O homem que amava as mulheres

Compartilhe este texto:


Ele morava sozinho num apartamento de um velho edifício perto da Usina do Gasômetro, na rua Washington Luís, que ele insistia em chamar de Pantaleão Teles.Quando perguntei porque esse saudosismo, ele disse que nem sabia quem era o tal Pantaleão, mas não gostava do Washington Luís, “aquele representante da elite paulista varrida pela Revolução de 30”.- Depois a Pantaleão era a rua de muitas mulheres, uma rua de meretrício, por isso mudaram o nome.

-Esses caras têm horror das mulheres.

Mulheres, era por isso que eu estava agora naquele apartamento. Ele soubera que eu havia escrito alguns livros – livros que a bem da verdade, poucos leram – e agora queria que eu escrevesse sua biografia.
E tinha até pronto o título do livro:
O Homem que amava as mulheres.
Falei para ele que já havia o livro do Leonardo Padura fazendo sucesso – O Homem que amava os cachorros – mas ele disse que não tinha lido e era de mulheres e não de cachorros que ele queria falar.

Disse também que havia um filme do François Truffaut de 1977, com este título.

-Eu vi esse filme. Acho que ele não vai se incomodar se eu aproveitar seu título para o livro.
Como não tinha dinheiro para pagar meu trabalho, me ofereceu sua biblioteca com centenas de livros e uma coleção de garrafas de uísque intocadas.
– Os livros não posso ler mais porque estou quase cego e em relação a bebidas, só tomo vinho.
Essa explicação ele me deu, enchendo meu copo com um malbec argentino.
Passamos a tarde juntos. Eu tinha levado o gravador e registrara suas histórias, prometendo que depois que escrevesse alguma coisa, voltaria para conversar com ele.
Nunca mais o vi. Ou vi, apenas nas páginas policiais quando encontrei a notícia de que um ancião que vivia sozinho num apartamento da Washington Luís havia sido encontrado morto e seus vizinhos disseram que era um sujeito muito estranho.

O jornal o classificou de misógino. O jornalista imbecil que escreveu isso, deve ter pensado que o termo de origem grega significava um sujeito solitário, quando o significado verdadeiro era de um homem que odeia as mulheres.
Logo ele, que, acima de tudo, amava as mulheres.
Fui então procurar o velho gravador de pilha e comecei a relembrar as frases entrecortadas do seu depoimento.
O livro, não vou escrever mais, mas algumas das frases que ele disse, gostaria de dividir com vocês:
– O homem só existe por causa de uma mulher
– Mesmo quando não valem nada, elas são maravilhosas
– As mulheres me deram tudo, inclusive a vida
– Amei centenas de mulheres. Muitas delas nunca ficaram sabendo. A maioria me traiu, mas nunca tive ódio delas.
– Amei desde as estrelas do cinema, até àquela menina de óculos que frequentava a missa das 10 na Igreja São João e nunca soube da minha existência.
– Sempre fui eclético nos meus amores cinematográficos. Sonhei com os seios da Jane Russel no Proscrito, com aquelas italianas exuberantes como o Gina Lolobrigida e a Silvana Pampanini e as metidas intelectuais, todas francesas, como a Jeanne Moreau, a Michele Morgan e a Simone Signoret.
– Tem os que não gostam das mulheres. Tenho pena deles. Li uma vez que, quando o pai não consegue impor limites ao filho, que está literalmente grudado na mãe, ele interioriza as características femininas da, inclusive seu objeto de desejo, o homem. Seria um novo triângulo, pai passivo/mãe dominadora/ filho efeminado. Meio complicado isso. Prefiro o Analista de Bagé, daquele menino, o Luís Fernando, filho do Érico
– Amei mais de uma mulher ao mesmo tempo e fui fiel a todas elas nessas ocasiões. Elas, não.
– Vou confessar. Sou polígamo por natureza, mas gostaria que as minhas mulheres fossem monógamas. Bobagem. Elas são o que elas são.
– Traição? Nunca trai nenhuma. Claro que eu não falava da existência das outras. Mas quando estava com elas, não pensava nas outras. Elas, sim, pensavam em outros. Uma delas, uma vez, trocou meu nome numa hora bem imprópria.
– Chamou de quê?

-Acho que de Maicon, ou coisa que valha. Um nome americano, desses de cantor de rock. Logo eu que tenho um nome bem brasileiro.

– Vou te dar o nome de uma mulher famosa que conheci biblicamente. Na Bíblia é assim: David conheceu Sara e ela deu a luz a Jacó. Ou seja, na Bíblia, conhecer é sinônimo de transar.
_ Nome dela é ….

Vocês não vão acreditar, mas a fita se rompeu exatamente nesse momento e não vamos ficar sabendo que mulher era essa.
Acho que vou organizar todo esse material e ver se existe algum editor disposto a publicar. Minha ideia é pedir para a Carmen Cecília fazer uma de suas lindas ilustrações para este livro sobre o Homem que Amava as Mulheres, porque ela, além de ser uma grande artista, acredita no amor.
Eu, depois de ouvir o que ficou no meu gravador, também começo a acreditar.


Compartilhe este texto:

1 pensamento em “O homem que amava as mulheres”

  1. Esse filme do Truffaut é muito legal. É a fantasia de todos os homens heteros: se envolver com cada mulher interessante que cruzar pelo nosso caminho. É um filme super atual para nós homens, pois cada vez que a gente encontra uma mulher interessante (uma caixa de supermercado, uma aeromoça, uma desconhecida pela rua, etc), estamos dispostos a nos envolver com ela.
    No final (aí tem que ver o filme) o diretor nos dá um recado muito interessante…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *