A Matadora

Outro dia contei a história do Alcebíades e algumas amigas me chamaram de machista.
Agora vou contar a história de Maria Helena, a Matadora.
O hospital fica em frente a uma grande praça. Quando me sinto um pouco melhor, como hoje, consigo chegar à janela e posso ficar olhando à praça. São 5 horas da tarde e nessa hora, ela começa a ficar cheia de pessoas fazendo exercícios, muitas crianças brincando, gente puxando seus cachorros e principalmente casais nos bancos, namorando.
Meu olhar sempre procura estes casais, num misto de inveja e também de pena. Alguns são mais pudicos nos carinhos que trocam, mas outros, sem maior atenção com seus vizinhos, estão começando uma relação sexual, que certamente não se dará aqui, mas num dos motéis que agora existem em praticamente todos os bairros da cidade.
Minha atenção maior se dirige para estes casais, que quase não conseguem suportar a ansiedade e o desejo sexual. Fico pensando se eles se sentirão gratificados depois que consumarem seu desejo ou terão muitos motivos para se arrependerem como aconteceu comigo.
Minha história, que está terminando agora na janela desse hospital para doentes portadores de HIV, começou há pouco menos de um ano e seus primeiros momentos foram extremamente distantes do drama que estava se armando e do qual eu não percebi nenhuma indicação do que iria acontecer.
Durante anos fui professor de comunicação numa faculdade onde o sexo feminino era predominante, ou, pelo menos, era o mais visível aos meus olhos. Eu tinha pouco mais de 30 anos e o mundo era uma festa e as mulheres pareciam, a cada semestre, mais interessadas no professor do que na matéria que ele ensinava.
As coisas foram acabando aos poucos, até que terminaram. Eu era agora um velho que vivia de lembranças. Para continuar olhando para aquele passado do jeito que ele era na época, me recusava sempre a participar daquelas festas que as turmas antigas sempre organizavam, mas naquela vez não consegui resistir ao argumento que a Lourdinha, agora brilhante publicitária, acrescentara ao convite.
– Lembra da Maria Tereza?
Claro que lembrava. Foi uma paixão que durou um semestre e terminou de uma maneira bem desagradável, com ela me acusando de machista, qualificativo que outras iriam repetir muitas vezes, Soube depois que ela casara com um sujeito que era ator da Globo e mais tarde morreu num acidente de avião, ainda jovem
– Pois a filha dela quer te conhecer.
Como resistir a esse argumento, Como seria a filha da MariaTereza?
Era uma morena alta, esguia, rosto anguloso, lábios carnudos, seios grandes, tudo que eu gostava aos pedaços, reunido num só corpo.
Eu estava constrangido. Ela não. Disse que sua mãe sempre falava de mim.
– Mal? Perguntei.
Ela não respondeu. Apenas sorriu.
Meia hora depois ela disse que tinha um compromisso e perguntou se eu não me dispunha a levá-la em casa.
Tudo parecia fácil de mais. Apesar das mil fantasias que passavam pela cabeça, lembrei que não era mais o jovem professor, mas um senhor com mais de 60 anos e que precisaria estar sempre prevenido para qualquer emergência. Ainda bem que tinha uma caixinha de Viagra no bolso.
– Para onde vamos? Perguntei.
– Um motel, como nos velhos tempos.
Confesso que fiquei um pouco assustado com a ousadia dela. A conquista parecia muito fácil, mas acabei encontrando uma explicação psicológica para o interesse dela: inveja da mãe.
Fiquei ainda mais preocupado. Ela vai querer superar a mãe e não sei se estou preparado para tanta responsabilidade.
Fomos para o motel em Ipanema e logo estávamos prontos para uma sessão de sexo, quando me lembrei que os novos tempos exigiam o tal sexo seguro. Ainda bem que o motel oferecia os preservativos.
Aí, ocorreu a segunda surpresa. Nada de camisinha. Ela queria sexo mais natural.
Natural, fiquei pensando, não parece a palavra adequada, mas para mim ficava até melhor.
As lembranças do passado e o Viagra fizeram efeito e passamos a noite no motel.
Ao acordar, lembrei que quando nos apresentamos na festa, ela disse se chamar Maria Helena, mas que tinha um apelido que talvez me contasse um dia.
– Você ainda não disse o seu apelido
– Matadora.
– Por quê?
– Porque minha meta é matar todos os homens promíscuos. Um deles, uma vez, me transmitiu essa doença infernal. Eu agora me vingo, transmitindo-a para homens bem vestidos que querem usar camisinhas para se preservar, machistas como você.
Ela explicou que era portadora da doença, mas imune às suas conseqüências.
– Eu agora sou uma arma mortal para vingar a todas as mulheres contaminadas por homens egoístas. Sou a Matadora. Entendeu o porquê do apelido?
Na hora, pensei que era brincadeira, mas um mês depois o diagnóstico médico foi devastador.
– O senhor está contaminado pelo vírus do HIV.
Era a Aids que me trouxe para este hospital e agora da janela fico imaginando se a Matadora não é uma daquelas mulheres que enxergo de longe namorando num banco da praça.

4 pensamentos em “A Matadora”

  1. Viche… Marino !!!.
    Acho que tu anda lendo diariamente o Diário Gaúcho, jornal que se espremendo sai sangue.
    Contaminado claro !!!

  2. Sem preconceitos, Franklin. O Diário Gaúcho e a Zero Hora são duas faces da mesma moeda. Fazem parte do processo de desinformação da RBS. O povão lê o DG para saber quem matou quem. A classe média alienada lê a ZH para saber quem roubou de quem. Esses meus personagens são leitores dos dois jornais, por isso são interessantes para quem é metido a cronista, como eu.

    1. Enfim, Marino, como disse o Zizek ” Não pensamos, os meios nos pensam”. Mc Luhan também disse isso.

      Vivemos sob o poder de uma poderosa ditadura midiática que pauta a política econômica e a orientação geral dos governos.
      E com a onipresença e a totipotência dela não pode haver democracia no país.

  3. Falam dos animais peçonhentos, dos leões e tigres selvagens.

    Mas é preciso ter muito cuidado com um animalzinho aparentemente dócil e inofensivo…

    Muitas carreiras, muitos homens de valor, jovens ou velhos, todos enfim,
    podem perder tudo por causa dela: a periquita!

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