O Portal do tempo

PORTAL DO TEMPO

Carta ao Luís Augusto Cama

Você tinha razão, Cama, existe realmente em Porto Alegre um portal que te permite visitar o passado.

Depois de longas pesquisas, acabei descobrindo que o acesso é uma porta enferrujada, há muito sem uso, embaixo do Viaduto Otávio Rocha, hoje transformado em dormitório para os moradores de rua de Porto Alegre.

É preciso uma daquelas grandes chaves de ferro que usávamos para abrir o portão das nossas casas no passado. Não existe uma específica, você precisa ir tentando com várias até acertar. Eu tive sucesso na quinta.

Quando consegue abrir a porta, você entra numa sala extremamente iluminada com apenas dois equipamentos: um computador e uma máquina denominada Portal do Tempo.

Você deve então colocar seus dados no computador – que vai se fazer, Cama, até para visitar o passado é preciso se valer da mais moderna tecnologia – e ele vai informar se você tem direito a esta viagem e por quanto tempo você pode visitar o passado.

Antes de acessar meus dados, precisei ler as instruções:

  • A máquina, por enquanto programa viagens só até o ano de 1950
  • Só pode acessar a máquina, pessoas que nasceram de 1939 em diante e que tenham visitado, no passado, várias vezes, os lugares a que pretendem voltar.
  • Na primeira viagem o tempo disponível é de três horas e o viajante só pode escolher três lugares
  • As pessoas poderão fazer apenas uma viagem a cada 30 dias e a partir da segunda, elas são limitadas a uma hora de duração.
  • O visitante precisa garantir que não revelará detalhes da sua visita, nem a localização do portal a não ser para pessoas previamente sugeridas como visitantes em potencial.

Antes de seguir adiante, quero te informar, que coloquei teu nome como visitante em potencial, o que me permitirá continua contando a minha experiência.

Minha primeira escolha foi voltar àquela noite em 1961 em que o Brizola anunciou das janelas do Piratini que o Terceiro Exército apoiava a Legalidade. Eu voltei a me emocionar na Praça da Matriz e mais uma vez tive certeza de que, se não fosse as vacilações do Jango e a esperteza de Tancredo Neves, que já negociava com os militares, iriamos para o confronto e como o Brizola confessou depois, estaria aberto o caminho para o socialismo no Brasil. Mesmo um conservador como tu, iria acabar concordando que essa seria a melhor escolha para o nosso País.

Desci depois para a Rua da Praia e fui cumprir meu segundo pedido. Voltei ao Cinema Cacique – lembra Cama, que nas laterais da sala haviam duas grandes pinturas de índios, acho que do Glauco Rodrigues – para assistir de novo aquela comédia do Dany Kaye, o Bobo da Corte. Escolhi a sessão das 10, para dar tempo antes de passar pela confeitaria no mezanino do Cacique. A confeitaria depois desapareceu, quando fizeram uma segunda sala de cinema, o Scala. Uma pena, porque a confeitaria era um lugar onde você podia paquerar (acho que não se usa mais essa palavra) as moças que faziam footing (outra que saiu de moda) na Rua da Praia.

Não vais acreditar – Cama – mas eles transformaram aquele templo do cinema num supermercado.

Como o meu tempo já estava terminando, fui comer um bauru com uma taça de café com leite no Matheus da Praça da Alfândega. Quando trabalhei na redação de Última Hora, na 7 de Setembro, passava sempre no Matheus antes de ir na sessão das 9,30 num dos cinemas do centro.

Depois fui ver o que passava nos cinemas. No Central, para variar, tinha um dramalhão da Pelmex, com Maria Feliz, Agustin Lara e Maria Antonieta Pons. No Ópera, felizmente, passava Hiroshima, meu amor, do Resnais. No Imperial e no Guarani, não cheguei a ver porque meu tempo estava acabando. No Largo dos Medeiros, o pessoal ainda estava reunido e imaginei que tivesse visto o Ibsen de relance. Não deu tempo para conferir porque meu tempo acabou e logo estava de volta naquela máquina do Portal do Tempo.

Já estou fazendo a lista das minhas próximas visitas. Quero voltar aos Eucaliptos, na final de 55, quando o Inter meteu 3 a 1, no grêmio. Quero rever aquele ataque: Luzinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Chinesinho. Depois daquele campeonato, só fomos ganhar novamente em 61.

Tenho que dar uma volta no bonde Floresta, saindo do abrigo da Praça XV, até a Igreja São João. Depois levaram o final da linha até a vila do IAPI e mudou o nome da linha do bonde para a IAPI. Os bondes que não iam até o fim-da-linha, tinham outros nomes. Tinha o Cel. Bordine, que ia até o Cinema Orfeu e o Dom Pedro II, que voltava da Benjamin, onde hoje tem aquele horrível viaduto.

Sei que o especialista em bondes é tu, Cama, mas não custa lembrar que maravilha eram aqueles bondes. Tinha o motorneiro e o cobrador, mas a grande figura era o fiscal com a sua planilha, anotando o número de passageiros e saltando do bonde ainda em movimento para pegar outro em sentido contrário. E quando chegava ao fim-da-linha, sempre tinha algum guri querendo ajudar o cobrador a abaixar uma antena que se ligava aos fios elétricos e levantar a outra. O encosto dos bancos também precisava ser invertido no fim-da-linha, mas isso sempre ficava por conta dos passageiros.

Acho que devia ter feito uma viagem de bonde Floresta já no primeiro dia.

Preciso assistir ao menos uma sessão do Clube do Cinema e ficar conversando com o Gastal e o Hélio Nascimento na saída sobre o último filme do Kurosava.

Se der, quero voltar ao Teatro de Equipe, na General Vitorino, para conversar com o Mario de Almeida e o Peréio.

Quem sabe, uma passadinha na redação de Última Hora, ali em cima do cinema Rex, na 7 de setembro, para pegar uma pauta com o Flávio Tavares?

Seria bom que sobrasse tempo para uma visita ao Julinho, não a esse novo, mas aquele que funcionou no Arquivo Público da Riachuelo. Eu estudei nos três prédios do Julinho. Comecei naquele, onde hoje está a Faculdade de Economia, que se incendiou, depois fui para o prédio do Arquivo e fiz o último ano no prédio novo da Azenha. Minhas lembranças maiores estão no da Riachuelo, que deveria ser provisório, mas durou o ginásio e o científico quase inteiro. Sua grande vantagem é que ele estava próximo da Rua da Praia e dos cinemas.

Bom, Cama, essas são as notícias. Vai preparando a tua lista para a próxima viagem a Porto Alegre, e não esquece a chave de ferro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *