Medo de avião.

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Nos idos de 45, quando morava em Farroupilha, um avião cruzando os céus da cidade era uma raridade. Ficava fascinado em imaginar para onde ele estaria indo e quem eram aqueles privilegiados que levava no seu interior.

Uma vez, um pequeno teco-teco, que chamavam de Paulistinha, caiu sobre uma cerca de arame farpado próximo da Rua Júlio de Castilhos. A cidade inteira correu para testemunhar o acontecera. Quando cheguei,fiquei um pouco decepcionado. Não era o avião que esperava ver, mas mesmo assim, ainda era um avião de verdade. O piloto, transformado em herói, estava ao lado do teco-teco dando muitas explicações para os curiosos, que como eu, não paravam de chegar. Foi colocado um soldado ao lado do avião para impedir qualquer roubo, mas no dia seguinte, no Grupo Escolar Farroupilha, na aula da Professora Sueli, muitos alunos trouxeram pedaços da lona que cobria as asas.
Algum tempo depois, a cidade foi abalada com a queda de outro pequeno avião em Lajeado, porque o piloto era da cidade. Lembro que o velório foi na prefeitura e o prefeito era o Dr. Jaime Rossler. Guardei o nome do piloto – Everson – e a razão da homenagem: foi o primeiro piloto nascido em Farroupilha.

Avião de verdade, daqueles das fotos nas revistas, vi pela primeira vez quando visitei a casa do tio Geraldino, na Rua Piaui, no Passo da Areia. No final da rua, uma cerca separava alguns tambos de leite da pista do aeroporto São João. Foi lá que vi os primeiros aviões que faziam parte dos meus sonhos. Acho que eram uns Dc3 ou Curtis Comander da Varig.Pareciam imensos, mas não tão grandes como um President da Pan American, que segundo meu primo, Carlinhos, tinha dois andares e ia até Buenos Aires.

Minha primeira vez, foi aos 17 anos, num DC3 da Panair, para voar de Porto Alegre ao Rio, com escalas em Florianópolis, Curitiba e São Paulo.

Eu viajava com o Glênio Prudente, meu colega do Julinho, que tinha uma irmã morando no Rio, o que nos garantiria a pousada. Para desgosto da minha mãe, que achava que esse dinheiro teria melhor aplicação, torrei o que ganhara de indenização no primeiro emprego (R.G.Dunn e Bradstreet uma firma americana de informações comerciais) na compra da passagem.

O avião estragou em Florianópolis e só chegamos no Rio à noite, depois de mais de 12 horas. Pelo que me lembro, não tive nenhum medo. Quando o avião se aproximava do Rio, um comissário, que desde o início do voo vinha me tratando com muitas gentilezas, disse que ia sentar do meu lado, porque o tempo estava muito ruim no Rio e haveria muita turbulência na chegada. No desembarque, ele sugeriu que nos encontrássemos no Mercadinho Azul, em Copacabana. Disse a ele que não conhecia o mercadinho, não conhecia o Rio e era a primeira vez que viajava de avião. O cara pediu mil desculpas e disse que eu parecia tão tranquilo, que ele se permitiu falar no possibilidade de turbulência.O tal Mercadinho Azul, como me disse depois o Glênio, era um reduto dos frescos (não se falava em homossexuais e muito menos gays) e o tal comissário, como já desconfiava, era também um fresco.

Obviamente não fui no tal mercadinho, mas continuei viajando cada vez mais de avião, principalmente quando entrei na publicidade e comecei a ganhar algum dinheiro.

O interessante é que quanto mais andava, mais tenso ia ficando. Antes das viagens, principalmente aquelas mais longas para a Europa, ficava feliz na expectativa que elas começassem. Dentro do avião, contava as horas e os minutos que faltavam para a chegada. Acompanhado, não gostava que conversassem comigo, porque eu precisa ficar atento a todos os sinais que pudessem indicar alguma anormalidade no voo. O jeito de andar das comissárias de bordo, o tom de voz do comandante ao dar algum aviso, tudo deveria ser analisado cuidadosamente. Aqueles sinais de apertar cintos e não fumar, quando ainda estávamos longe de algum aeroporto, eram geradores de um angústia devastadora. Dormir num voo de 11 horas, nem pensar.

Bastava, porém, botar o pé no aeroporto, já estava louco de vontade de pegar outro voo. Em abril, vou à Rússia e desde já estou dividido entre a alegria de entrar novamente num avião e o medo que certamente vou sentir, como sempre.

(Conversas com Franklin Cunha, médico e ex-piloto da Varig)


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1 comentário em “Medo de avião.”

  1. Seu artigo marca uma grande coincidência: a morte do ministro Teori trazendo novo abalo ao nosso muito abalado país. Desde que o Temer surrupiou a presidência as tragédias nāo param de acontecer. Deus nos livre e guarde. Estou achando melhor o Temer devolver a presidência.

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