitidez, o desenvolvimento de um processo destinado retirar dos aposentados e dependentes da Previdência Social as poucas vantagens que ainda têm. Tudo em nome de uma eficiência funcional, que apenas esconde a escolha que o governo golpista de Temer fez pelos ricos.

Como se constrói um alienado político

 

Um dos ensinamentos mais importantes de Karl Marx é de que as massas têm a ideologia das classes dominantes.

Outra afirmação muito repetida do grande filósofo alemão é de que a religião é o ópio do povo.
As duas podem ser lembradas juntas, quando pensamos em como a maioria da população se submete, dentro do capitalismo, a um regime político que só gratifica uma minoria da sociedade.

Caso a maior parte da população se conscientizasse dos seus direitos, não precisaria haver nenhuma grande revolução. Bastava avisar à burguesia que seu tempo tinha acabado.

Obviamente, não é assim que acontece.

Como é possível uma minoria dominar uma grande maioria?

Claro que existem instrumentos óbvios de coerção, como as forças armadas e a polícia, mas mesmo eles seriam incapazes de conter um movimento de massas que buscasse conquistar o poder.

O que garante a existência de uma sociedade profundamente injusta e dividida, é que as pessoas não se dão conta dessa injustiça ou, o que é pior, a aceitam como algo inevitável.

Para que isso aconteça, funciona uma bem montada máquina de alienação política, com poderosos meios de convencimento, que vão desde a escola, passando pelas igrejas e chegando aos meios de comunicação.

Ao contrário das sociedades escravagistas, ou mesmo durante o feudalismo, quando havia uma clara divisão entre senhores, escravos e vassalos e onde todos sabiam o lugar que lhes fora destinado para toda a vida, no sistema capitalista se estabelece a possibilidade formal de subir na escala social.

Individualmente, cada um dos participantes da sociedade capitalista é avaliado por seus méritos pessoais e nada, teoricamente, o impede de chegar ao topo, principalmente naqueles países onde o processo democrático liberal atingiu seu ponto culminante.

Essa ascensão social, porém, só é possível para alguns indivíduos, muitas vezes por mérito pessoal, outras vezes por um golpe de sorte e nunca para uma classe inteira.

Os pobres, independentemente de suas qualidades pessoais, continuarão formando a maioria da população e trabalharão todas suas vidas para uma minoria de ricos, que ficará cada vez mais rica.

É essa estrutura, injusta na sua essência porque só favorece uma minoria, que é mantida como seu fosse uma conquista de todos, através de um grande processo de alienação política.

Por isso, a única maneira de superar essa sociedade e alcançar outra, num patamar mais elevado, é a conscientização das massas oprimidas sobre seus direitos.

Como a burguesia, que exerce seu poder através do sistema capitalista, já se deu conta desse risco, ela monopoliza os meios de comunicação, cada dia mais importantes no processo, para estabelecer uma linguagem única no estabelecimento de determinados valores.

Palavras chaves como democracia e liberdade são manipuladas para passar a leitores, ouvintes e telespectadores que suas versões burguesas são o ponto mais alto que a sociedade pode alcançar e que além delas só existiria o caos.

Hoje, o papel das esquerdas não deveria ser só o de participação no jogo político, mas sim o de conscientização da maioria da população de que as injustiças que sofre não é um determinismo histórico e que, consciente de sua força, ela se torna imbatível.

Juventude, divino tesouro

Quando olha aquelas velhas fotos dos tempos do colégio, você consegue se enxergar com a aparência que tinha na época e fica pensando que poucas coisas mudaram desde então?

Bastaria uma simples olhada no espelho para constatar de que como as coisas realmente mudaram, mas você não vê essas grandes diferenças. Pelo contrário, só vê semelhanças.

Isso, quando se avalia em causa própria. Nos outros, essas diferenças são gritantes.

Você já reparou que Dom Pedro II, filho, é muito mais velho que Dom Pedro I, pai. Nas ilustrações, é claro. Pedro I é mostrado sempre como um jovem impetuoso, capaz inclusive de afrontar as cortes portuguesas e proclamar a independência do Brasil. Já Pedro II é um velhinho tranquilo, de longas barbas brancas, preocupado com a ciência e as artes.

Depois de certa idade, você começa a ler a coluna necrológica do jornal, sadicamente à procura de algum conhecido. Fulano morreu com a mesma cara que tinha quando você o conheceu no Julinho. Não deve ser o mesmo. Talvez um filho com o mesmo nome. Você confere a idade, quase 80, então é ele mesmo. A família mandou para o jornal aquela foto da juventude dele, quase da época do Julinho.

Você procura no Túnel do Tempo fotos antigas da cidade em que vive. Por exemplo, Porto Alegre da década de 1940. É uma cena da vida diária em torno do Mercado Público, com os velhos bondes e algumas pessoas caminhando. São homens e mulheres, jovens e velhos. Quantos estão ainda vivos para se recordar dessa foto?

Tudo em nome da preservação da imagem da juventude, obsessão que Ingmar Bergman mostrou num filme maravilhoso da década de 50, Juventude, Divino Tesouro.

Meu pai morreu aos 62 anos, quando eu tinha 30. A imagem que eu tenho dele é de uma figura dominadora que eu nunca me atrevi a desrespeitar. Mas, quando morreu, ele parou de envelhecer. Eu, não. Quarenta e sete anos depois, eu estou cada vez mais velho que ele, embora sua imagem continue igual.

Nunca louca fantasia, se nos encontrássemos hoje, quem teria que demonstrar respeito ao outro?

Faço esse introito, para recomendar que vejam o filme A Incrível História de Adaline, com Blake Lively e Harrisson Ford.

Em 1937, com 29 anos, numa noite de muito frio e tempestade, ela é atingida por um raio e o carro em que viajava cai num lago gelado. Vítima de uma hipotermia, ela é praticamente ressuscitada e quando volta à vida, vai se, dando conta, aos poucos, que não envelhece mais.

Sempre com 29 anos (ou com a aparência física de 29 anos), ela precisa cuidar da filha octogenária, que para todas as outras pessoas é sua mãe e para evitar ter sua condição percebida pelos amigos, precisa, há cada 10 anos, trocar de cidade e de identidade.

Mais interessante que o Incrível História de Benjamin Button, que faz um sentido inverso na cronologia da sua vida, Adeline tem até uma teoria científica (obviamente discutível) para justificar este golpe no tempo.

Será que gostaríamos de repetir a experiência de Adaline?

Um filme complexo

 

 

Animais Noturnos (Nocturnal Animals), de Tom Ford é um filme inteligente, para pessoas inteligentes. Então, não é um filme fácil. Pelo contrário, ele as vezes é bem difícil no sentido de que não diverte o espectador, não o poupa, nem da violência, nem do escatológico, não faz concessões ao politicamente correto.

A apresentação do filme, com as figuras de mulheres nuas e fisicamente repelentes, já provoca uma forte sensação de desconforto no espectador, comprometido esteticamente com certos valores que se convencionou serem os aceitáveis na sociedade burguesa.

 

A síntese do filme é simples: Susan (Amy Adams) é uma moça, filha de família rica, que se apaixona por um ex-colega de colégio do Texas, Edward Sheffield, pobre e sonhador, a quem reencontra anos depois em Nova York. A união entre os dois não dura muito tempo e ela retoma sua vida, agora como diretora de um museu de arte e casada com alguém da sua classe social. Subitamente, quando o vazio da sua nova vida se torna quase insuportável, Edward reaparece como autor de um livro, que de certa maneira é uma explicação e também uma mea culpa dele para justificar o fracasso da união entre eles.

Se a síntese do filme é simples, ele não é. Pelo contrário é profundamente complexo e oferece muitas leituras, ao se desenvolver em vários planos, tanto do ponto de vista de tempo, como de ambientações, embora eles estejam sempre se misturando.

O temporal, o filme nos conduz para o presente de Susan, charmoso, rico e ao mesmo tempo vazio; para um passado de sonhos e projetos de vida de Susan e Edward e para um terceiro tempo, ainda no passado e o mais importante de todos, mas irreal porque é apenas uma construção literária, onde Edward se transforma em Tony Hastings.

É no tempo literário de Tony, que a violência não é controlada pelas convenções sociais e explode totalmente livre e destruidora. Ao contrário do tempo presente de Susan, que nos é mostrado dentro de uma estética cool, o tempo de Tony, aparece com imagens poluídas, sujas, desagradáveis.

 

Em meio a personagens violentos, sujos, doentes e que praticam o mal como diversão, Tony tenta se redimir da fraqueza moral que o torna culpado de ter sido incapaz de defender o que lhe importa na vida (no caso, representado pela família), mas fracassa mais uma vez, da mesma maneira do que, quando era Edward na vida real, fracassou no seu casamento com Susan.

 

 

Entre os homens violentos que agem desse modo como uma forma de buscar o prazer e de Tony, que busca a violência como uma maneira de se redimir de sua fraqueza, o filme introduz um personagem, o policial Andes ( Michael Shannon) que se vale da sua autoridade para punir os maus de uma maneira ascética, quase que como uma força da natureza que age livre de significantes morais. Não casualmente, ele é um homem terminal, com um câncer no pulmão e prestes a se aposentar.

Como nas sociedades atuais, ondes os guetos violentos, locais onde vivem os pobres e desajustados são mantidos longe das mansões onde vivem os ricos, no filme a violência dramatizada por Tony está longe do mundo onde vive agora Susan e a essa fronteira só poderá ser ultrapassada, de forma simbólica, quando ela se reaproxima de Edward, com a leitura do seu livro.

Uma das leituras do filme é de que, quando se abre mão de coisas que foram importantes para nós em determinados momentos da vida, devemos saber que esse caminho não tem retorno e que logo seremos cobrados por este ato.

Uma outra analogia possível que o filme nos oferece, é que ele pode ser visto como uma nova leitura da oposição entre capital e trabalho na atualidade.

O capital se tornou totalmente parasitário, nada mais produz de concreto e por isso é visualizado sobre o enfoque de uma arte decadente, escatológica até, consumida apenas por ricos, vazios de qualquer conteúdo de humanismo.

O trabalho se mostra pervertido pela violência e só pode se afirmar pela destruição dos símbolos da sociedade capitalista, como seus valores familiares e seus objetos de consumo, principalmente os automóveis.

Para contar essa história de encontros e principalmente desencontros, de pouco de amor e muito desamor, Tom Ford contou com grandes intepretações de seus atores, principalmente  Jake Gyllenhaal, que compõe os dois personagens, parecidos e diferentes ao mesmo tempo, Edward e Tony, de maneira extremamente convincente; de Amy Adams, muito bem no papel da intelectual, sempre crítica das convenções, mas que assim mesmo as cumpre com elegância e principalmente Michael Shannon, perfeito no papel do policial. Numa breve aparição, como a milionária mãe de Susan, Laura Linney, está ótima na lição de cinismo que dá à filha.

Enfim, o filme se presta a muitas interpretações e provoca reações diferentes, inclusive o daquela senhora que, na saída, ainda carregando nas mãos um enorme pacote de pipocas, dizia para o seu presumível marido: que filme chato.