O perigo que mora nos sites de relacionamento

Mulher, 30 anos, viúva, profissional liberal, procura senhor com 30 anos a mais, no máximo, branco, com formação superior, para relacionamento sério.

A foto na rede social mostrava uma mulher bonita, loura, de olhos azuis. Minhas credenciais só não batiam na questão da idade exigida. Mas, como as amigas sempre me davam uns 10 anos menos na avaliação física que faziam a meu respeito – eram pessoas muito gentis comigo – resolvi arriscar, já que atendia as outras exigências. Era branco, formado em Filosofia e estava mesmo a fim de um novo relacionamento sério, depois que meu quinto casamento terminara, como terminaram os quatro primeiros, quando fora expulso de casa.

Marcamos um encontro no Mahomé, ali na Bonfim. Quando cheguei, levei um susto: quem me esperava era uma mulher com traços que me lembravam a foto da rede social, mas era seguramente uns 20 anos mais velha.

Antes que reclamasse de propaganda enganada, a mulher se apresentou:

– Sou Odete, mãe da Valdete.

Fui informado então que a Valdete era muito tímida, que seu casamento anterior com o Ferreti, um velho diretor classe B de comerciais de varejo, fora muito ruim, e que depois da morte dele, afogado no Campeche , ela se recusava a ter um novo relacionamento. O anúncio na rede social fora posto pela Odete, que se dispusera a analisar pessoalmente todos os candidatos.

Simpatizei com a Odete e ela comigo. Logo ficou acertado que ela conversaria com a Valdete, que era dentista com consultório no Sarandi, e montaria um esquema para nos aproximar.

Dois meses, iniciamos, eu e a Valdete, um relacionamento sério. Ela veio morar no meu apartamento na Zona Sul e trouxe junto a mãe, Odete, um cachorro pequinês, o Joubert.

Eu tinha um gato malhado e castrado, chamado Hermenegildo.

Enquanto meu relacionamento entre eu, a Odete e a Valdete ia às mil maravilhas, o do Joubert, que a Odete se recusava a castrar, com o Hermenegildo, quase virara uma guerra aberta, nos obrigando a estabelecer zonas de exclusão no apartamento para o cão e o gato.

Valdete saia cedo para o seu consultório no Sarandi, a Odete passava o dia vendo os programas da Globo na televisão, enquanto eu ficava escrevendo para sites que ninguém lia ou conversando no feicibuque com o Pintaúde e o Sérgio Gonzales, sobre um pocket show que pretendíamos montar com o Roberto Callage e o Beto Soares, contando a história da MPM.

Um dia, faltou energia elétrica na Zona Sul e como não dava para ver televisão, nem escrever no computador, acabou acontecendo o que qualquer um pode imaginar que aconteceria entre a Odete e eu.

A Valdete não se incomodou muito com o ocorrido, a Odete publicou um novo anúncio nas redes sociais e ela logo encontrou um outro senhor para um novo relacionamento sério.

Era um sujeito chamado Sepé de los Angeles, muito simpático, apelidado de Foguinho, que tinha uma pet shop na Cavalhada. Os dois foram morar num condomínio na Otto Niemayer e a Valdete, felizmente levou junto a Joubert.

Como a Odete não saia da frente da televisão e eu do computador, ela sugeriu que trouxéssemos sua irmã gêmea, a Marlete, que se separara do marido, em Esteio, o Albano, para morar conosco e ajudar na cozinha e na limpeza do apartamento

Estamos juntos, os três, há quase um ano e por enquanto vai tudo bem, principalmente depois que sugeri que fizéssemos um “ménage à trois”.

Inicialmente as duas ficaram um pouco incomodadas com o uso desse galicismo, mas quando traduzi para os nossos hábitos, ficou tudo bem.

A Odete e a Marlete gritaram quase ao mesmo tempo.

– Ah… é a nossa tradicional suruba.

Por enquanto vai tudo bem. Passo o dia no computador, a Odete na televisão e a Marlete na cozinha. À noite, dividimos a mesma cama, a única que temos. O Hermenegildo recuperou o domínio de todo o apartamento.

Só quem não vai bem é a Valdete, que anda ameaçando abandonar o Albano.

Falei para a Odete e a Marlete que onde comem três, comem quatro, mas por enquanto elas ainda não aprovaram o tal “ménage à quatre”.

3 pensamentos em “O perigo que mora nos sites de relacionamento”

  1. O perigo é o que aconteceu com o Peréio na primeira suruba que participou logo que chegou no Rio, ainda meio xucro , vindo de Lavras, via Porto Alegre:
    foi expulso por mau comportamento.

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